Borboleta Negra
92 Capítulo Sessenta - Parte II
Notas iniciais
Sem dúvida, a semana teve um início tumultuado. A insubordinada Irina Ulley, desde a manhã de terça-feira estava hospedada na sede da guarda graças à necessidade explícita do inspetor em agradar o barão. Sem pestanejar o solicito Otto Cooper aceitou a denúncia de participação da ex-criada na tentativa de assassinato.
Antes disso, ainda na tarde de segunda-feira, Laurent Hunt foi enterrado sob as vistas do coveiro, do velho padre Angus e de alguns curiosos; sem parentes ou amigos.
Na mesma tarde, horas depois, foi a vez de Sue Wood ― que se revelou demente, altamente perigosa ― receber as últimas palavras do padre. Tal despedida contou com a presença de algumas criadas e três nobres senhoras. Alice foi a única a não comparecer, obedecendo ao pedido do conde para que não se cansasse desnecessariamente.
Enfim parecia que o sol romperia as grossas nuvens em definitivo para o novo casal. Bastaria que o tempo agisse, dissipando a má impressão deixada pela sucessão de acontecimentos ruins, para que todos tivessem uma vida plena, tranquila e feliz. Por sorte, a retomada da leveza veio antes do esperado. Na manhã de quarta-feira o sol de fato surgiu em um céu límpido como que para saudar a renovação da vida. Mesmo que a partir de um animal, esta veio para acirrar os ânimos infantis e adultos.
Edward e Isabella não participaram do momento, porém permitiram que Embry seguisse com seus tios e primos ao estábulo depois que Mike correu até a mansão para avisar que a Palomino daria à luz.
Apesar de apreciar o divertimento coletivo, Elizabeth deixou claro que não tinha a mínima curiosidade quanto ao nascimento e permaneceu a supervisionar as atividades na cozinha. Com a falta de Sue, Leah assumiu o comando total das panelas. Contudo, todos sabiam que seria por tempo limitado, ainda em consideração aos antigos patrões, pois desde a promoção do marido ela estava desobrigada de seus afazeres.
Rosalie e Alice igualmente se esquivaram do evento perturbador ― palavras da condessa ― e preferiram ficar na saleta, cuidando de seus bordados. Para o casal aquele era um raro momento de tranquilidade. Aproveitando a oportuna quietude da casa, o barão pediu que sua esposa o escanhoasse.
― Desculpa perfeita para ficar sentado, não? ― Isabella gracejou, porém o atendeu.
Depois de mandar vir os utensílios de barbearia, Isabella o ajudou a se sentar na borda da cama e agiu, preparando o rosto amado para a execução do serviço. Ela não saberia, mas o pedido era a desculpa perfeita para tê-la mais perto. Edward se sentia enregelar ao imaginar que poderia tê-la perdido, assim como o filho nascituro, caso ela tivesse bebido o maldito chá. Ou caso Laurent tivesse conseguido seu intento após a trapaça.
― Edward, o que houve? ― Isabella indagou com estranheza, quando teve o pulso contido para que interrompesse a distribuição da espuma.
― Ocorreu-me que nenhum de vocês me disse quem matou Hunt. Por certo você sabe.
Sim, ela sabia, pensou em alerta. Novidade era que ele não soubesse. Apenas não havia comentado por estar mais preocupada em cuidá-lo. E ainda, jamais lhe ocorreria que o fiel amigo não o fizesse.
― Considerei que soubesse ― disse com cautela. ― Jacob deve estar esperando que se recupere.
― O ferimento dificulta minha respiração, não meu entendimento ― retrucou, sem querer ser grosseiro. ― Se você é uma das que sabe, diga-me.
― Bem... Apenas Jacob e eu sabemos ― revelou. ― A pedido de Jacob, Sam esteve todo tempo vigiando o duelo. Não para privá-lo de lavar sua honra, sim, para agir caso fosse preciso. E foi... Se o inspetor algum dia souber...
― Acalme-se ― ele a interrompeu gentilmente, aproveitando para acariciar o pulso que ainda segurava. Deveria ter imaginado que tivesse sido alguém tão leal quanto Jacob que o tivesse salvado. A partir daquele momento, Sam tinha nele um devedor eterno. Decidido a voltar aos assuntos amenos, piscou para a esposa e disse: ― Sou bom em guardar segredos. A senhora é que demonstra não ser boa barbeira, parando o serviço pela metade.
Sentindo seu coração se expandir de pura admiração, mesmo que não esperasse menos vindo do barão, Isabella imitou-o na brincadeira.
― Pois o senhor é que demonstra ser um cliente difícil. Se não ficar quieto, quando eu estiver com a navalha poderei cortá-lo ― ela o advertiu.
― Confio em você ― disse a lhe escrutinar o rosto. Ao descer os olhos para o colo coberto depois de relegar a iniciativa de Jacob e Sam ao segundo plano, lamentou que não pudesse ver a pele macia. Sabia o quanto ela odiava vestir-se daquela forma, então tentou consolá-la. ― Não faz ideia do quanto está bonita.
― Não estou ― ela o desdisse sem deixar de espalhar espuma no queixo espinhento. ― Por isso eu me recuso a guardar luto fechado por mais de três meses ― resmungou. ― Isso é mais do que aquela senhora senil merece.
― Você é bonita de todas as maneiras, mas se dependesse de mim, você não guardaria luto em tempo algum ― ele sentia profundo desprezo por uma avó desnaturada.
― Pois bem... Agora fique quieto ― ela ordenou.
Obediente, Edward deixou que a esposa corresse a navalha por seu pescoço e rosto até que se desse por satisfeita. Quando pôde, sorriu e especulou:
― Está segura de que é isso que quer?
― Sim. A verdade é que eu sinto falta de seu cavanhaque, então resolvi que já era hora de ele voltar ― ela respondeu no mesmo tom, limpando os resquícios de espuma com a toalha quente. ― Em poucos dias estará como o conheci.
― Tanto aconteceu desde então, não é mesmo? ― novamente ele estava livre do humor.
― Sim... ― Isabella esboçou um sorriso. ― Mas estamos juntos.
― Mas quase nos perdemos ― o barão salientou ―, definitivamente.
― Mas não nos perdemos ― ela achou por bem retomar os gracejos, então apoiou os braços nos ombros nus de seu marido e brincou com os pelos da nuca, sem atentar ao efeito que seu carinho produzia. ― Consideraria deixar que seu cabelo crescesse? Também sinto falta dos fios mais longos.
Após um súbito estremecimento, Edward encheu os pulmões o máximo que a dor permitia então os esvaziou, aproximando sua esposa, abraçando-a pela cintura.
― Edward! Não...
― Sente falta do cavanhaque, de meu cabelo mais longo... ― disse roucamente, sem deixar que ela se afastasse. ― Eu sinto falta de você.
― Edward... Ainda está machucado.
― Um beijo não pioraria minha condição ― ele observou, atraindo-a para mais perto. ― Desde que consigo me manter acordado eu desejo um beijo seu, mas sempre há pessoas demais ou preocupação demais... Quase nos perdemos para sempre, Bella.
A baronesa bem sabia. Ingenuamente acreditou na oferta de paz. Por muito pouco não tomou o chá envenenado. Não pensava em outra coisa desde que compreendeu a gravidade da ação de sua avó. Se Embry não a tivesse impedido, a história vivida, tudo pelo que passaram, teria sido em vão. Entendia ser a mesma emoção que movia seu marido, mas também entendia a limitação.
― Por favor... Deite-se. Ainda teremos muito tempo para...
― Você disse que eu não teria de argumentar ― Edward a lembrou antes de segurá-la pela nuca.
Isabella ainda não tinha certeza de que seria boa ideia, porém ao mirar a boca do barão, abandonou seu receio. Antes que os lábios se unissem, contudo, alguém pigarreou à porta, restando ao casal promover apenas o encontro de suas testas. Rindo mansamente, não sem padecer de dor, Edward indagou:
― Sra. Newton, o que deseja?
― Vim avisar que sir Carlisle está à porta, senhor ― disse, mirando o chão, desconcertada.
O casal se separou de imediato, encarando-se. Carlisle os ajudou, porém não era conhecido por seu pulso firme, especialmente com sua filha.
― Ele está sozinho? ― Edward perguntou.
― Sim, senhor... Posso trazê-lo?
― Dê-nos um minuto, então deixe que venha ― determinou. Após a saída de Marie, pediu à esposa. ― Traga meu robe. Não vou recebê-lo como um enfermo.
Isabella reprimiu um bufo exasperado enquanto ia até a poltrona pegar o robe, porém compreendia a mentalidade machista e a eterna necessidade em parecer forte. Seria preferível que se deitasse e se cobrisse.
― Deixe-me ajudá-lo ― ofereceu-se.
― Obrigado ― ele agradeceu roucamente, respirando com dificuldade.
Isabella nada disse. Somente recolheu os apetrechos que usou para barbear o marido e os deixou sobre a mesa antes de se colocar ao seu lado, alisar a saia de seu vestido preto e esperar.
Carlisle despontou no limiar já a secar o suor em sua testa, escrutinando o casal com ansioso receio.
― Entre, Cullen ― Edward o chamou, sem se mover.
― Bom dia, sir Edward... Senhora... ― Mesmo desconcertado Carlisle se como recomendado. Depois de deixar uma lustrosa pasta de couro sobre a mesa, aproximou-se e tomou a mão de Isabella para beijá-la. ― Lamento por sua perda.
― Não há outras pessoas presentes ― Edward observou. ― Então não precisa manter o protocolo. Bem sabe que nenhum de nós lamenta a morte daquela mulher.
― É verdade ― Carlisle aprumou-se. ― Perdoem-me. É força do hábito.
― Até onde sei, também está acostumado a ver minha esposa dessa maneira ― Edward realmente não queria hostilizar o banqueiro, porém era mais forte do que sua vontade. Era como se ao ver a morte, tivesse se tornado impaciente. ― Melhor dizer a que veio.
― Está certo... Imagino que ainda não queira receber visitas, mas eu tive de vir... Esqueça-se do aborrecimento que tem por mim, Edward, e recorde que nossas famílias são amigas há anos... Preocupo-me legitimamente.
― Cullen... Eu que peço perdão ― Edward desarmou-se. ― Fique à vontade para se sentar... Pelo modo que me olha sinto que tem algo a dizer.
― Tenho ― Carlisle aquiesceu ao se sentar. ― Aos dois, na verdade. Devo um pedido de desculpas em nome de minha filha, mesmo sabendo que o erro de Tanya é imperdoável.
― De fato, imperdoável ― Edward concordou, apertando os dedos de sua esposa. ― Porém ela não foi bem sucedida. E, apesar de eu estar ferido, tudo terminou bem. Aceito as suas desculpas, mas devo lhe dizer que sua filha não será bem-vinda. Concorda que a amizade foi abalada?
― Ah, mas não terão de vê-la... Expor-se daquela maneira em assuntos iníquos, puramente masculinos, foi o limite. Por fim tomei pé da situação. Não vim antes porque estava cuidando da ida de Esme e Tanya para Londres. Elas ficarão hospedadas na casa de parentes até que minha filha consiga um marido que lhe bote freio. É isso ou a mandarei para um convento.
― Carlisle! ― Isabella admirou a inédita firmeza. Ele não parecia lamentar a decisão.
― Decidi dar um basta à condescendência ― disse o banqueiro. ― Com o que fez, Tanya conseguiu o efeito contrário. No domingo, em Wisbury, dividindo a curiosidade geral estava o duelo e o destempero de minha filha em seu casamento. E os comentários não eram os mais simpáticos.
― Sinto muito ― disse Isabella, sincera.
― Eu também... Por ser minha única filha acabei por mimá-la. E pelos motivos que bem conhecem, sabem que tive pouco cuidado com ela... Ser alvo de comentários era uma questão de tempo.
― Tomou uma sábia decisão ― Edward o apoiou. Enfim, até mesmo Tanya deixou de ser um problema, considerou com disfarçado alívio. ― E o que falam sobre o duelo?
― Saiba que conseguiu lavar a honra de sua esposa.
Carlisle se aventurou a sorrir para Isabella que retribuiu. Ignorando a intimidade entre eles, Edward salientou:
― Como é possível? Fui atingido... E Hunt foi morto por outra pessoa. Ou não sabem desses detalhes?
― Sim, sabem dos detalhes, pois um dos empregados de Hunt narrou toda a história para quem quisesse ouvir. Ele apenas não soube dizer quem atirou. Está aí um detalhe que nunca saberemos... ― alheio à troca de olhares entre o casal, Carlisle prosseguiu: ― Voltando ao que eu dizia, entendam que a deslealdade de Laurent, somada à palavra de Stamford e à minha, foi fundamental. Todos acreditam que Hunt mentiu, manipulando minha filha para conseguir alguma credibilidade, com o intuito de atraí-lo para o duelo. Mais pela conhecida inimizade do que por qualquer outro motivo.
― Então não falam sobre mim?! ― Isabella voltou a se admirar. Seria possível?
― Oh, sim... Falam. Porém apenas para comentarem o quanto é bonita, delicada, e que teria sido uma temeridade se fosse difamada ou que tivesse ficado viúva um dia após o casamento. Perdi a conta de vezes que tive de repetir aos meus clientes a versão que expus aqui... No fim, conseguiu a simpatia de todos.
― Ouviu isso, Edward? ― ela procurou pelos olhos do marido, sorrindo. ― Não sou inadequada!
― Nunca achei que fosse ― disse amavelmente, contente por vê-la feliz. Mas ainda havia um detalhe a ser esclarecido. ― Cullen... Já que citou Stamford... Saberia dizer por que o conde mentiu? Nunca fomos próximos.
Antes que respondesse Carlisle sorriu, mirando um ponto no assoalho lustroso, como se neste visse uma divertida cena.
― Ele não mentiu. Stamford acredita que passou a noite com Amber.
― Como é possível? ― Edward franziu o cenho, voltando a encarar a baronesa. Amber era uma das personalidades de sua esposa. Não havia outra.
― Maureen se vestiu de negro na noite anterior ao casamento ― disse Carlisle como em resposta ao pensamento do barão. ― Depois de nosso encontro no banco eu fui chamado às pressas no Jardim. Angela e Sam queriam encontrar uma maneira de encerrar o falatório.
Isabella se enterneceu com o cuidado dos amigos.
― Tivemos algumas ideias ― Carlisle prosseguiu ―, mas nada parecia eficaz, então foi cogitada uma substituição. Como nos últimos meses Amber pouco transitava pelo salão, pensou-se em vestir alguém como ela que acenasse do alto da escada todas as noites. Ainda parecia pouco, por isso Stamford foi citado. Angela e eu consideramos o plano de Kate por si só arriscado, mas...
― De Kate?! ― Isabella engasgou. As surpresas não tinham fim!
― Sim... Kate se sentia culpada por sua traição e disse que queria ajudar ― Carlisle esclareceu. ― Como eu dizia, nós consideramos a ação arriscada. Desconfiamos... Mas não tínhamos muitas alternativas. Eve se lembrou de que Stamford era o cliente menos assíduo e que em uma de suas visitas insistiu para entrar na lista de Amber. E o pobre conde caiu na armadilha... Não sei como tudo se deu na prática, mas a ideia era embebedá-lo para que não notasse as diferenças, como a voz, por exemplo. Acredito que assim fizeram, afinal... ouviram o homem.
― Em bom tom ― disse Edward, admirando o estratagema arriscado.
― Kate... ― Isabella murmurou. ― Quem diria?
― Sabemos que ela errou ― disse Carlisle. ― Porque errou... Acha que poderá perdoá-la um dia? Kate ansiosamente espera por essa resposta.
Isabella sorriu. Ante os acontecimentos dos últimos dias, e seus inacreditáveis desfechos, como alimentar qualquer mágoa? Não esteve disposta até mesmo a perdoar a avó?
― Sim, ela está perdoada ― disse. ― Diga-lhe que também serei eternamente grata.
Edward não conhecia os detalhes da traição de Kate, muito menos o motivo que a levou ao erro, mas igualmente lhe seria grato. Com uma falsa Amber no Jardim, a verdadeira estaria a salvo para sempre.
― Diga o mesmo em meu nome ― disse Edward para o banqueiro.
― Farei isso, com certeza ― simultaneamente Carlisle assentiu, sorrindo, contudo, logo voltou à seriedade e exalou um longo suspiro.
Edward, assim como Isabella, estranhou a súbita mudança da postura do banqueiro. O barão acreditou que esta estivesse relacionada à pasta deixada sobre a mesa, quando o senhor a olhou com evidente consternação.
― Cullen, o que houve?
― Nossa conversa foi mais tranquila do que previ, até aqui ― disse Carlisle ao se levantar. Antes que prosseguisse, lançou um novo olhar à pasta, confirmando a impressão do barão. ― E infelizmente serei eu o responsável por quebrar o bom clima.
― Por Deus, Carlisle ― rogou a baronesa. ― Fale de uma vez! Está me preocupando.
― Acalme-se, pois não é nada relacionado a você... Não! Perdoe-me! Diz respeito aos dois, na verdade.
― Cullen ― no chamado Edward imprimiu a retomada de sua impaciência para que o banqueiro se adiantasse.
― Está bem! ― Carlisle foi até a mesa e da pasta retirou um fino maço de papéis. ― Ontem à tarde, fui procurado pelo advogado de Laurent Hunt.
― Ah! Isso! ― exclamou Edward antes de mais uma vez se sentar.
― Já sabe do que se trata? ― Carlisle encarou o amigo com estranheza. ― Como?
― Do que estão falando? ― Isabella olhava de uma ao outro, confusa. ― Os senhores poderiam esclarecer?
Edward procurou pelos olhos da esposa, sentindo-se um tanto culpado por não tê-la preparado. No entanto, ainda era tempo de reparar seu erro. Depois de sinalizar para que Carlisle lhe desse a vez da palavra, disse:
― Laurent Hunt fez de Embry seu herdeiro.
Isabella procurou apoio no colchão, duvidando de seus ouvidos, contudo Carlisle confirmou tal absurdo.
― Pois não aceitaremos! ― ela negou veementemente. ― Em que ele estaria pensando?
― Bem... ― Carlisle maneou a cabeça com pesar. ― Já que estão cientes, devo apenas lhes informar que pouco fariam a respeito. Não consideraram estranho o fato de o advogado ter ido ao meu banco, não vindo a Apple White?
― Diante do que temos vivido, pouco é o que pode ser considerado estranho ― escarneceu Edward. ― Mas é fato e agora que salientou, até imagino a razão. Você foi nomeado o responsável pelos bens até que Embry esteja apto a recebê-los, não é assim?
― Sim... Mesmo sendo o responsável legal pelo menor, seu nome sequer consta no testamento. Apenas o meu, o de Embry, evidentemente. E do capataz, Seth Sinclair, a quem Laurent deixou uma simbólica quantia. Ele esteve no banco e expressou o desejo de permanecer na fazenda.
Edward e Isabella olharam-se antes de voltarem a encarar o amigo.
― Mas, enfim... ― Carlisle prosseguiu. ― Era vontade de Laurent Hunt que o sobrinho ficasse com seus bens, contudo, em virtude da pouca idade eu fui escolhido para gerenciá-los até que o menino atinja os vinte e um anos. A única decisão a ser tomada é a minha ― disse sem deixar de sustentar o olhar do barão. ― Eu devo aceitar ou declinar dessa incumbência. Foi em nome da amizade que ainda julguei existir que não assinei esse documento. Trouxe-o para que confirmassem minha palavra e me dissessem como proceder.
― Cullen...
― Com seu perdão, Edward ― Carlisle o interrompeu, tratando-o como na adolescência. ― Deixe-me concluir. Confesso que fiquei chocado por ter sido escolhido e completamente estarrecido ao saber do parentesco. Entenderei se me pedir para nunca citá-lo. Em todo caso, não é essa a questão. Prezo nossa amizade e farei como determinar. Apenas quero deixar registrado que muito me honraria ser o guardião dessa herança. E, antes de tudo, pensem no futuro de Embry. O patrimônio que herdará do pai é invejável, mas não seria nada mal ter uma fazenda vinda de seu tio. Um considerável rebanho de ovelhas, algumas vacas leiteiras da raça Ayrshire, um touro. A mansão conta com caras tapeçarias e quadros, aparelhos de jantar de prata e ouro... Sem citar a conta bancária.
― Fruto de contrabando ― resmungou Isabella. ― Já deve saber, não?
― Sim... E jamais serei eu a defender Laurent Hunt ― disse Carlisle ―, mas como saberemos distinguir o que veio do contrabando e o que veio do trabalho. Devo lembrá-los que Dawolds House é uma fazenda produtiva desde seu antigo proprietário. Muitos objetos estão lá há anos. Seu dono atual pecava pela ambição.
A fria coerência do banqueiro por fim arrefeceu o péssimo ânimo do barão. Provavelmente aquele assunto ainda o aborrecesse por muitos anos, entretanto, seria obtuso se o desprezasse, sendo ele um homem de negócios. Não privaria o filho de aumentar suas posses.
― Ambição talvez tenha sido o menor pecado de Hunt ― disse Edward, porém livre da má vontade. ― Economize seu discurso, Cullen. Se não há jeito, evidente que preferimos que você administre essa herança. Não é mesmo, querida?
― Laurent está morto, o que fez já não importa. Sei que Embry saberá o que fazer quando chegar a hora ― Isabella anuiu, confiando na decisão de seu marido.
― Grato pela confiança ― Carlisle sorriu para o casal e estendeu os documentos. ― Gostariam de ler?
― Não me sinto atraído por papéis nesse momento ― disse Edward ao se deitar. ― Em especial por estes. Caso Isabella queira fazê-lo, pode se sentir à vontade.
― Igualmente dispenso ― ela refutou de modo seguro. ― Assine sem receios. Sou a prova viva de que saberá, não somente cuidar, como elevar esse patrimônio.
― Obrigado, Isabella! ― Carlisle respirou com alívio. Depois de se sentar à mesa, assinou o documento e o guardou em sua pasta. ― No fim, tudo se ajeitou à perfeição! Precisamos apenas que saia dessa cama, Westking.
― É o que mais quero... Retomar minha vida.
― Será em breve ― disse o banqueiro, demonstrando sua tranquilidade depois de uma tensa aproximação. ― E onde está Lady Westking? E vossas irmãs?
― Lady Westking está aqui ― anunciou Elizabeth que entrava, carregando uma bandeja. ― Quando Marie me avisou de sua visita, imaginei que tivessem assuntos particulares a tratar, então deixei que conversassem... Mas seria uma péssima substituta da atual anfitriã se não trouxesse ao menos uma xícara de chá e alguns biscoitos que acabaram de sair do forno. Atrapalho?
― Em absoluto ― Carlisle já estava de pé para recebê-la.
― Fiz questão de trazê-los, justamente pelo teor do que têm a tratar ― comentou a senhora, mirando cada um dos rostos.
― Conversávamos banalidades, mamãe... O tempo de assuntos obscuros ficou para trás.
― Folgo em saber ― disse Elizabeth. ― E respondendo à outra pergunta, minhas filhas estão na saleta, fingindo bordar. Na verdade estão tramando algo que não desejo para a minha união. Por minha vez, finjo não notar.
― Eu soube de vossa união! Receba meus cumprimentos, Sra. Westking ― Carlisle se aproximou e lhe tomou a mão. A baronesa-mãe se mostrou desconfortável e a recolheu e seguida.
― Obrigada, sir Carlisle... Bem... Será uma cerimônia pequena, apenas para a família. Espero que o senhor, Esme e sua filha não reparem de não serem convidados.
― Minha esposa e minha filha estão em Londres, milady... E não me entristecerei se não for convidado.
― Oh! ― o rosto de Elizabeth se iluminou. ― Nesse caso... Se igualmente não reparar meu alívio, será bem-vindo.
― Agradeço o convite, mas deixarei que fiquem em família. Depois irei visitá-la em sua nova casa e apresentarei minhas felicitações ao casal. Por ora, gostaria de ver Embry... Como ele está com todos esses acontecimentos?
― Conhece-o ― Isabella maneou a cabeça. ― Assustou-se por uns dias, mas hoje está esquecido de tudo. Mais interessado no nascimento de seu potro do que qualquer outra coisa. Com certeza ainda está no estábulo com seus tios e primos.
― Seu presente de aniversário antecipado ― observou Carlisle, contente. ― Posso me juntar a eles?
― Fique à vontade ― Edward o liberou, porém com os olhos postos em sua esposa. Pôde ver no olhar de noite que, assim como ele, o aniversário do filho fora esquecido.
― Quando é o aniversário de meu neto? ― indagou Elizabeth tão logo o banqueiro pediu licença e saiu.
― Dia vinte e nove ― Edward e Isabella disseram em uníssono.
― Daqui a oito dias ― Elizabeth contou. De súbito sorriu, tornando seu rosto luminoso, divertido. ― Levarei a questão para minhas filhas. Sem dúvida a novidade desviará a atenção de mim.
Sem pedir licença, Elizabeth girou as saias e deixou o gabinete sob os olhares surpresos de seu filho e sua nora.
― Espanta-me vê-la assim ― Edward mirava a porta. ― Tão... Tão...
― Feliz? ― Isabella indagou com carinho, acariciando-lhe o rosto para lhe chamar a atenção. Ao ter os olhos azuis em si, sorriu. ― Arrisco dizer que esta seja a primeira vez que acontece, em anos... Como disse Carlisle, só resta o senhor deixar essa cama para que nossa felicidade seja completa.
Ainda abalado em ver a leveza real nos gestos e no semblante de sua mãe, decidido a esquecer Laurent e a herança, Edward sorriu. Sim, era o que mais queria ― deixar aquela cama ―, mas para ele apenas uma coisa faltava. Ignorando a dor, o barão se valeu da distração de sua esposa e a puxou para si.
― Edward?!... O que está fazendo? ― ela arfou, mas se deixou abraçar para não machucá-lo.
― Retomando de onde fomos interrompidos ― anunciou, segurando-a pela nuca com a mão livre. ― Quero meu beijo.
A arquejar, a baronesa mirou a boca masculina circundada pelo novo cavanhaque e inadvertidamente se excitou. Não apenas por sentir a vida pulsar sob seus dedos ao tocar o peito do barão, mas pelo vislumbre do futuro que eles teriam, juntos. Apesar da última novidade deixada por Laurent Hunt, não havia inimigos ou sombras que eclipsassem o imenso amor que os unia.
De repente ela entendeu que nada do que fizesse poderia machucar seu marido, então fechou os olhos e se deixou beijar.
Isabella gostaria de se orgulhar de sua persuasão, mas a verdade é que aquele fora o primeiro de muitos beijos que deveria evitar. Para ela não tinha como ser diferente, pois quando Edward a olhava ou simplesmente lhe sorria abertamente, mal conseguia domar a emoção que a invadia. Domar seu amor seria impossível!
A baronesa ainda tinha na mente a imagem de seu marido ferido, ainda recordava as palavras ditas pelo conde, pelo médico. Entretanto, contrariando a lógica, a cada dia Edward recuperava a cor de sua face, apresentava-se forte. Tanto que à saída de Carlisle Cullen ele se rebelou e deixou o gabinete para ocupar sua própria cama, na qual fez questão de que a esposa lhe fizesse companhia toda noite.
― Não aprovo sua insubordinação ― dissera William Morrigan, em sua visita na manhã do dia anterior, quinta-feira. ― Por que não pôde esperar até que eu o liberasse para subir as escadas?
― Minhas pernas estão muito bem ― Edward retrucou enquanto retirava a camisa branca para a avaliação médica. ― E ficar naquele gabinete fazia com que me sentisse um enfermo.
― É o que é, senhor ― o médico redarguiu sem ocultar sua reprovação.
― Não... Sou um homem ferido. Algo totalmente diferente ― corrigiu o barão, com altivez.
― Não sei por que ainda me espanto ― o senhor revirou os olhos de modo cênico, antes de começar a retirar a faixa do dorso despido, divertindo Isabella que assistia à cena em silêncio. ― Desde pequeno não atende à risca minhas recomendações. Ao menos fique quieto agora.
Após o pedido, William Morrigan terminou sua tarefa. Ato contínuo, ele se curvou e encostou o ouvido no peito de seu paciente.
― Respire fundo e diga-me o que sente ― pediu.
― Sinto cócegas ― disse Edward depois de atendê-lo. ― Já considerou aparar o cabelo? Ou talvez pudesse usar um estetoscópio.
― Sou da velha escola, senhor ― replicou o doutor, endireitando-se. ― Confio mais em meus ouvidos, não em cones de papel ou em qualquer outra coisa. Asseguro que as batidas de seu coração estão estáveis e os pulmões estão limpos.
― Então me liberará do repouso? ― Edward procurou por sua esposa de imediato.
Isabella duvidava que o marido fosse liberado que quer que fosse, porém se flagrou a alimentar a mesma esperança. Para infelicidade do casal, William Morrigan maneou a cabeça.
― Absolutamente, sir Edward! ― negou quase aviltado. ― A ação de lorde Jasper ao retirar o florete foi precisa, não o ferindo mais... Sua recuperação é espantosa, mas ainda inspira muitos cuidados.
― O senhor disse que Jasper retirou o florete? ― indagou Edward, surpreso.
― Sim... Confesso que tive medo de minhas mãos ― reconheceu o senhor, desconcertado. ― Então o conde se ofereceu. ― Edward apenas assentiu, enquanto Isabella sentia crescer sua admiração pelo co-cunhado. ― Bem... ― o médico prosseguiu. ― Voltando à minha resposta, o senhor deve guardar repouso total e incondicional. Entendo que seja uma árdua tarefa, tendo uma jovem e bela esposa ao lado, mas pense que poderia ter sido pior. O que serão alguns dias para alguém que poderia sequer estar aqui?
― Tem razão ― Edward anuiu.
― Confiarei que ainda reste algum bom senso nessa sua cabeça teimosa... Já que está em seu quarto, permaneça. Desça somente no sábado, quando soube que será a união de vossa mãe. E use uma bengala. Por agora, não vejo a necessidade de refazer o curativo, pois o ferimento está cicatrizado. Pode se recompor, senhor.
As palavras de William Morrigan foram animadoras. Ao menos para Isabella, que ajudou o contrariado marido a vestir a camisa antes que voltasse a se deitar. Ao bem da verdade, Edward prosseguiu com suas tentativas de sedução, contudo, apesar de ela ser persuadida algumas vezes, Isabella era a responsável por seguirem a recomendação.
Sim, ela reconhecia, falhava naquela tarde de sexta-feira. Não por se render a um beijo depois de receber carinhos em seus cabelos ou por despertar excitada, tendo seus seios afagados, sim por deixar que Edward a ajudasse a abrir os presentes de seu casamento enquanto as cunhadas, mais uma vez, se ocupavam da cerimônia que se realizaria na manhã seguinte.
Para abalar a alegria daquele momento o casal experimentava o esperado dissabor por ter se deparado com a escultura enviada por Laurent Hunt: a representação de uma deusa cujos trajes diáfanos em um corpo irretocável recordavam os de certa borboleta.
― Se tivéssemos tido tempo de abrir esses presentes antes do casamento... ― comentou Isabella, com pesar. ― Teríamos evitado a vinda dele.
― Não creio que algo tivesse mudado ― Edward opinou, especulando que seu irmão também teria sido afetado pelas linhas sensuais daquela representação de Amber como ele no momento; provavelmente. ― Hunt não se calaria por muito tempo ― acrescentou com segurança. ― No final, tudo aconteceu como tinha de ser e eu consegui um interessante peso para os papéis de minha mesa, lá na sidreria. Trabalharei vendo você.
― Edward... ― no chamado continha o divertimento pela solução satisfatória, mas também repreensão por ele passar a lhe acariciar o pescoço. ― Comporte-se.
― Tenho me comportado... A cada dia dói menos quando respiro.
― Mas sei que não é assim quando me abraça, quando se agita... ― retrucou, tentando afastar a mão aliciadora.
― Apenas quando você resiste ― redarguiu depois de deixar a escultura ao lado da poltrona que ocupava. ― Seja boa... Esqueça-se desses embrulhos e me dê atenção.
De repente lá estava o olhar brilhante, o amplo sorriso. Como das outras vezes, para Isabella nada restou além de atendê-lo. Depois de afastar as caixas vazias e os papéis de seda, a baronesa se ajoelhou entre as pernas do marido e deixou que ele a beijasse de modo apaixonado.
Confirmando uma impressão recorrente, via que cada vez mais se tornava difícil resistir. Tanto que não o parou quando os botões do horrível vestido preto foram abertos para que o barão descesse seus beijos até a lateral do pescoço esguio, para receber a tortura espinhenta em seu colo. Excitada, Isabella não impediu que os seios fossem apertados sobre o bojo enquanto a ávida língua avançada até onde podia, tentando atingir um mamilo.
A retomada do juízo se deu ao sentir seu centro pulsar e entender o quando o barão estaria dolorosamente abalado, sem que ela nada fosse fazer para ajudá-lo.
― Edward, já chega ― deteve-o.
― Bella... Teremos cuidado ― disse Edward roucamente, tentando prendê-la.
― Sim, comportando-nos ― ela gracejou ao escapar.
― Um dia eu a farei pagar com acréscimos isso que faz comigo ― ele a ameaçou, simulando seriedade.
― E eu terei o imenso prazer em pagar, senhor ― Isabella sorria enquanto fechava o vestido, eliminando o decote. ― Por ora, vamos nos comportar de fato e terminar de abrir esses presentes.
Com seu coração aos saltos Isabella se parabenizou por pará-los enquanto era tempo e, ignorando a carranca do barão, voltou aos presentes. Apesar da contrariedade Edward reconheceu os esforços de sua esposa para preservá-lo, divertindo-o durante a maçante tarefa de desembrulhar os muitos presentes e terminou por sorrir.
Não deveria se ressentir pelo zelo com que era cuidado, sim almejar que os dias corressem e que se recuperasse, definitivamente. Antes de reclamar como um reumático deveria apreciar a companhia constante, que fazia de sua baronesa a melhor enfermeira que um moribundo poderia ter.
Ante a nova fase, o barão poderia considerar que os meses de abandono não existiram e que seguiam do momento em que levou o tiro de raspão. Com boa vontade, sendo agradecido, deveria somente se alegrar com o que recebesse. Cada instante era único.
― Quero ajudá-la com os agradecimentos ― anunciou, quando a esposa deixou de lado um vaso de porcelana fabricado por alguém de gosto duvidoso.
― Não sei se é boa ideia ― Isabella torceu os lábios. Para o desejo do marido, não para o vaso que não a deixava desviar os olhos. ― Está sentado há muito tempo.
― Não por isso... Podemos escrevê-los em nossa cama ― ele sugeriu inocentemente.
― Ou podemos fazê-lo aqui mesmo ― ela aquiesceu depois de encará-lo, aceitando que não teria escapatória.
Edward assentiu e sorriu antes de indicar o vaso.
― Eu não me oporei se decidir deixar esta obra de arte no sótão.
― Obrigada por me ajudar a decidir. Estava desnorteada diante de tanta beleza.
Ao se calar, Isabella procurou pelos olhos do barão. Encarando-se por alguns segundos até que rissem, divertidos. Aquela era outra situação na qual o ferimento doía, porém Edward não a evitava. Estavam felizes.
Para dar seguimento à felicidade, a manhã de sábado os brindou com sol e vento ameno, antecipando o clima da Primavera iminente. Ao ver os raios amarelados que incidiam sobre o casal à frente do padre Angus, Isabella considerou que o dia acolhedor fosse um presente; uma promessa à futura senhora Zimmer de que o novo marido seria o oposto do falecido barão.
Comovida com a cena, a baronesa apertou o braço do marido sem sequer notar.
― Está tudo bem, querida? ― Edward lhe escrutinou o rosto.
― Sim, está ― assegurou, sorrindo mansamente. ― Na verdade, está tudo perfeito!
Não havia exagero. Mesmo contra a vontade da mãe, Rosalie e Alice confirmaram sua eficiência ao organizar um casamento em poucos dias, deixando a sala do oratório lindamente decorada, como no casamento anterior.
Outra que poderia receber o adjetivo era Elizabeth. Em seu discreto vestido de seda azul a senhora resplandecia enquanto ela e um orgulhoso Senior Zimmer recebiam os cumprimentos de Harry Clearwater, Isaac Peterson, suas respectivas esposas, Emmett, Rosalie, Jasper e Alice.
Como se fosse possível, o rosto da senhora se iluminou ainda mais ao ver o filho se aproximar, tendo o braço da esposa preso ao seu, ereto como se não precisasse do apoio de uma bengala.
― Edward... ― ela murmurou quando ele lhe tomou a mão e a beijou. ― Nunca saberá o quanto me alegra vê-lo tão bem disposto. Apesar de sua espantosa recuperação, por vezes temi que tivesse me precipitado ao escolher este dia para meu casamento.
― Por sorte tudo correu bem. E faço minhas as palavras de sua mãe ― disse Senior. ― É uma alegria vê-lo de pé.
Edward apenas assentiu, não queria ser o centro das atenções. Ao menos naquela manhã.
― A alegria é minha por poder cumprimentá-los ― desconversou ao apertar a mão do padrasto. ― Estou contando que vá ser um bom marido para minha mãe.
― Agora que sua mãe permitiu, serei o melhor ― prometeu.
― Lamento que seus filhos não tenham comparecido ― disse Edward.
― Também lamento. De toda forma, não faltará oportunidade para reunirmos as duas famílias. Eu gostaria que estivessem presentes, mas me contentou receber os telegramas de felicitações. Sei que aprovam minha decisão.
― Por certo é o que realmente importa ― Isabella salientou. ― A aceitação de nossos filhos.
― Por certo... ― Elizabeth reiterou.
Durante o almoço para a família e os poucos convidados todos souberam que, assim como Rosalie e Alice na decoração, Leah igualmente havia se esmerado na preparação das carnes assadas ou defumadas, e também na decoração do bolo de frutas, dos doces caramelados.
Depois que as crianças deixaram a sala de jantar, Harry Clearwater, o padrinho, propôs um brinde no qual enalteceu as qualidades do casal e desejou em nome de todos que fossem felizes.
Às dezesseis horas a recepção do casamento chegou ao fim, deixando Elizabeth livre para mandar descer seus baús. Para Edward, aquela tinha sido a cerimônia que almejou para si, contudo, apesar do desfecho, considerou que não trocaria a que teve. Mesmo com a tensão no ar, Isabella brilhou na Sala Rosa, deixando em sua mente a melhor recordação.
― Espero que não esteja sorrindo como um bobo da corte por me ver partir ― a fala da mãe o tirou do devaneio. ― Seria interessante que eu tenha evitado despedidas até aqui para agora descobri-lo radiante com minha mudança.
― Evidente que não ― ele garantiu, sustentando o olhar castanho. ― E não havia a necessidade de despedir-se, quando irá morar praticamente ao lado. Mas se a alegra saber, eu sentirei sua falta.
― Espere para dizer o mesmo daqui a alguns meses, depois de me encontrar aqui todas as semanas ― ela gracejou, abrindo os braços, convidando-o para um abraço.
― Agora saberemos o que sentiu ao nos ver partir ― disse Alice ao ser abraçada pela mãe.
― Não. Saberá de fato quando for um filho a partir ― corrigiu Elizabeth. Depois de se voltar para Rosalie, acrescentou: ― É a ordem natural, preparamo-nos para esse dia, mas nosso coração nunca está de todo pronto. E sentimos, mesmo que não demonstremos ou que os filhos não acreditem.
― Hoje eu acredito ― disse Rosalie, adiantando-se para abraçar a mãe.
Por tudo que ouviu, Isabella supôs que tomaria conhecimento das palavras não ditas quando Rosalie narrasse a própria história. Contudo, não precisaria de qualquer dedução para saber que o relacionamento entre sua cunhada e sua sogra não havia melhorado depois de sua partida, o que justificaria qualquer descrença por parte da filha em relação à mãe. Era animador ver que esta tivesse mudado.
Isabella sorria discretamente para a cena, quando Elizabeth parou à sua frente e lhe abriu os braços, como fizera para os filhos. Estupefata, ela se moveu após ser discreta e delicadamente empurrada por seu marido. Ver-se presa em um abraço de despedida lhe pareceu tão insólito quanto ter recebido palmadas em sua cabeça ou ter seu rosto acarinhado, dias atrás.
― Obrigada por trazer meu filho de volta ― murmurou a senhora antes de afastar-se para se despedir dos genros e dos netos.
Ainda abalada, a baronesa assistiu cada um dos meninos ser abraçado e receber um beijo no rosto de uma senhora subitamente comovida. A Isabella pareceu ter visto a sogra trocar uma piscadela com Embry, porém julgou ser impressão de sua mente em redemoinho.
― Bem... Chega de despedidas ― determinou a senhora ―, afinal estaremos todos reunidos em três dias. Até breve.
― Até breve ― imitou-a o marido, sinalizando para que os criados saíssem com a bagagem da esposa.
― A vovó irá mesmo voltar, não é? ― indagou Embry com os olhos postos da senhora que o marido ajudava a subir na carruagem.
― Prepare-se para vê-la aqui todos os dias ― falou Edward. Preocupado com a catatonia de sua esposa, dirigiu-se a todos ao seu redor: ― Bem... Cheguei ao meu limite. Irei para o quarto... Perdoem-me por não acompanhá-los durante o jantar.
― Sinta-se em casa ― troçou Emmett. ― Por meu lado, é como me sinto.
― Estão todos em casa ― Edward garantiu. ― Por isso, fiquem à vontade para pedir à Sra. Newton o que for preciso.
― Digo o mesmo a todo instante, senhor ― disse Marie, que de longe observava a cena. ― Vá repousar sem receios, sir Edward.
― Sim, vá se deitar! ― Isabella por fim reagiu. Com a saída definitiva de Elizabeth, tornou-se a única dona daquela casa. Não poderia se perder em meio à descrença após um inesperado, porém bem recebido abraço. ― Sua Graça se importaria de ajudar meu marido. Preciso conversar com nossa governanta.
― Será um prazer ― disse Emmett, colocando-se ao lado do amigo, sendo seguido pela esposa e os filhos.
― Também iremos para nossos aposentos ― Jasper informou ao tomar a esposa pelo braço. ― As emoções de hoje foram suficientes para a condessa.
Antes de se sentir abandonado, Edward se admirou da pronta recuperação. E mais da firmeza com que sua esposa se expressava. Depois das despedidas entre os adultos, Isabella determinou que Embry acompanhasse Amy e indicou a sala de jantar a Marie para que a seguisse.
Ao entrar Isabella se voltou para Marie e sorriu.
― A partir de hoje seremos apenas nos duas ― ao colocar em palavras sentiu o real peso da responsabilidade pela primeira vez. ― Sabe que precisarei de toda sua ajuda.
― Sim, assim como sabe que não precisa se preocupar. Estou aqui para acatar suas ordens, ou ensiná-la caso haja o que não saiba.
― Cuidar da mansão não me assusta ― confessou. ― Contudo, pouco entendo de jantares refinados e recepções, caso seja preciso organizá-los. Para o aniversário de Embry teremos a ajuda de minhas cunhadas, mas depois...
― Conte também com Lady Westking, digo... Sra. Zimmer ― corrigiu-se Marie, sorrindo com ternura. ― Não duvide que ela venha todos os dias. E depois terá a mim, mas adianto-lhe que o barão não é dado a receber convidados. Acredite, foi espantoso que a tivesse trazido e depois hospedado. Quando os convidados partirem, recordará.
― De fato, naqueles dias pude ver a tranquilidade de Apple White ― suspirou Isabella.
― Sim... Há alguma recomendação para hoje? ― indagou a governanta, solicita.
― Nada específico... Apenas procure saber o que cada um dos casais deseja e mantenha o horário do jantar. No mais, a partir de segunda-feira tente encontrar duas cozinheiras e uma preceptora para Embry.
― Já que citou... ― de súbito a cor deixou o rosto da governanta. ― Gostaria de aproveitar a oportunidade para dizer o quanto lamento tudo que aconteceu. Sinto-me responsável por não impedir que Sue...
― Esqueça! ― Isabella se adiantou e segurou as mãos de Marie. ― Desde que cheguei a Apple White você tem sido meu anjo bom. Como pode se considerar responsável por algo vindo daquela senhora senil?
― Não sei o que seria de mim se ela tivesse conseguido ― revelou a governanta, comovida. ― Agora é a baronesa, nossa relação mudou, mas ainda a considero uma amiga.
― Porque é o que sou. E ficaria ofendida se algo mudasse... ― depois de surpreender Marie ao lhe beijar as mãos, pediu: ― Acalme seu coração e de fato esqueça. Agora devo ir cuidar de meu marido. Até breve, Marie.
― Até breve, Isabella.
A baronesa assentiu, indicando seu contentamento em ver que a governanta continuaria a tratá-la como de costume. Ao entrar em seu quarto, ainda sorria de modo distraído, então se sobressaltou ao ser abraçada por trás.
― Edward... ― arfou, contendo-se antes que instintivamente tentasse se soltar. Ao mirar os braços que a prendiam, descobriu-os nus. ― O que está fazendo. Entendi que estava cansado.
― E estou ― disse o marido em seu ouvido. ― Despia-me para me deitar, quando você entrou, sorrindo desse modo... Não resisti.
― Pois já teve seu abraço ― a baronesa tentou se valer do resquício de autoridade, antes que este fosse eliminado pelo excitamento. ― Vá deitar-se.
― Venha se deitar comigo ― ele pediu de modo aliciador, acariciando-lhe a cintura.
― Sim ― aquiesceu, porém aproveitou que os braços não estavam ao seu redor para se afastar. ― Assim que falar com Embry. Espero encontrá-lo deitado quando voltar.
Ignorando o olhar acusador, a baronesa escapou para o quarto do filho. Antes que entrasse, respirou fundo algumas vezes para a retomada de fôlego. Estava claro que não conseguiria fugir do barão por muito mais. Após um suspiro resignado, abriu a porta.
― Mamãe! ― antes que pudesse prever, foi abraçada pela cintura. ― Meu aniversário não pode ser amanhã?
― Estou tentando explicar que ele terá de esperar, senhora ― disse Amy, divertida ―, mas Embry não me dá ouvidos.
― Este rapazinho às vezes escuta o que lhe convém ― Isabella observou, sorrindo para o filho. ― Como Amy lhe disse, terá de esperar.
― Será o primeiro aniversário que comemoramos― Embry comentou com um muxoxo. ― Queria que viesse logo.
― E virá, querido ― Isabella lhe sorriu. ― Tenha um pouco mais de paciência. Lembre-se de que esta será a primeira comemoração de muitas.
― A senhora poderá usar um vestido de outra cor? ― o menino abandonou as lamúrias, escrutinando-a com seriedade. ― Prefiro que não use negro, jamais.
A diversão se esvaiu ao considerar que no pedido havia mais do que uma observação atual, afinal o menino tinha boa memória e antes que fosse para o internato, por vezes a tinha visto como Amber. Não era como estava vestida, quando Laurent a agrediu e seu filho a encontrou?
Acreditando ter a confirmação nos ansiosos olhos azuis, a baronesa tomou uma decisão.
― Até que seja legitimamente preciso, não voltarei a usar um vestido dessa cor. Será esse meu presente. Está bem assim?
― Está! ― Embry saltou no lugar, contente, chamando a atenção de Nero que veio especular, farejando o chão ao redor deles dois. ― Obrigada, mamãe!
― Não me agradeça por isso, querido... E você ― ela se dirigiu ao galgo. ― Entendo que esteja velho e cansado, mas saiba que me sinto preterida. Era bom tê-lo ao me lado todo tempo.
― Não brigue com Nero, mamãe ― pediu Embry, com os olhos maximizados. ― Se ele a seguisse, como faria o mesmo comigo?
Amy se divertiu com o comentário, porém ocultou seu sorriso ao ser encarada pela patroa. Isabella maneou a cabeça para tranquilizá-la, igualmente divertida ante a lógica infantil.
― Tem razão, Embry. No que eu estava pensando, não é mesmo? Nero, esqueça o que eu disse... E o senhor ― ela voltou a se dirigir ao filho ―, obedeça à Amy e tenha uma boa noite.
De volta ao corredor, Isabella recordou os primeiros dias de seu retorno, nos quais ela percorreu aquele mesmo caminho, imaginando que a baronesa pudesse saltar na sua frente. Na ocasião, se lhe dissessem como seria a relação entre elas, teria rido.
Aliás, teria perdido o ar com as gargalhadas que daria se alguém tivesse previsto que ela seria a nova baronesa, que viveria com seu filho sob o mesmo teto e que seu passado não a perseguiria pelo resto de seus dias.
Quanto a esse detalhe, pensou a moça, não era ingênua de acreditar que estaria totalmente segura, afinal, nem sempre esteve sob a proteção da borboleta negra. Mas não desperdiçaria seu tempo cismando com encontros indesejados. O destino era o dono de seu futuro. E também seu marido, considerou com ternura ao entrar em seu quarto e descobrir o barão deitado como pediu, porém dormindo em sono profundo.
Lamentando o fato de não poder acordá-lo para ter mais de seus beijos espinhentos e murmúrios aliciadores, a baronesa despiu o vestido preto, livrou-se das botas, das meias e, com cautela, foi se deitar ao lado do barão. Com a cabeça apoiada em uma das mãos, ficou a admirá-lo.
Sim, pensou Isabella, um visionário a teria divertido se meses atrás lhe dissesse onde estaria naquele momento, mas se voltasse a encontrá-lo, pedir-lhe-ia desculpas por sua descrença e lhe daria sua joia mais cara como pagamento por ele ter ditado o improvável.
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