Borboleta Negra
84 Capítulo Cinquenta e Dois - Parte II
Notas iniciais
Edward despertou ao som das cortinas sendo abertas. Ainda sonolento, moveu-se por instinto para cobrir a moça às suas costas, intimamente maldizendo a repetição da cena.
― Bom dia, senhor! ― Jacob cumprimentou o amigo no momento exato em que este se descobria só na cama.
Preso a um angustiante e doloroso déjà vu, Edward se sentou e indagou de chofre:
― Onde está Isabella?
― Não a vi ― disse Jacob calmamente ―, mas pela movimentação no quarto anexo, creio que já a preparam para a cerimônia. O senhor mesmo, deveria se adiantar.
Livre do temor infundado Edward se levantou para cobrir sua nudez com o robe de Chambre. Transferiu o aborrecimento para si mesmo, coçou o queixo e indagou:
― Ainda é cedo, não? Por que a pressa?
― Porque se vou ajudá-lo e ainda ser o padrinho, eu preciso estar livre antes das dez horas. E o senhor ainda nem tomou seu desjejum.
― Lembro-me bem de termos eliminado a formalidade ― Edward salientou enquanto ia espiar por sua janela. Encontrar o dia ensolarado arrefeceu seu mau humor.
― Estou me acostumando... Edward ― Jacob se corrigiu. ― Sobre essa mudança, gostaria de dizer, agora que estamos sós, que não precisava ter tomado essa atitude apenas para justificar minha participação em seu casamento. Caso queira...
― Quero muitas coisas, Jacob ― Edward interrompeu-o. ― Entre elas gostaria de dar-lhe uns tabefes para apagar tais pensamentos. Acredita de fato que confiei a fazenda de meu avô a você apenas para calar minha mãe ou qualquer outro que estranhasse sua participação em meu casamento? Há quanto tempo tento ajudá-lo?
― Perdão, senhor! Digo... Edward... É que ainda estou surpreso. Jamais poderia esperar... Leah não coube em si de alegria.
― Então, pare de pensar bobagens. Essa é a penúltima ordem que lhe dou uma ordem ― disse seriamente. ― A última é que vá cuidar de meu café da manhã e meu banho. Depois disso, ajude-me como o amigo apenas.
― Obrigado, senhor ― disse Jacob, contrito, antes de se retirar.
Edward não o corrigiu por entender que aquela seria, também, a última formalidade. Satisfeito com seu arranjo, o barão tratou de aliviar-se e seguiu até sua cômoda. Enquanto esperava seu desjejum, escolheria os acessórios que usaria. Preferia que fosse Jacob a trazê-lo, contudo, quem trazia a bandeja era Irina.
― Bom dia, sir Edward. Jacob está providenciando a água para seu banho e me pediu que...
― Deixe a bandeja sobre ao aparador e saia ― demandou depois de olhá-la brevemente. A criada não o atendeu de todo. Depois de deixar a bandeja no local indicado, parou e cruzou as mãos sobre a saia. ― O que deseja? ― Edward indagou com simulada paciência.
― Parabenizá-lo, senhor.
― Obrigado. Agora vá.
― Irei, mas antes eu gostaria de saber se... Se por acaso eu não tivesse ido embora, eu teria tido uma chance de conquistá-lo?
― Não divago tendo por base suposições ― retrucou o barão ao encará-la. ― E não vejo a razão para essa pergunta.
― É que não consigo deixar de ter esperanças ― revelou Irina, cabisbaixa. ― Perdoe-me, mas não considero sua noiva merecedora de seu amor.
― Perdoarei se der meia-volta e deixar este quarto ― Edward exasperou-se. ― Agora!
― Perdoe-me ― ela pediu com deferência ―, mas não posso mandar no meu coração. E se restar uma esperança, eu a acalentarei. Não vou deixar que o iludam senhor. Com sua licença.
Antes que Edward exigisse explicações, Irina partiu. Ele ainda analisava o que foi dito, quando Jacob retornou ao quarto, na companhia de dois criados que traziam a água. Decidido a não estragar seu humor, abstraiu a insubordinação da criada e voltou sua atenção às suas abotoaduras e insígnias.
― O que aconteceu com Irina? ― Jacob indagou ao ficarem a sós. ― Ela passou por nós como diabo correndo da cruz.
― E quem sabe o que se passa na cabeça de uma mulher? ― Edward questionou enquanto seguia até o aparador para se servir.
― Eu sei ― Jacob disse seguramente. ― Especialmente se a mulher em questão for Irina. Ela nunca escondeu a vontade de se meter em seus lençóis. E não acredito que isso tenha mudado apenas porque ficou fora.
― Bem... Sinceramente lamento ― disse Edward, mirando superficialmente a comida; estava sem fome. ― Também nunca escondi que não tinha interesse. Como seria diferente agora? Irina que desista.
― Não considero tão simples... Antes que apronte alguma coisa contra a senhorita Walker, eu acho que seria melhor dispensá-la, Edward.
― Conversarei com minha mãe ― prometeu Edward, pouco interessado no tema. Irina sempre seria um problema menor e não seria louca de aprontar algo contra a futura dona daquela casa. No momento interessava-o os temas agradáveis. ― Viva! Ouvi-o dizer meu nome sem hesitação. E já que cumpriu suas derradeiras tarefas, venha ajudar-me meu amigo. Quero-o livre antes das dez.
Jacob assentiu, sorrindo.
― Não vai comer?
― Estou sem fome ― Edward afastou-se da comida, seguindo até sua tina d’água. Depois de se livrar do robe, iniciou seu banho.
Sem sugerir novo tema, Jacob foi verificar o fraque ― trazido pelo alfaiate na tarde anterior ―, deixando seu amigo livre para divagar sobre sua noiva. Considerando-se tolo por temer que Isabella tivesse ido embora, Edward sorriu. Estavam juntos, casar-se-iam em horas e nada poderia separá-los. Naquele dia, Edward determinou, ocupar-se-ia apenas com assuntos referentes ao casamento. O resto, com o tempo, resolveria.
Coincidentemente, no quarto vizinho, Isabella tomou a mesma decisão. Deixou a cama do barão antes que o dia clareasse, e não voltou a dormir. Antes que saísse, mirou as chamas fracas da lareira em muda despedida aos restos materiais de Amber. Lamentava apenas não poder eliminar a lembrança coletiva, a constante ameaça.
Sua inquietação era tanta que nem mesmo ter estado com Embry antes que Amy fosse levar o desjejum do menino acalmou seu coração. Não diria a Edward, mas não confiava em Laurent Hunt; jamais aceitaria sua oferta de paz. Comparado ao que ele pudesse fazer, Amber habitar o imaginário masculino ou os mexericos que corriam pela vila vizinha eram nada. No entanto, quando questionada sobre seu nervosismo pela terceira vez, Isabella foi sincera ao dizer:
― Vou me acalmar, Marie.
― Sim, acalme-se e termine seu café. Apesar de tudo, fiz questão de preparar o que comeria e organizar a bandeja. Coloquei tudo que aprecia.
― Sim ― Isabella sorriu. ― E eu já a agradeci, assim como disse que não havia precisão de tal cuidado.
― Este é o último dia que lhe sirvo ― disse a governanta à guisa de resposta. ― E infelizmente não poderei ajudar em tudo. Jane virá tão logo eu desça. A costureira também virá, para evitar imprevistos.
Isabella considerava o cuidado exagerado, porém nada disse. Durante a semana entendeu que, mesmo modesto, seu casamento nunca seria tratado com simplicidade. Não lhe foi permitido ver a decoração dos salões, mas pelas flores que viu, pela movimentação de criados a carregaram cristais, prataria, castiçais, e ainda os esforços das mulheres da família, ela sabia que cada detalhe estaria um primor. Então era esperado que a noiva não destoasse.
― Sabe se Edward já acordou? ― Isabella preferiu mudar o tema para algo aprazível.
― Sim... Jacob está com ele ― informou Marie. ― Por certo sabe que agora, ele é arrendatário do barão.
― Jacob?! ― surpreendeu-se a moça. A governanta assentiu. ― Não, não sabia.
― Ouvi os resmungos da baronesa sobre a mudança, essa manhã ― relevou Marie. ― E ao perguntar a Leah, esta confirmou.
― Que notícia maravilhosa! ― Isabella exultou, enlevada com a generosidade do barão.
― Estou feliz pelo casal, mas agora tenho duas criadas novas a contratar.
― Duas?
― Sim... Uma nova cozinheira e uma preceptora para Embry. Ontem pela manhã, quando você estava fora com Jacob, Sir Edward me incumbiu de conseguir alguém que cuidasse da educação de Embry.
Por um instante Isabella se sentiu traída. Edward não dissera nada sobre uma preceptora, porém, antes que se arreliasse, entendeu que ela estaria ocupada com o novo filho e, agora que sabia a verdade, talvez Elizabeth não se importasse de repassar a tarefa assumida.
De súbito a moça se compadeceu e se preocupou com o filho. Tantas mudanças em tão curto espaço de tempo não seriam benéficas para seu pequeno. Após um suspiro, Isabella deixou a xícara em seu lugar e disse:
― Confio que escolherá a melhor... Bem, pode recolher a bandeja, já estou satisfeita.
― Pouco comeu ― observou Marie.
― A expectativa me rouba o apetite. E sua conversa sobre uma preceptora me animou a vestir Embry... Eu teria tempo?
― Lamento, mas não teria. Amy já está incumbida de vesti-lo. Sugiro que vá assear-se. Logo a costureira estará aqui.
Resignada, Isabella assentiu. Fosse como fosse, ajudar Embry seria uma atitude paliativa e um tanto egoísta. Ainda lidando com a verdade crua, boa parte de sua inquietação era causada mais por felicidade do que qualquer temor. Em horas seria esposa de Edward!
Deixando que o contentamento tomasse seu espírito, Isabella se levantou e obedeceu a governanta. Antes que Marie se fosse, Jane entrou no quarto, sorridente, pronta para ajudar a nova patroa.
― Estou nervosa ― admitiu a jovem, quando Isabella se acomodou diante da penteadeira. ― Nunca preparei uma noiva.
― Imagine que me prepara para uma festa, como outra qualquer ― Isabella tentou tranquilizá-la; mesmo que estivesse igualmente insegura; não queria decepcionar seu noivo. Que estaria esplendoroso, ela sabia.
― Não será uma festa qualquer, senhorita ― disse Jane num murmúrio aflito.
― Bem sei... Apenas faça seu melhor. Confio em você ― a moça sorriu para o reflexo da criada no espelho. Jane respirou profundamente, pegou a escova e passou a pentear os cabelos negros. ― Lembre-se que usarei uma mantilha.
Jane assentiu, compenetrada. Logo puxou os cabelos de Isabella para trás e os prendeu em um coque alto. Aquele não seria o tipo de penteado que escolheria, mas a moça nada disse. Intrometer-se seria o posto de confiar, então fechou os olhos e esperou que Jane terminasse até mesmo o empoar de seu rosto a aplicação do carmim, nas bochechas e nos lábios.
― O que acha? ― Jane indagou, incerta.
Isabella abriu os olhos com certo receio, porém ao ver-se, sorriu surpresa. Jane desprendera algumas mechas que lhe emolduraram o rosto artificialmente, contudo delicadamente corado. Os lábios estavam vermelhos, mas não vulgares. A moça antevia que ao colocar a mantilha, ficaria muito bonita. E ainda faltava adornar-se com o presente de casamento dado por seu noivo.
― Jane, isto está perfeito! ― Isabella elogiou, aproveitando para distrair-se das imagens dela e do barão no espelho, enquanto agradecia a ele tão precioso mimo.
Batidas à porta dispersaram de vez a lembrança inadequada.
― Entre ― Isabella liberou.
― É a costureira, senhorita ― anunciou Marie antes de dar passagem a senhora afogueada que vinha às suas costas. Ao ver a moça com atenção, a governanta aprumou-se e sorriu. ― Está linda! Sir Edward aprovará.
― Sim, está divina senhorita, mas devemos nos apressar ― disse a costureira. ― Perdoe meu atraso.
Isabella sequer notara um atraso, mas tratou de adiantar-se. Depois de acenar para que Marie fosse embora, colocou-se a disposição. Por sorte não houve a necessidade de ajustes e em minutos a costureira fechava os últimos botões forrados com o mesmo cetim perolado do vestido.
Diante do espelho, Isabella analisava as pedras delicadas, magistralmente bordadas no corpete da peça. Estas combinariam à perfeição com o conjunto de colar e brincos de diamantes e pérolas. Sim, ela sorriu ao pensamento, Edward aprovaria. Pela primeira vez, a moça se viu à altura de seu nobre noivo. Ante a imagem que considerou perfeita, Isabella se encheu de confiança. Nada poderia dar errado. Não naquele dia.
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Edward se considerou preparado para a cerimônia, até que descesse a visse seus primeiros convidados no hall. Com o cenho franzido, o barão terminou de descer e se prostrou diante do último homem que esperava ver em sua casa, e na companhia dos Cullens.
― Barão ― disse Laurent à guisa de cumprimento, curvando-se em exagerada mesura, quase forçando sua improvável acompanhante a fazer o mesmo. ― Como tem passado?
― Eu...
― Mas que pergunta a minha! ― Laurent o interrompeu, rindo mansamente. ― Hoje é dia de seu casamento com uma bela jovem. Como haveria de não estar muito bem?
Edward empertigou-se e respirou profundamente. Abstendo-se de responder, ignorou o olhar consternado de Carlisle e se dirigiu às damas.
― Lady Cullen... ― Edward tomou a mão de Esme e a beijou. Ato contínuo, voltou-se para Tanya e, depois de mirar a mão que ela mantinha no braço de Laurent, tentou repetir o gesto. ― Senhorita Cullen.
Tanya lhe sorriu e estendeu a mão. Edward a segurou e a beijou brevemente antes de dar um passo para trás e indagar simplesmente:
― Cullen?
― Perdoe-me, Westking... ― pediu o banqueiro, secando o suor de sua testa com o lenço que trazia no bolso em seu peito. ― Enquanto saíamos Tanya me veio com essa novidade.
― Espero que não se aborreça de eu ter aceitado o convite de sir Laurent para acompanhá-lo ao seu casamento ― disse a moça, simulando inocência.
Edward condenou-se por um dia ter trocado beijos afogueados com a moça; por ter desejado colocá-la no lugar que em breve Isabella ocuparia. Contudo, não era Tanya Cullen ou o infantil desejo de arreliá-lo que mais o aborrecia.
― Evidente que não, senhorita. O que me espanta é não me lembrar de ter convidado seu acompanhante ― salientou, sustentando o olhar do odioso fazendeiro.
― O que, creio eu, tenha sido um lamentável equivoco, afinal... somos amigos, não? ― Laurent indagou, inabalável. ― Justamente por acreditar em engano que enviei um presente. Não o recebeu?
Não, ele não recebera presente algum, pensou o barão, nada condescendente com a infantilidade da baronesa em esconder os presentes. Caso fosse informado de alguma coisa dada por aquele senhor, teria tomado as devidas providências enquanto era tempo. No momento, restava engolir o desaforo e se manter vigilante.
― Bem sabemos que não houve engano, Hunt ― disse impassível. ― Todavia, se foi atencioso ao ponto de enviar-me um presente, entenderei como um tratado definitivo de paz. Seja bem-vindo a Apple White.
Ao estender a mão, Edward mantinha sua expressão neutra. Para apertar a mão do fazendeiro e se manter estável, o barão precisou de toda educação e boa vontade que possuía.
― Não tenha cuidados ― disse Laurent. ― Somos amigos. Afinal, não temos motivos para rivalidades, não é mesmo?
― Não, não temos ― concordou o barão. ― Fiquem à vontade. Sigam pelo corredor que Jacob os receberá à porta do salão onde será realizada a cerimônia.
Tanya bufou aborrecida, Laurent sorriu disfarçada e brevemente antes de seguir pelo caminho indicado, levando a moça pelo braço.
― Realmente nos perdoe por essa intromissão, senhor ― pediu Esme, consternada. ― Sei que não se dão e foi minha culpa se meu marido não pôde negar. Tanya se mostrou tão animada quando disse que um cavalheiro se ofereceu para acompanhá-la, como há dias não se via. Deixei-me contagiar e errei em não especular quando ela disse se tratar de uma surpresa. Se eu soubesse que sir Laurent não tinha sido convidado, eu teria me oposto.
― Lady Cullen, não se martirize. O que está feito está feito ― Edward a tranquilizou, indicando o corredor. ― Acompanhe-os.
― Westking, gostaria de lhe falar...
― Está tudo bem, Cullen ― Edward interrompeu o banqueiro. ― Apenas acompanhe sua esposa e filha. Há mais pessoas a receber.
Carlisle assentiu, tomou a esposa pelo braço e a conduziu para o corredor, deixando o barão a lidar com sua contrariedade para que pudesse receber Cameron Hope, Isaac Peterson e suas respectivas esposas.
― Sir Edward ― disso o senhor ao estender a mão.
― Sr. Hope... Sr. Peterson... ― Edward apertou as mãos estendidas antes de se voltar para as senhoras elegantemente vestidas ao lado dos cavalheiros e lhes beijar a mão. ― Senhoras... Sejam bem-vindos.
― Obrigado ― disseram os senhores. Cameron maneou a cabeça a acrescentou, indicando a direção seguida por Laurent Hunt: ― E que maçada, não? Esse cavalheiro não tem o mínimo tino.
― Contratempos da vida. Irei ignorá-lo e tudo se resolve ― falou Edward, evasivo. ― Agora, queriam seguir pelo corredor. Jacob irá acomodá-los.
― Westking! ― Edward ouviu a voz de seu cunhado atrás de si e se voltou para vê-lo. Emmett terminava de descer os últimos degraus, vinha impecavelmente vestido para a ocasião. ― Enfim o grande dia chegou!
― Por certo que chegaria ― retrucou, sorrindo. ― Sem que a noiva fugisse.
― Tola! ― Emmett troçou ao se prostrar ao lado do noivo. ― Quando der por si, será tarde demais.
― É o que espero... ― Edward replicou no mesmo bom humor; não deixaria que a presença de Laurent Hunt apagasse o brilho daquela data. ― Onde estão Rosalie e os meninos?
― Estão...
Antes que o duque respondesse corretamente, os meninos entraram no hall, seguidos de Amy; todos consternados. Após os cumprimentos, Embry pediu:
― Por favor, papai, diga a Amy que solte Nero. Ele quer assistiu ao casamento.
― Por favor, tio... ― Lionel fez coro, ao que John assentiu, esperançoso.
― Perdão, senhor, mas são ordens da baronesa ― Amy explicou-se, desnecessariamente.
― Bem sei ― disse Edward antes de encarar seu filho. ― Embry, eu entendo que Nero queira assistir ao casamento, mas ele deve saber que não é adequado que participe de tal cerimônia. Sei que sabem o mesmo, então... por que não o tranquilizaram?
― Eu falei, tio, mas Embry não acreditou ― disse Lionel, dando um passo atrás, resignado.
― Eu também disse, mas Nero insistiu ― Embry assumiu a mesma postura do primo. ― Depois eu explico a ele porque não pôde participar.
― Faça isso. Agora vá com Amy. Jacob irá acomodá-los.
― Com que então leva jeito com crianças ― Emmett observou ao ficarem sós. ― Você me surpreende a cada instante. Nem se nota que conheceu seu filho há pouco tempo.
― Eu mesmo não percebo esse detalhe ― murmurou o barão, intimista, vendo o menino se afastar, saltitante como se não tivesse tido seu pedido negado; feliz e leve como sempre. ― Para mim, Embry sempre esteve aqui.
― Por essa razão que o entendo ― disse Emmett, livre do costumeiro bom humor. ― Eu não sei como lidaria com uma situação semelhante, mas vendo o modo que olha para seu filho... e até mesmo para sua noiva, vejo que tomou a melhor decisão. Então me resta desejar-lhe felicidades. Que tenham vida longa e muitos outros filhos para que você possa experimentar a paternidade como se deve.
― Obrigado, Vossa Graça ― o barão apertou a mão que o duque lhe estendia. ― Desejo o mesmo.
― Bem, obrigado! E voltando de onde fomos interrompidos, digo que Rosalie está na Sala Rosa com Whitlock e a condessa. Irei me juntar a eles. Até já.
Edward estava prestes a dizer que lhe faria companhia, quando ouviu chamarem seu nome. Era Senior Zimmer que entregava seu casaco e chapéu a Beni.
― Bom dia, Zimmer ― cumprimentou-o, satisfeito em vê-lo. ― Conhece o duque de McCarty, não?
― Sim, conheço. Como Vossa Graça tem passado? ― indagou Senior, reverente.
― Muito bem, obrigado ― disse Emmett. ― E o senhor?
― Feliz com o casamento de nosso amigo barão ― Senior indicou o noivo com a cabeça.
― Muito me agrada que tenha vindo ― falou Edward, avaliando o senhor, bem vestido e rescindindo a perfume.
― Obrigado... Westking ― disse o senhor, ainda inseguro quanto ao tratamento. Após um pigarro, indagou: ― E Lady Westking? Como tem passado?
― Em breve poderá perguntar a ela, Zimmer. Creio que minha mãe está na Sala Rosa. Fique à vontade para ir ter com ela.
― Não sei se devo ― Senior olhou para o duque, desconcertado.
― Por certo que deve... Vamos todos ― Edward determinou.
Antes que chegassem mais convidados que o detivessem no hall, o barão fez com que os senhores seguissem pelo corredor e os levou até a sala citada. Ao entrar, Edward conteve uma exclamação de surpresa; não recordava de aquela sala ser tão grande. Sem os móveis, a baronesa e as filhas, conseguiram um amplo salão de baile.
Rosalie e Alice não estavam. Apenas Elizabeth e Irina que ajeitava arranjos sob as ordens da patroa. Em um dos cantos, três músicos afinavam seus instrumentos. Além das flores que enfeitavam a sala, havia o brilho as velas nos candelabros. Edward considerou a cena muito bonita, mas muito além do que esperava.
Por um instante se arrependeu de não ter se casado com Isabella quando estiveram em Londres; teria sido rápido, sem tantas pessoas conhecidas em volta. Sem Laurent Hunt.
Diante do que considerou excessivo e ostensivo, a presença de um desafeto ressentido se tornou impossível de ser ignorada. Caso não fosse causar um incidente ainda maior, o barão revogaria sua acolhida e o expulsaria. Infelizmente, não haveria como...
― Edward?
O chamado espantado da baronesa livrou o barão de seus pensamentos.
― Mamãe? ― ele a encarou.
― Onde está? ― ela indagou com estranheza. ― Acaso algo o desagrada?
― Não... E me desculpem... Bom dia a todos. Pensei que Rosalie, Alice e Jasper estariam aqui.
― Suas irmãs foram ver a noiva e o conde está na saleta ― disse Elizabeth.
― Então irei me juntar a Whitlock ― Emmett se escusou e saiu.
― E você, o que tem? ― insistiu Elizabeth, evitando olhar o senhor ao lado do filho. ― Não gostou da decoração?
― Está tudo muito bonito ― disse Edward sinceramente. ― Apenas considerei demais. Preferia algo simples.
― Isto é simples, Edward ― retrucou a baronesa, indicando seu entorno. ― Muito aquém do que sempre imaginei para seu casamento. Menos do que isso seria não fazermos nada.
Nada, para o barão, seria a definição de um casamento perfeito, mas não diria. Em vez disso, sorriu e maneou a cabeça.
― Releve o que digo... Estou ansioso.
― Todos nós passamos por isso, senhor ― disse Senior. ― Após a cerimônia, será melhor.
― Acredito que sim... Bem, vou deixá-lo aos cuidados de minha mãe. Preciso trocar algumas palavras com Jacob. Com sua licença.
Antes que sua mãe o detivesse, Edward deixou a sala e seguiu até a capela. Ao espiar pela porta teve outro sobressalto, os poucos bancos estavam praticamente ocupados. Jacob se mantinha à porta da varanda, com expressão carregada. Ao ver o barão, este se dirigiu ao seu encontro em largas passadas.
― Mal contenho meu impulso ― ciciou Jacob quando ambos estavam no corredor. ― O que Laurent Hunt está fazendo aqui?
― Está sendo Laurent Hunt ― disse Edward no mesmo tom. ― Fui inapto em não prever que ele aprontaria algo parecido.
― O que faremos? Minha vontade era expulsá-lo, mas não o faria sem sua ordem.
― Isso é o que ele espera... Melhor ignorá-lo. Laurent não é louco ao ponto de afrontar-me em Apple White. Quanto a isso, estou seguro. Deixe que aprecie a vista e engula seu veneno. Quando destilá-lo, em outra ocasião, estarei preparado.
― Se é como diz... ― retrucou Jacob, incerto.
― Sim... Tranquilize-se ― pediu o barão. Depois de recuar um passo, mediu o amigo dos pés a cabeça e, decidido a melhorar o humor de ambos, elogiou: ― Este traje lhe caiu muito bem!
― Sinto-me deslocado ― Jacob moveu o pescoço e ajeitou a gravata plastrão branca. ― E engraçado.
― Faz boa figura ― Edward sorriu. ― E como está se saindo como padrinho?
― Tomei a liberdade de acomodar os convidados em ambos os lados, afinal, o espaço é limitado e a senhoria Walker não tem parentes nem amigos que ocupasse os bancos reservados para os convidados da noiva. Quem se opôs foi a senhorita Cullen, porém terminou por atender o pedido do pai e do Hunt.
Edward entendia o tom de Jacob ao nomear o inconveniente penetra. Ele mesmo sentia uma forte vontade de cuspir ao dizer o nome do fazendeiro e imaginar que este ocupou o lado referente à Isabella de bom grado, agravou sua má vontade. Resignado, o barão entendeu que não haveria meios de ignorar o fazendeiro e que, para sempre, o dia que deveria ser marcado apenas por alegria, teria aquela mancha a macular suas recordações.
Que o vigário chegasse logo, Edward rogou. Quanto antes as atividades daquele dia tivessem início, mais cedo estas findariam e então ele poderia seguir sua vida, ao lado de sua esposa; em paz.
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