Borboleta Negra
85 Capítulo Cinquenta e Três - Parte II
Notas iniciais
Mirando a imagem no espelho, Isabella refreava sua comoção. Em seus delírios juvenis, por incontáveis vezes ela se imaginou como a noiva de Edward, contudo nada a prepararia para a realidade. Sua mente limitada não recriaria aquele rico vestido que acentuava sua cintura e favorecia seu colo, nem a mantilha que emoldurava seu rosto, conferindo-lhe castidade.
Ainda em sua limitada divagação, Isabella não acrescentou Alice à cena, ladeando-a no reflexo do espelho, como Rosalie. Para a moça, aquele foi um dos raros momentos em que a realidade superava o sonho.
― Está linda! ― disse Rosalie, ajeitando desnecessariamente a mantilha, ocultando assim sua própria comoção.
― Realmente, muito bonita ― Alice reiterou placidamente, com as mãos pousadas sobre o ventre distendido.
― Fiz o meu melhor, no pouco tempo que dispunha ― disse a costureira com evidente orgulho. ― E, sem dúvida, a presilha que Sua Graça ofertou e o broche de Lady Whitlock finalizaram o trabalho à perfeição.
― Ficou mesmo perfeito! ― Isabella disse por fim, trêmula. ― Nem sei como agradecer os presentes.
― Tolice! Já o fez ― disse Alice, antes de queixar-se: ― Lamentável que vá entrar sozinha.
― Não me importo ― assegurou a moça, sem deixar de fitar sua imagem. ― Não tenho amigas solteiras.
Na verdade, conhecia algumas moças solteiras que gostaria de ver em seu enlace, contudo ter a companhia das meninas do Jardim era algo que sequer cogitaria. E não lamentava a falta de madrinhas, sim de seus pais, de Sam e Angela.
― De toda forma, apenas entrarei na sala do oratório, pela lateral ― observou. ― Não será como se percorresse toda uma nave central, sozinha.
― Tem razão ― Alice anuiu. ― E está pronta?
― Ainda não ― disse sinceramente ao compreender que havia mais na pergunta simples ―, mas estarei um dia para nunca decepcionar.
― Não irá ― Rosalie lhe sorriu antes de apressar-se. ― No momento, importa estar pronta para o casamento. Mas espere...
Rosalie deixou o quarto sem explicações. Pela expressão de Alice, esta sabia o que a irmã fora fazer e onde. Isabella e a costureira descobriram no instante seguinte. Como se tivesse deixado o buque aos cuidados de uma das criadas, no corredor, a duquesa voltou, trazendo-o com extremo cuidado.
― Faltava isto ― disse ao estendê-lo. E mais uma vez Isabella lutou com suas lágrimas.
― Você usou a murta ― observou em um murmúrio embargado.
― Sim. Será uma boa representação do seu amor por meu irmão e de sua inocência.
― Obrigada.
― Não sei a qual inocência se referem, mas gostei do arranjo ― comentou Alice, sendo ela a inocente quanto ao segredo das amigas. ― Formou uma bela composição com os jacintos.
― A constância do amor... ― Isabella sussurrou ao recordar as palavras da condessa, dias antes.
Batidas à porta chamaram a atenção de todas.
― Com licença ― pediu uma das criadas da duquesa, com os olhos curiosos em Isabella. ― Beni veio avisar que o vigário chegou e está a caminho para ter com a noiva, em particular.
― Bem... ― disse Rosalie depois de dispensar a criada. ― Precisamos descer.
― O que o padre pode querer comigo? ― indagou, tentando ignorar um súbito e forte tremor.
― Padre Angus não dispensaria sua confissão antes da cerimônia ― elucidou a duquesa. Para a costureira, pediu: ― Espere-a no corredor e então a acompanhe até o hall.
Sem mais palavras, sorrindo de modo encorajador, a duquesa deixou o quarto na companhia da condessa, ambas seguidas pela obediente senhora.
Ao ficar só, instintivamente Isabella olhou para a bandeja disposta sobre a escrivaninha, trazida por Jane mais cedo. Por um instante considerou tomar o chá, porém ao lembrar o quanto estaria frio, nada confortador, desistiu. No mesmo instante ouviu novas batidas à porta.
― Entre...
― Padre Angus está aqui para vê-la ― anunciou Jane, dando passagem ao senhor.
Paramentado para a cerimônia, o padre da vila entrou com confiança e imediatamente avaliou a noiva. Esta se adiantou, cumprimentou-o e lhe beijou a mão. Suas palavras saíram atrapalhadas e ela duvidou que tivesse sido entendida. Fora inapta ao se esquecer de tão importante detalhe.
― Bom dia... Então é você a jovem que conquistou nosso barão? ― indagou o senhor. ― Está pronta para confessar-se?
Não, não estava, contudo não havia tempo para preparações. Intimidada pela presença do padre da vila em seu quarto, Isabella assentiu e esperou.
― Não tema, Cora ― pediu e logo sorriu ao ver a moça maximizar os olhos. Antes que Isabella encontrasse sua voz, ele esclareceu: ― Não posso dizer muito, menina, mas sei quem é. Conheço toda sua história. Asseguro-lhe que aos ouvidos de todos usarei seu novo nome, mas não nesse momento, pois Cora é o nome que seus pais e padrinhos ditaram durante o batismo.
― Está bem... ― ela conseguiu murmurar. ― Não deseja se sentar?
― Vejo que a senhorita necessita se sentar, então fique à vontade. Eu estou bem de pé... Precisamos ser breves. Dias atrás ouvi a confissão do barão, então preciso somente ouvi-la... Comece.
Sim, Isabella gostaria de se sentar, mas entendia que talvez não conseguisse se por de pé se o fizesse. Com isso, respirou profundamente e, fitando o buquê que segurava com força, disse:
― Perdoe-me, padre, porque pequei... Se tivéssemos tempo, eu citaria todos meus erros, mas disse conhecer minha história. E isso me envergonha, pois sabe que não sou digna de estar aqui.
― Caso nós tivéssemos tempo, eu falaria sobre o que é digno ou não. Porém nosso encontro deve ser breve, então peço apenas para que reconheça a dignidade de seu noivo e não a desmereça, diminuindo-se. Sir Edward não tomaria por esposa alguém de caráter aquém do dele, não concorda?
― Sim ― ela o encarou ―, mas...
― Pecou deliberadamente, minha jovem? ― perguntou o padre, amável, sustentando-lhe o olhar.
― Não, mas...
― Se seu destino fosse outro, teria pecado da mesma maneira?
― Por certo que não! ― Isabella negou veementemente. Ao que parecia o padre sabia, sim, de toda sua história. ― Jamais faria nada deliberadamente que trouxesse maculas à minha vida ou para quem prezo.
― Isso era tudo que eu precisava ouvir ― o corpulento senhor sorriu. ― Mesmo não sendo responsável pelos pecados os quais foi levada a cometer, arrepende-se. Entenda que não há maculas em sua vida aos olhos de Deus. Ele jamais a julgará.
― Fico contente em ouvir isso, padre, mas ainda temo o julgamento dos homens ― disse, embargada.
― Pois não tema ― retrucou o padre, de súbito muito sério. ― Seu Senhor é justo e já a absolveu. Homem algum há de condená-la. Aquiete eu coração, menina. Tenha fé e viva em paz. De minha parte, digo que estou satisfeito em ver como Ele corrige as faltas humanas. Vou deixá-la agora ― anunciou antes de benzê-la. ― Faça uma prece, recomponha-se e desça.
Sem mais palavras o padre se foi, deixando-a estática, comovida, trêmula.
― Senhorita! ― a voz da costureira a livrou do breve torpor. ― Não deve chorar... Não ainda, ou irá arruinar o trabalho de sua criada. Deixe-me ajudá-la.
Sem nada dizer, Isabella fez como recomendado e pediu em pensamento para que as palavras do velho padre fossem de fato inspiradas por Deus e que em momento algum seu maior temor se tornasse realidade.
― Pronto! ― a senhora lhe sorriu depois de secar-lhe o rosto e retocar o pó de arroz. ― Agora respire fundo... Ajuda a acalmar.
Ainda em silêncio, Isabella seguiu o conselho da costureira e respirou profunda e pausadamente, ditando a si mesma que fosse forte. Não se acovardaria justamente em um dos momentos mais importantes de sua vida.
― Podemos descer ― disse, decidida. ― O barão não deve esperar.
A senhora sorriu e, depois de parcialmente cobrir o rosto da noiva e recolher seus pertences, esperou que Isabella deixasse o quarto para segui-la. Vez ou outra mexia na mantilha, na saia do vestido, mas nunca impediu a moça de seguir seu caminho. Distraída, Isabella não notou nenhuma das vezes que teve sua veste tocada. Com os olhos fixos em frente, ignorando a sensação de observação, ela marchou de modo decidido. Sabia ser apenas impressão, ditada pelos fantasmas de seu passado.
No hall, por sua visão periférica, Isabella avistou Sue a espiá-la do corredor, porém não lhe deu atenção. Em vez disso, agradeceu, despediu-se da costureira e sorriu para Beni ― prostrado à porta, impecavelmente uniformizado. A moça sorriu também para a governanta que veio em sua direção.
― Lamento por sua avó ― disse Marie, olhando a cozinheira repreensivamente. ― Não tive como negar que viesse vê-la, mas a adverti para que ficasse longe.
― Não há problema ― Isabella olhou para a avó brevemente. ― Devo ir?
― Sim... Esperei para acompanhá-la. ― Ao reparar o nervosismo da noiva, comentou: ― Está trêmula. Não se sente bem?
― Estou ansiosa ― admitiu, mirando as flores de seu buquê. ― Deveria ter tomado o chá que me enviou.
― Chá? ― estranhou Marie. ― Não pedi que lhe servisse chá.
― Devo ter me confundido ― Isabella elucidou. ― Jane deve ter tomado a iniciativa para acalmar-me. Enfim... Agora é tarde. Com ou sem chá, devo ir, não?
― Sim, deve... ― Marie indicou o corredor.
Isabella assentiu, novamente respirou fundo e seguiu em frente. Ainda pôde ouvir o burburinho vindo da capela. Porém este cessou tão logo Jacob entrou e anunciou sua chegada. Em substituição às muitas vozes, Isabella ouvir os acordes de um violino. O som, apesar de delicado e harmonioso, teve o poder de abalá-la mais.
― Coragem ― disse Marie ao se lado. ― E boa sorte! Daqui deve seguir sozinha.
A moça voltou a assentir, porém sem notar. Ao assomar a porta, agradeceu aos céus que a primeira pessoa a ser vista fosse seu noivo: belo, elegante e empertigado. O contentamento que vislumbrou no olhar cerúleo acalmou seu coração e incitou novos passos que a colocaram às vistas dos convidados.
Em diferentes escalas, todos se manifestaram com exclamações embevecidas, surpresas. O erro de Isabella foi olhar para a diminuta plateia. Havia muitos rostos, mas quis o destino que a moça avistasse primeiro Laurent Hunt. No segundo seguinte Isabella reconheceu Tanya e seus pais. Sobressaltada, sem entender o que o fazendeiro fazia ali, na companhia de Carlisle, ela estacou e fitou seu noivo. Queria confiar plenamente em Deus, mas como não fraquejar?
Como resposta, o barão assentiu, sorriu e, com um discreto mover de mão, pediu que ela prosseguisse. Sem se atrever a olhar na direção dos bancos, Isabella foi até Edward. Alguém se ofereceu para segurar o buquê, ao que a noiva maneou a cabeça veementemente e o segurou com maior força, deixando evidente seu nervosismo.
Por sorte, o estado da moça causou divertimento nos presentes, alheios ao real motivo da tensão. Outro alguém sugeriu que ela mantivesse o buquê e que se iniciasse o casamento. Nesse instante Edward voltou a sorrir para sua noiva, tentando transmitir a ela a calma que não possuía.
― Já esteve com padre Angus, querida ― disse num sussurro confortador.
― Sim... ― disse apenas, reverente.
― Fé, senhorita Swan ― lembrou-a o senhor. ― Saiba que terei imenso prazer em celebrar essa união.
― Obrigado ― Edward falou por sua noiva. ― Comece quando quiser.
O padre assentiu e pousou as mãos na Bíblia aberta sobre o púlpito improvisado diante do oratório.
― Bom dia a todos ― disse. Ao ouvir os cumprimentos desencontrados, prosseguiu: ― Estão aqui reunidos, nobres familiares e amigos fiéis, para testemunharem a união de nosso estimado barão de Westking, sir Edward Edward Masen Bradley II e da valorosa senhorita Isabella Swan, como ditam as leis de Deus.
Durante todo o tempo desde que se dirigiu ao vigário, Isabella não desprendia os olhos de seu noivo.
― Quis a inconsequência, própria aos jovens, que esse casal atentasse contra a castidade e com tal ato impensado gerasse um filho ilegítimo. Atitude condenável?... Sim, porém sempre haverá perdão para quem se arrependa e decida voltar à retidão. Hoje, guiados pela experiência que apenas os anos nos conferem, sir Edward e a Isabella Swan desejam corrigir seus erros. Para tanto, humildemente pedem a bênção do Senhor para seu enlace.
Edward gostaria que o padre abreviasse o discurso, porém nada podia fazer além de ouvi-lo em silêncio, consternado por não poder ver os olhos de sua noiva. Não a tocava, mas percebia seus tremores e temia que desmaiasse antes que o casamento fosse concluído. Compadecia-se, entendia-a, contudo queria que aquele dia chegasse ao fim, sem incidentes.
O barão duvidou que assim fosse ao ouvir a observação:
― Para que eu possa dar seguimento à cerimônia, preciso saber se há entre os presentes, alguém que se oponha a essa união. Se houver, fale agora ou cale-se para sempre.
Isabella se retesou e esperou pelo pior, contudo Laurent se manteve em silêncio. Nem mesmo Tanya se manifestou. Depois de assentir, contente por não haver interrupções, padre Angus prosseguiu com o casamento.
― Sir Edward, é de livre e espontânea vontade que toma esta senhorita por esposa?
― Sim ― Edward sorriu sinceramente.
― Senhorita Isabella, é de livre e espontânea vontade que recebe sir Edward por marido?
― Sim ― Isabella igualmente sorriu, foi inevitável.
― Sir Edward, promete amar, respeitar e ser fiel à sua esposa, na riqueza ou na pobreza, na saúde ou na doença, na alegria ou na tristeza, até que a morte os separe?
― Eu prometo.
― Senhorita Isabella, promete amar, respeitar e ser fiel ao seu marido, na riqueza ou na pobreza, na saúde ou na doença, na alegria ou na tristeza, até que a morte os separe?
― Eu prometo.
Ao comprometer-se, sempre a mirar os olhos do barão pela renda da mantilha, Isabella se permitiu relaxar. Fé, dissera o padre. E ela vivia um sonho. Não deveria deixar que nada ou alguém maculasse aquele momento. De repente era como estivessem apenas os dois, acima de todos os problemas que ainda pudessem enfrentar.
Ao dar por si, viu-se com a mão estendida, livre da luva e Edward a correr a aliança em seu dedo anelar. Ao vê-lo levar sua mão aos lábios e beijá-la, sorriu mais.
Depois de depositar a grossa aliança no dedo de seu marido, a moça se sentiu muito forte. Edward a amava e a partir daquele dia era seu para sempre; estavam juntos, além das convenções. Eram amantes e cúmplices. Nada haveria de abalá-los. Confiante, Isabella esperou ansiosa pelas derradeiras palavras do padre.
― Assim sendo, eu vos declaro marido e esposa. Pode beijar a noiva.
Ignorando os presentes, Edward ergueu a mantilha para finalmente ver o rosto de Isabella. Ao fitar os olhos negros, sorriu e se curvou para depositar um casto beijo nos lábios rosados.
― Agora é de fato minha ― disse num sopro antes de se afastar.
― Sempre fui ― ela assegurou com seriedade.
A partir dali Isabella se viu presa a um sonho. Depois de o padre Angus felicitá-los, Jacob foi o primeiro a lhes cumprimentar. Então vieram Rosalie e Emmett, Alice e Jasper. Leah veio em seguida.
― Que Deus os abençoe ― disse timidamente depois de se prostrar ao lado do marido.
Isabella tomou a iniciativa de abraçá-la, desconcertando a cozinheira ainda mais.
― Obrigada, Leah ― disse a moça, segurando-lhe as mãos. ― Fiquei muito feliz em saber a novidade. Espero que seja muito feliz na sua nova casa.
― Obrigada, baronesa... Ainda estou me acostumando. Sir Edward foi extremamente generoso.
― Não fiz nada além do que merecia seu marido ― Edward comentou, com o tratamento dirigido a Isabella brincando em seus ouvidos.
A nova baronesa compartilhava o sentimento do barão, porém seu contentamento sofreu certo abalo ao ter diante de si os Cullens e Laurent Hunt. Visivelmente contrariada, Tanya sequer olhou para os noivos enquanto Carlisle os cumprimentava em nome da família.
― Desejamos felicidades ao casal ― disse de modo reservado.
Isabella gostaria de poder abraçá-lo, porém, mesmo que a etiqueta permitisse não conseguiria. Ocultando sua consternação sob a máscara da indiferença, ela sustentava o olhar acintoso de Laurent.
― Obrigado, Cullen ― disse Edward antes de desviar sua atenção ao seu desafeto. ― Gostou da cerimônia, Hunt?
― Foi perfeita! Como um bom amigo merece ― Laurent retrucou, ainda a fitar a noiva. No instante seguinte encarou o barão e acrescentou: ― Que nada abale esse momento!
― Nada abalará ― replicou Edward, soturno. ― Não admitirei desfeitas sob meu teto.
― Vamos deixar que outras pessoas os cumprimentem ― sugeriu Carlisle duramente, incitando Laurent e sua família a seguirem para o corredor. ― Passaremos para a Sala Rosa, como Jacob nos instruiu.
― Façam isso ― Edward aprovou. ― E aproveitem a festa.
― Edward... ― Isabella o chamou num murmúrio e segurou-o pelo braço, fortemente. Não precisou mais do que isso para que ele compreendesse a retomada de seu temor.
― Hunt não seria louco de tentar algo contra nós ― assegurou o barão. ― Não aqui. O estafermo veio apenas para nos arreliar. Não devemos dar essa satisfação a ele.
― Tem certeza? ― ela indagou, receosa.
― Westking! Baronesa! ― Cameron Hope os chamou, aproximando-se com a esposa, impedindo o barão de acalmar a moça. Restou segurar-lhe a mão que ela mantinha em seu braço. ― Meus parabéns!
― Obrigado, Sr. Hope... Fique à vontade para passar à Sala Rosa.
― Por certo... ― Cameron lhes sorriu e guiou sua mulher para a porta.
Com o coração ainda aflito, agradecida por Edward minimamente acarinhar sua mão, Isabella viu a sogra se aproximar, seguida por Senior Zimmer.
― Westking... Baronesa... ― disse Senior, reverente. ― Recebam minhas humildes felicitações. Senti-me honrado por participar desta linda cerimônia.
Isabella sorriu e assentiu, acanhada com o tratamento diante da primeira baronesa.
― Obrigado, Zimmer. Sua presença era imprescindível, afinal, é um bom amigo ― Edward lhe indicou a porta. ― Jacob lhe explicou que deve se dirigir à Sala Rosa antes que sirvam o almoço, não?
― Sim! Sim! ― Senior aprumou-se ― Vou me juntar aos outros. Com sua licença, barão.
― Tem toda...
― Deveríamos ir todos ― Elizabeth sugeriu ao ficarem sós, escrutinando o casal. Para as mãos sobrepostas no braço do filho a senhora dedicou especial atenção antes de encará-lo. ― Está satisfeito?
― Estou feliz ― Edward assegurou.
― Era tudo que eu precisava ouvir ― disse Elizabeth a assentir. ― Faço votos de que assim permaneça... Já que levou essa situação ao cabo, reparando uma falta, quero que seja sempre abençoado e feliz. E que me dê outros netos, além de Embry e deste que a baronesa carrega.
― Como sabe?! ― surpreendeu-se o barão; mais do que ouvir sua mãe referir-se a Isabella pelo título, sem desdém.
― Isabella cometeu um ato falho ― explicou, indiferente. ― Quero crer que não pretendia me deixar de fora.
― Não ― Edward se desarmou. ― Evidente que não... Esperava apenas pelo melhor momento.
― Como eu lhe disse, milady ― Isabella observou, agradecendo silenciosamente à senhora por ainda considerar Embry seu neto.
De Elizabeth não esperava risos ou amizade. Ambas conviveriam em harmonia enquanto compreendessem uma a outra e dividissem o desejo comum de contentar ao barão. Era como analisava a postura da primeira baronesa.
― Que seja! ― Elizabeth agitou as mãos antes de alisar desnecessariamente a saia de seu austero vestido marrom. ― Não devem se demorar. Temos de seguir com a recepção. Vamos?
― Mamãe...
Palavras adicionais foram dispensadas. Elizabeth se deteve e encarou o casal. Ao sustentar o olhar do filho, disse:
― Parabéns! Que sua união seja próspera. Seus filhos, saudáveis e que sua esposa continue a ser fiel e devotada como bem vejo ser.
― Obrigado, mamãe... Saiba que faço o que tenho de fazer.
― Assim como eu ― ela retrucou seriamente. ― Agora... Por favor...
E mais uma vez palavras foram dispensadas. Elizabeth indicou o caminho para que o casal o seguisse. Edward educadamente insistiu que ela fosse à frente e a acompanhou, levando sua esposa pelo braço.
― Está mais calma? ― ele indagou discretamente.
― Um pouco, sim... ― disse Isabella, sincera. ― Mas prefiro que tudo isso acabe para que possamos ficar em paz. A presença de Laurent me aflige.
― Acredito que o momento de uma ação temerária já tenha passado. Intimidar-nos é tudo o que pretende o biltre. Ignore-o.
A sugestão veio no momento exato em que o par entrou na Sala Rosa e foi recebido com uma breve e discreta salva de palmas.
― Bem ― Elizabeth disse para todos. ― Em nome do casal peço que sintam-se à vontade. Logo o almoço será servido.
Após escusar-se, Elizabeth se retirou. Antes que Edward e Isabella avançassem pelo salão, ela quase perdeu o equilíbrio ao ser inesperadamente abraçada por Embry.
― Perdoe-me senhora ― pediu Amy que o seguia. ― Pedi que esperasse, mas ele está impaciente.
― Pode deixá-lo ― disse o barão ao notar que a esposa mantinha os olhos fitos no filho.
Isabella sequer notou sua falta de atenção para com a criada. Compadecida do temor que via nos olhos azuis do menino, abaixou-se minimamente e sussurrou com carinho:
― Está tudo bem, Embry...
― Ele está aqui, mamãe ― Embry segredou. ― Ele está aqui...
― Olhe em volta, querido ― ela pediu no mesmo tom. ― Ele está aqui, assim como estão seu pai, seus tios, Jacob, sir Carlisle... Estamos seguros.
A jovem baronesa gostaria de acreditar em suas palavras; infelizmente não podia. Enquanto Embry temia ataques físicos, ela temia confrontos verbais. A injúria máxima que daria vida ao seu pior pesadelo.
― Não nos parabeniza por nos tornarmos amigos, Embry? ― indagou o barão, seguro, para arrefecer de vez o medo do menino.
― Sim, senhor ― Embry recuou um passo, empertigado. Imitando o homem que conhecia como pai, declarou em bom tom, solenemente: ― Estou muito feliz que seja marido de minha mãe, senhor. Agora somos uma família adequada.
Alguns convidados riram divertidos. Tanya bufou aborrecida ao que foi contida pelos pais. Ignorando-os, linda em seu vestido azul, a jovem dama se voltou para Laurent e segredou algo, de modo ríspido ao que foi retrucada com um sorriso contemporizador.
A ação causou estranheza aos recém-casados, porém estes preferiram manter a atenção em Embry.
― Sim, somos uma família adequada ― disse Edward. ― Agora vá com Amy e aproveite a festa junto aos seus primos.
Embry aquiesceu e se foi seguido pela criada. Logo o casal era requisitado para novas felicitações e vivas. Durante todo o tempo, mesmo que simulassem não notá-los, Edward e Isabella avaliavam Laurent e Tanya, assim como a Carlisle; este nada satisfeito com a atitude de sua filha.
Por sua vontade, Isabella ficaria constantemente ao lado de seu marido. No entanto, também deveria se acostumar que nos salões jamais se trataria apenas deles dois, então se deixou ser levada por Alice que a conduziu ao grupo de senhoras.
― Espero que em breve anunciem o almoço ― disse a condessa. ― O bebê tem fome.
― Acredito que em alguns minutos aconteça ― Isabella a tranquilizou.
― Estou mais preocupada em saber o que Tanya Cullen faz na companhia de sir Laurent ― revelou Rosalie. ― Jamais soube que se relacionavam.
― Formam um belo par, sem dúvida ― salientou a senhora Hope. E, indiscreta, acrescentou: ― Depois de ser preterida pelo barão, não creio que demore a escolher um pretendente. E verdade seja dita, na região não há tantos cavalheiros disponíveis. Laurent Hunt, apesar de tudo, será uma escolha digna.
Isabella não usaria tal palavra associada ao fazendeiro, mas nada disse. Coube a Rosalie retrucar.
― Até onde sei o barão não a preteriu, nem houve nada entre eles que justifique alguma urgência em uni-los. Eu, no lugar dela, preferiria ir para a corte a me casar com aquele senhor.
― Perdoe-me, Vossa Graça ― pediu a senhora. ― Não era minha intenção aborrecê-la.
Rosalie tranquilizava a consternada senhora, quando Elizabeth anunciou que o almoço estava servido. Isabella se descobriu sem apetite, nauseada, mas não poderia se ausentar. Alheios ao que se passava no coração e na mente dos noivos, todos se animaram e trataram de uni-los para que fossem até a sala de jantar.
A presença de Laurent Hunt tirava o brilho do momento, mas não ao ponto de desviar a atenção do casal da mesa rica e abundantemente preparada. Apesar de tanta beleza, para Isabella, sentar-se ao lado direito do barão como sua esposa serviu para agravar seu desconforto estomacal. Nem mesmo notar que a baronesa Elizabeth estava mais preocupada em evitar olhar para Senior Zimmer do que para ela, ajudou.
Em seu abalo emocional, Isabella sobressaltou-se ao ter sua mão capturada e apertada por Edward.
― Está linda! ― ele sussurrou afetuosamente. Sorrindo acrescentou: ― E finalmente ocupa seu lugar. Sei que se sairá bem, pois já passou por piores momentos.
Estava ali algo a ser sempre lembrado; enfrentara situações infinitamente piores. Envolta pelo carinho discreto e as palavras de incentivo, Isabella se sentiu renovada. O apetite não voltou, porém seu coração sossegou permitindo que ela comesse o que lhe fosse servido e mantivesse as aparências com maestria, como Amber o faria.
Dois comensais igualmente argutos na arte da dissimulação à mesa se destacavam. Vez ou outra os olhares de Isabella cruzava com os de Laurent e Tanya. Nessas ocasiões ela sentia a animosidade palpável. Por sua vez, Carlisle lhe sorria ou assentia com discrição, sempre que tinha a chance.
Se mais alguém reparava a tensão, nada dizia. Elizabeth ainda mantinha sua disfarçada atenção em Senior. Leah se mostrava extremamente tímida e deslocada, com isso, mirava seu prato. O duque, o conde e suas respectivas esposas mantinham uma animada com o vigário.
Assim seguiu o almoço. Ao término da sobremesa, Elizabeth, ainda na qualidade de anfitriã, convidou a todos para a Sala Rosa. Em pequenos grupos, todos deixaram a mesa e fizeram como foi sugerido. Enquanto Edward a ajudada a se levantar, Isabella reparou a ansiedade da sogra. Considerando que esta estivesse nervosa pela proximidade do fazendeiro, a moça ignorou-a e se deixou levar, apoiada ao braço de seu marido.
Descobriu estar enganada ao ouvir as muitas vozes vindas da sala para a qual seguia, no mesmo instante em que Elizabeth se voltou e disse ao filho:
― Sei que queria algo mais simples, mas tomei a liberdade de convidar alguns de nossos vizinhos mais próximos. Não elimine meu contentamento ou me envergonhe, Edward, tornando-se intratável. Não permita que aconteça, Isabella.
A noiva não se sentia confortável, pois igualmente desejava o simples, ainda assim esboçou um sorriso e garantiu:
― Não permitirei... Não seja intratável ― pediu ao marido.
Edward respirou fundo, com resignação. Não aprovava a atitude de sua mãe, contudo não poderia reverter o que estava feito. A julgar pelo falatório que se misturava à música, os convidados inesperados estavam, todos, presentes.
― Não serei ― disse seriamente a nenhuma delas em especial. ― Vamos.
Elizabeth alisou a saia de seu vestido e caminhou decidida para a sala, deixando o casal um instante a sós.
― Perdoe-me por isso ― Edward pediu, mirando sua esposa com ternura. ― Queria que a comemoração findasse aqui.
― Eu também ― Isabella lhe sorriu timidamente. ― Porém ainda teremos uma longa tarde pela frente.
― Então vamos aproveitá-la ― Edward determinou e acariciou o rosto corado. ― Logo todos irão embora e poderemos seguir com nossas vidas.
― É tudo que mais quero!
― Por ora, vamos ver quem minha mãe convidou...
Isabella assentiu e novamente se deixou levar.
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