Borboleta Negra
87 Capítulo Cinquenta e Cinco - Parte II
Notas iniciais
― Jacob! ― Edward chamou ao encontrá-lo no corredor, seguindo para a saída ao lado de Leah. ― Sairemos às sete horas.
― Imaginei que assim seria ao ouvir o cretino ― ciciou Jacob. Para Isabella, sorriu, solidário. ― Lamento que tenha passado por isso em vosso casamento, senhora.
Isabella mirou os olhos condoídos de Leah. Para todos, ela fora injuriada, então deveria manter-se no papel. Ao se dirigir a Jacob, assegurou:
― Também lamento. Não sei o que pode ter havido para que aquele senhor se portasse dessa maneira. Agora me resta pedir que esse pesadelo criado por ele, acabe.
― Rezarei fervorosamente pedindo pelo sucesso do barão, senhora ― disse Leah. ― Que Deus o acompanhe, senhor!
― Obrigado! Podem ir agora ― liberou-os. Tinha pressa em tirar sua esposa das vistas de todos. ― Jacob, se encontrar o doutor Morrigan diga que o quero aqui antes de partirmos. Não o vi em parte alguma... Se não o encontrar, vá à vila.
― Sim, claro! Estava esquecido de que o médico deve estar presente.
― Não que sobre vida em Hunt a ser mantida, mas será um duelo como devido, disso faço questão... Isto é tudo. E não esqueça. Esteja aqui...
― Às sete horas ― este completou, reverente.
Após as despedidas, separaram-se. Ao notar a dificuldade de Isabella em lhe acompanhar os passos apressados, Edward simplesmente a tomou nos braços tão logo chegou ao hall, sempre a abstrair os olhares de criados e dos convidados que recebiam seus pertences para que pudessem partir.
Por sua vez, Isabella agradeceu o cuidado, pois não confiava na firmeza de suas pernas. Em sua mente, desde que Edward desafiara Laurent para um duelo, via apenas a cicatriz que antes o cavanhaque ocultava, e recordava a completa falta de honradez no adversário.
Quando deu por si, Isabella estava sendo acomodada na cama que a partir daquela noite legitimamente dividiria com o marido, esta primorosamente arrumada com cobertas e fronhas brancas, bordadas. Correndo as mãos pela trama do tecido macio, ela considerou insólito que há poucas horas tivessem estado ali, abraçados, cientes dos riscos que corriam, contudo sem imaginar aonde estes os levariam em tão curto espaço de tempo.
De súbito Isabella sentiu o odor conhecido e agradável. Surpresa procurou ao redor até encontrar arranjos de lavanda em delicados vasos de porcelana dispostos nos criado-mudos.
― Marie não conseguiu as margaridas e as rosas vermelhas, então espero que se contente em ter ao menos uma de suas flores preferidas ― disse Edward. Ao ser encarado, ele sorriu. ― Eu disse que sempre me lembro do que me diz. Hoje até mesmo entendo porque aprecia o recolhimento que o inverno traz.
― Oh, Edward... ― murmurou. ― O que posso ter feito para merecê-lo?
― Não sou tanto assim ― ele gracejou, lembrando a Isabella dos primeiros dias que passou naquela casa.
― É perfeito! Sabe que assim o considero ― retrucou. ― Tinha um futuro promissor e eu vim...
― Para deixá-lo ainda melhor! ― interrompeu-a com ternura. ― Não se preocupe tanto. Agradeça as flores... É tudo que quero.
― Elas são lindas, obrigada! ― Isabella sorriu, porém logo voltou à seriedade. A gravidade roubava todo romantismo do momento.
Antes que aquele duelo terminasse e Edward estivesse de volta, não tinha como considerar que ela pudesse ter deixado algo “melhor”. Antes disso, parecia que tudo fugia ao controle e a sensação era exasperante. Contudo, ela não poderia deixar de reconhecer que alguns fatos amenizaram detalhes que pareciam sem solução, como a negativa dos senhores antes a acusação. Ao olhar para a lareira, Isabella recordou que Amber teve ali seu fim... Ou não?
― Acha que lorde Stuart mentiu para amenizar o estrago? ― indagou, avaliando a hipótese, como se Edward tivesse ouvido seus pensamentos até aquele ponto.
Edward se mostrou confuso por um instante até que acreditasse ter seguido o raciocínio de sua esposa. Depois de sentar ao seu lado, tomou-lhe a mão e a beijou.
― É certo que mentiu... Lamentavelmente o estrago já estava feito. Amenizar foi apenas o que Stamford conseguiu. Contudo, ser-lhe-ei eternamente grato por preservá-la, não permitindo que seu nome fosse jogado à lama.
― Como eu disse que aconteceria ― ela salientou, fitando-o com pesar. ― Se Carlisle, lorde Stuart e os outros senhores não tivessem...
― Esqueça! ― Edward a calou, novamente sendo visitado pelo ciúme. ― Não seja grata àqueles senhores.
― Temos de ser, Edward... A palavra de todos eles teve peso maior do que a de Laurent. Por certo que outras pessoas comentarão, mas eu serei apenas comparada, não tida como a mesma pessoa.
― Será? ― o barão não tinha tanta certeza. Não queria arreliá-la mais, mas não poderiam se descuidar. ― Eles evitaram o escândalo, contudo, conhecem a verdade.
― Vamos confiar que mantenham sua palavra ― ela pediu e desceu o olhar para as mãos entrelaçadas.
Sua exposição era irrelevante ante ao que estava por vir. Depois de apertar os dedos que prendiam os seus, Isabella voltou a encarar seu marido. Contudo, antes que dissesse algo mais, vieram bater à porta. Após um bufar aborrecido, Edward foi atendê-la. De onde estava Isabella pôde ver a consternação no semblante de Marie.
― Vim saber se precisam de algo, senhor...
― Estamos bem, Sra. Newton ― Edward fingiu não reparar no rosto úmido. ― Apenas cuide para que não sejamos incomodados. Como deveria ser caso nada além do esperado tivesse acontecido. Para todos os efeitos, essa é nossa noite de núpcias.
― Perdão, senhor! ― Marie baixou o olhar para as mãos. ― Estava preocupada com a baronesa... Pensei em...
― Preparar-lhe uma xícara de chá ― o barão completou pela criada, conseguindo achar graça na ação infalível. ― Pois prepare, mas espere que eu a chame para que traga.
― Obrigada, senhor!
Ao fechar a porta, Edward sorria e tal imagem tocou fundo no coração da noiva. Como viveria se o perdesse? Não haveria chá que a recuperasse, considerou.
― Edward...
― Ouviu o que eu disse a Marie? ― ele a interrompeu já a retirar seu fraque. ― Esqueça o para todos os efeitos... Essa é a nossa noite de núpcias e não abrirei mão de aproveitá-la.
― Faz soar como se fosse a última... ― Isabella murmurou, após um calafrio.
― Seu temor dá o tom ― Edward retrucou ao se colocar diante dela. Sem deixar de encará-la, retirou a gravata branca e a atirou ao chão. ― Confio que amanhã, nesse mesmo horário, estarei aqui. Espero apenas não ter de argumentar com minha esposa antes de despi-la.
Sim, o temor soprava coisas assustadoras em seu ouvido, porém ela não pôde evitar que o gracejo a divertisse. Obrigando-se a ser contagiada pela mesma confiança, ela se pôs de pé.
― Não terá de argumentar nem mesmo hoje, meu senhor.
― Folgo em saber ― Edward sorriu e desprendeu a mantilha antes de soltar a presilha dada por Rosalie. ― Essa foi minha vontade desde que a vi.
Isabella assentiu escrutinando o semblante seguro, os olhos azuis fitos na ocupação das mãos que no momento lutavam para desfazer o coque. Silenciosa, ela deixou que Edward soltasse os cachos e os escovasse com os dedos até que estes lhe emoldurassem o rosto.
― Assim está melhor ― disse ele, compenetrado, tocando ao mesmo tempo as pedras do colar e a pele macia. ― É essa a imagem que quero ver todas as noites.
Antes que Isabella se visse obrigada a externar palavras que sairiam murmuradas, talvez chorosas, Edward a girou para soltar os mínimos e múltiplos botões do corpete.
― A intenção é instigar ou cansar o noivo? ― ele troçou antes de iniciar o trabalho, compadecido com os tremores de sua esposa. Queria animá-la. ― Avise à costureira que sou um homem persistente.
― Prefiro guardar esse detalhe para mim ― ela disse no mesmo tom, trêmula, pelos toques mornos em sua pele enquanto ele desabotoava o corpete sem pressa.
Ao livrá-la do vestido, ainda sem movê-la, o barão afastou os cabelos de noite e tocou o ombro com seus lábios, levando sua baronesa a pender a cabeça para o lado. Depois de igualmente livrá-la do espartilho, ele migrou seus beijos para a nuca. Sem receio, amparou os seios nus e brincou com os mamilos sensíveis, já enrijecidos.
― Edward... ― ela gemeu de prazer e surpresa ao ter a pele de sua nuca chupada enquanto recebia o carinho doloroso e excitante das mãos experientes.
― Ocorreu-me que não pude ver as marcas em sua pele da última vez em que as fiz ― ele sussurrou-lhe ao ouvido. ― Este será um motivo a mais para me trazer de volta. Não seria justo...
Não, não seria justo com nenhum deles dois, foi tudo o que Isabella pôde pensar. Incontinenti foi bruscamente girada para receber um beijo aflito. Sequer lhe ocorreu despir seu marido, somente o abraçou pelo pescoço e retribuiu com a mesma urgência.
Para Isabella, o beijo carregado de promessas, pareceu durar uma eternidade até que fosse deitada e recebesse o peso de Edward sob si. As bocas se separaram para que ele atacasse seu pescoço, colo e seios. Estes o barão sugou com fome desmedida. Neste ponto Isabella soube que a tentativa de leveza sentida durante o desabotoar de seu vestido, estava perdida.
Com isso não a espantou que fosse deixada para que Edward se despisse rapidamente, sempre a olhá-la. Nu e teso livrou-a da saia e anáguas, da pantalona, e retornou para unir-se a ela como marido, não mais amante. Não o fez sem liberar um gemido gutural, que não calou em tempo algum.
Verdadeiramente Edward gostaria de ser delicado. Quis proporcionar à sua esposa uma noite de amor terno, como se de fato fosse a primeira de uma jovem esposa, porém entender que aquela poderia, sim, ser a última, tornou-o apaixonado e egoísta. Com isso contentou-o senti-la estremecer, rendida ao gozo, instantes antes de ele mesmo entregar-se.
― Por favor... Desista do duelo ― implorou a jovem, arfante. ― Morrerei se o perder...
― Não posso ― disse Edward, seguro ainda que sôfrego, segurando-lhe o rosto para que o encarasse. ― Tolerei aquele infeliz por tempo demais... Caso tivesse sido afrontado em particular... como de costume, talvez eu tentasse resolver de outra maneira... Em vez disso o canalha a apontou diante de todos... Disse que esteve metido em seus lençóis... Preciso calá-lo!
― Concordo, mas... em um duelo? ― Isabella entendia que não haveria outro meio, visto que processar Laurent Hunt estava fora de cogitação, mas simplesmente apavorava-a a ideia de perdê-lo.
― Não se preocupe... Já disse que sou bom com as espadas. É o mesmo com os floretes. Apenas são mais leves
― Laurent é desleal ― retrucou. ― Não há habilidade que supere uma trapaça.
― Estarei bem assistido ― Edward redarguiu, sorrindo com confiança. ― McCarty, Whitlock e Jacob estarão ao meu lado, atentos a quaisquer movimentos suspeitos. Agora venha cá.
Isabella se deixou ser atraída para um abraço depois que seu marido se deitou ao lado, contudo não desistiria.
― E ainda assim, nenhum deles será mais rápido do que uma bala caso Laurent aja à traição ― Isabella replicou antes de abraçá-lo com força. ― Não vá!
― Se não for, serei tido como covarde e Hunt atingirá seu objetivo ― a voz de Edward soou de modo duro. Entendia-a, e gostaria que fosse recíproco. ― É o que deseja para mim?
Ciente de que choraria caso falasse, Isabella apenas maneou a cabeça negativamente.
― Pois bem... ― disse Edward, acariciando-lhe os cabelos. ― Então me deixe ir com a mente livre de preocupação. Acredite que ficarei bem e assim estarei. Ajude-me, Bella.
Com o embargo a lhe travar a garganta, Isabella assentiu.
― Eu acredito ― foi tudo que conseguiu dizer.
― Assim está melhor ― Edward lhe beijou o alto da cabeça, segurou o queixo trêmulo e lhe erguer o rosto antes de dizer, compenetrado: ― Sequer notará a minha falta.
Isabella nada disse. Não conseguiria, pois a cada instante reconhecia um gesto, uma fala de despedida. Não queria fraquejar, com isso agradeceu quando Edward a deixou para solicitar o chá. Permaneceram em silêncio até que Marie viesse bater à porta. Somente então o barão a deixou sob os lençóis, cobriu-se e foi até a porta para receber a bandeja.
― Tomei a liberdade de trazer uma xícara de chá para o senhor.
― Obrigado, Marie... E, diga-me... Todos já se foram?
― Ainda não, mas restam poucos convidados.
― O Sr. Zimmer está com minha mãe? ― indagou. Mostrou-se firme, mas preocupava-se com Elizabeth.
― Na verdade, Lady Westking se recolheu, como todos da casa e o Sr. Zimmer tomou para si a tarefa de despedir-se... Na qualidade de amigo! ― Marie acrescentou rapidamente.
― Nada menos do que ele é ― disse Edward, indicando que o interrogatório havia terminado. ― Boa noite e... obrigado por tudo, Marie.
Evidente que a governanta entendeu a razão de ele empregar o nome comumente usado antes de a formalidade se fazer necessária, pois de súbito travou o maxilar e seus olhos marejaram.
― Senhor... ― ela balbuciou, embargada.
― Seja também uma boa amiga e vá ajudá-lo. Com licença...
Antes que Marie irrompesse em pranto, Edward fechou a porta. Ao se voltar, encontrou a esposa sentada, abraçada às cobertas para cobrir a nudez, com os cabelos em desalinho. Naquele instante ele corrigiu a si mesmo; era aquela a imagem que levaria dela. Em sua mente somente eliminaria o olhar aflito. Sorrindo para animá-la, aproximou-se e se sentou ao lado.
― Beba enquanto está quente ― recomendou. Isabella se serviu, deixando-o livre para dispensar a bandeja no criado-mudo.
― Não vai tomar o seu chá? ― ela indagou com estranheza.
― Não gosto de chá... Seria preferível algo mais forte, mas... ― ele a interrompeu antes que externasse seu alarme. ― Não beberia nada do tipo tampouco. Quero apenas que termine para que possamos dormir. Preciso de descanso.
Com o coração ainda aos saltos pelas emoções ininterruptas, Isabella assentiu e sorveu o líquido quente. Não tinha fome. Em vez disso, o que comeu no almoço brincava em seu estômago, mas não ao ponto de adoecê-la. Mais do que nunca entendia que deveria ser forte por seu marido. Tanto que bravamente ignorava as despedidas inconscientes.
Ao terminar de beber o chá de melissa ― reconheceu a erva ―, Isabella passou a xícara a Edward. Depois de deixá-la na bandeja, ele fez com que ela se deitasse e se estendeu ao lado. Logo a atraia para seu peito.
― Podemos ir até Embry, caso queira ― ofereceu o barão, esquecido de Marie, Senior. Queria distraí-los.
― Não ― negou a baronesa e se aconchegou nos braços fortes. ― Não acredito que ele nos espere e sinto-me egoísta para dividi-lo esta noite. Duvido até mesmo que consiga dormir...
― Penso o mesmo ― admitiu, saboreando a possessividade inversa e o compartilhamento do egoísmo. ― Então, vamos permanecer quietos, aproveitando essa noite que será só nossa.
Isabella quis fazer exatamente o contrário, aliciando-o, excitando-o como bem sabia para cansá-lo. Para persuadi-lo a desistir daquela loucura, e nada fez além de obedecê-lo. Também entendia que acima da defesa de sua honra estava o brio de um homem. Se novamente tentasse dissuadi-lo terminaria por ofendê-lo, pois Edward não abriria mão de uma coisa nem de outra.
― Irá voltar, não é mesmo? ― indagou em um sussurro. ― Tenho sua palavra?
― Tem minha palavra ― disse seguramente.
Não estava em seus planos se deixar atingir. Entendia que sua vontade era limitada ao acaso, e sabia que se o pior acontecesse, no mundo ainda restariam Jacob e Samy para proteger Isabella e seus filhos de Laurent Hunt, contudo deveria ser ele a livrá-la daquele pulha obsessor. Então, faria o que estivesse ao seu alcance para cumprir a palavra empenhada.
O encerramento de um som a assustou e desnorteou. Ao sentar e abrir os olhos, Isabella se encontrou sozinha na cama espaçosa. De súbito o entendimento veio. Contrariando suas expectativas ela dormiu profundamente nos braços do barão, tanto que não notou quando foi deixada, assim como não o viu se vestir e sair. Parecia impossível, mas reconheceu ainda que despertou com o bater da porta.
Ansiosa, sem atentar ao fato de estar nua, correu até o armário de roupas. Não ver algumas peças indicaria apenas que estariam na lavandeira, mas o mesmo não se daria com a falta de um grosso casaco preto e de um par de botas de montaria. Com o coração fundo no peito, correu até a cômoda e abriu a gaveta na qual Edward guardava a arma e não a encontrou tampouco.
Ao finalmente sentir frio e náusea, Isabella correu de volta para a cama, cobriu-se e se abraçou ao travesseiro do barão com os olhos postos nos ramos de lavanda. Primeiro se ressentiu por não ter sido acordada, e no segundo seguinte agradeceu ao fato. Caso Edward se despedisse ela seria capaz de fazer uma cena que o abalaria. E jamais iria desejar tal coisa!
Lutando contra o embargo, Isabella apertou ainda mais o travesseiro e rogou como podia ― como se lembrava ― para que o barão não tardasse a voltar para abrir aquela porta; incólume.
Ѽ
O frio daquela manhã combinava com a neve que ainda podia ser vista em muitos pontos. Impressão, de certo, mas a fazenda de Laurent Hunt parecia lúgubre como o espírito de seu dono. Era como se o sol não atingisse aquelas terras o suficiente para iluminá-la, aquecê-la. A mansão avermelhada Dawolds House era esplendorosa, contudo deprimente e fria. O inverso de Apple White, que resplandecia em qualquer tempo e sempre estava repleta de vida.
Tanto que ao descer para se encontrar com seus cunhados, Jacob e Wiliam Morrigan, em seu caminho Edward cruzou com muitos criados. Inclusive Leonor que não o abordou por compreender a advertência em seu olhar. Para Marie não haveria restrições, então aceitou seus votos de sucesso com paciência e educação. O barão não se surpreendeu ao ver Senior Zimmer às costas de sua mãe ao deixar a casa.
― Acabe com essa sandice e volte logo! ― ordenara Elizabeth, como se ele fosse até o jardim atirar em pombos. Enfim, sua presa era maior; um abutre, tão lúgubre quanto a casa em que morava. Edward rogava que fosse fácil abatê-lo para que sem demora pudesse ir embora.
Impaciente, olhou ao seu redor. Ele, Emmett, Jasper, Jacob e William estavam em uma clareira em meio ao bosque nos arredores da casa, ao lado de dois empregados do fazendeiro. Adiantara-se para o duelo, com isso não poderia acusar seu oponente por atraso, ainda assim maldizia a demora. Com os anos de inimizade, era esperado que Hunt estivesse tão ansioso quanto ele em eliminar de vez aquela questão.
Sensível ao humor do cavalheiro, Draco pateou no lugar, obrigando seu dono a segurar as rédeas com maior firmeza.
― Deveríamos ter vindo à hora marcada ― comentou o conde, também a domar seu frísio; tão agitado quanto o andaluz. ― Sand Storm, parado!
― Eu sinceramente preferia que nada disso estivesse acontecendo ― disse o médico. ― Sinto que vamos contra a evolução. O barão deveria ter sido superior.
― Com seu perdão, Dr. Morrigan, bem viu que toda superioridade foi eliminada por Laurent Hunt... Já que não havia nada mais a ser feito, o que Westking deveria era ter exigido que este embate se desse em outro lugar ― disse o duque, reiterando o que repetiu durante a ida até a fazenda, olhando em torno com desagrado. ― Neste descampado ficamos vulneráveis.
― Hunt quer a mim ― salientou o barão, com os olhos postos no caminho ―, não a nenhum dos senhores. Se a ideia fosse me dar um tiro à distância, há anos já o teria feito.
― Ainda assim, concordo com Vossa Graça ― disse Jacob, inquieto sobre o baio, encarando os homens de Laurent. ― Quem sabe o que se passa pela cabeça daquela criatura?
Ele poderia, pensou Edward. No entanto, o barão preferiu tratar a questão como retórica e se manteve calado. Há muito tempo que a antipatia gratuita tinha adquirido uma base tanto real quanto sólida. A disputa por Isabella apenas a elevou e deu a Edward a certeza de que não seria emboscado. Antes, talvez. Agora, Laurent não se contentaria com ações que lhe privassem de vê-lo morrer lentamente, como bem dissera.
E a certeza vinha por ele sentir o mesmo, Edward. O dedo em riste do fazendeiro, apontado para sua esposa aos olhos de todos, inflamava-o mais do que as palavras proferidas. Por esta razão ele agradeceu aos céus por Isabella não ter acordado enquanto se vestia, e não a chamou antes que saísse. Não precisaria rever a tristeza nos olhos negros, quando estes deveriam apenas brilhar de alegria, para que a mesma sanha vil se apossasse dele.
Edward não se importava com o que viesse depois. Tornar-se assassino ― condenado ou não ― seria um preço que pagaria de bom grato. Arreliava-o mais a espera. Estava prestes a externar sua insatisfação, quando ouviu o tropel que anunciou a aproximação de um trio. Laurent Hunt vinha à frente de Otto Cooper e um dos guardas. Edward o reconheceu, mesmo que usasse roupas comuns.
― Meu senhor já vem ― disse um dos empregados de Laurent, desnecessariamente.
― Até que enfim! ― Edward exclamou alto o bastante para que o recém-chegado o ouvisse do caminho. ― Começava a acreditar que fosse preciso buscá-lo embaixo de alguma cama.
― Rá! Rá! ― Laurent simulou rir da provocação, enquanto cruzava a porteira. ― Apenas quis dar ao senhor um tempo a mais, antes de... derrotá-lo.
Jacob pigarreou e de imediato levou a mão à cintura, levando os homens que os cercavam a fazerem o mesmo.
― Largue a arma, Jacob ― Edward ordenou, sem olhá-lo.
― Isso mesmo! ― Laurent encarou o moreno bravio, com empáfia aviltante. ― Obedeça ao seu dono. Está é uma disputa entre cavalheiros.
― Encerremos a conversa ― Edward sugeriu. Ignorando o inspetor que com sua presença confirmava o péssimo caráter, tomou a iniciativa de apear.
Os cavalheiros fizeram o mesmo. Em tempo algum Edward perdeu Laurent de vista. Encarando-se, retiraram seus chapéus, as luvas e despiram seus sobretudos e casacos para entregá-los a quem estivesse mais perto, ficando ambos de camisa e colete. Jacob recebeu as peças de seu amigo, dobrou-as e a estendeu sobre a sela de Draco, o chapéu deixou no pito. Sem que fosse preciso pedir, desprendeu a bainha do florete e o entregou ao barão.
― Obrigado, Jacob ― disse Edward, encarando-o por fim. ― Saiba que foi uma honra sempre tê-lo ao meu lado.
― Evite despedidas ― disse Jasper. ― Não traz boa sorte.
― Não me despeço, Whitlock ― disse educadamente. ― Apenas comento a verdade.
― Por mim, o barão tem o tempo que desejar para se despedir dos senhores ― troçou Laurent enquanto conferia o fio do próprio florete. ― Espero com ansiedade por esse momento, mas não me custa prolongá-lo um pouco mais.
― Senhores ― Otto chamou a atenção de todos. ― Minha palavra ainda vale. Não estou aqui como inspetor, mas meu pensamento é movido por minha função. Portanto, tendo em vista que estamos entre cavalheiros respeitáveis, me sinto na obrigação de tentar evitar o confronto. Sir Laurent poderia voltar atrás no que disse e sir Edward o perdoaria. Lavraríamos uma ata na qual a honra de todos fosse confirmada e...
― Sem atas ― Edward o interrompeu. ― Não há meio de liquidar essa questão com palavras em um papel.
― Então que se atenham às regras oficiais ― Otto insistiu. ― Desarmem-se. Um padrinho de cada oponente irá verificar os floretes. Eu determinarei o início do embate e ao primeiro sinal de sangue, o duelo será encerrado para que o ferido receba atendimento. Com isso encerra-se a questão. De acordo?
― Whitlock ― Edward chamou o conde à guisa de resposta ―, quero que seja o padrinho a verificar a espada de Laurent.
― Inspetor ― disse Laurent, indicando a espada do barão ―, me dê a honra.
Otto Cooper se adiantou e, sustentando o olhar bravio de Edward ― que entregava sua pistola a Jacob ―, recolheu o florete para análise. Verificou o fio e a empunhadura antes de devolvê-la.
― Está de acordo ― determinou.
― Talvez o meu florete ― retrucou Edward ―, mas não se pode dizer o mesmo de sua ligação a Hunt. Não é mesmo, senhor?
― Apesar de tudo, vim para manter a ordem ― disse Otto, seguro. ― Não julgue o que não sabe, senhor.
Edward preferiu nada dizer. Sabia o que via, e se antes restasse alguma dúvida de que Alec Gruen tinha sido eliminado para não denunciar o mandante do ataque à sua sidreria, esta não existia. Quando se livrasse de Laurent, determinou o barão, cuidaria para que o inspetor fosse destituído de seu posto, ou transferido. Queria-o longe.
― O florete do Sr. Hunt está de acordo ― disse Jasper e a entregou a Laurent depois que este repassou sua arma a uma de seus empregados. ― Vamos terminar logo com isso ― pediu ao inspetor.
― Sendo assim... ― Otto se afastou, olhando de Edward a Laurent. ― Em posição, senhores.
Sem deixar de encarar seu oponente, assim como Laurent, Edward se afastou dos homens que os assistiam. O barão colocava-se em posição de guarda para esperar a voz de ação, quando o fazendeiro gritou e atacou:
― En garde!
― Trapaceiro! ― Jacob bradou e tentou avançar, assim como Emmett.
― Deixem! ― Coube a Jasper pará-los ao entender os braços à frente deles, sempre com os olhos atentos à luta iniciada antes da ordem. ― Westking não foi atingido e já se defende.
Mesmo atento aos avanços de Laurent, Edward não deixou de ouvir o comentário de seu cunhado. Sim, defendia-se, mas não fora atingido por um triz. O erro de seu atacante foi deixar transparecer no olhar o que faria. Restou preparar-se e anular o avanço do florte com destreza.
Logo o que se ouvia era somente os tilintar das lâminas, a respiração carregada dos duelistas.
Laurent se mostrou ser entendido no manejo do florete. A marcha era elegante, o deslocamento preciso, como Edward se orgulhava de fazê-los. Jamais poderia imaginar que um homem sem berço tivesse tal conhecimento, o que o surpreendia. O erro de seu oponente era a ansiedade em eliminá-lo. Com isso Laurent se perdia em afundos mal efetuados e em ineficazes ataques por estoque, quando tentava enganá-lo, demonstrando que atingiria um lado de seu corpo para tentar perfurar outro. Invariavelmente o peito, à altura do coração.
Edward, por sua vez, apesar de sentir a mesma gana, sabia esperar e bastou ver a oportunidade para ter sucesso em sem avanço.
― Desgraçado! ― gritou Laurent em meio a um urro de dor ao ter seu abdômen cortado de lado a lado. O talho foi superficial, porém logo o sangue vertia, empapando o colete.
― Já basta! ― determinou Otto Cooper. ― Sir Edward, o senhor venceu!
― O diabo que venceu! ― bradou Laurent, sem jamais parar de atacar, batendo seu florete contra o de Edward, que não ocultava o sorriso escarninho. ― Vou arrancar essa expressão de seu rosto, barão!
― Parem! É uma ordem! ― Otto tentou avançar, contudo ele e seu guarda foram contidos pelos homens de Laurent.
Daquela vez os acompanhantes de Edward sequer se moveram. Sabiam que o duelo não terminaria até que um dos desafetos fosse morto.
― Sir Edward! Sir Laurent! ― Otto insistiu. ― Exijo que parem imediatamente!
― Está cansado dessa ladainha, barão? ― indagou Laurent. Antes que tivesse uma resposta, disse: ― Eu estou, então devemos nos afastar.
Edward anuiu e sem nunca deixar de bloquear o ataque do florete adversário, começou a recuar. Ainda pôde ouvir o protesto de Jacob, mas não parou.
― Fique onde está ― ordenou, sem olhar para o amigo.
Seu foco era Laurent Hunt, aquele ser abjeto que em breve eliminaria com uma estocada precisa. Era questão de tempo, pois durante a luta o barão decorou todos os pontos falhos do fazendeiro. No momento, apenas se divertia e sentia crescer o desejo de entender a razão de tamanho ódio antes que chegasse ao fim.
― Como se sente ao saber que o matarei? ― provocou-o.
― Absolutamente nada, pois não acontecerá... Já levou de mim coisas demais, barão ― retrucou Laurent, antes de avançar.
Demonstrando sua superioridade, Edward se defendeu e riu escarninho.
― Gostaria de saber o que essa sua mente insana acredita que eu possa ter levado, por que tanto desprezo ― disse Edward, esquivando-se de novo ataque. ― Jamais teve nada que eu pudesse desejar... Nem mesmo Isabella.
― Ela era minha! ― Os olhos castanhos se inflamaram. ― Se não tivesse cruzado meu caminho mais uma vez, ela cederia. E isso me acalenta... Pode o tempo passar, posso até mesmo morrer, mas há de se lembrar que eu me deitei com ela, que a toquei com todas as partes de meu corpo.
Laurent poderia ter razão, mas naquele instante Edward entendeu que tal detalhe não deveria arreliá-lo jamais. Ao notar que estavam distantes e não seriam ouvidos, desdenhou:
― Teve apenas os serviços de Amber... Toques ensaiados, frios e impessoais para animá-lo a deixar o dinheiro que a sustentava. Imagino o quanto ela tenha se esfregado durante o banho para apagar as suas impressões. Diga-me... Quantas vezes ela o beijou? Quando pôde chamá-la pelo verdadeiro nome? Quando a ouviu dizer que o amava ao...
― Desgraçado! ― gritou Laurent, calando-o. Rubro, atirou o florete ao chão. ― Vou matá-lo com minhas mãos! Venha se for homem!
Edward não pestanejou. Há tempos tinha ganas de esganar aquele homem. Livre do florete, ele se preparou para o ataque que veio com a esperada violência. A fúria do fazendeiro se equiparava à sua. Ser socado no rosto e no estômago foi tão comum quanto igualmente atingir os mesmo pontos. Em instantes tinha em suas mãos o sangue vertido pelo ferimento de Laurent.
― Por sua empáfia, esperava-se que fosse azul ― Edward zombou ao sujar o rosto de Laurent após um soco. ― E é isso que o mata, não? Não ter sangue nobre?
― Ah... Mas eu o tenho. Tanto quanto você, barão... ― Laurent assegurou ao recuar alguns passos, arfante e instável sobre as pernas. ― O sangue que corre aqui ― deu palmadas em um dos braços então apontou para Edward ― é o mesmo que corre aí.
― Como em todos nós ― disse Edward, também ofegante. Mesmo com a diferença de idade, Laurent era ágil e bem disposto. ― Não há diferença, estafermo.
― Creio que não me compreendeu... ― agora era Laurent quem debochava. ― Quer saber por que o desprezo, não é mesmo? O que levou de mim?
― Nada, é a resposta ― Edward redarguiu com segurança. ― Desde sempre hostilizou-me gratuitamente e de uns tempos para cá, cismou que lhe tomo coisas. Mas desde o início é você quem se incomoda com minha presença. Sabe Deus por que até mesmo tentou sabotar minha sidreria...
― Minha! ― Laurent ciciou, mas foi a força da palavra que levou Edward a estacar e ouvir, em alerta. ― Apple White, as outras propriedades em Westking, a sidreria, o título... Tudo... Tudo seria meu se você não existisse.
― O que diz, animal? ― Edward indagou no mesmo tom, trêmulo. Laurent Hunt não poderia...
― Animal sim, irmãozinho... Filho do mesmo cão que o colocou no mundo. Caso ainda não tenha entendido, eu sou o primogênito do falecido barão. Se ele tivesse assumido minha mãe e a mim em vez de persuadi-la a repassar o fardo a um pobre diabo qualquer, tudo o que hoje você possui estaria comigo!
― Isso não... ― o barão deu um passo atrás, maneando a cabeça em negativa. O senhor que chamou de pai, mesmo que tivesse perdido seu respeito e admiração, não poderia aplicar-lhe aquela póstuma piada de péssimo gosto. ― Não... Isso é mentira!
― Tenho provas em minha casa ― Laurent assegurou. ― Que, aliás, ao contrário do que você e seus amigos esnobes acreditam, é minha legitimamente. Um pequeno agrado de meu adorado pai em troca de meu silêncio.
― Crápula! Como ousa! ― Edward vociferou. ― Quem foi o desgraçado que colocou ideia tão estapafúrdia nessa sua cabeça doente?
― Mais respeito ao falar de minha mãe! ― disse Laurent no mesmo tom. ― Ninguém mente em seu leito de morte. E ela me contou toda a história. Viemos para cá, pois o pai que conheci desperdiçou todo o dinheiro dado a ela por sir Edrick para o livrasse da responsabilidade. Foi ele que nos trouxe para trabalhar aqui, como um favor... E minha mãe aceitou. Era isso ou ele contaria a verdade ao meu pai. Com o tempo ela aprendeu a amá-lo e não queria perdê-lo.
― Não...
― Já disse que tenho provas. Minha mãe guardou as cartas que trocaram. Assim que soube da verdade eu o abordei e exigi reparação. Fui tratado como lixo, afinal, o pomposo barão já possuía um herdeiro conhecido e adorado ― Laurent indicou Edward com um gesto amplo. ― Não queria aquele arremedo de homem como pai então eu aceitei seu dinheiro e essa casa para me esquecer do fato.
― Que seja então! ― Mesmo que lhe custasse, o barão aceitou a verdade. ― Ainda assim, não justifica o modo como me trata; o ódio. Se não o queria como pai, qual o problema comigo?
― Eu não sabia como me sentiria até ser apresentado a você... O amigo querido por todos, aplaudido e festejado como se fosse um príncipe herdeiro... Entendi que tudo isso deveria ser meu. Infelizmente já era tarde... Você é o filho legítimo. Mas se não existisse... Ah, se não existisse, aquele velho vaidoso iria atrás de mim e me daria seu nome para perpetuar seu nome, para não perder o título.
― E acha que seria diferente? ― Edward não queria, mas começava a se compadecer. Por extraordinário que fosse Laurent era também vítima do primeiro barão. Homem abjeto que renegou um filho concebido quando ainda era muito jovem. ― Acredita que sou querido e aplaudido sem razão e tudo que tenho você teria igual se fosse o caso de eu não existir?
― O que insinua? ― Laurent torceu o rosto em desprezo. ― Que eu não seria apto a cativar? Que não seria digno de ser festejado?
― E para tanto precisaria estar no meu lugar?... Ter o que tenho? Conhece as mesmas pessoas, frequenta os mesmos lugares... Não é festejado simplesmente porque não inspira a amizade alheia. ― Ao recordar um detalhe, a condescendência de Edward e foi. ― Antes disso, tenta conseguir afeto à força, como fez com Isabella.
― Não tem o direito de me acusar! ― defendeu-se Laurent, bravio. ― Não sabe o que se passou. O que se passa... Eu amo aquela mulher!
― Cretino! ― Edward avançou um passo ao que foi parado pela mão de Laurent em seu peito.
― Agora vai me ouvir... Eu a amo. Sempre amei... Desde a primeira vez que me deitei com ela propus tirá-la daquela vida, mas ela nunca quis... Então, um dia Amber me avisou que não receberia outro homem... Você não pode imaginar a alegria que senti, pois acreditei que ela finalmente me aceitaria, mas a diaba se corrigiu e disse que não receberia homem algum. Quando entendi que estava sendo friamente dispensado, enlouqueci.
― Espancou-a! Acredita que a conquistaria com socos? ― indagou de punhos cerrados. ― Com ameaças a Embry? Você não entende nada sobre as pessoas, como espera ser aceito?
― Entendo que boa posição, força e fortuna a tudo conquistam... Basta retirar as pedras que surgirem em meu caminho. Antes, eu queria apenas arruiná-lo, desmoralizá-lo para vê-lo abaixo de mim. Somente então eu diria a verdade... Entretanto, agora que roubou meu bem mais precioso nada disso importa. Meu único desejo é eliminá-lo.
Dito isso, Laurent empurrou Edward para longe. Por não ter se preparado, o barão caiu, porém antes que o fazendeiro o atingisse com um pontapé nas costelas, rolou e pôs-se de pé.
― Matar-me não trará o que é meu para você! ― salientou Edward, defendendo-se de novos golpes. ― Agora que me contou a verdade, podemos resolver de outra forma... Vamos ignorar que o cortei. Não haverá vencedores... Façamos a ata de reparação e cada um segue com sua vida.
Por ter baixado a guarda, Laurent o atingiu com um soco que o derrubou. Logo este se lançou sobre o corpo caído e o prendeu pelo pescoço, apertando-o.
― E o que viria depois estimado irmão? ― Laurent desdenhou, enojado. ― Almoços em família? Festas nos salões de Apple White? Eu seria o titio de um menino que deveria ser meu? Assistiria você ser feliz ao lado da minha mulher? É o que sugere? Não... barão. O que tem pode não ser meu depois que o matar, mas sem você no caminho, cedo ou tarde serei eu a dormir com Isabella todas as noites?
Ante tais palavras a fúria arrefecida voltou com força. Como pôde, Edward colocou a perna direita entre eles, então o pé e empurrou Laurent, livrando seu pescoço para que pudesse respirar.
― Sobre meu cadáver! ― determinou em um rouco ciciar antes de voltar à luta.
Novamente se batiam, mangas e coletes eram rasgados. Quem os via de longe não sabia dizer qual deles detinha a vantagem. Edward não sabia, somente acreditava tê-la por notar o cansaço do adversário. Valendo-se de seu melhor preparo, socou o maxilar de Laurent. Com seu oponente no chão, lançou-se sobre ele para colocá-lo inconsciente. Cego de fúria, não atentou que este tinha o florete ao alcance da mão.
Ao vê-lo, este já estava hirto, esperando que seu peso caísse sobre ele. Foi com horror que sentiu a lâmina em espeto atravessar sua carne até o meio. Com um urro vitorioso, Laurent o derrubou ao lado e se levantou.
― Aí está! ― vangloriou-se. ― Sobre seu cadáver será!
Com a dor a paralisá-lo, sentindo o ar lhe faltar, Edward viu Laurent se afastar e pegar seu florete. Ao voltar, apontou-o para o peito já ensanguentado. Ignorando as ordens distantes para que parasse, afastou o braço para imprimir força à estocada final.
― Adeus, barão! Não se preocupe com... ― Um estampido o calou e logo Edward tinha seu eterno desafeto caído ao lado, mirando-o com olhos castanhos vidrados. Um filete de sangue surgiu na boca entreaberta instantes antes de apenas restar o silêncio, a escuridão.
SPOILER:
― Papai foi brigar com aquele senhor? ― Embry maximizou os olhos.
― Quando seu pai voltar, nós saberemos o resultado dessa briga, querido. No entanto, esse é um assunto de adultos ― disse amavelmente e lhe beijou o alto da cabeça. ― Vá brincar com seus primos. Hoje é domingo e em breve eles partirão. Aproveite o dia... Vá até o pomar. Amy, por favor, leve-os até lá.
― Sim, Lady Westking! ― Amy inclinou a cabeça e tomou o menino pela mão.
Embry se afastou a contragosto, mas sem argumentos. Uma vez sozinha Isabella acelerou seus passos e por fim desceu. No hall não encontrou qualquer criado, então deixou a casa. Antes que maldissesse a tranquilidade de domingo, ouviu o ranger de madeira e cascos de cavalos que vinham em disparada pela lateral da casa.
Logo Jacob e Beni passaram por seu campo de visão. O moreno sobre um baio e o outro exortando a correr o cavalo atrelado à carroça.
― Jacob! ― Isabella gritou, correndo pelos poucos degraus para segui-lo. ― Jacob, espere!
Beni ameaçou reduzir a velocidade ao ver Jacob parar, exasperando-o.
― Não pare! Apresse-se, como mandei ― Jacob ordenou. ― Logo o alcançarei.
― Jacob... ― o chamado mal passou de um sussurro, quando Isabella parou ao lado de seu cavalo. ― O que aconteceu? Onde está o barão?
Jacob torceu os lábios, encarando-a com indecisão. Nesse instante Isabella atentou à palidez da tez morena, à sombra no olhar. Acreditando ter a resposta, a dor em seu peito intensificou-se, levando-a a abrir a boca em muda exclamação e sufocar. Jacob apeou apressadamente para ampará-la.
― Senhora! Respire! ― pediu, batendo levemente no rosto lívido para que ela não perdesse os sentidos. ― Perdoe-me se a assustei. O barão está bem! Ele está bem!
― Não... ― ela conseguiu murmurar, tentando ficar de pé. ― Não está... Vejo em seus olhos.
― Certo! Não posso mentir... Como esperado, sir Laurent agiu à traição e o feriu gravemente, mas seu marido está vivo, senhora. É o que importa.
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