Book With One-Shot's - Vol.02

6 Pôr-do-Sol no Jardim de Tóquio


O jardim de Shinjuku estava mais silencioso do que de costume naquela tarde. As árvores altas projetavam sombras longas sobre os caminhos de pedra, e os últimos raios de sol penetravam por entre as folhas, tingindo tudo com tons de laranja e dourado. Aya caminhava lentamente, sentindo o peso do dia a desaparecer com cada passo. Tinha decidido escapar do escritório mais cedo, apenas para observar o pôr-do-sol e refletir sobre os últimos meses da sua vida.

Sentou-se num banco próximo do lago, onde as carpas nadavam preguiçosamente, espalhando pequenas ondulações na água. As suas mãos repousavam no colo, segurando um livro que já nem lembrava por que tinha trazido. Ao contrário do habitual, não queria ler. Apenas queria estar ali, a absorver o calor suave do sol e a ouvir o canto distante de pássaros que regressavam aos ninhos.

Aya lembrou-se de Haruto, um amigo que conhecera no início da faculdade. Sempre tinham falado sobre sonhos, viagens e música, mas, com o tempo, a vida levou-os por caminhos diferentes. Ele mudara-se para Osaka, ela ficara em Tóquio, e as mensagens tornaram-se menos frequentes até desaparecerem. Hoje, enquanto observava o lago, sentiu uma saudade inesperada, uma vontade de partilhar aquele momento com alguém que entendesse.

O vento trouxe-lhe o cheiro das flores de cerejeira que ainda resistiam ao fim do inverno. Uma criança passou correndo, perseguindo uma borboleta imaginária, e Aya sorriu, lembrando-se da leveza que às vezes esquecemos quando crescemos. De repente, algo chamou-lhe atenção: um pequeno cão brincava perto da margem, e junto dele corria um homem que, por alguma razão, lhe parecia familiar.

Aya piscou os olhos e percebeu que era Haruto. Ele parou, encostou-se a uma árvore e acenou, surpreso e sorridente ao mesmo tempo. Aya sentiu o coração disparar. Aproximou-se devagar, tentando conter a emoção.

— Aya? — disse ele, quase sem acreditar.

— Haruto… — murmurou, sorrindo e sentindo as lágrimas ameaçarem escapar.

Sentaram-se juntos no banco, observando o lago e as carpas que mergulhavam. Começaram a falar sobre a vida, sobre empregos, mudanças, e sobre como os pequenos momentos têm o poder de nos trazer de volta àquilo que realmente importa. O tempo parecia ter parado ali, apenas para lhes permitir reencontrar a amizade que nunca desaparecera verdadeiramente.

O sol começou a tocar o horizonte, tingindo a água de tons intensos de laranja e roxo. Haruto pegou na mão de Aya, num gesto simples mas cheio de significado, e disse:

— Sabes, às vezes pensamos que o tempo nos afasta, mas acho que ele só nos prepara para reencontros melhores.

Aya sorriu, sentindo a verdade daquelas palavras. Respira profundamente o ar fresco do jardim, sentindo o peso do passado a dissipar-se. Olhou para o céu e pensou que, independentemente do que acontecesse amanhã, aquele momento seria sempre dela: um pôr-do-sol partilhado, um reencontro inesperado, a certeza de que algumas amizades resistem a tudo.

Quando finalmente se levantaram para sair, o céu já escurecia suavemente, e as luzes do jardim começavam a brilhar. Aya sentiu uma alegria tranquila, percebendo que os recomeços nem sempre exigem grandes gestos; às vezes, bastam um banco, um lago e a presença de alguém que nos compreende.