Book With One-Shot's - Vol.02

7 O Comboio do Amanhecer


O comboio da linha Yamanote deslizou silenciosamente pelos trilhos, ainda vazio às seis da manhã. Ryo segurava firme a mochila e olhava pela janela, vendo a cidade acordar lentamente. Os prédios iluminavam-se com os primeiros raios de sol, e o reflexo nas janelas metálicas criava um mosaico de cores suaves. Ele suspirou fundo, sentindo que cada amanhecer tinha algo de único, mesmo que fosse apenas ele a observá-lo sozinho.

Hoje não era um dia comum. Ryo tinha decidido visitar Kanagawa, cidade costeira a algumas horas de Tóquio, onde passara grande parte da infância. Havia tanto tempo que não regressava, e o coração batia-lhe acelerado com a expectativa de rever lugares, cheiros e memórias que julgara perdidas.

Enquanto o comboio avançava, Ryo recordava-se das tardes passadas com o seu melhor amigo de infância, Satoshi. Correndo pelas ruas de terra batida, explorando cada esquina e cada rio, prometiam que, mesmo separados, nunca se esqueceriam. Mas a vida, com a sua rotina e responsabilidades, afastou-os. Mensagens deixaram de ser trocadas, e o silêncio instalou-se, pesado, como se o tempo pudesse apagar tudo.

Quando chegou à pequena estação de Kanagawa, o ar fresco do mar invadiu os pulmões de Ryo. Caminhou até ao cais, sentindo a areia ainda húmida sob os ténis, e avistou a ponte antiga que ligava os bairros da cidade. Cada detalhe parecia igual, mas, ao mesmo tempo, diferente, o tempo deixara a sua marca subtil nas casas, nas árvores e nas ondas que batiam suavemente contra as rochas.

Enquanto caminhava, ouviu uma voz familiar:

— Ryo?

Virou-se e viu Satoshi, parado junto à ponte, com um sorriso tímido e as mãos nos bolsos. O choque transformou-se rapidamente em alegria, e os dois amigos correram um para o outro, rindo, abraçando-se como se o tempo não tivesse existido.

— Não acredito que ainda estás aqui! — disse Ryo, quase sem fôlego.

— Eu também não — respondeu Satoshi, sorrindo. — Mas aqui estamos, de novo.

Sentaram-se na margem, observando o mar brilhar ao sol nascente. Começaram a falar sobre tudo e nada: a escola, os empregos, os sonhos que haviam mudado, os que permaneceram. Cada palavra trazia de volta a familiaridade que apenas a amizade verdadeira consegue manter, mesmo após anos de distância.

Ryo pegou na pequena garrafa de água que tinha trazido consigo e ofereceu a Satoshi. Trocaram risos sobre as antigas aventuras, recordando os momentos em que corriam pela praia e jogavam pequenos barcos de madeira na água. A maré subia e descia, indiferente ao tempo, lembrando-lhes que algumas coisas, como o mar e a amizade, nunca mudam realmente.

Quando o sol subiu mais alto, iluminando toda a costa, os dois amigos levantaram-se. Decidiram caminhar pela cidade, explorar os cafés e lojas de recordações, sentindo que aquele reencontro era um presente inesperado, mas precioso. Ryo percebeu, com um calor no peito, que recomeços assim não precisam de planeamento: surgem no momento certo, de forma natural e sincera.

Enquanto regressavam à estação para apanhar o comboio de volta, Ryo olhou para Satoshi e sorriu. Os anos que passaram separados já não tinham importância; o que contava era aquele instante, o reencontro, a certeza de que algumas amizades resistem a tudo, ao tempo, à distância e ao silêncio.