Book With One-Shot's - Vol.02

5 O Videjogo e a Amizade Perdida


O quarto de Takumi estava iluminado apenas pelo brilho do monitor. As cortinas azuis oscilavam com o vento que entrava pela janela entreaberta, e o aroma a ramen instantâneo ainda pairava no ar. Há anos que não jogava com Haru, o seu melhor amigo desde os tempos da escola, mas hoje havia uma partida marcada, e o coração de Takumi batia ligeiro, quase ansioso.

Havia algo estranho em reviver aquela rotina. Quando eram adolescentes, passavam horas a rir, a planear estratégias, a fazer piadas sobre cada derrota. Depois, a vida separara-os: Haru mudara-se para Osaka, Takumi ficara em Tóquio, e as partidas online tornaram-se esporádicas até desaparecerem por completo. Hoje, uma mensagem inesperada acendera de novo a conexão:

"Vamos jogar? Tenho uma surpresa para ti."

Takumi sorriu, os dedos trémulos a apertarem o comando. Entrou na sala virtual e encontrou o avatar familiar de Haru à espera. Por um instante, tudo parecia igual: o mesmo humor, as mesmas provocações, o mesmo entusiasmo silencioso quando uma jogada perfeita resultava. Mas, por baixo do ecrã, havia anos de distância, de silêncio, de vida vivida separadamente.

— Não acredito que ainda te lembras do nível secreto do jogo — disse Takumi, rindo.

— Como poderia esquecer? — respondeu Haru, a voz cheia de nostalgia. — Sempre fui melhor que tu nessa fase.

As horas passaram sem que percebessem. Cada vitória e derrota era celebrada com risadas, e cada falha, apenas um motivo para continuar. Mas, no fundo, havia mais do que jogo ali: havia recordações guardadas, memórias partilhadas, pequenos momentos que os moldaram como amigos e como pessoas.

Durante uma pausa, Takumi olhou pela janela. O céu começava a tingir-se de laranja e rosa, o sol a despedir-se no horizonte de Tóquio. Pensou em como as vidas mudam, como o tempo corrói a rotina, mas não apaga o vínculo verdadeiro. Haru sentou-se ao lado do microfone, ainda invisível através do ecrã, mas com a sua presença sentida, quase palpável.

— Sinto falta de jogar contigo assim — disse Takumi, com uma ponta de saudade na voz.

— Eu também — respondeu Haru. — Mas olha, talvez possamos tornar isto mais regular. Não importa a distância.

O coração de Takumi aqueceu. Era incrível como algo tão simples, como uma partida de videojogo, podia reconectar pessoas, trazer conforto, lembrar que mesmo depois de anos, algumas amizades permanecem intactas.

Quando terminaram a partida, desligaram os computadores, mas a sensação de proximidade ficou. Takumi permaneceu junto à janela, observando os edifícios iluminarem-se, os últimos raios de sol a desaparecerem. Por um momento, sentiu que a distância e o tempo nunca tinham realmente existido.

Pegou no telemóvel e enviou uma mensagem:

"Obrigado por não te esqueceres. Vamos repetir isto em breve."

Haru respondeu quase de imediato:

"Sempre. Amizade verdadeira não se perde."

Takumi sorriu, sentindo a paz invadir o peito. Às vezes, os reencontros mais significativos não acontecem em cafés ou ruas ensolaradas, mas através de gestos simples, uma mensagem, um jogo partilhado, um riso que atravessa anos e quilómetros.

No silêncio do quarto, enquanto as luzes da cidade cintilavam lá fora, Takumi percebeu que a vida podia ser complicada, mas algumas coisas permanecem constantes: o valor das memórias, a força das amizades e a capacidade de recomeçar, mesmo depois de longos silêncios.