Boneca de Porcelana
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Três anos antes...
M
ary Anne encarou a pilha de papeis a sua frente, soltando um suspiro arrastado. Ler aquilo tudo levaria a tarde toda, e ainda tinha que organizar todos os papeis por ordem de urgência para que a Rainha pudesse responder as mensagens mais importantes primeiramente.
Normalmente realizava a tarefa sem reclamar, às vezes ate gostava da distração que a atividade proporcionava, mas aquele dia era especial, não podia simplesmente organizar papelada no dia do seu aniversario.
Porem era seu dever como Dama de Companhia ajudar a Rainha com seus deveres reais, então a única coisa que poderia fazer era tentar finalizar a tarefa o mais rápido possível para que pudesse aproveitar o resto do dia— Isso se não aparecesse mais nenhuma tarefa para ser realizada. Com uma ultima olhada para o relógio que jazia ao seu lado ela voltou à atenção para a tarefa, determinada a terminar aquilo o mais rápido possível.
Quando ela levou a mão direita à primeira carta, ouviu a porta de carvalho se abrir com um leve rangido das dobradiças, o sussurrar da saia do vestido da mulher conforme o tecido arrastava no carpete carmesim. Mary não precisou virar o rosto e olhar para ela para saber quem era. Ninguém entrava no quarto de uma Rainha sem bater primeiro, com exceção da própria Rainha. Alem disso sabia que ela voltaria logo, considerando que ela fora somente a uma consulta com o alfaiate.
—Mary, poderia me ajudar com isso, por favor? — perguntou ela, chamando a atenção da dama.
Mary arregalou os olhos violetas ao ver a pilha de vestidos que ela carregava nos braços. Apressou-se a ajudá-la, correndo para pegar os vestidos e guardá-los no closet. Não levou muito tempo para que todos os vestidos estivessem pendurados nas araras.
Então ela voltou ao quarto, cruzando os braços e lançando um olhar repreensivo para a Rainha.
—Senhora, por que não pediu ajuda a alguém? Ninguém se recusaria a ajudar à senhora. —disse ela, desfazendo a expressão seria e exibindo um sorriso divertido ao ver a Rainha revirar os olhos. —Ainda acho que deveria pedir ajuda em situações como essa... Mas ainda assim não consigo acreditar que ninguém tenha se oferecido...
Ela a interrompeu com um gesto da mão, saindo apressadamente para o closet.
—Ah, se ofereceram, mas eu recusei a ajuda. Posso muito bem realizar tarefas sem ajuda de ninguém. —Aquele seu amigo, não lembro bem o nome dele... O guarda...
—Thomas?
—Isso, ele mesmo. Ele se ofereceu para ajudar, foi muito gentil. —disse ela, voltando do closet com uma caixinha de veludo vermelho nas mãos. —Ele me pediu para avisá-la que ele irá vê-la hoje à noite.
Os lábios vermelhos dela se curvaram em um sorriso malicioso, os olhos violeta se voltando para a face da dama. Mas Mary não pareceu perceber a expressão da Rainha.
—Não me surpreendo. Thomas nunca se esquece do meu aniversario. — Argumentou, fixando o olhar na pilha de papeis novamente. —Mas, enfim, tenho que terminar de verificar e organizar esses papéis.
Com surpreendente rapidez ela foi até a escrivaninha e tomou a pilha de papeis para si, escondendo-os no criado-mudo ao lado da cama.
—Nem pensar. Hoje é seu aniversario, e não vai trabalhar hoje. —A revelou, se aproximando de Mary e guiando-a pelos ombros ate uma das poltronas. —Mas antes... —Ela sentou Mary na poltrona, ajoelhando-se a frente da dama logo em seguida, estendendo a caixa de veludo vermelho. —Quero te dar isso. Espero que goste.
Ela voltou os olhos para a caixa, depois para o rosto sorridente de sua senhora. Não esperava ganhar nenhum presente da Rainha, mas se sentia bem por ela ter lembrado, por ter se dado ao trabalho de comprar um presente.
Com um enorme sorriso nos lábios ela pegou a caixa de veludo e a abriu devagar, revelando um lindo colar de safiras. Ele era discreto, porem elegante e lindo. As pedras formavam uma pequena coroa que ficava suspensa por duas correntes de prata. Mary sentiu os olhos marejarem, se enchendo de lagrimas de alegria. Ela conhecia aquele colar, e estava surpresa de a Rainha ter decidido presenteá-la com ele.
—Mas é o colar que a senhora ganhou do Rei Peter quando completou 17 anos —Disse, encarando a Rainha com evidente surpresa. —Não posso aceita-lo.
Mary fechou a caixa de veludo e o devolveu a Rainha, que simplesmente fechou as mãos da dama ao redor da caixa.
—Quero que fique com ele. Tenho milhares de jóias, ele não me fará falta. — disse ela, levantando e limpando uma lagrima solitária que descia pelo belo rosto. —Além disso, ele ficará lindo em você.
Ela pegou a caixa da mão de Mary, pegou o colar e o posicionou no pescoço esguio da moça, fechando-o em seguida. Um sorriso orgulhoso estampava os lábios da Rainha.
—Não é sempre que completamos 17 anos, não é mesmo? —perguntou ela, tomando as mãos de Mary para si. —Agora me diga o que acha de passar o seu aniversario com sua melhor amiga?
Mary arregalou os olhos ao ouvir a menção de Jany, não podia ser verdade...
—Jany? Mas Jany esta com os pais, em Los Vales. Ela só estará de volta no fim do ano e...
A Rainha balançou a cabeça negativamente, soltando um risinho.
—Não, Jany esta aqui, no palácio. E esta a esperando para levá-la ao teatro.
A Dama não se conteve, abraçou a Rainha com força, envolvendo-a com os braços finos. Ela pode sentir as mãos da Rainha afagando seus cabelos dourados, retribuindo o abraço.
—Obrigada, por tudo.
A Rainha se afastou dela, encarando-a carinhosamente.
—De nada, minha querida.
Jany a avistou imediatamente e correu para abraçá-la, envolvendo-a em um abraço forte e apertado. Naquele momento a Lady não se importou se iria amassar a saia do vestido ou não. Só queria abraçar Mary, queria matar a saudade que sentia da dama.
Enterrou o rosto nos cabelos dourado da outra, sentindo o cheiro de chocolate que emanava dos cabelos dela. As lagrimas escorriam pelo rosto, deixando um rastro de rimel. Então ela se afastou, olhando para Mary e sorrindo em seguida.
—Senti tanta sua falta, Anne! — disse, abraçando-a novamente. —Nunca fiquei tão feliz em vê-la.
Não se importava se estava sendo dramática. Sentia falta de Mary e queria deixar isso bem claro para ela.
—Calma Jany, você só ficou fora por três meses. —Disse ela, se desvencilhando de Jany e exibindo um grande sorriso. —Não ficamos tanto tempo separadas.
—Mas foram os piores meses da minha vida! —Argumentou, pegando um lenço e limpando o rosto. —Viu? Você me fez borrar a maquiagem!
Mary soltou uma risada, tomou o lenço da mão de Jany e começou a limpar o rosto dela, limpando o rastro de rimel que as lagrimas deixaram.
—Senti falta de você também Jany. —Disse, terminando a limpeza e entregando o lenço para Jany. —Quem mais iria me fazer rir desse jeito?
Jany balançou a cabeça, empurrando Mary ligeiramente com o ombro. Ela gostava da forma como podia ser ela mesma com a dama, deixando de ser uma perfeita Lady, deixando a postura que a mãe a obrigara a tomar para si.
—Sem graça! —Disse, lembrando de repente que era o aniversario de Mary. —Espere... Hoje é seu aniversario! —Ela abraçou Mary novamente, depositando um beijo na bochecha da outra. —Feliz aniversario, Anne!
Mary só balançou a cabeça, rindo consigo mesma.
—Agora venha, com sorte poderemos ir à confeitaria antes de a peça começar. —Disse, pegando a mão de Mary e puxando-a em direção a carruagem que as esperava fora dos portões do palácio. —Prometo que hoje será o melhor aniversario da sua vida.
Notas finais
Posto daqui o cap dois no domingo, ate la meus amores! bjos da tia Cass!
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