Bola demolidora

2 Episódio 2 - O mar leva a vida.


É horrível abrirmos os olhos e não termos nem noção de onde estamos, isso já deve ter ocorrido pelo menos por um instante com algum de vocês. Então imagina só, abrir os olhos em um quarto estranho em cima de uma cama com colchas brancas, e Daniela deitada com roupas intimas do seu lado, e ainda não se lembrar direito como tudo aconteceu e você foi parar ali. Mentira, eu me lembro apenas que foi demais e estávamos bêbados no final da festa, ficávamos fugindo da Luiza como quem brinca de “esconde-esconde”. Lembro de muitas risadas e subirmos as escadas quase caindo até chegar aqui. Muitos podem pensar que foi uma loucura, mas é apenas um fim de semana comum. — Pensava Heitor enquanto ainda com um pouco de ressaca se levantava sem fazer barulho e catava as roupas que estavam no chão para se vestir e sair antes que a moça acordasse. Em seu celular havia várias ligações perdidas de sua mãe. E destruído pela noite, Heitor foi para casa com um dos choferes de Daniela. “Bom dia, linda.” Mandava essa mensagem para Fátima enquanto estava no automóvel.

Daniela acordava meio atordoada também e ao ver que Heitor já havia saído, ela ficava aliviada, pois precisava se arrumar já que iria receber uma visita muita importante de empresários que iriam fechar o contrato dela por 1 ano. E assim, ela se arrumou toda, como se tudo que tivesse passado também não representasse nada. Ela tinha que parecer apresentável para seus novos milionários. Então caprichou no vestido e no decote que fazia aparecer suas tatuagens e ao descer pelo chamado de sua empregada, os senhores já estavam na sala de reuniões a esperando.

— Bom dia. Desculpe pela demora, tive um pequeno contratempo. — Dizia Daniela enquanto com sorrisos e simpatia cumprimentava os senhores. E assim eles resolvem toda a papelada dando boas-vindas oficialmente à Daniela na cidade.

Enquanto isso, Cristina chegava cedo da missa, ela ainda estava triste e não sabia como enfrentar sua família. Ao chegar em casa, seus pais mais uma vez questionam sobre a universidade.

— Sim papai, eu passei! Mas terei que estudar a noite, pois só tinha vagas nesse horário. — Mente Cristina

— Que maravilhoso minha filha, meus parabéns, mas não quero ver você até muito tarde nessas ruas ok? — Alertava seu pai que assim como o pai de Fátima era muito conservador e cuidadoso.

— Não se preocupe, papai! O ônibus universitário nos deixa praticamente na porta do condomínio e saberei exatamente o que fazer.

— Essa é minha garota! — E assim os dois se abraçavam e Cristina se sentia culpada com tamanha mentira.

Fátima estava muito feliz com a mensagem que recebera de Heitor, e trocaram algumas mensagens mas não puxou muito assunto pois queria se fazer de difícil. Com isso, chega sua prima Luiza na campainha.

— Olá priminha, ansiosa para amanhã?

— Estou, muito… — As duas se cumprimentam com um abraço e assim Luiza entra e as duas começam a conversar.

— E então… Como foi ontem na mansão? — Perguntava Fátima curiosa sobre Heitor mas não demonstrava interesse nele.

— A festa foi boa, mas é que não vi o Heitor, vi poucas vezes, apenas… Acho que ele saiu mais cedo. — Justificava Luiza.

— Tem certeza? Ele não estava com outra? — Perguntava Fátima um pouco preocupada.

— Não, ele não é disso. Mas por que tanto interesse? — Estranhava Luiza. Isso fazia com que um sorriso surgisse no rosto de Fátima, porém logo disfarçava.

— Nada… Curiosidade apenas! — E assim as duas se despediam pois precisavam resolver outras coisas…

Ao chegar em casa, sua mãe estava esperando-o no sofá, dava para ver que a coitada não dormiu a noite. Ele entra de mansinho para que não acordasse sua mãe, mas ela o escuta mesmo assim e o chama atenção.

— Precisamos conversar, Heitor. As coisas não ficarão assim!

— Mamãe, eu estou muito cansado, não pode ser mais tarde isso? — Tentava justificar.

— Nada de mais tarde. Sente-se aí. — Falava com um tom firme, aquela não seria uma conversa amigável. Então, seu filho sentou em um dos sofás e se colocou a ouví-la. Então ela continuava… — O que está fazendo da sua vida? Acha bonito esse papel? Quando você vai virar gente? Eu me separei de seu pai, você ainda era muito novo por isso acho que acabei querendo compensar a falta dele te deixando sem limites, mas isso acabou. Você precisa ser mais responsável.

— Mamãe, já conversamos sobre isso. Eu não vejo porque trabalhar ou estudar, se já ganhamos uma ótima pensão do meu pai, que pelo menos pra isso ele serve. Tem pessoas que trabalham o dia todo e não ganham o que eu ganho nessa mesada. — A mesada era no valor de R$ 1.500,00.

— Não se trata disso. Mas já que tocou no assunto, você só receberá 400 reais de agora em diante por mês. Quero ver você tomar jeito de gente, porque você não namora sério? Tenta fazer uma vida boa pra você?

— O quê? 400 reais é apenas o que eu gasto de marlboro em 1 mês. Mamãe, não pode fazer isso comigo. — Ficava inconformado, enquanto olhava sua mãe nos olhos.

— Pois então, eu sugiro que você comece a economizar, porque definitivamente a vida não é assim. Não vai mais comprar suas besteiras, estou farta disso.

— Meus irmãos já são bem sucedidos, fora meus meios-irmãos que não conheço, todos tem excelentes empregos e ótimas famílias, mas não me peça para ser o que não sou. — E assim ele se levantava trancando-se no quarto. Era um passo muito grande e sua mãe ficava com o coração apertado de fazer isso, mas não via outra alternativa.

Enquanto isso, Miguel preparava suas aulas de Inglês, ele odiava a turma na qual dava aula, para ele, eram todos crianças que não gostavam de Inglês e não apreciavam seu trabalho.

— Como está, maninho? — Perguntava Fátima ao vê-lo no notebook.

— O mesmo de sempre. Eu odeio a minha vida. — Falava enquanto salvava os arquivos da aula.

— Ai credo, não fala isso que Deus castiga. O que houve dessa vez?

— Você não tem ideia do que eu passo. Porque é bonita e a preferida daqui de casa, eu sou feio, não deveria nem ter nascido. Odeio tudo no meu corpo. Esse tipo de reclamação era corriqueira e ninguém dava mais importância quando ele começava com isso.

— Você fala assim porque não conhece o amor. — Dizia Fátima enquanto intimamente pensava em Heitor.

— Você não sabe se não conheço. Mas de qualquer maneira ninguém iria querer ficar com um cara como eu. — Nesse momento a irmã recebe uma ligação de Heitor e pensa: “Nossa, é ele, o que será?”

— Não tenho paciência pra isso, maninho. Com licença! — Esse era o tipo de respostas que ele ouvia todos os dias.

Então, ela vai lá pra fora correndo em um lugar que não costuma aparecer ninguém e atende o celular.

— Alô?

— Oi, lembra de mim? Perguntava Heitor, sua voz no telefone era ainda mais encantadora do que pessoalmente.

— Claro! Como está?

— Bem bem… Mas e então, quando a gente vai se ver? É sério, a gente poderia combinar de se encontrar pra sair e ver no que dá… — Pelas conversas no whats, ela já sabia que isso se tratava de um flerte. E ficava sorrindo como uma boba.

— Eu não sei. Essa semana começa minhas aulas.

— Então, que tal hoje? — Fátima continuou a se fazer de difícil…

— É que não sei se posso. Onde seria?

— Poderíamos nos ver em algum lugar, na praia, no calçadão, tomar uma água-de-coco, sei lá… O que você quiser! — Tudo estava muito cedo, mas Fátima ficou realmente tentada a aceitar.

— Te ligo mais tarde para confirmar. — E assim ela ficava pensativa sobre o convite.

Enquanto isso a campainha da mansão de Daniela tocava e ao atender era Luiza…

— Olá amiga, não tive tempo de te dá as boas-vindas, quase não te vi ontem. — Dizia Luiza enquanto abraçava Dani.

— É verdade, você sabe, tinha muitos convidados para receber! — E assim Dani a convidava para entrar.

— Eu acho que vou parar com o Heitor, ele não me procurou desde que nos vimos na livraria. Não quero voltar a ser aquela garota de 2 anos atrás. — Desabafava Luiza, que via Daniela como a única pessoa que poderia ser aberta sobre Heitor.

— Amiga, eu acho que ele está gostando de você, ele não te viu ontem por isso saiu super cedo, mas acho que não deve desistir dele. — Aconselhava descaradamente enquanto a empregada chegava com as xícaras de café.

— Você acha? Sei lá, acho que ele só me vê como amiga mesmo.

— Não seja boba, ele é homem, é claro que se ele perceber o sinal verde, irá avançar! — Isso deixava Luiza pensativa em continuar com seus planos de aproximação.

— Talvez esteja certa, né?

— Sempre estou. Mas hoje não faça nada! Deveria ficar aqui, vou receber alguns amigos íntimos para uma festinha privê e vai ser divertido. — E assim, a campainha tocava e entrava mais dois caras muito atraentes e com o corpo perfeito… Deixava Luiza mais animada, então foram os quatro para uma salinha que servia como um estúdio, tinha diversas luzes e era bem particular, muitas bebidas e outras drogas rolaram, no final todos se pegaram.

Depois de confirmar que se encontrariam na praia, Fátima chegava um pouco mais cedo, mas não demorava para que Heitor também chegasse e por fim se cumprimentavam com um caloroso abraço. Iniciando o passeio, andando pelo calçadão da praia até chegar em uma barraca onde vendia água-de-coco e outras coisas, e então ficaram um tempo por lá. Conversando sobre tudo, até chegar no assunto que é inevitável quando se está conhecendo alguém: Os exs. Fazendo com que a garota falasse um pouco sobre sua relação com o Victor.

— Porque vocês terminaram? — Questionou Heitor até como forma de puxar assunto.

— A gente brigava muito, e eu sempre acabava perdoando, fora que ele viajava e me deixava só sem avisar, ficava muito tempo fora, os pais não moram aqui sabe, por isso ele precisava ir pro interior de vez em quando. Mas isso era horrível, ficamos uns 6 meses nisso.

— Caramba! E vocês nunca transaram?

— Eu sempre tive um sonho de me casar virgem, e vou me casar assim, como Deus quer. — Respondia Fátima.

— Isso é bobagem. Você está perdendo um dos maiores prazeres da vida. É uma necessidade básica do ser humano. Se quiser posso fazer as honras… — Brincava Heitor.

— Não sei, não é uma necessidade pra mim, se isso acontecer, eu quero que seja com alguém que eu ame ou que pelo menos eu sinta confiança e saiba que é pra sempre.. — Dizia Fátima.

— Eu acho que você iria gostar, eu estou meio que acostumado com virgens, sempre aparecem pra mim, e nem procuro. Sempre desconfiadas mas depois que eu apareço tudo muda. — Dizia Heitor enquanto fixava nos olhos exageradamente azuis de Fátima. Ela não acreditava no que ele acabava de dizer, mas ficava muito curiosa sobre.

— Você não me falou sobre sua ex. — Dizia Fátima. De modo que cortasse um pouco o assunto constrangedor que a fazia suar um pouco.

Ele dava um sorriso e então prosseguia: — Ela era parecida com você, foi das pessoas que mais me fizeram sofrer. Mas não estou dizendo isso para que sinta pena ou que se veja nela, nada disso! Mas só que entenda, como conturbados são meus relacionamentos. No primeiro encontro a pessoa já fica morrendo de amores e eu não consigo entender, acho que nunca vou entender, não consigo me entregar para alguém que já no primeiro encontro diz que me ama, e se entrega assim. — Concluía Heitor.

— Acho que vamos nos dar bem então, porque não sou de dizer as três palavras e muito menos revelar assim de cara como me sinto com a pessoa. Eu acho essa palavras são muito fortes. Só devem ser usadas se realmente for algo que se tenha certeza que vai ser para a pessoa certa. Quem tiver minha confiança em 100% e isso é algo praticamente impossível de se conseguir. — Concluía Fátima.

Nisso a água-de-coco já tinha acabado e já estava começando a escurecer. Era tão bom estar com uma companhia, tão boa como a dele, era diferente do que imaginei, pensei que fosse alguém fútil que só se importava com aparências, sexo e drogas. E isso tinha me feito ter mais interesse ainda nele. Pensava Fátima. Então, os dois tiraram uma rápida selfie e saíram dali. Ele estava tão cuidadoso com ela, que parecia um príncipe. Eles ainda não tinham se beijado, pois era a primeira vez que saíam, mas dava para notar que eles se controlaram para que isso não acontecesse. Ficaram em um lugar meio escuro enquanto viam as ondas se formando e quebrando na praia. Era perfeito. Enquanto fumavam dois cigarros juntos e ele ficava acariciando suas pernas e braços. Conversando baixinho... "Parecia que não tinha mais ninguém no mundo só a gente e aquele mar." Pensava Fátima.

— Você fuma igual minha mãe. — Comentava Heitor em um tom de brincadeira.

— Como?

— Como se tivesse sensualizando com o cigarro… — E assim ele a imitava enquanto riam com aquilo.

— Talvez eu queira apenas seduzir você. — Falava Fátima com um sorriso que levaria a um beijo, mas logo sendo interrompido pelo celular, era seu pai, perguntando onde a filha estava e ao desligar Heitor dizia:

— Se você quiser eu te deixo em casa. Amanhã você precisa acordar cedo para a faculdade né?

— Sim, obrigada Heitor! — E então os dois iam até o carro e ele a deixa na porta do condomínio… A cabeça de Fátima estava a mil com esse caloroso encontro, parecia um conto de fadas de tão perfeito. E enquanto ficava em sua cama pensando em tudo, chega uma mensagem dele em seu whats dizendo: “A tarde foi perfeita, espero te ver de novo.”