Blurred lines.

10 Sufocando.


Notas iniciais
E aí, gente? Minha semana de provas acabou, graças a Deus! E tentarei adiantar mais uns capítulos no meu arquivo, só para não me complicar com questão de tempo. Esse capítulo é aquela enrolação básica que vocês já conhecem, mas dessa vez eu dei uma pitada de sentimento... Ok, pitada não, tá mais pra uma tsunami de sentimentos. Preparem os corações! Boa leitura!

Sasuke.

Abri os olhos e percebi estar num quarto que não era o meu.

As lembranças me atingiram como um caminhão em alta velocidade, e eu não pude evitar de sorrir como louco. Tentei me mover, mas algo consideravelmente pesado impossibilitava meus movimentos. Sorri mais ainda quando notei que era o corpo de Naruto, que estava com a cabeça em meu peito e me abraçava.

Virei-me de frente para ele, e então ele sussurrou:

– Por que você não pode ficar quieto quando está tudo tão confortável? — Levei um susto por sua súbita fala, mas depois relaxei.

– Você sabe que Punk vai te matar, não sabe?


– Sim, eu sei. — Respondeu enquanto se aconchegava mais em mim, e abria os olhos. Pude ver sua expressão sonolenta, de rosto inchado e olhos cansados. Naruto conseguia ser bonito até assim. — Por que está rindo, Sasuke?

– Por nada. — Tentei conter-me. — Acho melhor levantarmos para tomar café da manhã, ou da tarde, não tenho ideia de que horas são.

– Hum... Não podemos ficar mais um pouco na cama? — Eu sabia que não conseguiria negar Naruto se ele ficasse insistindo assim tão manhoso.

Lembre-se, Sasuke: responsabilidades, trabalho, empresa, Itachi, novidades.


– Levante-se, Naruto. — Soltei-me do loiro e sentei na beirada da cama, estalando o pescoço e me espreguiçando. Levantei e saí do quarto, deixando Naruto por sua sorte, caso ele resolvesse sair da cama.

Fui ao banheiro, fiz minhas necessidades básicas e me direcionei a sala, pegando meu celular que estava em cima da mesinha. Duas ligações perdidas de Hinata, algumas mensagens de Itachi, e me tranquilizei ao saber que eram dez e meia de uma linda manhã. Alguns minutos depois Naruto saiu do quarto, claramente mal humorado, porém de aparência até que tranquila. Ele passou direto por mim, indo para a cozinha e preparando café.

Observei seus movimentos, achando-os de muita graça. Naruto se movia lindamente, pelo menos para mim. Achei bonito o modo que ele ficava na ponta dos pés para pegar o pó de café no armário, assim como achei uma gracinha quando abriu a geladeira para pegar manteiga e preparar torradas para nós. Era de todo modo fofo, para mim. E ao notar na merda que estava pensando, me estapeei mentalmente. Jamais, em hipótese alguma, eu deveria esquecer que Punk iria se vingar disso, só não sei como. Sentia-me surpreendido por ele não ter se comunicado comigo, ou tentado interferir em meu livre arbítrio. Talvez estivesse testando a minha lealdade e a de Naruto para com ele.


– Dormiu bem? — Resolvi quebrar o silêncio, pegando uma caneca de café que Naruto esticou-me, e uma torrada.

– Melhor impossível. Seu colo é confortável. — Algo estava claro: Naruto ainda estava mimado, e por mim eu daria todo carinho que ele precisasse. Concentre-se, Sasuke! — E você, dormiu bem?

– Sim. — Afirmei. — Assim que terminar aqui o café receio ter que ir, quero chegar no trabalho a tempo da hora do almoço. Obrigada pelo dia e pela noite, Naruto.

– Ok. — Ele bateu com a caneca na pia. — O que você tem? Todo formal e educadinho. Cadê o Sasuke meu amigo de ontem?

– Naruto, eu...

– “Naruto, eu...” o cacete, Sasuke. Está assim por causa de Punk, não é? — Naruto ergueu a sobrancelha direita. — Esses problemas eu resolvo, Punk é meu namorado e eu não tenho a menor intenção de enfurecê-lo, mas, se isso vier a acontecer, o máximo que posso fazer é conversar com ele. Se ele está me ouvindo agora, quero que saiba que eu não deixarei de passar tempo com você, que se eu tiver a oportunidade, irei dormir com você mais noites, assim como dormimos hoje. Não dá, Sasuke. Nós! Não dá para mudar. Eu te disse ontem que você me fazia sentir estranho, você disse que sente o mesmo. Você é meu amigo, Punk não vai me afastar de você. Nunca. Ele terá de entender.

Continuei calado, processando tudo que Naruto me disse.

Gostaria de me iludir, mas não podia. Queria poder ter entendido que eu fazia seus sentimentos por Punk vacilarem, e que ele me considerava uma opção, mas sinceramente, as coisas pararam de fazer um pouco de sentido assim que ele se referiu a minha outra personalidade como seu namorado.

Dizer que eu não sabia que isso era uma má ideia seria mentir, e eu não estou mais disposto a mentir para mim. Assim como seria mentira dizer que agora que meus sentimentos não estão consideravelmente magoados, e que eu me afastaria de Naruto. Jamais. Nunca. Como ele disse: eu sou seu amigo. E eu não abandono meus amigos. Bem, pelo menos é disso que eu tenho que me convencer.

– Sasuke? — Naruto chamou, provavelmente estranhando meu silêncio.

– É, eu estava preocupado sobre Punk, mas você me tranquilizou. Se é assim, por mim tudo bem, não nos afastaremos por causa dele. — Levantei os cantos dos lábios em um sorriso fraco, forçado, e até meio triste. E eu sabia que Naruto percebera esse sorriso meia-boca.

– Nunca. Promete? — Ele também deu um sorriso triste. Acho que sabia que estava indo para um caminho cada vez mais perigoso.

– Prometo.


XxXx

Naruto.

Quando cheguei ao Nove Ases tive de respirar fundo. Às vezes me esquecia de que, apesar de ser só um barman, eu amava aquele lugar. O cheiro, o ambiente, as cores... Tudo. Nessas horas chegava a pensar que queria ter nascido nos anos 50 só para ter a chance de cantar em mais de centenas de lugares como esse. Minha alma pertence a isso.

E não pude evitar de pensar em Sasuke. De manhã dei uma de maduro, de que conversaria com Punk e que poderíamos manter nossa amizade do jeito que estava. Tudo que eu não era e não tinha certeza. Eu não sou maduro, a tarde com Sasuke me fez sentir estranho sim, e eu não posso negar que era um estranho bom, mas isso não abalará meu namoro com Punk, a menos que o próprio queira. Mas não sei. Agora simplesmente não sei. É nessas horas de tédio que eu ligaria para Itachi, para contar tudo e pedir conselhos, ou até pensaria em trocar mensagens com Sasuke, que nesse momento não é Punk, mas não quero enfurecer meu namorado mais do que o necessário.

Engraçado é que quando planejei começar a ficar amigo de Sasuke, era tudo para irritar Punk, que deixou bem claro que eu não deveria chegar perto de sua personalidade original.

Bufei.

Que merda eu estou fazendo?


Comecei a limpar o bar, tentando não pensar em tudo que me perturbava. Em vão. E a pessoa que vi em minha frente não ajudava nada.

– O que quer aqui? — Perguntei em tom rude.

– Parece que as coisas não andam tão boas no País das Maravilhas, não é? — Hinata zombou. — Eu quero um...

– Dry Martini? — Ergui a sobrancelha. Ela confirmou com a cabeça e eu servi o drink de mau humor, tentando manter minha postura e não ofender uma cliente, ainda mais uma que era líder de uma gangue perigosa, e noiva de meu amigo.

– Não pense que eu esqueci aquele seu sorrisinho vitorioso quando saiu do Bar no sábado, Naruto. — Começou Hinata. — Você não sabe nem metade do que está se metendo, e não é uma boa ideia me afrontar. E sabe, Punk não é de toda essa confiança.

– Acho que eu sei muito bem se meu namorado é ou não de confiança, cabritinha. Pior é você que corre o risco de perder um casamento só porque meu namorado não quer, não é? Achou que eu não soubesse disso? — Apoiei os cotovelos na bancada, encarando Hinata de perto. — Punk é meu. E se ele não quiser, para você, nada feito.

– Sabe, Naruto... — Hinata abriu as pernas no banco. Seu vestido roxo, com uma fenda profunda na lateral esquerda, me revelou uma liga – um persexy, chame como quiser – que na parte interna da coxa prendia uma adaga de uns quinze centímetros. — Seria muito divertido acabar com você agora.

– Pois que tente. — Eu não tinha essa confiança toda, nem aqui e nem na China, mas mantive meu orgulho. Se Hinata fosse tentar algo, que tentasse. — Punk se vingaria o dobro depois, ou quem sabe até o triplo. E não pense que eu não não sei me defender. Até porque, sou um Ambu Nation agora. — Menti descaradamente. — Você é quase uma inimiga nata para mim.

– Oh, então agora é um Ambu Nation? Por sua sorte, não posso te tocar enquanto for protegido de Punk. Mas isso acabará, se você ceder a sua curiosidade.

A cabritinha me estendeu dinheiro para pagar o Dry Martini, e eu guardei no caixa. Para clientes que viam só para beber uma coisa, era sempre assim, eu mantinha o dinheiro e depois prestava minhas contas, para aqueles que vinham curtir a noite, a comanda era preenchida e deveria ser paga a entrada junto com os gastos quando fossem deixar o Bar. Hinata, como sempre, nunca se interessou em mais do que algumas doses, e tenho certeza que vinha ao Nove Ases mais para me observar do que para curtir o lugar.

Assim como chegou, Hinata foi embora. Discreta e elegantemente. Quem visse uma moça de uns vinte e tantos anos com um salto tão alto, um vestido tão oferecido, a tomaria por muito rica ou muito peculiar, afinal, não eram nem quatro horas da tarde e ela já se encontrava nesses trajes. Quando vi ela passar por uma das portas do Bar, agradeci mentalmente a Deus por ser tão bonzinho comigo e não ter deixado Hinata me esfaquear.

Fiz o que estava evitando até agora: liguei para Itachi.

Com o coração acelerado a cada barulho de chamada, rezei para que Itachi atendesse logo, afinal, fui praticamente ameaçado de morte!


Ei, pode falar.– Itachi atendeu, calmo como sempre. — Naruto?

– Eu! Oi! — Tentei rir, mas minha tentativa falha foi percebida por Itachi que, do outro lado da linha, pigarreou. — Não estou bem. — Murmurei.

Acho que quando você me ligar atenderei com “Itachi Uchiha, psicólogo nas horas vagas”.– Brincou. — Me diga então, Naruto, o que aconteceu para a princesa do meu irmão não estar bem?

– É, então, é sobre Sasuke que quero falar. — Escutei Itachi bufar como quem diz “me diga uma novidade”. — Ele dormiu na minha casa de ontem para hoje.

QUE? Ok, primeiro você dorme na casa dele e agora ele na sua, vocês estão tendo algum caso e eu não estou sabendo?– Fui obrigado a rolar os olhos para a pergunta estúpida de Itachi. É claro que não estávamos tendo um caso! — Que tal você aparecer no seu outro emprego para me contar mais sobre isso? Aliás, faltam duas semanas para o primeiro laboratório, já escolheu a música que vai cantar?

– Mais ou menos, estou com uma vaga ideia do que quero cantar. — Confessei. — É algo romântico, quase me sinto a Taylor Swift quando penso sobre.- Ri e Itachi me acompanhou. — Bem, eu estou meio resfriado e Sasuke tinha me ligado anteriormente, então chamei ele para ir à minha casa... E ele foi. Fizemos uma maratona de filmes “água com açúcar”, e rolaram alguns momentos estranhos... Ficamos no sofá, juntinhos, almoçamos juntos... E até rolou uma conversa sobre a sensação de familiaridade que eu tenho com ele, como se fossemos amigos há séculos e aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Quando a noite chegou Sasuke queria ir embora, mas não deixei, discutimos sobre quem dormiria no sofá e acabou que nós dois dormimos em minha cama. Eu dormi abraçado com ele, Itachi!

Meu Deus! E aí? O que você achou sobre esse dia com ele?– Itachi sempre me surpreendia, achei que escutaria o maior sermão da face da Terra.

– Achei maravilhoso. Sasuke é o contrário de Punk, entende? Ele não tem todo aquele charme de Punk, de saber manusear e maliciar cada sílaba de cada palavra, e de te fazer sentir como se estivesse numa bolha de calor e tensão de todos os tipos. Sasuke é doce na medida do possível. É inteligente, Itachi, Deus!, ele é tão... Encantador. Além de ser atencioso, gostar de tudo que eu gosto, e ser excelente companhia. Quando estou perto dele é como se tudo estivesse no lugar que era para ser, e isso me confunde. Não sinto culpa por ficar assim, até porque não fiz nada para merecer a desconfiança de Punk. Só é extremamente estranho. — Desabafei. — E o colo dele é tão macio.

Itachi gargalhava. Pelos sons escandalosos podia presumir que era quase um exorcismo, e que provavelmente ele deveria estar chorando de tanto rir.

Todos vocês deviam me escutar em tudo que eu digo! Avisei que isso seria divertido.– Suspirou. — Ai, Naruto, eu acho que você deve deixar rolar. Como você mesmo disse, Punk não tem motivos para desconfiar de você. És fiel a ele. Mas não reprima seus sentimentos por Sasuke, não mesmo, até porque eu acho que meu irmãozinho também sente algo por você.

– E sente. — Confirmei. — Ele disse que se sente do mesmo jeito que eu.


Isso é maravilhoso.– Se eu acreditasse em conto de fadas, até diria que Itachi estava feliz por Sasuke sentir algo por alguém que não fosse ele.

Depois de mais um tempo de conversa, desliguei o telefone e não pude evitar de pensar no que Hinata disse. Ela parecia ter tanta certeza de que Punk e eu acabaríamos que um calafrio quase me subiu pelas costas. Eu queria ligar para ele, pedir para vê-lo, abraçá-lo... Depois de passar um dia inteiro com Sasuke, eu estava sentindo falta de sua outra personalidade.

E não era qualquer falta. Não tenho a mínima ideia do porquê de eu estar assim, tão cheio de sentimentos. Só sei que a falta que Punk estava fazendo nesse momento se assemelhava a de um buraco no peito. O pior disso tudo era não poder ligar para ele, porque quem atenderia é Sasuke; não poder ir vê-lo, porque quem estaria é Sasuke; não poder tocá-lo, porque isso seria tocar Sasuke.

Não sabia se aguentaria isso de namorar um cara com duas personalidades, contando com o fato de que sua personalidade original me causa sensações estranhas. Preciso de algum refúgio para pensar, de algo para aliviar as emoções que nunca tive, mas que agora atravessam meu coração e mente de modo assustador. Logo, uma coisa meio maluca passou por minha cabeça, mas acho que poderia dar certo.


Sakura.


Estava deitada no sofá de minha casa quando uma das empregadas parou a minha frente, dizendo que uma visita chegara e que era urgente. Levantei-me, fechando meu hobby por cima da camisola preta, calçando meus chinelos confortáveis e fui até a porta para receber a tal visita.

Me surpreendi um pouco ao encontrar meu ex namorado parado ali.

– Oi... — Dei espaço para ele entrar. Se Naruto me procurou, algo definitivamente não está certo.

Entendam que não o odeio, mas o tempo passa, pessoas amadurecem e escolhas têm que ser feitas. Minha escolha foi sair de um relacionamento morno com Naruto, e procurar um futuro para mim, me encontrar, e talvez achar alguém para passar o resto da vida. E aconteceu. Como dizem, as garotas se desenvolvem antes dos garotos, então Naruto deveria estar passando por isso agora, já que encontrou Punk.

– Oi. — Ele cumprimentou, após tirar os sapatos e deixar suas coisas num canto da sala. Estranhamente familiar me era aquela cena, como nos tempos em que eu e Naruto namorávamos. Um sorriso escapou de meus lábios. — Podemos sentar? Preciso falar com você, acho que é a única que pode me entender agora, porque seu marido não entende.

Arregalei os olhos. Não me enganei, algo definitivamente não está certo mesmo.

Peguei na mão de meu ex-namorado e o levei até o sofá de couro branco, sentando-me e o obrigando a sentar, para logo depois puxar sua cabeça e deitá-la em meu colo. Se ele precisa de ajuda, pois então ajudarei.

– Me conte o que tanto te aflige. — Pedi, fazendo carinho em seus cabelos loiros.

– Não temos muito tempo, Sakura. Saí do trabalho e logo tenho que voltar, pois o Bar vai abrir. Eu só... Estou confuso. — Começou. — Sasuke passou o dia comigo ontem, me ausentou do trabalho e vemos filmes, almoçamos juntos, conversamos... O que eu não entendo é porque me sinto estranho com ele, e ao mesmo tempo que me sinto estranho, me sinto bem, ótimo, maravilhoso! Isso porque só almocei com ele algumas vezes e passamos um dia juntos. Imagina o que pode acontecer se eu continuar a vê-lo? O fiz prometer que não acabaria com nossa amizade, que continuaríamos juntos não importa o que acontecesse ou o que Punk pensasse, mas eu mesmo não tenho mais certeza se posso fazer isso.

– Está se sentindo culpado? — Perguntei. O que eu temia estava acontecendo: Itachi, mais uma vez, estava certo. Naruto era a Helena de Troia entre Páris e Menelau, ou no caso, Sasuke e Punk. Temia por Naruto, que estava se machucando.

– Não. Eu só não entendo porque agora, Sakura. — Ele soluçou, e eu temi que ele começasse a chorar. — Não me entenda mal, mas com você era só agradável estar junto, entende? Era... cômodo, eu diria. Nos momentos de carência estávamos juntos, nos de desejo também, mas não era tudo isso! Isso machuca, dói, não sei dizer ao certo! São muitas coisas que sinto ao mesmo tempo. É a fraqueza nas pernas quando vejo Punk, mas também é a sensação de que meu peito vai explodir com Sasuke. Não sabia que podia me sentir assim, e amaldiçoo o momento em que falei que queria saber o que era o amor.

Suspirei, continuando a fazer cafuné em Naruto. Por mais que eu soubesse que era necessário para o amadurecimento de meu amigo e ex-namorado, tive pena dele. Sei como machuca se apaixonar, já passei por isso antes, mas também sei como é bom quando correspondido. Mas com Naruto as coisas eram mais difíceis, afinal estava apaixonado por uma pessoa que na verdade eram duas completamente distintas.

– Você ama o Itachi? — Perguntou de supetão. Não estava preparada para essa pergunta, por isso arfei antes de responder.

– Sim e não. Itachi é como você era para mim, ao mesmo tempo que não é. Itachi e eu nunca nos tocamos do jeito que você e eu fazíamos, nunca chegou a ser nada carnal, apesar de eu desejar mais que tudo ter um filho. Itachi é frio, a única pessoa que ele ama é Sasuke, e vai continuar assim para sempre, presumo eu. Mas temos carinho um pelo outro, cumplicidade, sou para ele o que um magnata precisa: uma parceira. Se algum dia ele precisar assumir a Ambu Nation no lugar de Punk, eu estarei lá, com a mão em seu braço direito, para simbolizar que nosso poder é de ferro, absoluto onde quer que estejamos. Ele gosta de poder, e nada transmite mais poder do que uma bela mulher ao seu lado, com mais uns milhões em várias contas, no exterior ou não. Entende o que eu quero dizer? É totalmente diferente da sua situação. Você tem paixão, tem fogo, indecisão... E isso é bom, porque te faz sentir vivo. Há pessoas de todos os tipos, Naruto. — Observei seu rosto antes de continuar. Ele prestava atenção em mim, como se cada palavra minha fosse um conselho valioso, o que eu duvidava que fosse. — Itachi e eu nos alimentamos de coisas mais mundanas. Você, por mais que eu odeie admitir, é puro, e sempre invejei isso em você.

– Sou puro? Como assim?

– Olhe só você, apaixonado por duas pessoas ao mesmo tempo e nem se dá conta. E ainda assim não quer magoar nenhuma das duas. Quer continuar com Punk, ele chegou primeiro, te conquistou como só ele sabe fazer, mas não quer abandonar Sasuke, certo? Não quer nem chegar a pensar em deixá-lo triste, mas, Naruto, você terá de escolher um dia. Mesmo que continue só na amizade com Sasuke, saiba que isso o magoa tanto quanto magoa você, só que para ele é pior. Como você acha que ele se sente sabendo que Punk te tocou, que te beijou, e que você fez o mesmo com ele, com o corpo dele e Sasuke não consegue se lembrar nem das sensações? Só para conforto?

Fiquei infeliz ao notar que deixei Naruto sem palavras. Não era essa a minha intenção. Mas se o fizesse pensar, já era algo. Tomei partido de Punk nessa história toda, mas de nada me agrada ver meu cunhado sofrer, e nem Naruto.

– Sei que vou ter que escolher, e isso não me faz nem um pouco feliz. — Pude ver algumas lágrimas escorrendo pelo rosto de Naruto, que agora havia se encolhido feito uma bola, para se proteger de uma dor que conheço bem. Aquela dor que todos nós sabemos que não há como parar. — Hinata hoje me plantou uma dúvida sobre o meu relacionamento com Punk, e eu acho que ele está muito bravo nesse momento, já que consegue ver tudo que Sasuke faz. Ele sabe que Sasuke e eu não fizemos nada demais, mas não acho que esteja muito feliz de eu ter dormido abraçado a Sasuke.

– Naruto, você não está traindo Punk. Ponha isso em sua cabeça. Punk não costuma ser ciumento, não acho que ele dará grandes manifestações sobre isso, não se torture tanto. — Aconselhei. — Converse com Punk quando chegar o fim de semana. Se ele sente algo por você, vai entender que não há como afastar Sasuke de você se não quiser que você sofra.

Naruto sentou-se no sofá e me abraçou. Retribuí, meio incrédula de tudo que acabara de acontecer. Jamais, em toda minha vida, que Naruto viesse pedir conselhos amorosos para mim. Mas eu jamais o prejudicaria, se possível, só quero ajudar. Temo muito pelo que vem por aí.


Sasuke.

Surtado é uma boa palavra para me definir agora. Contei tudo que aconteceu para Itachi, pela primeira vez na vida.

Se tem algo que sempre amei e presei é a minha privacidade, mesmo que isso signifique me sufocar com tudo que sinto ou penso. Naruto é a coisa que vem me torturando no momento, e me sinto o maior vilão dessa história toda. Que culpa Punk tem em ter se apaixonado por ele? Que culpa tem Naruto por ter se apaixonado por Punk? Eu sou o intruso. Não sei como Punk está se sentindo agora, ele se fechou de um modo onde não posso nem ao menos sentir sua presença, e em todo tempo que estou com ele isso nunca aconteceu; pelo visto, eu fodi com tudo.

Por mais que eu tentasse o chamar em meus pensamentos, por mais que pensasse em coisas que o desagradavam só para ele aparecer, e até barganhei deixá-lo tomar o controle e ir fazer o que quisesse hoje. Nada. Punk se recusou a dar um sinal de que ainda estava comigo. Por mais cretino que seja dizer isso, eu sinto falta de minha outra personalidade. Depois de tantos anos, é estranho me sentir totalmente sozinho, sem a mínima sombra de Punk. Me torna incompleto, eu acho.

Era estranho pensar que dormi com Naruto. Fora a melhor experiência de toda minha vida, obviamente, mas ainda assim não era concreto. Naruto, apesar de ter sentimentos por mim, me via apenas como um amigo, e é desesperadamente que percebo que seria amigo dele para sempre, que escutaria todos os seus lamentos sobre como Punk é um idiota ao mesmo tempo que o faz feliz, e que sorriria quando Naruto falasse da primeira vez deles, de como Punk o tratou como uma joia e que ele o amava mais que tudo. Por toda a eternidade, eu daria suporte a Naruto.

E isso me faz chegar perto do pensamento aterrorizante que eu o amo, justo quando não posso amar. Não ligo para há quanto tempo conheço Naruto; não ligo para ele ser homem, afinal nunca tive problemas de sexualidade; não ligo para nada disso, mas, infelizmente, ligo para os sentimentos do meu loiro, e tenho a sensação de que vê-lo feliz poderia me alimentar por uma vida inteira, não importa o quanto doesse não tê-lo comigo.

Esses sentimentos me dão vontade de vomitar.


Recebi uma mensagem de meu irmão no sistema de mensagens instantâneas da Uchiha Enterprises.

Itachi Uchiha, V.P: Você está bem?

Sasuke Uchiha, V.P: não. Quero vomitar.

Itachi Uchiha, V.P: Sabe que eu não vou te dar colo, certo?

Não respondi Itachi, que apesar de estar tentando me animar, fez uma brincadeira sem graça.

Era fácil para Itachi rir de mim, tentar me descontrair e me fazer sentir melhor, afinal, ele nunca amou ninguém. Alguns de seus amigos dizem que amou sim, mas nunca me contaram o nome da pessoa. A maioria diz que Itachi me ama, somente a mim. Que sou a única pessoa que conseguiu arrancar uma reação sincera dele, seus risos, seus choros... Itachi só se preocupava comigo, com meu bem estar. Tenho lembranças da nossa infância, de dias chuvosos, quando um raio cruzava o céu, seguido de um trovão e eu corria para seu quarto. Não importa que horas eram, se a chuva começava a cair, Itachi já me esperava de olhos abertos. Ele sabia que eu iria para lá, porque Itachi era meu porto-seguro. Quando fiz doze anos, meu pai conversou comigo, disse que já estava na hora de eu parar de depender de meu irmão, de amadurecer e tomar conta de mim mesmo. Mal eu sabia que aquele era o melhor conselho que podia receber, porque um ano depois, meus pais morreram em um acidente. Itachi, nove anos mais velho que eu, assumiu de vez a empresa, tomando conta do cargo de presidente, descendo ao cargo de V.P só quando eu atingi a maioridade. Naquela época, Itachi e eu tivemos um afastamento considerável. Ele chegava quando eu já estava dormindo e saia antes que eu acordasse, e eu, em todos esses anos de covardia, nunca esperei acordado até que ele chegasse para nunca admitir que sentia falta de ter alguém para me amparar.

Ontem foi a primeira vez em anos que Itachi me abraçou, e eu queria ter curtido mais daquele momento, mas não podia, a partir do que meu pai me disse, que eu deveria me tornar igual a ele, não demonstrei meus sentimentos a mais ninguém. Naruto foi o único ser humano que despertou algo em mim que simplesmente não dá para ser ignorado, apesar de eu estar tentando, mas quando ele fala comigo com tanta sinceridade, não dá para me manter indiferente.

Itachi Uchiha, V.P: Pare de se torturar tanto, irmãozinho.

Respirei fundo.

Tenho medo do que o fim de semana promete, ao mesmo tempo que tenho curiosidade de saber se Naruto e Punk vão ficar bem. Só não sei se eu aguentaria que eles ficassem bem, assim como não sei se aguentaria que Naruto ficasse triste por causa de Punk. As duas ideias me torturavam, não sabia ao certo em que proporções, mas... Mas? Eu não sei. Algo dentro do meu peito, mas precisamente onde fica meu coração, me cutuca, me aperta, me deixa sem ar. É que nem saudade, é que nem decepção, é que nem sofrimento, mas não é. Ou eu acho não ser. Como ter saudade de algo que nunca foi meu? Como me decepcionar com algo que nunca me deu esperanças? E como sofrer por algo que não perdi, nem ao menos possuí?

É tudo tão confuso, e acho que é por isso que me sinto tão vivo e tão humano. Meu caminho está cheio de bifurcações, eu poderia simplesmente ter afastado Naruto enquanto podia, mas não o fiz. Poderia ter me mudado para qualquer outro lugar, só para não ter que olhá-lo nos olhos, mas não o fiz. Assim como poderia ter botado a baixo o Nove Ases, e não fiz.

Tudo por ele, tudo para ficar perto dele. É difícil disputar o amor de alguém quando seu oponente é você mesmo, não é? E tudo isso só piora considerando que Punk tem uma vantagem enorme sobre mim.

Itachi Uchiha, V.P: Tenho um imprevisto no fim de semana de laboratório do Naruto, pode avisar para ele que foi remarcado para esse sábado, sem falta, às 11h?

Sasuke Uchiha, V.P: por que você não pode avisar a ele?

Itachi Uchiha, V.P: Porque eu realmente acho que vocês precisam conversar.

Bufei.

Já que Itachi estava tentando dar uma de “conciliador”, eu ligaria para Naruto, mas nada além de uma ligação profissional. Inclusive, para demonstrar isso, liguei do telefone da empresa.

Pois não?– Naruto atendeu depois de um tempo. Ao fundo da chamada eu podia escutar música, então presumi que o Nove Ases já estava aberto, portanto fui breve.

– Oi, sou eu, Sasuke. Itachi pediu para avisar que seu laboratório foi remarcado para esse sábado, às 11h da manhã. Esteja aqui, sem falta.

M-mas... Eu ainda não escolhi a música e...

– Sem falta, Naruto. — O interrompi e finalizei a ligação.

Massageei minhas têmporas, perguntando-me o motivo de eu ser tão babaca. Agora mesmo que Naruto correria atrás de mim, por eu ter sido tão frio e denunciado que algo não estava certo. Idiota! Idiota! Idiota! Mil vezes idiota!

Será que isso tudo ainda tem a chance de passar? E para piorar, hoje às 20h eu ainda teria um jantar com a família Hyuga... Ótimo.


XxXx

Minha vontade de vomitar só piorou quando saí de meu carro em frente a um restaurante chique, e estacionado paralelo a mim estava o carro de Itachi, que saia do veículo junto com sua esposa, Sakura. Em jantares como esse, de obrigação do clã Uchiha, eu até que ficava menos infeliz perto de Sakura. Ela era obrigada a usar pelo menos uma das cores da família, e sempre a escolhia a que ficava implícito em nosso brasão: o preto. Para uma mulher que vivia de cores alegres como verde, rosa, amarelo, entre outras, o preto era praticamente uma prisão. E algo no sofrimento de Sakura me dava um gosto bom na boca.

Seus cabelos, longos, assim como o de todas as mulheres de meu clã, eram usados presos para a ocasião, e Itachi enlaçava sua cintura com graça e algo que parecia até afeto. Ele piscou para mim como quem diz “vai ficar tudo bem”, e isso me obrigou a respirar fundo e tentar me acalmar. Se Itachi disse que tudo vai ficar bem, talvez fique.

Andei com eles até a porta do restaurante, onde demos nossos nomes e fomos levados até nossa reserva. A família Hyuga já nos esperava.

Hiashi Hyuga, pai de Hinata, estava na cabeceira da mesa, me olhando com falsa frieza, quando eu sabia que na verdade ele me adorava. Ao seu lado esquerdo estava o braço direito de Hinata em Rinavalius, Neji Hyuga, e sua puta particular, vulgo mulher, Tenten Misashi. Todos se levantaram para nos receber, esse jantar era praticamente um embate de potências. A cabeça da família Hyuga, com a cabeça da família Uchiha. Ou clãs, considerando a quantidade de pessoas em cada família.

Fui até o pai de Hinata, o cumprimentando com um aperto de mão forte. Depois virei-me para minha noiva, e muito a contra-gosto, beijei sua mão. Um aceno de cabeça fui tudo que me vi na obrigação de dar para Neji e sua esposa. Sentei-me, e comemos em silêncio, para depois a conversa se iniciar.

– Sasuke, meu caro, acho que já está mais na hora de marcar a data do casamento com minha filha. — Hiashi sabia o quanto eu não suportava Hinata, assim como sabia que esse casamento faria bem para as duas famílias. Ao contrário do que Hinata pensava, ele jamais me ameaçaria se eu terminasse o noivado, mas gostava de deixar sua filha imaginar que sim. Ele sabia a cobra que criara, mas sabia que pegava mal para si ter uma filha de quase trinta anos que não era casada, e nenhum herdeiro legítimo para assumir o clã Hyuga. Afinal Hinata era mulher, e de acordo com a tradição jamais poderia ser ela a assumir.

Ambas as raízes de nossas famílias vinham do Japão, e a preferência era manter a linhagem nipônica limpa. Eu sou o resultado de uma união entre dois japoneses, e fui levado ao Japão para nascer puro também. Claro que em nosso clã há pessoas de outras nacionalidades, porque nós, a cima de tudo, acreditamos no amor no matrimônio, porém, já é de todo Uchiha não demonstrar sentimentos, ou sequer tê-los. Os casamentos arranjados são algo padrão em famílias grandes e influentes como as nossas.

Nessas horas me pergunto se Naruto tem ideia das histórias de sua família...

Notas finais
E aí, o que acharam? Mais uma enrolaçãozinha básica, mas de muito sentimento! Vejo vocês nos comentários.