Blurred lines.
14 Pais e filhos.
Notas iniciais
Naruto.
Eu estava arrumando minha mala quando alguém bateu em minha porta. Talvez pudesse ser Itachi, me dando mais alguma instrução sobre o que perguntar aos meus pais, talvez fosse Sakura querendo me dar um esporro por não tê-la esperado no outro dia, mas errei nas duas hipóteses.
– Oi Naruto. — Meu coração doeu.
– Sasuke, eu... Não quero te ver agora. — Tentei fechar a porta, mas o pé de Sasuke em um sapato social de grife impediu que eu conseguisse meu objetivo.
– Eu não sou ele. — Começou, assim que empurrou a porta e conseguiu entrar. — Eu não sou ele, posso parecer com ele, posso habitar o mesmo corpo que ele, mas não sou ele, Naruto. E você vai falar comigo.
Para um futuro assassino profissional e herdeiro de duas gangues, eu sou um perfeito cuzão. Porque antes que Sasuke conseguisse me encostar, eu já havia agachado e estava chorando. Puxava os cabelos da lateral da minha cabeça. Sei que tudo que ele disse é verdade! Sasuke não é Punk! Mas como lidar com alguém que tem a mesma voz, o mesmo cheiro, os mesmos olhos...?
Quando a mão de Sasuke me tocou, desabei de vez, mas deixei que ele me abraçasse. Por que eu fui gostar de alguém com dupla personalidade?
– Por favor, pare de chorar. — Ele pediu. — Não sei como ajudar, não sei o que falar, mas estou em pânico. Eu não quero te ver chorar, Naruto. Por favor. Está partindo meu coração.
Abracei Sasuke de volta, tentando por na minha cabeça que quem estava ali era alguém que se importava comigo, não a pessoa que tinha me traído. É Sasuke e não Punk, é Sasuke e não Punk, é Sasuke e não Punk...
– Sasuke. — Chamei. — Ele me traiu. Ele me traiu, Sasuke, com a Ino!
– I-Ino...? — Me afastei para ver seu rosto. Ele parecia lívido. — Eu o odeio, mas me odeio mais ainda por habitar o mesmo corpo que ele e não poder matá-lo nesse exato momento.
– Eu estou indo viajar. — Comentei, limpando algumas lágrimas teimosas que ainda insistiam em cair. — Queria agradecer por toda a pesquisa feita por você, por Itachi... E por Punk.
Sasuke não pareceu muito surpreso com a notícia que recebeu, pois voltou a me abraçar.
– Eu sei que vai viajar, e estou feliz de tê-lo pego em casa ainda, porque quero oferecer meu carro e eu para irmos juntos. — Sorriu. — Sei que deve ser desagradável viajar de moto, portanto quero ir junto com você. E também... Você é meu único amigo além de Itachi, se você vai numa viagem para descobrir quem é de verdade, eu também vou. Juntos. Para sempre.
Hesitei um pouco em deixar Sasuke ir junto. Afinal, eu não sei quanto tempo passaria lá, e meu medo era ficar tempo o suficiente para que Punk aparecesse. Mas também não tinha coragem de encarar meus pais sozinho, não depois de tanto tempo, não depois de ter saído daquele jeito de casa.
– Minha mala está dentro do carro que está estacionado em frente ao prédio. — Sasuke se afastou de mim e se levantou, esticando a mão para me ajudar. — Vamos?
Aceitei sua mão e descemos juntos em silêncio depois que terminei de fazer minhas malas. Não seria uma viagem longa, creio que no máximo levaria uma hora e meia, e eu não sabia como agir perto de Sasuke durante essa uma hora e meia. Pela milésima vez, ele não é Punk, mas ficar perto dele me magoa tanto quanto ficar perto daquele traidor.
Já dentro do carro, Sasuke tirou do bolso um pen drive, enfiando no aparelho de som do carro. Partimos ainda em silêncio, mas Sasuke parecia saber exatamente para onde ir. Talvez até soubesse o endereço de meus pais, depois de tanta pesquisa.
– Na casa dos seus pais há quantos quartos? Se não houver o suficiente eu posso dormir em um hotel da região, basta me indicar se tem algo, uma pensão que seja. — Sasuke iniciou uma conversa.
– Você vai dormir no meu quarto, comigo, como tantas vezes já fizemos. — Respondi com a voz baixa. Onde eu estou me metendo? Dormir com Sasuke depois disso tudo? Só deixaria Punk mais furioso.
– Eu posso? Seus pais não vão se importar? Você não vai se importar? — Ele nem ao menos olhava para mim, prestava atenção na estrada, assim como devia ser.
– Por mim não tem nenhum problema, para meus pais eu já não sei... Não sei nem como vou encará-los depois de ter saído de casa daquele jeito. — Refleti. — Mas acho que não vai ter nenhum problema. Parando para pensar agora, estou com saudades de casa.
– Eu também estaria com saudades depois de passar tanto tempo fora. — Sasuke riu. — Qual é a primeira coisa que quer fazer quando chegar lá?
– Ah, essa é fácil: queria comer o ramén que só minha mãe sabe fazer! Você ia adorar, Sasuke.
Chegamos até a avenida dos raxas, o caminho abandonado para chegar até minha casa. Pelo visto a única coisa que Sasuke queria era silêncio e conforto, assim como eu. Uma estrada sem polícia, sem radares, sem nada. Mas também não tinha um posto de gasolina ativo sequer. Espero que o tanque de Sasuke esteja cheio.
– Como são seus pais? — Sasuke perguntou, virando-se para mim por alguns segundos. — No banco de trás tem algumas coisas para comer, se quiser.
Virei-me no banco, alcançando uma sacola branca. De dentro tirei um biscoito e uma latinha de refrigerante.
– Meus pais são demais, eu diria. Minha mãe é braba que só! Quando ela sisma com uma coisa, não tem quem tire da cabeça dela. A palavra dela é lei, e isso prevalece até sobre meu pai. E o velho Minato é uma peça... Sempre tem histórias para contar, sejam elas verdadeiras ou não, é sempre tão calmo, tão passivo... Acho que é por isso que ele e minha mãe combinam tanto. Eles são o casal perfeito.
– Sei como é isso de casal perfeito. — Pelo espelho do carro pude ver o olhar de Sasuke ganhar um toque gentil e carinhoso. — Eu achava a mesma coisa sobre meus pais. Fugaku era altivo, mandão, gostava de ter as coisas nas suas rédeas. Era bem turrão, assim como Itachi e eu, raramente demonstrava afeto, mas quando minha mãe estava por perto... Ah, ele era só sorrisos. Quando eu era pequeno cansei de ver Fugaku roxo de raiva, e bastava minha mãe tocar seu ombro e dizer “querido, se acalme” que na mesma hora ele suavizava.
– Sente falta deles? — Assim que calei a boca me arrependi da pergunta idiota.
– Todos os dias. — Sorriu fraco. — Mas não os teria de volta se pudesse. Eu sempre fui ao contrário de Itachi, com certeza teria me dado mal na vida se não fosse esse choque de realidade, sabe? Algo como “Ei! Acorde! Você não tem mais seus pais. Tem que cuidar de si mesmo, vire adulto agora, nesse exato momento!”. Na hora foi péssimo, eu não sabia para onde ir, o que fazer para ajudar e tudo mais, mas depois que me encontrei como indivíduo tudo foi mais fácil.
– Entendo... — Assobiei. — Na verdade, não entendo. Fui receber esse tapa na cara da vida muito mais tarde que você. Foi só quando eu saí de casa e percebi que a vida fora da saia da mãe é muito difícil. Era procurar apartamento, procurar emprego... Mas acho que no final nós dois aprendemos, não é?
– Sim. Aprendemos sim.
E no resto do caminho eu comecei a notar que mentalizar estava dando certo, e que Sasuke realmente não era Punk. Era Sasuke ali, meu amigo por quem eu infelizmente tinha uma queda, mas que não precisava ficar estranho perto dele.
(…)
Estávamos parados em frente a porta da casa dos meus pais. A casa era simples, com dois andares e um sótão, de cor amarelo claro, quase creme. A porta não tinha um olho mágico, coisa que frustrou toda a minha infância. Minha mala estava no chão junto com a de Sasuke, e esse me olhava com compaixão.
Bati na porta.
– Já vai! — Escutei a voz de minha mãe e meu estômago deu um salto mortal carpado.
Instintivamente procurei a mão de Sasuke. Meu desconforto aumentou, lembrando de todas as vezes que fiz isso com Punk, mas ao mesmo tempo um pouco de calma me invadiu, lembrando que era Sasuke ali, e ele jamais me deixaria cair em desespero.
O barulho da porta destrancando me fez cogitar seriamente a possibilidade de pegar minha mala e sair correndo dali, mas já era tarde demais.
– Na-Naruto? — Minha mãe parecia ter visto um fantasma assim que abriu a porta.
– Quem é, amor? — A voz de meu pai soava distante.
Eu não sei o que deu em mim ou em minha mãe, mas antes que eu pudesse pensar em algo, já tínhamos nos jogado um contra o outro em um abraço de reencontro. O cheiro de minha mãe, o cheiro de casa, o calor de seu corpo e seus braços bravos me adornando o corpo, tudo isso me transmitia uma sensação de plenitude incomparável. Eu estava em casa.
– FILHO! — Meu pai gritou e se juntou ao abraço. Jamais pensei que seria tão bom assim voltar para casa.
– Quem é esse? — Meus pais perguntaram assim que separamos o abraço. — Um amigo seu?
– Sim, esse é Sasuke Uchiha, meu melhor amigo. — A boca de minha mãe se abriu e seu rosto expressava choque. Oh claro, Sasuke Uchiha.– Podemos entrar? Vim passar um tempo aqui e trouxe meu amigo.
– Entrem, claro. — Mamãe deu espaço para passarmos pela porta junto com nossas malas.
Por dentro, a casa continuava a mesma.
As paredes eram pintadas do mesmo amarelo de fora da casa e o teto era branco, os sofás pretos ainda tinham as mantas que minha mãe e eu costuramos juntos. O tapete no meio da sala, os quadros com fotos de família nas paredes, a televisão em cima do raque e os outros poucos móveis na sala.
Puxei a mão de Sasuke até o sofá e nos sentamos, meus pais sentaram no sofá da frente.
– Eu estou muito feliz de estar aqui. — Comecei. — Mas não vim sem um propósito. Vocês sabem o quanto eu não gosto dessa cidade, o quanto quis sair daqui minha vida inteira e que quando consegui sair, não pretendia nunca mais voltar, mesmo que isso significasse nunca mais vê-los, mãe e pai. — Respirei fundo. — Desculpem-me por nunca ter ligado, por nunca ter mandado uma carta, por nunca ter dado uma notícia de que estava bem e vivo. Eu sinto muito.
– Está tudo bem, filho. — Eu nem percebi como o tempo tinha passado. Meu pai tinha uma mecha de cabelo branco e minha mãe parecia mais cansada, mas ainda assim, o sorriso no rosto dela me fazia ter certeza de que estava tudo bem mesmo. — Eu estou tão feliz de tê-lo de volta, querido! Essa casa não é a mesma sem você.
– Enfim... — Olhei para Sasuke, que apertou minha mão, incentivando-me. — Eu sei sobre tudo. Tudo mesmo. — Levantei a cabeça e olhei para meus pais. — Mamãe Ambu Nation e papai Rinavalius, e como eu sou o elo entre as duas organizações. Aqui do meu lado temos Sasuke, que é meu amigo e líder da Ambu Nation em horas vagas, eu me integrei a organização dele. Desculpe-me pai, mas eu desprezo Rinavalius com todas as forças, e se eu for tirar o “trono” de Hinata, vai ser apenas para destruir aquela maldita gangue. — Tudo bem que em grande parte meu ódio por Rinavalius era por Hinata ser noiva de Sasuke, mas acho que eles não precisam saber disso. — Eu sei que fizeram o melhor para me proteger, mas eu tenho cartas, documentos, fotos, só que ainda quero uma explicação vinda de vocês. Acho que vocês têm esse direito.
Assim que calei minha boca, os olhos de minha mãe se encheram de lágrimas e ela se encolheu no colo de meu pai. Reconheço que fui muito direto, mas se eu queria que a convivência fosse boa enquanto eu estivesse aqui, não poderia adiar o assunto nem por mais um segundo. Mamãe poderia chorar o quanto quisesse, afinal chorar faz bem e lava a alma, mas uma hora teríamos que conversar sobre isso, e eu acho que todos preferíamos que fosse agora. Eu só queria explicações.
– Sempre desconfiei que um dia você descobriria, Naruto. — Meu pai se pronunciou enquanto ainda confortava minha mãe. — Filho, sua mãe e eu eramos muito jovens, mas apesar de tudo, não podemos negar que sabíamos as consequências do que estávamos fazendo, só que tínhamos a esperança de todos eles pararem e enxergarem “eles se amam, por que então separá-los?”, coisas de jovens, afinal, até parece que íamos parar mais de cinco mil pessoas só com amor. Eu resolvi tudo com a Rinavalius, dizendo que precisava me afastar da organização para construir uma vida, afinal eu nada tinha, nem parentes, nem amigos fora daquele lugar. Arrumei tudo que pude em um carro, passei pela mansão de Kushina de madrugada e Aymee, sua dama de companhia, nos ajudou com a fuga. Dirigimos pela estrada abandonada, que na época estava ativa, e viemos parar aqui, onde erguemos nossa família.
– Mas vocês foram os causadores da guerra mesmo? — Sasuke se pronunciou pela primeira vez desde que chegamos ali. Tudo bem ser um assunto de família, ele também tinha o direito de se meter, porque sua história cruzava com a minha em vários momentos.
– Mais ou menos. — Meu pai agora fazia cafuné em minha mãe que soluçava. — A guerra ia acontecer de qualquer jeito, mais tempo menos tempo, nós só aceleramos o que era inevitável e demos um propósito plausível para eles guerrearem. Eu era o último de minha família, já que meus pais, e últimos parentes vivos, morreram em um acidente de carro. — Lembrei-me da folha de jornal que tinha visto. Então aquele acidente matara meus avós? — Quando a guerra começou, o clã dos Uzumakis foi aniquilado, tendo sobrado Kushina, as duas irmãs de sua mãe, o marido de uma delas e duas crianças, uma já nascida. Grande parte do clã Uchiha também destruída, mas entenda filho: há muitos Uchihas, sempre houve, por isso eles prevaleceram.
– Sei disso. — Confirmei. — E conheço as duas crianças que sobreviveram. Pain e Karin. Karin também é uma Ambu Nation, assim como Pain. – Mamãe levantou a cabeça, e nos seus olhos pude ver que ela estava pelo menos um pouco feliz de saber que alguns Uzumakis ainda estavam vivos, e que estava protegidos na Ambu Nation. — Eu estou aqui, também, porque vim comunicar que vou tomar o poder de Rinavalius. Só não entendo como ninguém de lá nunca me reconheceu.
– Ninguém nunca te reconheceu por causa do seu cabelo que não condiz com o sobrenome. É um Uzumaki assim como Karin e Pain, que são ruivos e legítimos Ambu Nation, ninguém sabe o que aconteceu comigo, então não suspeitam que Minato seja seu pai. A lógica mais próxima é que você apenas tenha pintado o cabelo. — Mamãe se manifestou. — Rinavalius está estragada há muito tempo, há muitas pessoas ali que nem se aproximam de ter o sangue Hyuuga ou Namikaze. Alguns são completos desconhecidos, assim como em Ambu Nation, mas isso só mudou no final do último comando antes de Sasuke. Então ninguém sabe da história. Você teve que pesquisar muito para descobrir o passado, coisa que eles nem se interessam por fazer.
– Eu acho que esse assunto já está de bom tamanho, por hoje. — Sasuke opinou. — Acho que Naruto agora merece tomar um banho e descansar. — Levantou-se e eu imitei seu movimento, junto com meus pais.
Mais algumas palavras foram trocadas, mamãe e papai receberam Sasuke de muito bom grado, e eu fui tomar banho, enquanto os deixava conversando ali.
(…)
Sasuke.
– E então Sasuke, que tal me ajudar com o jantar? — Dona Kushina ofereceu. Não pensei em negar nem por um segundo, então assenti e fomos até a cozinha que não era nem tão grande e nem tão pequena. — Você sabe cozinhar?
– Sei sim, moro sozinho, tenho alguns empregados, mas gosto de fazer eu mesmo minha comida. — Respondi sincero, enquanto aguardava Dona Kushina pegar os ingredientes necessários para o jantar.
– Isso é admirável em um jovem como você, Sasuke. — Fui até ela. — Agora corte essa cebola aqui, ok? Depois jogue naquela panela.
– Você quer picada ou em fatias? — Perguntei.
Seus olhos brilharam.
– Que lindo, você sabe que faz diferença! Ah se Minato também soubesse e me perguntasse antes de me ajudar com as coisas... Realmente é um menino prendado, Sasuke. — Recebi mais um elogio. Já estava começando a ficar constrangido. Ainda não tinha indentificado em Kushina a mulher mandona que Naruto descreveu. — Então... Há quanto tempo você e meu filho estão juntos?
Engasguei com o ar assim que assimilei a pergunta de Kushina.
– Oh meu Deus! Sasuke! — Ela me deu tapas fracos nas costas. — Você está bem?
Assim que consegui me acalmar puxei o ar com força pelo nariz.
– Eu e seu filho... Nós não... Bem, nós somos amigos. — Resolvi abrir o jogo para Dona Kushina. — Sabe, dona Kushina...
– Dona é a senhora sua avó, não me faça sentir velha garoto! — Oh, aí está a parte mandona.
– Tudo bem. Kushina, eu tenho dupla personalidade, e não tenho controle sobre a outra. Minha outra personalidade, carinhosamente apelidada de Punk por todos, assume meu corpo durante os fins de semana. Eu não sei porque só aos fins de semana, na verdade nunca tentei entender. Já fui ao psicólogo várias vezes, e ele me explicou que esse transtorno só pode ser controlado por mim, se eu entrar em um pleno consenso com minha outra personalidade, o que é difícil, mas não impossível. — Parei de falar para saber se Kushina estava entendendo tudo, e ela me fez sinal para que continuasse. — Naruto sabe da minha dupla personalidade, e é ex namorado do meu outro eu, que o traiu há alguns dias. Eu peço desculpas, não é algo que eu possa controlar, jamais quis fazer Naruto sofrer, porque eu...
– É apaixonado por ele. — Kushina me interrompeu. Ergui uma sobrancelha para ela. — Pelo amor de Deus, Sasuke, um amigo que se dispõe largar do trabalho e obrigações para ir com o outro passar uma semana na pequena cidade natal dele, só porque ele está tendo problemas que não são da sua conta. Ok, você faz parte dos problemas, mas ainda assim não são da sua conta. Eu vi o jeito que ele precisa de você, Sasuke, assim que abri a porta vocês dois estavam de mãos dadas, assim como no sofá enquanto conversávamos. Acho que mesmo sem perceber você se tornou o porto-seguro de Naruto.
Acho que essa mulher tem algum superpoder de percepção.
– Eu... Realmente não percebi. Mas sim, eu sou apaixonado por ele, e acho que esse foi um dos motivos que levou minha outra personalidade a traí-lo. Nós, Naruto e eu, passamos muito tempo juntos, realmente muito tempo. Chegamos a dormir na mesma cama várias vezes, e minhas visitas ao apartamento dele e isso enciumavam Punk de uma maneira incrível. Eu nunca toquei em seu filho de um jeito que não fosse fraternal, juro pela minha vida. Ele sabe o que sinto por ele, e já disse sentir o mesmo por mim, mas o que ele sente por Punk é lindo... E eu não entendo. Sou tão egoísta! Sei que ele está muito magoado, que olhar para mim é ruim, afinal eu e Punk temos o mesmo rosto, mas ainda assim não consigo ficar longe.
Kushina me arrasou até a pia de novo, para voltarmos a fazer a comida, enquanto preparávamos as coisas ela parecia pensar, e então se pronunciou:
– Eu acho que essa é a oportunidade perfeita para você conquistá-lo de vez. Você e sua outra personalidade podem ter o mesmo rosto e o mesmo corpo, mas não são a mesma pessoa, não tem a mesma consciência e nem os mesmos sentimentos. Você não é egoísta Sasuke. Você não é egoísta exatamente por não conseguir ficar longe. Ora, vamos, pense comigo: você está ajudando um cara que está apaixonado por outro cara que é idêntico a você, está aqui, na casa dos pais dele, mesmo sabendo que ele está sofrendo por esse outro cara. Você se magoa a cada segundo ficando perto dele sabendo que o coração dele é dividido em dois, e não quer nem saber se você não tem grandes chances, está aqui com ele porque quer vê-lo feliz. Quer ver o coração dele se curar, quer vê-lo dar aquele sorriso típico dele... — Quando dei por mim, vi que Kushina chorava, e a abracei. — Ah, querido, estou tão feliz que Naruto tem alguém que o ama assim...
– Não tem problema nenhum eu ser homem? — Perguntei acariciando os cabelos extremamente vermelhos da mãe de Naruto.
– Na verdade, não tem. — Ela riu em meio as lágrimas. — Naruto nunca me apresentou nenhuma namoradinha, tampouco já o vi de namorico com alguém. Ele só vivia colado aquele menino Kakashi, então Minato e eu sempre suspeitamos... Mas sabe, ele não tinha nada. Nada mesmo. Aqui a única diversão que temos é um cinema que só ganha filmes novos a cada cinco anos, então ele era muito desocupado, entediado... Não tiraríamos dele a única coisa que parecia distraí-lo. Quando ele fez treze anos demos a ele um piano, foi o primeiro instrumento que ele aprendeu a tocar. Depois ele visitava a loja de instrumentos aqui de perto, e todo mês aprendia a tocar um novo... Sempre desconfiei que meu filho tinha um talento.
– E tem mesmo. Ele foi contratado pela empresa de música da minha família, meu irmão mais velho, Itachi, é o empresário dele. — Apartamos a abraço, e eu podia ver a realização nos olhos de Kushina. — Seu filho trabalha regravando músicas famosas, mas logo também arranjará inspiração para cantar algo que ele tenha composto, tenho certeza.
– Então é isso, não é? — Minato entrava na cozinha. — Naruto passa alguns anos fora e descobre tudo sobre o passado da família, ganha um contrato com o que sempre sonhou, e acha um cara que o ame de verdade. — Ele andou até nós e bagunçou meus cabelos. — Tente conquistá-lo, rapaz.
– Só faz alguns dias que ele e Punk terminaram, ele ainda está muito magoado para pensar em ficar com outra pessoa... — Tentei explicar, mas Kushina me interrompeu.
– Se ele realmente gosta de você, como disse, ficar perto só vai ajudá-lo a superar sua outra personalidade. Invista mais ainda na intimidade de vocês, mostre que você o quer com pequenos gestos, não o assuste... No final, um dos dois vai ceder a vontade que sentem.
– Obrigado, Kushina, obrigado Minato. — Agradeci.
– Quero que dá próxima vez que vocês voltem aqui, você já possa me chamar de sogrinha. — Kushina riu e Minato acompanhou.
– Pelo menos eu sei que nunca terei netos que não foram planejados. — O pai de Naruto brincou, fingindo alívio.
Pelo menos agora eu tinha algumas certezas. A primeira era de que os pais de Naruto são ótimas pessoas, e que fizeram o que fizeram para proteger o filho, dar uma vida digna a ele, longe de tudo que eu tive que conviver enquanto crescia. A segunda certeza era de que o destino é muito, muito engraçado: Naruto e eu nascemos de famílias influentes, participantes de organizações secretas, e poderíamos ter muito bem crescido como inimigos ou amigos, porém os pais de Naruto o criaram bem longe da minha realidade, ainda assim, o que é para ser não pode ser desfeito: Naruto voltou, anos depois, para morar na mesma cidade que eu, trabalhar em um Bar pertencente a minha família e acabou sendo contratado pelo meu irmão. De um jeito ou de outro, Naruto era uma parte inegável da minha vida, mesmo que só tenha chegado agora. E a terceira e última certeza, é que o apoio dos pais de Naruto eu já tinha, e que se eles viessem a ser meus sogros, eu jamais teria algum problema.
Algum tempo depois da nossa conversa, Kushina disse que terminaria o jantar sozinha, que era para eu subir, pegar uma roupa e tomar um banho no banheiro ao lado do quarto dela e de Minato, já que Naruto deveria estar tomando banho no próprio banheiro. Quando o jantar foi servido, Naruto e eu descemos, comemos e conversamos. Foi divertido, ainda mais para mim, que agora olhava tudo sobre uma nova perspectiva.
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