Blurred lines.
29 OMAKE: Black widow.
Notas iniciais
Suigetsu.
– Sabe, você não deveria fumar tanto... — Meu primo, Kisame, tentava me avisar. — Faz mal a saude.
Era o ínicio do terceiro maço de cigarro do dia, mas não dava para parar. A fumaça, que passava por meus lábios, adentrando minha boca e indo parar em minha garganta, confortava-me de uma forma única, acalmando meus nervos e me trazendo a um estado quase agradável.
Aprendi a fumar com Sasuke.
Nada do que eu poderia fazer, dentre infinitas coisas, viria sozinho. Tudo sempre vinha acompanhado com uma lembrança, e essas lembranças me levavam a um passado doce, quase cor-de-rosa, ao lado de Sasuke... E de Punk.
– Não preciso fumar menos, a cada dia que passa, com ou sem cigarro, estou mais perto da morte. — Encostei minha cabeça nas costas do sofá, olhando para meu primo que estava de pé. — Você sabe disso.
– Você que anda como uma raposa desconfiada, crente que será baleado a qualquer momento, primo. — Sorriu. — Eu apenas sou da parte burocrática.
Bom, deixem-me explicar... Kisame é amigo de infância de Itachi, e fomos descobrir isso há uns sete anos atrás, quando por milagre, invocação divina ou sinal de fumaça, meu primo surgiu na Ambu Nation como mato cresce do chão. Sem mais, nem menos.
E assim seguimos, como a boa gangue que somos.
Bom, aliás, se quiserem saber qual a função de Kisame na Ambu Nation... Ele é meio tercerizado, entendem? Ele não é exatamente da gangue, ele é funcionário exclusivo de Itachi. É como seu hitman¹ profissional.
Entendam: Itachi é um homem ocupado, tem uma esposa, e agora uma filha, metade de uma organização pra tomar conta, metade de uma empresa para tomar conta... Ele não pode simplesmente largar tudo para resolver suas picuínhas, sabe? Então, manda Kisame em seu lugar. É simples, fácil e rápido. Mexeu com Itachi? Será apagado. Mas ele não sujaria suas mãos.
– Não acha que está sendo infantil? Você fixou uma ideia em sua mente, simplesmente acredita que só poderá ser feliz ao lado de Sasuke, mas nem ao menos dá uma nova chance a uma perspectiva de vida diferente.
Sabia que, em partes, meu primo estava certo. Eu não conseguia esquecer Sasuke, mas tampouco havia tentado. Na verdade, nem queria. Era como... Sei lá, tentar mudar o eixo do meu mundo. Não é uma coisa fácil de se fazer.
Acho que também tinha medo, medo de largar a única coisa que fazia sentido nesse mundo tão maluco e perder a sanidade também. Ou o que me resta de sanidade, né.
Fora que algumas coisas jamais poderiam ser apagadas das minhas memórias... Como viver sabendo que desisti da melhor parte de minha vida? Tudo que faço, mesmo que seja burrada, é por acabar pensando nele... Não tirem conclusões precipitadas, não deixei que Karin se machucasse de propósito. Eu estava com raiva, tampouco ela gritou de imediato. É claro que eu não gosto de ter que olhar para aquelas cicatrizes nas costas de minha melhor amiga (ou ex?), embora ela nem me considere mais amigo... Nunca pensei que perderia uma amizade assim.
– Eu apenas não consigo esquecer... É tempo demais, tá cravado feito tatuagem no meu peito. Sasuke é o amor da minha vida. — Expliquei, tentando simplificar ao máximo. — É como se, sem ele, a lua e o sol não existissem. Imagina um mundo assim? É loucura, certo?
Eu não consigo esquecer...
11 anos atrás.
– Por que eles estão te olhando assim? — Sasuke me perguntou. Ainda não conseguia engolir o jeito desse cara. A aparência era de brigão, mas estar perto dele transmitia uma sensação de tranquilidade imensa.
Os pés de Sasuke estavam apoiados na mesa, e ele descansava seu tronco contra a parede, quase dormindo, mas ainda meio de lado para poder me olhar de algum jeito.
Estávamos sentados no fundo da sala, onde eu sempre ficava. Aqui nada me abstraia, eu poderia focar nos estudos em paz, afinal, os populares sentavam no meio, em uma grande bagunça para sempre estarem falando sobre "a coisa mais legal que estava 'pegando' no momento", e os mais aplicados sentavam na frente, sempre querendo uma melhor visão do quadro e uma ótima sonorização das falas do professor. Aqui, no fundo, escorado na parede, eu era quase invisível.
Quase.
– Ele é meu ex namorado. — Respondi. Não queria dar muitas voltas sobre o assunto. — Há um tempo atrás, eu até cheguei a me sentar ali no meio, ao lado dele e de seus amigos.
– Hm. — Algo que eu havia aprendido sobre Sasuke, nesses três dias que convivemos, é que ele não é tão curioso quanto uma pessoa normal. Ele pode perguntar, mas se sentirá satisfeito com qualquer resposta. Bom, pelo menos é o que parece.
Aos meus olhos, ele ainda continuava incrível.
Um bilhete caiu ao meu lado, após bater em minha perna. Abaixei-me e peguei a bolinha de papel, abrindo-a.
"Então esse é seu novo namoradinho? Você já me esqueceu?"
Olhei para frente, e lá estava meu ex namorado, encarando fixamente.
Com raiva, debrucei-me sobre minha mesa e respondi o bilhete mal criado, devolvendo a bolinha com duas vezes mais força que ele havia usado, acertando em sua cabeça. Sempre me orgulhei por minha mira, mal sabia o quanto ela seria útil no futuro.
– Ele é um babaca. — Comentou, como quem falava sobre o tempo. — Merecia uma espingarda enfiada bem no meio do seu...
– SENHOR UCHIHA! Há algo que quer compartilhar com a turma? — O professor perguntou, parando ao ouvir a sentença que Sasuke proferia.
– Não me julgue por dizer o que penso, professor. Não sou como os alunos que você se acostumou a ter, sou diferente, único, e digo o que quero, não me contenho... Com a vida do jeito que é, nunca sabemos quando podemos morrer sem ter dito algo importante, não é? — Piscou, em puro deboche. Foi nesse momento que passei a admirar Punk, que residia no corpo de Sasuke, mas isso eu só descobriria depois...
Foi com ele que aprendi a não ter papas na língua, a viver a vida como se fosse o último segundo, porque era bem provável que fosse.
– Diretoria, senhor Uchiha. O diretor adorará saber sobre essa sua perspectiva de vida tão interessante.
– Mas... — Tentei protestar.
– Algo a acrescentar? — O professor abaixou os óculos, com o olhar inquisitor pairando sobre mim. Olhei para Sasuke por um segundo, e encontrei seu rosto impassível. Meu amigo já estava de pé, com a mochila nas costas, pronto para ir para a diretoria. Bastaria um passo de coragem meu para saber se iria junto com ele ou não.
– Sim, eu tenho algo a acrescentar. — Levantei-me. — O time de basquete deveria ter um taco de sinuca enfiado no cu de cada jogador. — Peguei minha mochila, e comecei a puxar Sasuke pelo braço. — Tenham um bom dia!
Quando saímos da sala, Sasuke começou a rir, uma risada gostosa, que me fazia ter borboletas no estômago.
– Você foi demais lá dentro. — Sasuke me parabenizou, apoiando uma de suas mãos em meu ombro.
– Acho que cansei de ser capacho. — Sorri, levantando a cabeça para poder encarar seu rosto. Na época, ele era bem mais alto que eu. — O mundo está merecendo ouvir algumas verdades.
– Ah, você acha?!
Sorri, deitando-me no sofá aos poucos, encarando o teto. Kisame já havia ido embora sem nem mesmo me avisar, ele sabia que nossos papos eram curtos e que eu era mais cabeça dura que qualquer pessoa no mundo. Não adiantaria ele tentar me aconselhar.
As lembranças eram tão doces que minha encha d'água, com saudades dos tempos que não voltavam mais. Naquela época eu era tão bobo, tão feliz... Com ele ao meu lado. E ele parecia sentir o mesmo.
– Isso não é errado? — Perguntei, pulando a janela da escola, que por acaso havia sido deixado aberta. — Quer dizer, todos vão ver.
– Essa é a intenção, não vê? Vem, vamos deixar isso no banheiro masculino e no feminino. Vamos mostrar ao mundo inteiro quem o seu ex namorado realmente é... Tsc, babaca.
– Não entendo essa sua teoria de que ele realmente gostava de mim... Sabe, quem gosta não faz essas coisas... — Parei por um momento, encarando o chão. A dor que eu senti quando vi meu ex transando com uma garota nunca se apagaria... Nunca esqueceria de quando ele olhou fundo em meus olhos e continou o que estava fazendo. Isso não é amor!
– Existem muitos tipos de amor, Sui. — E aquela foi a primeira vez que ele me chamou por aquele apelido. — Algumas pessoas tem amores estranhos, outras não sabem amar. Ele não soube, mas outros virão e será melhor. — Com um sorriso gentil, acariciou meus cabelos. De novo, eu gelei.
– Então por que estamos nos vingando? — Perguntei, voltando a andar em direção ao banheiro masculino do primeiro andar.
– Porque nessa vida, Sui, não podemos deixar nada passar. Entenda isso. Não deixe que mexam com os seus, jamais, muito menos com você. — Piscou. — Agora vamos, deixe de falatório.
Antes que eu pudesse me preparar, fui puxado para dentro do banheiro feminino, que ficava um pouco antes do masculino. Quando fui perguntar para Sasuke o que estava acontecendo, fui imprensado contra a parede e minha boca foi tampada por sua mão.
Por um tempo continuamos assim, eu estava nervoso, assustado e com medo de ser pego, mas me acalmei depois de olhar constantemente para os olhos cor de ébano, que só agora percebi que me intorpeciam.
– Quase fomos pegos. — Explicou-me, tirando a mão de minha boca aos poucos. — O inspetor noturno estava vindo, temos que tomar mais cuidado.
Eu ainda estava um pouco chocado, mas despertei de meu transe ao receber um beijo na testa.
Sasuke conseguia ser tão gentil... Mal ele sabia que isso me afetava.
Nós iríamos publicar os e-mails que meu ex e eu trocávamos na época que ainda estávamos juntos. Tudo estava impresso, mais de duzentas cópias. Metade na mochila de Sasuke, metade na minha.
Isso também iria me expor ao ridículo, mas depois do que passei no baile... Bem, foda-se, não é?
Foi mais ou menos aos meus dezoito anos que consegui aceitar que era apaixonado por Sasuke, e, acredite, isso não foi nada fácil para mim. Estar apaixonado pelo seu melhor amigo, que você não sabe se é gay, é a pior sensação do mundo.
Mal eu sabia, que mesmo antes de mim, ele já havia percebido.
Me declarei para Sasuke em meu aniversário de dezenove anos, em um barzinho de uma cidade vizinha.
A essa altura do campeonato, eu já era integrante da Ambu Nation, mesmo sem saber grande coisa sobre a organização. Sasuke havia insistido que eu era um amigo muito importante e que precisava ficar perto dele, sob sua proteção. Embora eu já não fosse mais tão bobo, já havia aprendido muitas das coisas que a vida e Sasuke vinham me ensinando.
Voltando ao assunto... Nós havíamos saído para beber em comemoração ao meu aniversário de dezenove anos... Assim como fizemos no de dezessete e no de dezoito, havia se tornado algo como uma tradição. Corremos de carro por ruas vazias, bebemos até quase cair, estávamos em um estado de alegria letárgica, onde as verdades cismavam em escapar de minha boca.
Estávamos, no momento em que me declarei, atrás do barzinho, indo pegar o carro para voltar para nossa cidade... Sim, Sasuke dirigiria bêbado, e eu confiaria minha vida a ele no volante mesmo que ele consumisse LSD. Era, de longe, um dos melhores motoristas que eu já havia visto.
– Sabe... Você é muito bonito. — Comecei, com a fala atrapalhada pelo alcool.
– Mesmo? — Aproximou-se de mim. — Fico feliz que ache isso, Sui.
– Não! — Solucei, agarrando sua jaqueta. Nesse momento, recebi um olhar feio de Sasuke, mas não larguei sua preciosa jaqueta. — Você é bonito... De um jeito diferente. Você é bonito tipo garota acha garoto bonito, sacou?
Sasuke sorriu, prepotente, encostando-me na parede do bar, com uma mão de cada lado de minha cabeça.
– Então você me acha bonito feito uma garota acha um garoto bonito? Interessante. — Riu mais um pouco. — Continue.
– Quando eu te olho sinto que quero te beijar, te tocar... Que quero deitar e pedir para você fazer sexo comigo, Sasuke. É insano, queima por dentro. — Mordi seu queixo, que estava numa altura acessível para mim. — Eu te quero. Eu te amo.
Descrente, meu amigo balançou a cabeça em negação.
– Você não vai lembrar disso quando acordar amanhã, mas tente com Sasuke, ele é menos cabeça que eu quando se trata de amor. — Beijou-me a testa, como já havia feito várias vezes. — Quando se lembrar disso e estiver bem resolvido, me diga, e eu não vou exitar em te tomar pra mim.
E foi assim que me declarei para Punk.
Ele não sabia que eu nunca havia esquecido aquele dia, mas era melhor deixar as coisas assim.
Com Sasuke não precisei me esforçar, as coisas rolaram naturalmente, um pouco mais demoradas que com Punk, mas rolaram.
Com Sasuke as coisas eram naturais, não haviam todos aqueles sentimentos confusos e conflitantes. Era claro como água, a atmosfera do meu gostar era palpável, e ele também sentia.
Entre Sasuke e Punk, eu sei, Sasuke gostou de mim, mas Punk nunca nem chegou a ser mais que carinho.
Eu lembro exatamente do dia em que estávamos deitados na cama de casal de Sasuke, no QG da Ambu Nation, mas nesse momento Punk não estava entre nós. Eramos apenas eu e Sasuke, agora com vinte e dois anos.
– Sui, vem cá. — Chamou Sasuke, manhoso. Acabamos por dormir aqui, após uma noite de bebedeira e filmes.
– Já estou aqui, chefinho. — Ironizei, rolando os olhos e virando-me para o lado, para poder admirar o rosto de Sasuke. O Uchiha vestia uma camisa de botões branca, que estava abotoada errado, e na parte de baixo eu realmente não lembro, pois o edredom estava cobrindo. O cabelo despenteado, o rosto um pouco amassado pelo travesseiro... Ainda assim, um deus grego.
– Não assim, eu quis dizer aqui. Comigo. Pertinho. — Riu.
Rolei os olhos mais uma vez, antes de ser ousado e subir em Sasuke, ficando com meu rosto perto do seu. Nossas respirações se encontravam e agora eu podia sentir o cheiro maravilhoso que Sasuke emanava. Os olhos negros brilhando, o leve sorriso, a mão que acariciou meu rosto...
– Tá bom assim?
– Não poderia ser melhor.
Eu vi tudo acontecer em câmera lenta. A mão que acariciava meu rosto, agora estava repousada sobre ele, e a outra mão me segurou sutilmente pela cintura. Meu corpo rapidamente respondeu aos estímulos, e minhas duas mãos foram parar no peito de Sasuke, apoiando-me.
Não pude evitar suspirar quando nossas bocas se encontraram, seus lábios eram macios, assim como os de Punk, mas o beijo era totalmente diferente. Calmo, doce, reconfortante. Beijar Sasuke deveria estar dentre as maravilhas do mundo, porque não é possível que algo fosse tão bom.
Claro que eu nunca esqueceria da primeira briga, da primeira separação... Da primeira vez que Punk dormiu com outra pessoa, e de todas as vezes que eu o aceitei de volta.
Com Sasuke até que foi diferente, nós nunca brigamos ou nos separamos... Foram longos quatro anos de "namoro aberto" que tivemos, pois ele sabia que eu jamais negaria Punk quando ele voltasse...
Acho que foi aí que me perdi.
Foi uma viagem insana, posso dizer, uma bad trip² quase total. Foram quatro anos que passaram-se a trancos e barrancos, mas que voaram de tão rápidos. Bem que dizem que o que é bom dura pouco...
Em um dia eu estava com Sasuke, sendo abraçado e beijado, confortado nos braços gentis que eu ouso tanto amar, no outro eu estava brigando, com uma garrafa de cerveja quebrada na mão, ameaçando matar meu outro tão amado Sasuke, mas logo a briga acabava em sexo, não importa onde estivéssemos.
Os dois me usavam como bem queriam, ao bel prazer de si próprios, e onde eu ficava no meio desse fogo cruzado? Em pé, totalmente cego, deixando que as balas me atingissem até que eu caísse de joelho, para só então deitar no chão, derrotado, morto por dentro e por fora, mas com uma felicidade crescente e deturpada no pós-vida.
O tempo passou, eles me esqueceram aos poucos, até estarem totalmente afastados, mas eu ainda tinha esperanças de que voltariam... Será que voltariam? Agora eu não tenho mais certeza.
Mesmo que eu ficasse com outros homens, desejasse-os, eles nunca seriam Sasuke ou Punk. Podia beijá-los o quanto quisesse, fazer sexo com eles... Mas estaria sempre pensando nos amores da minha vida, que acabam sendo um só.
Já se passou mais de um ano, quase dois, e agora, no meio dessa ilha em que fiquei preso, só vejo o mar, sem mais nenhuma terra. Será difícil encontrar o caminho para casa? Será difícil encontrar, além de tudo, aquele meu velho eu, que existiu há tantos anos atrás? Acho que é algo que só saberei no último segundo...
... Eu só sei que o amor dói, destrói, corrói, devasta, dizima. Amor é feito bomba atômica em Nagazaki: não sobra nada, e o que sobra, se deteriora aos poucos. É que nem Chernobyl, que uma vez destruído completamente, viverá para sempre desabitado.
Em resumo, amor é tragédia, tragédia grega que eu vivi, presenciei, e contei para quem quisesse ouvir. Mas eu queria mesmo, é que ninguém ouvisse, e que a única pessoa que precisasse estar ciente disso, já soubesse.
Sasuke.
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