Blurred lines.
19 Learn forgiveness and try to forget.
Notas iniciais
Naruto.
– Queremos te apresentar: Mei Terumi! — Shisui e Konan pulavam animados. — Ela é uma famosa cantora japonesa e está aqui para assinar seu novo contrato com a Akatsuki!
– É um prazer conhecê-la. — Beijei a mão de Mei em cumprimento. Arrisco-me a dizer que Mei é a mulher mais bonita que já vi até o presente momento. — Sou Naruto Uzumaki.
– O prazer de conhecê-lo é meu! — Ela respondeu sem demonstrar nenhum traço de sotaque japonês. — Mal cheguei no prédio e seu nome é a única coisa que tenho escutado.
A vergonha tomou lugar em minha face. Poxa, Mei veio diretamente do Japão para cá, e eu continuo sendo o assunto da empresa, ao invés dela, que é tão bonita e possivelmente talentosa, já que eu, infelizmente, nunca tinha escutado falar sobre seu trabalho.
– Mei vai dividir o estúdio com você hoje, Naruto. — Shisui notificou. — Estávamos pensando em lançar uma faixa com vocês dois, para introduzir o novo albúm dela e te promover em sua carreira, começando desde já.
Puxei Mei pela cintura, para poder lhe dar um abraço e lado e agradecê-la por querer cantar comigo. Cantores japoneses costumam ser famosos no mundo todo especialmente por sua aparência e dança, então acho que Mei seria um ótimo passaporte entre mim e a fama.
Fomos para o estúdio, Shisui e Konan sentaram-se do lado técnico da sala e eu e Mei fomos para parte de gravação. Apoei os fones de ouvido no pescoço para poder falar com eles do outro lado, enquanto Mei sentou-se em um banco, esperando instruções.
– Então, vamos gravar direto ou vamos ensaiar antes? — Perguntei, por fim.
– Claro que vão ensaiar, onde já se viu fazer algo de primeira? — Konan me repreendeu. — O que vão querer ensaiar? Lembrem-se que tem que ser um dueto. E acho que Mei e você terão que compor uma música autoral, já que ela não trabalha com covers.
Depois de conversar um pouco com Mei – realmente pouco, já que não tínhamos tempo a perder – decidimos cantar uma música de seu seriado favorito. Eu desconhecia a canção completamente, então para mim seria bastante difícil gravar a letra. Em seu iPhone, Mei me mostrou o clipe da música, e minha situação ficou pior, pois eu teria que fazer algo que jamais fiz na minha vida: cantar rap.
Entendam que se me pedissem para cantar Happy, do Pharrel Williams, eu cantaria saltitando, afinal é fácil para mim cantarolar, manter tons, entonar a voz, dentre outras coisas, mas rap é nada mais nada menos que uma melodia falada, no caso, com um pouco de rapidez, e eu não sei se acertaria uma dessas, mas não custava nada cantar.
Perguntamos para Shisui se ele tinha como baixar ali e agora o instrumental da música, e como a Akatsuki Music não é para brincadeira, ele já tinha feito, enquanto escutava Mei e eu conversando. Peguei no celular de Mei para ver a letra e tentar me sair bem, visto que ela já sabia a música de cór e salteado.
[Waste my time – Alexz Johnson feat. Shay]
Friends are telling me I lost my mind
When I hooked up with you
Maybe that's true
Said that I'll wake up one day
Asking what did I do
Maybe that's true too
When I'm with you everything's alright
All I know is how I feel
When you're with me
Waste my time, waste my time
Not so sure that I'll be yours
And baby you could be mine
It's all about hanging out
Cause you know how to waste my time
Nothing like an empty day
With nowhere to be
You're right there with me
Laughing as the world goes by
How we let the day
Moving way too fast
Cause when I'm with you I don't really care
What they all want me to be
I just want you beside me
Waste my time, waste my time
Not so sure that I'll be yours
And baby you could be mine
It's all about hanging out
Cause you know how to waste my time
Call me Shay on the M-I-C
When you listenin' to me
You be listenin' to b bumpin'
To the rhythm they'll be given
When we hit em with the beats on the streets
Don't forget the way we livin', yo
(Waste my time)
You girl on the other side of the wall
(Waste my time)
I like the way you move your body, and if you fall
(not so sure that I'll be yours)
I'll be the one that's gonna catch you before you hit
the ground
(Baby you could be mine)
I'm feeling your sound
It's all about (yeah girl, it's all about)
Hanging out (you know, we hanging out)
Cause you know how to waste my time
Waste my time (wasting my time)
Waste my time (yeah, yeah)
Not so sure that I'll be yours
But baby you could be mine
(you could be mine)
It's all about (yeah girl, it's all about)
Hanging out (we hanging out)
Cause you know how to waste my time
(wasting my time)
Mmm, you know how to waste my time
Tinha me empolgado consideravelmente na hora do rap, mas acho que me saí bem, já que Mei Terumi pulava sem sair do lugar enquanto batia palmas.
– Naruto-kun, você foi ótimo! — Parabenizou. — Aposto que não sabia que tinha uma veia rapper!
– Na verdade, não desconfiava nem de uma única céula rapper em meu corpo. — Brinquei, fazendo todos rirem. — Shisui, Konan, o que acharam?
– Eu acho que você se descontrolou um pouco por causa do rítmo, mas nada que alguns exercícios de respiração não consertem. — Konan opinou e levantou-se, entrando na sala de gravação. — Vamos lá, ok? Sente-se, quero trinta respirações fundas.
(…)
Estava almoçando com Sasuke. Minha rotina se baseava nisso basicamente. De manhã eu ia para o estúdio, almoçava com Sasuke, ficava mais um pouco na Akatsuki Music 3, ou ia para casa, e de noite trabalhava no bar.
Era uma linda sexta-feira, e faltavam exatos dez dias para minha música com Mei ser lançada. Ela havia postado previews em suas redes sociais, e eu fui obrigado a criar uma rede social também, já que agora as pessoas queriam saber quem eu sou, e isso é loucura demais!
Em toda postagem que eu fazia, tomava bastante cuidado para desabilitar a localização. Não que eu não desejasse a fama, mas é algo que não posso lidar agora, não com a minha vida tomando o rumo que é necessário.
Meu namoro com Sasuke vai muito bem, obrigado, mas há alguns dias tive uma conversa com Konan e Pain que me deixou muito preocupado. Eles estavam juntos, mas me diziam que, quando as coisas apertassem, devido ao meu plano, eu teria que me separar de Sasuke, nem que fosse temporariamente.
Infelizmente eu entendia. Se Sasuke estivesse comigo, consequentemente estaria correndo perigo. Qualquer pessoa que quisesse me machucar usaria Sasuke de alvo, seria muito mais simples do que tentar me confrontar. E se algo acontecesse comigo, tenho certeza que Sasuke se culparia pelo resto da vida por não ter me protegido, coisa que ele não pode, mesmo querendo.
Era uma encruzilhada, e eu entendia o porque Pain e Konan ainda estavam juntos. Se eu estivesse com Punk, ele também estaria nessa missão, me protegeria o máximo que pudesse, mas não tentaria fazer algo estúpido como morrer para me salvar. Quem conhece essa vida, e até mesmo eu que pouco conheço, sei que não dá para ter algo que te prende a realidade normal, porque isso só atrapalha seu trabalho, põe sua vida, a sua missão e a vida de outras pessoas em risco, mas agora é tarde demais. É tarde demais porque eu já me importo com alguém, eu já tenho alguém que não posso deixar correr perigo.
Konan me disse que eu teria um tempo para pensar em como terminar com Sasuke. Não sei se deveria falar sobre o que eu irei fazer, pois isso pode deixá-lo com vontade de interferir, e eu realmente não posso lidar com um Sasuke sem nenhuma experiencia querendo se suicidar invadindo a mansão Rinavalius comigo.
O que eu deveria fazer?
– Amor, você parece estar no mundo da lua. Algo te preocupando? — Sasuke perguntou enquanto fazia carinho em minha mão com seu polegar.
– Nada demais, só... Pensando na música que será lançada. — Sorri, tentando esconder a mentira. — Achei que minha estréia na música seria somente minha, e tinha medo que ninguém se interessasse. Mas depois de pesquisar sobre o trabalho de Mei, vi que ela é realmente incrível, e estou feliz em que minha primeira aparição na mídia seja ao lado dela.
– Realmente, Mei é um talento. Sakura adora dançar ao som das músicas dela. — Sakura é cunhada de Sasuke, e minha concunhada, e em falar nela, tem tempo que eu não a vejo. Será que ela sabe algo sobre o que Itachi irá fazer? E se sabe, estaria preocupada?
– Como... Sakura está? — Tomei cuidado ao tocar no assunto, não queria causar nenhuma suspeita sobre o meu interesse por trás disso.
– Está ótima! Itachi finalmente realizou um sonho dela. Itachi deu material para Sakura fazer uma inseminação. — Oh, então ela não sabia. Provavelmente Itachi estaria dando uma espécie de presente para ela, para Sakura lembrar eternamente de si, caso algo acontecesse. Pelo visto, todos estavam tomando providências em questão disso. Menos eu, que sou covarde para proteger alguém que amo.
Decidi que terminaria, sim, com Sasuke, mas não agora, precisava de mais alguns dias ao seu lado. Demorou para finalmente ficarmos juntos, ainda não estava pronto para deixá-lo.
(…)
Punk.
Dirigia Alexz até o próximo esconderijo da Akatsuki.
Qual é, vocês acharam mesmo que Itachi me esconderia isso por muito tempo? Eles precisam de mim para a missão maluca que Naruto inventou, precisavam porque eu sou bom, e porque só o líder da Ambu Nation conseguiria arrastar mais de quinhentas pessoas para uma missão suicida no covil de Rinavalius.
Estava nervoso porque ia ver Naruto. Falar no telefone com ele outro dia foi surreal, mas eu estava decidido a não mostrar nenhuma emoção extra. Seria quem eu sempre fui, talvez um pouco menos mal.
Conseguiria ficar ao lado de Naruto na merda desse treino e não tomaria nenhuma decisão imprudente. Pelo menos não o tipo de decisão que faria Naruto me querer morto, já que não queria minha presença mesmo...
Minhas mãos suavam quase de modo incontrolável, e eu estava ficando puto com isso. Qual foi, o máximo de diálogo que Naruto e eu tivemos desde que terminamos foi aquela conversa no telefone... Se é que poderia chamar aquilo de conversa. Sempre odiei sentientos, e tive bastante tempo para pensar nisso enquanto Sasuke me manteve aprisionado durante o tempo que passou. E que pouco tempo, hein? Havia, sim, sido hipócrita com Naruto ao traí-lo, mas sua hipocrisia fora mil vezes maior ao me dizer que não tinha esquecido-me da noite para o dia. Claro, porque era super normal ele conseguir beijar alguém idêntico a mim fisicamente sem nenhum remorso.
Sasuke tinha algo que eu não podia dar para Naruto: estrutura.
Sou a porra do líder da Ambu Nation, não posso me dar ao luxo de ser todo lovey dovey¹ com alguém. Não que eu ligasse quando meus empregados chamavam Naruto de “boneca do chefe”, na verdade, era até bom, mostrava que Naruto era realmente minha posse, mas algo eu tenho que discordar, ele nunca fora minha boneca.
No tempo que tive para pensar, percebi que Naruto sempre fora um espírito livre demais, independente demais, tanto é que trabalhava como barman, músico e agora mafioso... Vê se pode, não é mesmo? E aprendi a refrear meu ciúmes.
Há algum tempo atrás, se Sasuke sequer pensasse em encostar seus lábios nos de Naruto, assim que eu assumisse o controle, iria possuir meu ex namorado com todo meu vigor, deixando nele marcas que provavam minha posse sobre si, que gritassem ao mundo que Naruto Uzumaki gemia como uma putinha no meu colo, e apenas no meu. Porém, quando dei por mim, era Sasuke que fazia Naruto gemer, na cama onde eu raramente estivera com meu ex namorado.
E não era ciúmes. Era dor.
Creio que era a pior dor que eu poderia sentir na minha vida, e ei, eu já fui baleado, se quer saber. Doía tanto por não ser uma coisa que poderia ser curada com remédios, nem com ataduras, era apenas... Torturante. Ver os olhos de Naruto brilharem, para logo depois se fecharem em prazer, chamando o nome dele... O meu nome. Doía mais ainda saber que não era eu ali. Estava apenas assistindo, como um mero espectador voyeur. E doía mais ainda por saber que eu merecia aquilo por ser exatamente o que fiz com Naruto.
Se me perguntar como é viver sem Naruto ao meu lado, respondo que é completamente diferente do que imaginei. Não porque estou decepcionado, e sim porque é difícil. É difícil não poder vê-lo corar ao dizer algo embaraçoso, é difícil não poder escutar sua risada toda vez que me contava seu dia, é difícil não ser mais o porto seguro para quem ele se entregava, a figura máscula que ele tinha o prazer de se aninhar nos braços e não tinha receio de se demonstrar frágil. É difícil porque sou incompleto, e só agora noto que apenas eu posso me completar, mas tudo é pior quando falta aquela peça principal do quebra cabeças. Aquela que quando você termina os cantos, e vai preenchendo por dentro, sempre está faltando, acabando por aparecer de baixo da caixa, ou em outro lugar inusitado. É esse tipo de peça, que quando perdemos, notamos que, não importa o quanto quebra cabeças seja bonito, e nem se juntamos as fodidas 999 peças, se a de número mil não está, impossibilitando aquele algo de funcionar como a masterpiece² que deveria ser.
É algo que notei sozinho, sem precisarem me dizer, sem precisar de Itachi buzinando no meu ouvido, tentando por luz na minha cabeça... Tsc, aquele baka aniki, sempre achando que precisa tomar conta de mim, mas que agora só se preocupa com a felicidade de seu “outro” otouto.
Eu poderia viver sem Naruto, afinal, ainda não me matei, não é mesmo? Mas afinal... Qual era a graça de viver sem Naruto? O vento que batia em meu rosto, enquanto eu pilotava, não parecia o mesmo. A sensação de montar em Alexz também não era boa o suficiente se ele não estivesse em minha garupa. Usar minha jaqueta de couro não fazia sentido se não era para o tecido ser puxado com a finalidade de Naruto me dar um daqueles seus beijos pretensiosos, que só nós dois sabíamos como era, na nossa intimidade. Algo que jamais foi contado, registrado... São apenas minhas memórias, presenteando-me com flashs de visão distorcida de algo que parecia ser muito bom para ser verdade, e de fato, era.
Cheguei ao lugar que parecia simples, uma casa no meio de um campo, até que bastante tranquilo. A casa em si era pequena, mas possuia dois andares, e mesmo estando de frente para o imóvel, era possível perceber um grande terreno na parte de trás, presumi que os outros estariam ali treinando. Passando pela cerca em volta da casa, — sim, ainda com Alexz ao meu lado – deixei minha moto bem pertinho da construção, não queria ninguém relando os dedos na minha bebê. Tsc.
Segui contornando a casa, diretamente para onde pensei que estavam treinando, e não me surpreendi ao ver que estava certo, mas ao contrário de mim, Naruto parecia muito surpreso ao me ver naquele lugar, tanto que deixou de prestar atenção na luta, e Itachi achou graça em derruba-lo com seu Jō³, apenas encostando o bastão em um ponto específico de sua perna.
Evitei soltar uma risada pelo nariz. Naruto era mesmo um desastrado, ainda que depois de ter a mínima noção de que não deveria se distrair enquanto lutava. Parei assim que alcancei todas as duplas que treinavam ali e os saudei com um aceno de cabeça, para depois me dirigir a Itachi apropriadamente.
– Assim como solicitado, aqui estou, aniki.
– É muito bom velo aqui, irmãozinho. — Por mais que os tratamentos carinhosos e até afetuosos em nossa língua mãe, o japonês, Itachi e eu mantínhamos o tom de frieza que para nós era tão característico. Eu seria uma versão 2.0 de Sasuke, que saiu exatamente como o pai gostaria, então a compostura Uchiha já era algo natural quando tinha de tratar com a família. — Estamos treinando duelos com bastões, Naruto precisava por em prática alguma agilidade, praticar a observação e a concentração. Agora que você chegou, pode treinar com Naruto.
– Como assim treinar comigo, Itachi? — Naruto se pronunciou, finalmente levantando do chão. Sua voz estava alguns décimos alterada para o tom mais grave, dando a entender que ou estava tentando se fazer de forte perante a mim, ou realmente me odiava. Ou os dois, se possível. — Achei que você treinaria comigo.
– Isso era apenas provisório, Naruto. — Itachi sorriu daquele jeito. Ele estava com alguma tramóia na mente. Me pergunto como alguém que consegue amar tanto, conseguia manipular situações de modo sádico na mesma proporção. — Veja, temos duplas que trabalham perfeitamente bem aqui: Sasori e Deidara se completam como a verdadeira obra de arte que são, apesar de praticamente opostos, encontram-se num senso comum em algumas coisas, trazendo o equilíbrio necessário para se darem bem. Karin e Suigetsu, pelo contrário, pensam apenas em si mesmos, mas são perfeitamente capazes de trabalhar em dupla se o objetivo é triunfar. Pain e Konan, não menos importantes, são... amantes. O que sinceramente me preocupa, isso pode afetar muito a habilidade dos dois, mas estou tentando dar um voto de confiança e...
– Itachi. — Interrompi. — Onde quer chegar com isso? Sei que todos são duplas bem estruturadas, mas o que Naruto e eu temos a ver com isso?
Pode ser apenas impressão minha, afinal, estou sempre sobre constantes efeitos de álcool, mas pude jurar que vi Naruto estremecer ao ouvir-me pronunciar seu nome.
– Quero dizer que nossa invasão ao QG de Rinavalius terá todos os quinhentos homens que Naruto quer, talvez a mais, talvez a menos, porque eu sinceramente preferia algo mas discreto. Infelizmente, não podemos deixar que a indiscrição atrapalhe nossa missão, não sabemos ainda quantas pessoas residem o QG e quantos seguranças há por fora, então por via das dúvidas, manteremos o número. Porém, para chegar na sala principal e eliminar a família na cabeça da organização, seremos um grupo de elite, só a Akatsuki, organizada em sua tão antiga formação: em duplas. E Sasuke, sua dupla de agora em diante é o Naruto. — Finalizou com aquele tipo sorriso bastardo que me dava uma vontade louca de desfigurar seu rostinho perfeito. Definitivamente meus sentimentos por Itachi eram conflitantes, porém, nada ultrapassaria o respeito que eu tinha por ele como ser humano, e como irmão.
– E-eu... — Naruto pretendia opinar, eu sabia, mas logo pareceu lembrar de algo. — Ok. É um prazer tê-lo como meu parceiro, Punk.
– Digo o mesmo, Naruto. — Respondi. — Então, Itachi, — dirigi-me ao meu irmão. — Trouxe minha roupa de treino?
– Como se eu fosse esquecer dessa roupa, irmãozinho. — Itachi soltou um riso fraco. — Há anos eu não te vejo usar isso, acho que desde que você tinha dezesseis...
– Dezessete. — Corrigi. — 17 anos. Espero que ainda caiba.
Naruto.
Foi com o estômago revirado — até agora não sei de nervoso, surpresa ou raiva – e com o coração na boca, que assisti Sasuke sair da tal casa, voltando para o campo de treinamento, com uma roupa que eu definiria como... Como eu definiria?
Punk estava... Merda, não sei!
Não era como sua habitual jaqueta de couro, nem seus jeans apertados de lavagem clara, nem seus coturnos de guerra, não era Punk, mas era, entende? Não consigo imaginar mais ninguém que conseguiria domar um ambiente apenas com a presença daquele jeito sufocante, enquanto sustentava um olhar impenetrável, como se, ao vestir aquela roupa, lembrasse de algo que alimentava sua vitalidade, era como se Punk exalasse uma aura de puro ódio misturado com tesão reprimido e uma felicidade petulante por estar “de volta a ativa”.
Eu definitivamente não sabia o nome da roupa que Sasuke usava, mas consistia em uma camisa de gola alta, fechada por um zíper frontal, sua calça de linho preta era presa por uma espécie de corda que, embora a aparencia grosseira, parecia ser extremamente leve, e seus pés estavam descalços.
Apesar de ter o mesmo corpo e o mesmo rosto, era incrível como com a mudança de personalidade, haviam algumas mudanças físicas quase imperceptíveis. Talvez fossem meus olhos, mas eu enxergava Sasuke com outra postura, outro modo de olhar, de sorrir, de mexer as pontas dos dedos. Cada vez que eu me expunha a esse tipo de situação, a certeza latejante que tinha em meu peito parecia aumentar ainda mais. Era só um corpo em comum, porque eram pessoas extremamente opostas que o habitavam.
Sasuke então parou de andar e pousou uma de suas mãos na cintura, inclinando o quadril para o lado oposto. Uma pose considerada afeminada, mas que vinda dele parecia extremamente masculina. Sua voz sempre rouca soou ao ouvido de todos.
– E então, como estou?
Foi com uma mísera frase e uma troca de roupas, que percebi o inevitável: eu ainda tinha atração por Punk. Não só pelo corpo que atraía meus olhares, mas sim pelo homem que era em si. Punk não era só uma roupa, ou um modo de agir, Punk era Sasuke, Sasuke-Punk, era por si só displicente, rebelde, atrevido, fogoso, de atitudes geladas, mas gestos quentes... E era algo que eu teria que lidar, daqui para frente.
– Está falante demais, vamos otouto. — Itachi chamou. — Pois bem, quero todos em fileiras aqui. Os mais baixos para meu lado esquerdo, os mais altos para o direito, de frente para seu parceiro com o Jo na melhor mão.
E assim ficamos, a primeira dupla, bem a frente de Itachi, éramos Punk e eu, infelizmente, eu era menor. E assim seguia, Deidara e Sasori vinham logo depois de nós, seguidos por Pain e Konan e Suigetsu .
– Muito bem, cruzem seus bastões. — E assim fizemos. O olhar de Punk estava selvagem, mas eu continuava confiante. Em nossa última briga física eu levara a melhor. — Quero que prestem bastante atenção no que vou dizer. Quando eu autorizar, os integrantes da dupla vão lutar um contra o outro, atingir áreas como seios e pênis é proibido aqui no treino, mas é perfeitamente válido no combate real. Eu irei autorizar, e vocês serão inimigos, não importa o quanto se gostem. O outro objetivo é que as duplas consigam se afastar o máximo possível, se movendo por todo o campo e sem se encostar, quero que tenham noção de onde estão, de quem está perto, se alguém está vindo por trás.
– Está bem Itachi, conhecemos as regras. — Suigetsu, que até então estava quieto, disse. É, nada que é bom dura para sempre. — Se não fosse pelo novato aí, o treino já estaria progredindo para as finais.
– Cale-se. — Sasuke rosnou.
– A luta recomeça quando um dos membros da dupla conseguir derrubar o outro, e tocar com o bastão em seu peito, pescoço ou cabeça. — Itachi suspirou, parecendo aborrecido por ter sido interrompido por Suigetsu. — Autorizado!
E o primeiro golpe foi meu.
Nada demais, apenas bati meu bastão contra o de Sasuke, para enfurecê-lo, e por incrível que pareça, funcionou. Com um moviemento fácil e ágil, Sasuke agachou com graciosidade, e antes que eu pudesse pensar direito, já tinha levado uma rasteira, e o Jō de Sasuke estava posicionado em minha testa.
– Eu... — Tentei balbuciar. Punk esticou a mão para mim, ajudando-me a levantar. Respirei fundo algumas vezes, realmente fui pego de supresa.
Me armei em posição de combate de novo, e dessa vez a inciativa partiu de Punk, mas ao invés de bater com o bastão contra o meu, ele bateu na lateral de meu joelho, fazendo-me dobrar a perna e ajoelhar-me, sem querer. Encostou seu Jō em meu pescoço.
Levantei-me mais uma vez, possesso, determinado a acertá-lo. Em um golpe impensado, descrevi um arco por cima de minha cabeça com o bastão, tentando acertá-lo de um jeito que eu descreveria como imprudente e infantil, mas acima de tudo, movido pela raiva. Achei que Sasuke desviaria para o lado, a coisa mais lógica e fácil de se fazer no momento, mas pelo visto, queria me mostrar que não era fraco em batalha como eu me dera o luxo de pensar, e humilhou-me a dar um mortal para trás, caindo na ponta dos pés com tamanha suavidade.
Um sorriso zombeteiro brincou nos lábios de Punk, seguido por uma arqueada de sobrancelha que eu conhecia bem, e sem perceber, acabei retribuindo ambos os gestos. Avancei em passos rápidos, parecendo entrar em mais uma investida burra, e deixei Punk acreditar até o último segundo nisso. No limite de tempo para o golpe, joguei meu bastão para o alto, esperando atrair sua atenção, mas como eu já esperava, ele não se distraiu facilmente, continuando a olhar para mim, que abaixava aparentemente para lhe dar uma rasteira. Como eu disse, uma investida burra para alguém como Sasuke, mas que pegaria qualquer outro bobo covencido. Quando Sasuke pulou para evitar minha tentativa de rasteira, o surpreendi, usando minha perna de apoio para impulsionar meu peso, levantando a perna esquerda em minha maior flexibilidade, chutando seu tórax. Como Sasuke estava no ar, foi impossível para ele controlar o pouso forçado que teria de fazer. Meu bastão chegava a altura de minha mão, o qual não exitei em agarrar e golpear com toda força o lado de seu pescoço, deixando a área vermelha e o derrubando.
De repente, o barulho de bastões batendo parou, e eu sentia os olhares de todos em minhas costas e nuca. Abaixei o bastão, e imitando o gesto de Punk, o ajudei a levantar.
Treinamos o resto do dia, já estava escuro quando paramos e eu peguei minha moto para ir até o posto de gasolina e loja de conveniências mais próximo. Entrei na loja de conveniências, comprando um energético enquanto voltava para o posto para encher o tanque de minha moto. Quando terminei o que deveria fazer, encostei-me na lateral da loja, sentando-me no chão para poder beber o energético.
Algum tempo depois alguém sentou ao meu lado, depositando no chão um engradado do mesmo energético que eu estava bebendo. Não precisava me dar ao luxo de olhar para o lado para saber quem era. Reconhecia aquele cheiro, mesmo encoberto pelo suor. Na verdade, acho que reconheceria aquele cheiro não importa a circunstância.
– O que quer aqui? Não devia estar com os outros dentro da casa, ou ter ido, sei lá, para o QG?
– Não é como se o QG fosse o meu lugar favorito no mundo. — Punk respondeu, dando de ombros e pegando uma latinha de energético do engradado. — Está fugindo ou se escondendo?
Encostei a cabeça na parede, decidindo que não adiantaria ser grosso com Punk, nem ficar todo tenso perto dele. O que passou, passou, não é hora para remoer o passado se eu nem sei se terei um futuro.
Respirei fundo, tentando relaxar, antes de responder.
– Me escondendo.
– De mim? — Mesmo de olhos fechados, eu sentia o sorriso na voz de Punk. E dessa vez, não me parecia um daqueles sorrisinhos sarcásticos.
– De você. — Confirmei. Mentir pra quê, afinal?
Era óbvio que eu não tinha superado Punk, e ao notar que ainda tinha atração por ele, treinar com ele por mais de quatro horas fora praticamente insuportável, eu precisava de um descanso, um refúgio que fosse, para poder pensar.
Virei a cabeça levemente para o lado e abri os olhos, encontrando Punk na mesma posição que eu estava segundos atrás.
– É difícil para você? — Perguntou. — Ficar ao meu lado, e treinar comigo...?
– É sim. Na verdade, quando eu te vi quase tive um infarto. — Ri pelo nariz. — Não achei que ficaria frente a frente com você nem tão cedo.
– Tem mais de um mês que terminamos, Naruto. — Punk lembrou. — E quando não tínhamos nem uma semana de término, você já estava com Sasuke, beijando, tocando-o daquele jeito, eu... Não sabia que doía assim. — Abaixou a cabeça, enterrando-a entre suas pernas. — Droga.
– Não sabia que o que doía tanto assim? — Endireitei minha postura para poder lhe olhar melhor. Punk estaria sofrendo sem mim? Por que ele não olhava para mim como sempre fazia? Cadê aquele cara todo confiante e prepotente?
– Não sabia que viver sem você doía tanto assim. — Riu fraco. — Estou me achando um babaca sentimental. Por incrível que pareça, os primeiros dias não foram os piores, nem os mais recentes. Os dias mais difíceis são aqueles em que algo de bom acontece e eu desbloqueio o celular, pronto para te ligar e então travo, lembrando que não posso mais fazer isso.
– Se você ligasse, eu provavelmente não atenderia...
– Sei disso, e é perfeitamente compreensível. — Sorriu sem mostrar os dentes. Desde quando Punk parecia tão... Abatido? — Eu poderia ter armado um plano, ter movido mares e montanhas para te ter de volta, mas veja bem, você nem ao menos suporta minha presença, parece ser sufocante para você. — Oh, ele nem imagina o quanto. — Eu... Gosto de ver quando você está feliz. Sabe, quando Sasuke te faz cócegas, e seus olhos ficam pequenininhos, menores do que já são, e seu sorriso se abre, aquele sorriso que só você sabe dar. Ou então quando ele te chama de algo em japonês e você pergunta o que significa, corando logo após saber. Chega a ser pecado, eu acho. Ver pelos olhos de outra pessoa algo tão bonito, tão encantador, e não poder se aproximar.
– Punk... — Tentei interromper.
– Dói no peito e queima na garganta, quando ele te beija. É tão horrível! — Exasperou-se. — Me diga, Naruto, por que eu fiz algo assim com você? E eu fiz ainda pior! Como eu pude? Por favor me diga se foi algo tão ruim que você sentiu quando me viu com a Ino aquele dia.
Eu deveria falar para Punk como havia me sentido? Seria uma ótima oportunidade de fazê-lo sofrer mais do que já estava, mas... não parecia certo alguém como ele ficar tão torturado assim.
– Eu me senti quebrado. Em mil pedaços. — Comecei, voltando a fechar os olhos. Eu sabia que se os deixasse abertos, lágrimas teimosas rolariam por meu rosto. — Eu te amava tanto, tanto, tanto, Punk... Chega doía o quanto eu conseguia te amar. Toda vez que eu te via, quando me jogava contra seus braços e você me erguia em um abraço, nossa, eu achava que meu coração ia explodir, e então... Aquilo aconteceu. Senti como se eu fosse um boneco de massinha, que você moldou e deixou secar, para quando eu menos esperasse, quebrar-me. Achei que poderia morrer de tristeza e decepção , era como se uma âncora puxasse meu coração, o apertando, amassando, cada vez mais fundo para algum lugar dentro de mim que não era meu peito. Foi a pior sensação que já experimentei e não gostaria de passar por algo semelhante.
Esperei Punk se pronunciar, mas nada foi ouvido. Tomei coragem para abrir os olhos e me deparei com Punk em sua antiga posição: sentado do meu lado, com a cabeça encostada na parede e os olhos fechados. Porém havia um diferencial.
Punk estava... Chorando?
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