Blurred lines.

26 Depois da calmaria...


Notas iniciais
E aí, lindões? Bom, eu sei que estou atrasada, mas posso me justificar com o de sempre: minha vida corrida. Eu não sei se já disse para vocês, mas gosto de ter uns 3 ou 4 capítulos adiantados, que aí eu entro no Nyah! rapidinho, respondo os comentários e só copio do Word e colo aqui, mas... Chegou ao ponto de eu estar tão sem tempo que fiquei sem capítulos extras e penei pra conseguir terminar esse capítulo até hoje, pois não queria passar muito dos meus prazos. Espero que vocês entendam caso eu não consiga mais postar toda semana :/ Aliás: é agora que as tretas começam! Se preparem! Obs: os trechos em itálico desse capítulo, na visão do Kakashi, significam que é um flashback acontecendo. Boa leitura!

Punk.

– Como assim "você foi avisado?!" — Gritei, puto da cara. Naruto ao meu lado estava com os olhos marejados e de tempos em tempos seu peito tremia em um soluço silencioso. Eu sabia que ele estava doido para chorar, mas não iria, aprendeu comigo que o líder jamais, em nenhuma situação, deveria demonstrar fraqueza.

A nossa frente estava Karin, prima de Naruto, ajoelhada e sem qualquer parte de cima de sua roupa, e por incrível que pareça, ninguém estava prestando atenção nos seios de Karine enquanto ela encarava o chão, molhando-o com suas lágrimas de raiva. Também, não era para menos, em suas costas estava gravado — ou melhor, entalhado — a seguinte frase "você foi avisado", e o sangue descia um pouco menos intenso por sua pele.

Estava na cara que era um recado para Naruto, que estava lívido, encarando as feridas de faca como se nunca tivesse visto sangue na vida. Eu entendia o sentimento, afinal alguém que era sangue do seu sangue havia se machucado, mesmo que ele não fosse muito próximo da ruiva. Minha indignação também não estava lá muito baixa, afinal, não é como se eu não gostasse de Karin, ela era querida.

– Como isso foi acontecer, Karin? — Naruto perguntou, mantendo o tom de voz brando.

Senti por ele.

– Estávamos acampando, estava tudo bem, até que Karin e eu discutimos e eu fui dar uma volta para espairecer... — Sui explicava, dito que Karin não estava em condições de se pronunciar, até porque nem se levantado do chão ela havia, continuava ali, chorando de raiva. — Quando eu voltei Karin estava deitada no chão, não completamente apagada, e alguém em cima dela... Não sei se era homem ou mulher, estava com uma capa... Esse alguém entalhava essas palavras em suas. Aí eu peguei minha arma, você sabe que eu nunca deixo a Mary sozinha, e disparei, acertando o ombro dele. Não o persegui porque preferi socorrer Karin.

– Agiu certo. — Elogiei, apesar da situação não estar para isso.

Mesmo depois da minha discussão infeliz com Suigetsu, mesmo depois de ter ameaçado apagá-lo... Ele ainda olhava para mim com aquele olhar. Embora eu não merecesse, sabia que não importa o que eu faça, Suigetsu sempre me perdoa, porque ele é meu melhor amigo.

Pensar nisso me fez suspirar de desgosto por ter tornado minha vida em uma bagunça onde eu não consigo me encontrar direito.

– E por que vocês discutiram? — E assim entrou um Itachi furioso no saguão do QG. Furioso era pouco, ele com certeza estava mais puto que Naruto e eu juntos. Sua face estava um pouco vermelha e eu sentia a aura assassina que emanava de meu irmão. Pela primeira vez na minha vida, eu provei o verdadeiro medo. — Eu passei essa merda de acampamento para vocês exercitarem a confiança da dupla, claro que eu esperava desavenças, mas você deixou a sua parceira sozinha, Suigetsu!

Era como se naquele momento, o mundo inteiro prendesse a respiração, todos juntos, e o único barulho existente era Itachi bufando como um touro louco, pronto para exterminar Suigetsu.

– Nós discutimos por... Por... — Em meu âmago eu sabia o motivo, mas não queria escutar isso, não queria que um membro da gangue tivesse sido ferido por isso.

– Qual foi o motivo, Suigetsu?! — Meu irmão gritou em plenos pulmões. A paciência dele estava pequena, quase acabando.

– Nós discutimos por causa de Sasuke. — Levantou a cabeça, mirando os olhos de meu irmão. — Brigamos porque ela quer roubar o Sasuke de mim, assim como Naruto.

E essa foi a gota de água necessária para o mundo transbordar.

Em segundos que não pareceram existir, Naruto já tinha desferido um soco no rosto de Sui, tendo o pego desprevenido. Itachi segurava Naruto pelos ombros, mas eu via em seu olhar o quanto ele estava tentado a soltar o loiro e deixar que ele batesse em Suigetsu até o platinado desmaiar.

Apesar dos pesares, essa gangue ainda era minha, mesmo com Naruto; esses funcionários ainda eram meus, os membros também. E ninguém mexe com o que é meu e sai ileso.

Recebi um olhar matador de meu irmão que dizia claramente "resolva essa merda toda, agora!", e eu faria isso, ou tentaria, né.

Andei até Karin, que praticamente afogava-se em lágrimas, e abaixei-me, tocando seus ombros. Pela primeira vez na vida eu olhei para os seios de uma mulher e não lhes dei atenção, na verdade, nem conseguiria, já que a face horrorizada de Karin prendia todo meu foco no momento. A ajudei a levantar, tirei minha jaqueta — minha amada jaqueta — e a cobri, para evitar mais olhares do que o necessário. Levei Karin para o único lugar absolutamente seguro dessa mansão: o meu quarto.

(...)


Depois de tê-la feito tomar banho e eu mesmo ter limpado seus ferimentos e feito um curativo, resolvi interrogar Karin, que agora estava deitada em minha cama, coberta até o pescoço com o meu grosso edredom.

– Karin, podemos conversar? — Tentei usar meu tom de voz mais ameno, afinal sabia que aquela conversa não seria fácil, ainda mais por eu ter sido o culpado de toda essa merda que está acontecendo.

Ela assentiu levemente com a cabeça e botou um braço para fora do cobertor, pegando minha mão e me puxando para sentar ao seu lado na cama. Realmente, nem ferida ela desistia.

– Eu quero entender direitinho como essa história aconteceu, ok? Não me esconda nenhum detalhe, vai ser bem pior se eu descobrir depois.

– Estávamos juntos, Suigetsu e eu, acampando, e até aí estava tudo bem... Sabe, estávamos em cima do capô do carro, olhando para o céu e bebendo, até que ele começou a voltar no assunto recorrente dos últimos, sei lá, mil anos da vida dele... Você. — Olhou-me nos olhos e eu vi aquela pequena faísca de sentimento brilhar dentro deles. Depois que Naruto foi embora, aprendi o quanto doía gostar de alguém que não era seu. Não conseguia sentir mais pena de Karin por querer algo que nunca iria conseguir, mas sentia compaixão e orgulho pela sua força de vontade. — Suigetsu estava planejando um jeito de separar Naruto de você, contou que você havia o dispensado e ameaçado apagá-lo, mas também disse que sabia que isso era só da boca para fora, que no final você sempre voltava para a cama dele.

Revirei os olhos e suspirei. Era bem a cara de Suigetsu dizer uma coisa dessas mesmo.

Não tinha jeito de por na cabeça dele que Naruto não é só fogo de palha, que o que sinto por ele não é brincadeira... Uma vez na vida você vai encontrar alguém com quem vai conseguir uma vida juntos, envelhecendo, compartilhando momentos... Naruto é essa pessoa para mim, e eu não podia deixar que ninguém, nem Suigetsu, tentasse nos separar. Não de novo.

– É claro que eu caí na pilha dele. — Karin riu, mas eu podia ver que ela não achava a situação nada engraçada. — Falei que, se você fosse ceder a alguém que não Naruto, seria a mim. E aí ele começou com a ladainha... Que você e ele já transaram tanto quanto dá para se contar sem perder a paciência, que você adora os beijos dele... E que nós nunca tivemos um contato mais íntimo que um abraço, blá, blá, blá... E então eu me estressei, desci a mão na cara do Sui. Aí ele foi embora.

Afaguei a mão de Karin, ela parecia mais abatida conforme continuava falando... Era como se lembrar disso fosse o maior erro de sua vida. E talvez fosse, afinal ela carregará esse aviso nas costas para todo o sempre. Tão desnecessário em uma moça tão bonita...

– E como você não percebeu a pessoa vindo te atacar?

– Para um chefe de gangue, você está ficando ruim em dedução, não é mesmo? — Piscou. — Eu desci do capô do carro e fui para perto da barraca, estava de costas, e quando escutei os passos achei que fosse Suigetsu voltando antes do que eu planejava. Não queria olhar para trás, não queria olhar o rosto dele. Você não tem noção, Punk. Não tem a mínima noção das desavenças que causa aqui nesse QG, nessa organização... Eu não sei se é a aparência, se é o jeito, a voz, ou se é o pacote completo... Há algo em você, que um dia descobrirei o que é, que encanta a todos, seja homem ou mulher. E se você não sabe, a paixão desperta os piores sentimentos em qualquer pessoa... Desperta o egoísmo, o ciúmes, a inveja... A raiva, o ódio. A paixão torna uma pessoa capaz de fazer de tudo, Sasuke, e isso não é bom no nosso meio.

É claro que eu fiquei calado, não tinha resposta para o que Karin acabou de me dizer. Ela estava mais que certa, mas... O que eu poderia fazer? Neguei Suigetsu mil vezes, e ele continuou atrás de mim; o ameacei, e ele continuou atrás de mim... Não há como fazê-lo parar.

– Eu, Karin Uzumaki, já entendi que apesar de todas essas pessoas aos seus pés, somente Naruto está a sua altura, o encarando, olhos nos olhos. Ele foi o seu escolhido, e eu me conformo, apesar disso ter me feito adquirir um pequeno desafeto com meu primo... — Sorriu sem mostrar os dentes, mas de novo, eu vi aquela faísca de sentimento. Ela realmente estava feliz por mim. — Estou ok com a marca nas minhas costas, de verdade. Só... Tome cuidado com Suigetsu, ok? Ele não é mais confiável.



Naruto.

– Você está fora de controle, Suigetsu! — Acusei, controlando-me para não bater mais no platinado. Ele passou dos limites! Abandonou Karin por causa de uma briga sobre um homem comprometido... Isso não é amor, é doença.

– Escute o que eu estou te dizendo, Uzumaki: você não é homem para Sasuke e só ele não percebeu isso ainda. Você não tem porte, não tem estrutura para passar a vida ao lado dele. Estou aqui há 11 anos e não pretendo sair agora. Sasuke é meu! — De nariz empinado ele tinha coragem de dizer isso para mim. Se Suigetsu soubesse da noite que Sasuke e eu dividimos... Talvez ele tentasse me matar.

Tudo estava bem claro para mim: as coisas não podiam mais continuar assim. Óbvio que eu tinha certeza que Hinata mandou alguém gravar esse recado nas costas de Karin e trazê-la para mim, porque, afinal, Karin é minha prima e companheira de trabalho. Eu estava avisado mesmo... A guerra fria estava acabada, agora é hora de por a mão na massa.

Eu não deixaria barato para Hinata, não deixaria ela machucar mais ninguém que fosse importante para mim. Se é para agir, eu vou agir, e as consequências serão severas.

Deixei para trás toda aquela confusão de Itachi com Suigetsu, e o resto da gangue nos olhando com espanto. Com um sinal de cabeça, Konan se juntou a mim, subindo as escadas rumo ao meu escritório, que ainda era dividido com Punk.

Assim que a porta do cômodo foi trancada por minha amiga, tive o prazer de me jogar em minha cadeira, sentindo o cansaço da noite e do começo desse dia se manifestarem em meu corpo e mente. Como tanta coisa poderia ter acontecido nesse pouco tempo?!

– Tudo está desmoronando... — Murmurei, de olhos fechados. Sabia que Konan havia escutado.

– Sim, incrível como em algumas horas passamos da gangue intocável, para "recebendo uma funcionária com um recado nas costas". — Temos que tomar alguma providência, e Punk está cuidando de Karin agora... O que você quer fazer? Conversar com ele e depois fazer algo, ou agir sozinho?

Agir sem Sasuke poderia causar uma bela briga entre nós dois, e se eu tomasse a decisão errada, talvez a gangue inteira fosse me odiar... Mas era algo que eu queria fazer. Também sou líder dessa merda, posso tomar decisões sozinho.

– Eu quero o melhor designer, e a melhor gráfica, tenho um plano. — Abri os olhos, e Konan já estava com o celular em mãos, os dedos voavam sobre o touch do aparelho de forma nervosa. Em questão de alguns segundos, Sasori e Deidara estavam dentro de meu escritório, sem ao menos serem anunciados.

– Naruto tem um trabalho para vocês. — Konan adiantou o assunto com a voz calma, mas eu podia ver suas pernas tremendo. Ela também não deveria estar nada bem.

Inclinei-me para frente, abandonando o encosto da cadeira. Apoiei os cotovelos na mesa, e minha cabeça em minhas mãos, ainda pensativo se deveria fazer isso mesmo... Eu provavelmente estaria começando a terceira guerra mundial, mas era um risco a se correr. Nenhum Rinavalius iria ferir um Ambu Nation, não sob meus olhos. Ninguém mexe com a minha família.

– Eu quero cinco modelos de convite prontos até o fim do dia. — Comecei. — Neles eu quero somente o seguinte "A organização Ambu Nation, convida você, e seus demais subordinados, para o baile de máscaras, a ser realizado no dia 25, às 21h, no hotel Generation. Conto com sua presença". — Deidara tremia feito vara verde, juntamente com Konan. De Sasori apenas recebi um olhar espantado, estoico como só o ruivo era.

Sim, eu iria reviver a merda desse baile de máscaras. Alugaria o hotel Generation — o maior da cidade -, para receber a todos. E que os jogos comecem.

(...)

Na noite anterior...

Kakashi.

Estava no sofá de Naruto, esperando alguma notícia de Obito, e se eu tivesse sorte, até o próprio em pessoa. Meio sonhador, me permiti lembrar dos nossos dias juntos.

Eu estava na porta de casa, sentado na varanda, esperando meu pai parar de enrolar e vir me encontrar, para que pudéssemos sair para pescar, mas pelo visto, ele se atrasaria tanto que só sairíamos na hora do almoço... Típico dele.

Aos poucos visualizei a dona Uchiha, que era uma velhinha que morava aqui na cidade, muito conhecida e respeitada por todos, e ela trazia junto de si um menino um pouco emburrado... Ele parecia ter mais ou menos a minha idade, cabelos negros e olhos mais negros ainda, contando com a pele pálida como leite, as mesmas características de sua avó, que agora carregava os fios do cabelo quase todos brancos.

– Olá, menino Hatake! — Dona Uchiha me cumprimentou, e eu respondi com uma aceno de cabeça. — Esse é meu netinho mais novo, Obito, que veio passar as férias comigo, mas parece tão desanimado... Pensei que já que vocês dois têm a mesma idade, se divertiriam mais juntos do que com dois adultos como seu pai e eu.

Levantei-me, e cumprimentei Obito também, que se mostrava um pouco tímido. Eu também não estava muito a fim de falar, afinal, isso é bem típico dos adultos, juntarem duas crianças para se livrarem das duas por período integral.

– Seu pai está em casa? — Afirmei. — Acho que vou entrar um pouco, tem tempo que não converso com o velho Hatake... Sinto saudades de quando o pai dele estava vivo, realmente um bom homem, com uma grande esposa. — Dona Uchiha praticamente devaneava no tempo. — Eu deixei as chaves da casa com Obito, se quiserem ir para lá lancharem, passar a tarde jogando algo... Estão liberados. Eu preciso esticar minhas pernas!

Timidamente Obito virou-se para o meu lado e maneou com a cabeça para que eu o seguisse, enquanto andávamos em direção a casa de sua avó.

– Qual sua idade? — Perguntei, tentando quebrar o gelo. Até porque não conseguiríamos ser amigos se não conversássemos, certo? — Eu tenho quatorze anos.

– Eu também. — Obito era curto e grosso, assim como sua avó, pelo que eu conhecia. — Eu não queria estar aqui... Desculpa, mas qual seu nome mesmo?

– É Kakashi, sua avó ama me chamar de menino Hatake. — Ele assentiu, e eu notei que isso fora um claro "é, eu percebi". — Por que não queria estar aqui, Obito?

Estávamos perto da casa de sua avó agora, e Obito já não parecia mais tão tenso, como se estivesse segurando o ar o tempo inteiro. As ruas da cidade eram tão tranquilas que podíamos andar fora da calçada sem nos preocupar, as pessoas aqui eram tão educadas que te cumprimentam sempre que você passa, aqui tudo é tão calmo e aconchegante... Como Obito poderia não querer estar aqui?

– Estou aqui como uma espécie de castigo, Kakashi. Meu pai e meu irmão mais velho acham que eu preciso entender mais a simplicidade para poder lidar com o nosso luxo... Acho isso uma grande bobagem.

– E eu acho que terei que te mostrar o lado bom da simplicidade, Obito. — Descansei as mãos em minha nuca, esticando o pescoço e encarando o céu por um momento, sentindo um vento gostoso bater contra meu rosto. — Você realmente não sabe de nada.

(...)

– Claro que não, Kakashi! — Obito gritava. — Você não chega em uma menina do nada e pergunta "posso te beijar?", não, não! A sua família tem que te arranjar uma garota, vocês se conhecem em um jantar, esperam até ter idade, e aí se casam!

Ri da bobeira que Obito insistia em dizer. Isso tudo começou quando ele me disse que tinha uma noiva chamada Rin, lá em sua cidade natal, que ficava no Japão. As coisas não deveriam ser desse jeito!

– Obito, eu só quero conseguir te explicar que você é novo demais para ter uma noiva que só viu uma vez na vida! Isso é loucura, cara! Vou te dizer, eu já tive duas namoradinhas, e é assim: você beija, se ela não te bater, você beija de novo porque ela gostou! E se ela contar pro pai, você apanha e parte pra outra. — Defendi minha tese. Eu tenho experiencia! Sei do que estou falando!

Obito pegou a almofada que estava no chão junto consigo e tacou em meu rosto, peguei a mesma almofada e lhe taquei de volta.

– Não seja bobo, Kakashi! Essa coisa de amor não existe. Você não passa a gostar de alguém sem perceber, aí depois beija... Isso tudo que você disse não passa de história de filmes! — Meu amigo revirava os olhos... Sempre tão abusado. — Agora venha aqui seu preguiçoso lazarento!

Antes que eu pudesse prestar atenção no que estava acontecendo, Obito puxou meu braço e eu caí de minha cama. Para evitar quebrar meu braço ou coisa parecida, me joguei em cima de meu amigo, que amorteceu a queda com seu corpo.

Levantei o rosto aos poucos, encarando a face assustada de Obito, que agora me olhava fixamente, enquanto corava um pouco.

– Hatake, você quer me mostrar essa sua teoria? — A voz de Obito agora estava um pouco rouca, e isso começava a deixar meu rosto quente. Droga, eu deveria estar corando?

– Que teoria? — Respondi, apoiando meu peso nos braços e aliviando um pouco Obito. Com os cotovelos apoiados no chão, meu rosto e o de Obito estavam a poucos centímetros de distância, e eu começava a entender o que ele estava querendo dizer.

– Somos amigos há um tempo bom, talvez eu goste de você e não sei. Então, quer me beijar para eu descobrir? — Com a ousadia de um clássico Uchiha, sorriu de lado, completamente cínico.

Eu realmente não sei o que estava acontecendo comigo, mas aos poucos aproximei mais nossos rostos... E o beijei. No início um toque tímido de lábios, mas quando senti que Obito soltou o ar, liberando também sua tensão... Um arrepio subiu por meu corpo todo, meu coração disparou, meus pelos ficaram eriçados... E eu nunca havia sentido algo assim com uma garota antes. Nossas línguas se tocaram, e minha nuca foi segurada, Obito e eu beijávamos como dois adultos, um verdadeiro beijo francês, e tudo era melhor do que eu podia imaginar.

(...)

Obito e eu estávamos em sua cama, conversando, lado a lado, sobre coisas aleatórias. Quem nos visse, realmente pensaria que éramos bons amigos, daqueles que não se separavam nem para ir ao banheiro... E realmente, talvez nós fossemos.

Mesmo que ele tentasse ser discreto, foi inevitável sentir a mão dele se aproximando da minha aos poucos, iniciando um toque tímido contra minha pele. Sorri, encarando o teto. Não sabia ao certo o que eu e Obito éramos... Nos beijávamos, nos abraçávamos, trocávamos carinhos íntimos até demais... Inclusive, tínhamos feito isso há alguns minutos.

Entrelacei meus dedos com os dele e virei meu rosto para encará-lo.

– No que está pensando? — Essa foi a pergunta que recebi. Ele sempre me pegava desprevenido com as coisas mais inusitadas.

– Em como somos próximos, e que não deveríamos estar assim... As férias vão acabar um dia e você sabe. — Voltei a olhar para o teto. — Sou muito novo para sofrer, Obito.

Fui surpreendido por Obito rolando para cima de mim, ficando cara a cara comigo, e em seu rosto havia um sorriso gentil.

– As férias vão acabar sim, e eu terei que voltar, mas ei, temos quatorze anos, são só mais quatro até você poder sair daqui e ir me visitar, onde quer que eu esteja. — Piscou um olho, daquele jeito que só ele sabia fazer.

Eu não sei ao certo como chegamos a esse ponto... Primeiro foram só alguns beijos, depois as coisas foram esquentando... Por dentro e por fora. Conforme o corpo de Obito aquecia o meu nas noites em que dormíamos juntos, meu coração também era aquecido pelo amor que descobríamos juntos, e isso era algo tão... Surreal. Estar ao lado de Obito era acelerar meu coração ao máximo, me por na ponta dos pés na beirada de um precipício; e estar longe dele era arrancar meu coração peito a fora, era querer meu fim.

E o que fazia minha barriga ter frio, minhas bochechas corarem, minhas pernas tremerem... Era saber que ele sentia o mesmo.

– E sua noiva, a Rin? — Não, eu não conseguia esquecer esse "pequeno" detalhe, que era uma moça bonita e de boa família esperando por Obito assim que ele voltasse para onde veio.

– Rin... Rin é só um detalhe, Kakashi. — Ele parecia pensativo, e isso me doía o coração. Eu sabia que não estava ao seu alcance cancelar esse noivado e trocar tudo por mim, ainda mais porque somos tão jovens, e esse sentimento todo pode sumir de uma hora para outra. Na verdade, meu medo era ser trocado, substituído, por alguém que não sabe metade do que sei sobre esse garoto deitado por cima de mim. Alguém que não fosse digno de seu amor. — Deixa de ser bobo, eu tô em cima de você nesse exato momento e suas mãos nem ao menos me tocam... Não me quer mais?

Imediatamente beijei o pescoço de Obito, arrancando um suspiro profundo dele. Não, eu jamais me cansaria dele.

– Não diga bobagens... — Minhas mãos deslizaram para sua cintura tão deliciosa, era automático, praticamente. O corpo dele tinha uma força de atração para com o meu, era o encaixe perfeito, tudo fluia, deslizava, se encontrava... Eram duas peças do mesmo quebra cabeça. — Você me deixa bobo, Obito. Isso é algo com qual ainda preciso me acostumar.

E assim continuamos.

Na época, eu não sabia, mas os beijos de Obito sempre seriam os mais doces e mais gostosos, seus toques sempre seriam os mais gentis, e a sua pessoa como um todo sempre seria o que mudaria o centro gravitacional do meu mundo.

Nos beijávamos com paixão e minhas mãos já estavam dentro da camiseta de Obito, apertando sua pele com devoção e uma certa força que eu sabia que deixaria marcas depois, afinal, ele era tão pálido... Não queria mais saber de nada, o despi de sua camiseta e fiz o mesmo com a minha, sentando-me na cama e o deixando em meu colo.

Com toda minha ternura, suguei seus mamilos, um de cada vez, sempre usando a mão no que não estava sendo mordido. Obito suspirava, abafando seus gemidos. Era assim toda vez.

Suas mãos, sempre ousadas, tocaram minha ereção por cima de minha bermuda, e eu entendi o que ele queria dizer: estava com pressa e sem paciência para preliminares.

As partes inferiores das roupas foram tiradas, agora nossos corpos roçavam nus, um contra o outro, mas isso não durou muito, pois num rompante, a porta foi aberta.

– MAS O QUE É ISSO? — Era dona Uchiha gritando, e agora, eu simplesmente não sabia onde enfiar minha cara.

Num piscar de olhos Obito já não estava mais em cima de mim, mas sim ao meu lado, tentando tampar suas partes íntimas.

Eu nunca irei esquecer a surra que Dona Uchiha deu em Obito, o arrastando escadas a baixo. Também nunca esquecerei de seu irmão mais velho, furioso, gritando aos quatro ventos que ele havia desonrado a família Uchiha, jogando sua semente em um lugar de onde jamais sairia frutos. Eu vi, com esses olhos que a terra há de comer, a pedra que foi jogada contra seu rosto, e logo depois vi Obito apagar com a força do impacto.

Mas digo que depois disso, nunca mais o vi.

Fui despertado de meus devaneios com o barulho da porta sendo destrancada. Realmente eu não sabia o que esperar, se era Naruto, Sasuke ou Obito. E se fosse o último, eu não saberia como encará-lo, não depois de vinte anos.

A porta foi escancarada, e eu pude ver o corpo de Sasuke, imponente, de um jeito diferente. A presença dele agora era sufocante, só ele na soleira da porta era capaz de preencher o apartamento inteiro.

– Hatake, não o magoe. — Essas foram as únicas palavras ditas por Sasuke antes da porta ser fechada.

Levantei-me, nervoso, e passei as mãos nas coxas, tirando um pouco do suor que estava acumulado. Caralho, são vinte e poucos anos sem ver o rosto de Obito, eu nem ao menos sei como sua face ficou depois daquela pedra... E se ele não sentir mais nada por mim? E se ele vier com a tal Rin para cá?

A essa altura do campeonato eu tinha certeza de que desmaiaria de nervoso.

A porta foi aberta de novo, dessa vez timidamente, apenas o suficiente para uma pessoa magra passar.

E pela primeira vez, em vinte anos, eu pude ver um pouco de Obito.

A sala estava escura, mas pude ver o homem todo de preto entrando. O cabelo curto, assim como quando éramos crianças, a luz da lua que entrava pela janela me deixava notar que sua pele ainda era extremamente pálida e que seus cabelos ainda eram incrivelmente negros, mas infelizmente sua cabeça estava abaixada, impossibilitando-me de ver seu rosto.

Continuei encarando o homem a minha frente que era pouca coisa mais baixo que eu. Entre nós, uma distância de pouco mais de dois metros. Eu queria tocá-lo, mas assim como há vinte anos atrás, só me dei o trabalho de quebrar o gelo.

[Because of you — Kelly Clarkson]

– Obito? — Não, eu não poderia começar com nada melhor. Eu queria escutar sua voz, eu queria saber como ela havia mudado com o tempo, eu queria que ele me desse a certeza que ele era quem eu havia perdido há muito tempo atrás.

– Sou eu. — A voz, agora grossa, respondeu. Todos os pelos do meu corpo se arrepiaram em deleite. Era ele. — E você? É o Hatake?

É Kakashi, sua avó ama me chamar de menino Hatake.– Disse as mesmas palavras do dia em que nos conhecemos, mas eu não estava preparado para o que vinha a seguir.

Ele riu.

Riu como um louco, completamente insano, riu até se cansar, antes desse riso maluco se transformar em um choro compulsivo.

Eu queria consolá-lo, como queria, mas simplesmente minhas pernas não se moviam. Eu não conseguia ao menos esticar um braço, e quando eu menos percebi, meu peito também convulsionava e eu chorava como uma criança.

– Foram vinte anos. — As palavras saiam da minha boca sem que eu tivesse controle. — Vinte anos sem um telefonema, sem uma carta, sem uma notícia, sem nem ao menos ouvir seu nome em algum lugar que não fosse minha própria mente. E agora você nem ao menos me olha nos olhos.

– Para mim também foram vinte anos. — A voz tão masculina de Obito agora estava quebrada, demonstrando que ele ainda chorava, apesar de não soluçar mais. — Vinte longos anos sem poder mencionar seu nome, sem poder chegar perto daquela cidadezinha... Todos esses anos pagando penitência por ter me envolvido com você. Por ter gostado de um homem.

Sem forças para continuar a encarar isso de pé, sentei no sofá, e logo Obito veio para perto de mim, sentando na outra ponta do móvel.

E agora? O que eu diria?

– Eu realmente não entendo porque quis que eu te encontrasse aqui. — Ele continuou, visto que eu não falaria nada. — Sei que provoquei com aquilo de mandar Naruto falar com você, mas eu realmente não entendo... Depois de todo esse tempo, Kakashi, por que quer me ver? Por que quer falar comigo? Passamos duas décadas sem ter contato. Por que agora?

– Porque eu não aguentaria viver mais vinte anos se não soubesse de você. — Fui honesto. Meu coração doía com todas as dúvidas de Obito e das minhas. — Você foi... O meu começo e o meu fim. Eu tive outros, depois de você, não nego, mas nunca confiei em ninguém... Foi por sua causa, Obito, que eu tive medo de ser abandonado de novo. Mas não porque eu fui magoado por você, e sim porque eu sei, tão certo de que o sol vai nascer amanhã, que eu não conseguiria amar mais ninguém que não fosse Obito Uchiha, o garoto confuso que eu conheci com quatorze anos. — Aproximei minha mão da sua, que estava repousada sobre o sofá. — Eu sei que você se casou, afinal, seu irmão não deixaria barato para você, mas... Eu não me importo. Só queria te ver mais uma vez, te tocar mais uma vez, saber que você ainda existe, que não foi tudo uma projeção da minha mente perturbada.

Aproximei minha mão um pouco mais da de Obito, e num impulso de coragem, entrelacei seus dedos. Uma certeza gritante dentro de mim dizia que ele não recusaria meu toque.

– Eu ainda existo, mas não sou mais o mesmo, Kakashi. — Ele ainda não havia levantado o rosto. Eu queria vê-lo! — E eu não casei. Uma semana antes do meu casamento com Rin ela foi morta por um assaltante, e o conselho da família Uchiha compreendeu meu luto, não me obrigando a tentar de novo com ninguém.

A felicidade me invadiu. Então eu não havia o perdido para ela! Mesmo de um jeito nada bonito, eu sabia que só podia ser Deus tentando dizer que Rin e Obito não eram feitos um para o outro... Ele era meu.

– Me deixe ver seu rosto. — Pedi.

– Estou feio. Meu rosto não é mais aquele que você conheceu. — Defendeu-se, mas eu não desisti. Com a mão livre, ergui seu rosto, fazendo-o me olhar nos olhos.

Mesmo no escuro eu podia ver, o lado onde a pedra havia sido atirada estava marcado por cicatrizes, e seu olho cego tinha algumas nuances vermelhas na íris, mas tirando isso... Ele ainda era o meu Obito.

– Você nunca me pareceu tão lindo. — Simplesmente escapou! Porém, antes que eu pudesse me arrepender, vi brotar em sua face um sorriso, aquele sorriso que eu não via há tantos anos, mas que ainda estava tão vivo em minha memória e em meus sonhos. — Você é lindo, Obito.

– Hatake, se você não tomar uma atitude agora, eu juro que vou embora. — Franzi o cenho, sem entender o que ele queria dizer. — Eu passei vinte anos sem você, seu homem das cavernas, e não ganho nem uma tentativa de beijo?

Depois dessa frase eu não tive mais dúvidas, aquele era o meu Obito sim, e ele esteve esperando por mim nos últimos anos, assim como eu esperei por ele. Eu sabia que a vida não era tão injusta, que o mundo não era tão mau, a ponto de me deixar longe da pessoa que mais amei na vida, que mais me compreendeu, me deu carinho e amor. Obito só deixaria de ser minha alma gêmea quando os mares secassem.

Minha mão, que ainda estava em seu rosto, acariciou o lado magoado pela pedra, há anos atrás. Eu podia sentir a pele irregular sobre meus dedos, mas isso só o fazia mais bonito aos meus olhos. Inclinei seu rosto um pouco mais para cima, e cobri nossa distância vagarosamente.

Conforme nossos rostos chegavam mais perto eu sentia todos os anos que vivi sem ele passando por minha cabeça, todas as pessoas com quem fiquei, todas as noites que passei sozinho, todas as vezes que pensei em ir atrás de Obito sem nem ao menos saber onde ele estava... Tudo isso não significava mais nada.

Nossos lábios se tocaram, e eu senti aquela sensação de novo. O centro gravitacional do meu mundo havia mudado de lugar, agora ele não ficava mais preso a terra. Meu centro agora era Obito Uchiha, hoje de novo, como há vinte anos atrás.

Ele tomou a iniciativa do beijo de língua, pedindo passagem por entre meus lábios, que eu cedi com ânimo e saudade. Ainda era a mesma coisa, com uma pitada que fazia tão melhor e incomparável com qualquer outra sensação no mundo. Minhas mãos foram ambas para seu rosto, e as suas para meus ombros. Nos beijamos tão apaixonadamente quanto da primeira vez.

Não queria que Naruto soubesse, mas naquela noite nos amamos em todos os cômodos da casa de meu amigo e ex amante, não chegamos a suprir toda a necessidade que sentíamos, mas teríamos tempo, porque agora tudo daria certo.

– Isso mesmo, Kakashi, você escutou bem. — Ele repetia. — Eu quero que venha morar comigo em minha casa, aqui na cidade.

– Eu não posso, Obito. — Neguei novamente. Não poderia largar tudo que tenho em minha cidade natal e vir para cá! — Você sabe que eu amo muito minha cidadezinha e a simplicidade de lá, jamais me adaptaria a viver aqui.

– Você tem quase quarenta anos, Kakashi. Não acha que está na hora de deixar as amarras para trás e pensar no futuro? No futuro, com uma casa simples, uma família, comigo?

Em parte ele estava certo, eu realmente já estou chegando aos quarenta, faltam menos de 10 anos... E eu sempre quis uma família. Até algumas horas atrás, uma família com Obito parecia um sonho distante, que talvez em nem em meu maior estado de insanidade eu ousaria pensar em realizar, mas agora... Ele está aqui, na minha frente, me pedindo para confiar nele e dar um passo em direção ao que podem ser os anos mais felizes de minha vida.

Acho que eu não tenho mais dúvidas.

– Eu moro contigo, caso contigo, faço tudo contigo, Obito... Só nunca mais se afaste. — Pedi, acariciando seus cabelos, já que sua cabeça agora repousava em meu colo. Os cabelos dele sempre foram tão macios...

– Nunca mais.

Notas finais
E aí? Gostaram? Hehehe. Vejo vocês nos comentários!