Notas iniciais
"Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado." Caio F. Abreu

Eu estava novamente sozinha. E de repente, era exatamente o que eu precisava. Um pouco de solidão. Deitei-me no sofá, tentando esvaziar a minha mente, tentando não pensar em nada. Por um ou dois minutos eu queria apenas estar ali, quieta, perdida no nada. Mas a minha mente não parava um só segundo, caminhava devagar entre todos os meus problemas, fazendo com que eu os sentisse inteiramente. Era inevitável não chorar. Era inevitável não me arrepender de muitas escolhas.

É muito fácil quando estamos de fora, julgar é a nossa primeira atitude. Difícil mesmo é estar no olho do furacão, completamente perdida, sem saber pra onde correr e sem se quer ter como fazê-lo. Eu só queria ter novamente seis anos, e correr de bicicleta pela rua da minha casa, onde meu único problema era precisar usar as rodinhas de apoio para evitar um raladinho, que seria facilmente curado com o beijo. Abracei uma almofada, e só pedi para Deus: “Senhor, me diga o que fazer.” A resposta não veio.

Adormeci no sofá. Quando acordei, o sol brilhava intensamente. Sua luz quase me cegou. Decidi finalmente me levantar e enfrentar tudo aquilo. Tomei um banho e vesti um vestido preto, sapatilhas e deixei os cabelos soltos. Qualquer lugar me seria perfeito naquele momento. Desci pelo elevador, contando os segundos que ele levava para chegar até a garagem. Peguei meu carro e saí, primeiramente sem ter onde ir. Passei por muitos lugares e resolvi parar no Jardim Botânico, que como sempre estava deslumbrante com o sol que fazia naquele dia.

Muitas famílias passeavam por ali, muitas crianças corriam rindo e balançando seus braçinhos minúsculos. Por um momento, senti muita vontade de já ter meu filho em meus braços, segurá-lo e não deixar que nada o fizesse mal, nem por um instante. Andei pelo jardim, senti a brisa e me aqueci no sol daquele dia e senti como se o meu sofrimento evaporasse um pouco. Como se uma mão o tirasse de dentro de mim.

Voltei para casa renovada, quando entrei, percebi que nem havia comido. E de repente, uma fome imensa tomou conta de mim. Abri a geladeira e tratei de preparar ao menos um sanduíche. Quando estava terminando e comer, meu telefone tocou. Era Fernando.

– Alô? – Atendi.

– Oi Duda! É o Fernando, tudo bem? – Ele perguntou, e eu quase pude ouvir ele sorrir.

– Tudo bem, e com você?

– Estou bem. Quero te convidar pra jantar, será que você tem compromisso essa noite? Seria um prazer se você aceitasse.

– Er... – Pensei por um instante. – Não tenho nada programado. Podemos jantar sim. – Sorri.

– Que bom! Você conhece o Taisho? Podemos nos encontrar lá ás 20h?

– Claro. Fica combinado. Até mais tarde.

– Beijos. – Ele disse, quase sem sentir.

Desliguei o telefone. Eu não sabia se era certo. Mas o que poderia ter de errado não é? Olhei no relógio, e ainda eram cinco horas da tarde. Resolvi mexer um pouco no computador. Ao abrir o site da revista Caras, uma nova surpresa. A foto inicial do site era do famoso casal, Maite e Bernardo. Involuntariamente, meu coração tremeu, minhas mãos ficaram geladas e por um instante meu coração pareceu parar. Fechei o site imediatamente, sem nem sequer olha qualquer notícia.

Fui para o banheiro, enchi a banheira com água quente e joguei alguns sais de banho. Despi-me e entrei na banheira, só querendo relaxar um pouco. Pensando em tudo que dali pra frente ia acontecer. Eu queria realmente poder me afastar de Bernardo, esquecê-lo por fim. Seria tudo mais fácil sem ele. Eu sabia. Mas meu coração sempre me levava por outros rumos, pouco racionais e onde no fim eu sofria e amargurava pela escolha inicial.

Maite e Bernardo pertenciam um ao outro, isso era muito fácil de perceber. A vida era a mesma, o dinheiro era algo muito comum entre os dois, e era um fato que isso nunca deveria ter sequer começado. Desde o início era meu dever impedir, mas não pude. Me deixei levar e agora pagava as conseqüências disso tudo. Acariciei minha barriga, tentando não pensar na vida de meu filho, que seria tão somente um bastardo da família, isso é se fosse ao menos reconhecido por seu pai. Olhei no relógio e resolvi sair e começar a me arrumar para ir ao encontro de Fernando.

Enrolei-me na toalha e fui até o closet. Eu precisava de um bom vestido, e acabei escolhendo um que havia comprado há pouco tempo. Ele era salmão, soltinho e bem leve. Coloquei uma sandália preta e sequei o cabelo. Arrumei-o em coque frouxo. Maquiei-me e gostei muito do resultado. Olhei para o relógio, já era hora de sair. Olhei-me pela última vez no espelho e saí.

Peguei meu carro e me dirigi até o restaurante que ficava bem perto de minha casa. Ao chegar, já avistei Fernando em uma das mesas. Ele sorriu ao me ver, e eu avancei. Meus pés pareciam tremer, mesmo não sendo nada demais, eu me sentia nervosa.

– Duda! Que bom que você pode vir. – Ele sorriu e me deu um beijo na mão.

– Sim, obrigada pelo convite. Eu realmente não estava esperando. – Sorri e sentei-me assim que ele puxou a cadeira.

– Espero que goste de culinária japonesa. Eu esqueci de perguntar. – Ele riu, sem graça.

– Tudo bem, eu adoro. Para falar a verdade, adoro esse restaurante também. – Sorri.

Com o tempo, fui ficando muito mais a vontade, Fernando era um homem incrível. Quem dera, eu tivesse tido a sorte de ter encontrado alguém assim antes de Bernardo. Senti-me quase uma traidora ao ter esse pensamento.

– E então, está animada para começar? Eu estou! – Ele falou e abriu um lindo sorriso. Os olhos castanhos estavam iluminados.

– Sim, estou muito animada. Nunca tive o prazer de poder exercer, espero não decepcionar. – Falei, e estava sendo sincera.

– Duda.. – Ele escorregou a mão por cima da mesa até alcançar a minha e a apertou. – Tenho certeza que você foi uma ótima escolha.

O jantar chegou e começamos a comer. Fernando era bastante engraçado e me fez rir muito. Era adorável depois de tanto tempo, poder ter uma conversa normal, com outro homem que não fosse Bernardo. Era adorável ir a um restaurante bom, onde não tivesse perigo de sermos pegos por alguém, ou ter que dar mil explicações para outra pessoa que não fossemos apenas nós dois. Naquele momento, me senti bem. Em muito tempo, pude me sentir desejável para alguém. Desejável de verdade. E não como tão somente uma amante.

Eu pude acreditar que havia sim, uma saída daquele meu labirinto que até algumas horas atrás parecia não ter nenhuma. Fernando me apareceu. Como se fosse uma luz.