Notas iniciais
“Não tenho absolutamente nada contra qualquer coisa que soe a uma tentativa.” Caio F. Abreu

Em alguns momentos daquele jantar, eu parecia quase inebriada. Parecia não ser eu, sentada ali, rindo de qualquer que fosse o assunto e expressando minhas opiniões com total liberdade. Não é que eu seja presa com Bernardo, não me leve a mal, é que as coisas acontecem de maneiras diferentes. Fernando era completo, estava ali o tempo todo.

Pedimos uma sobremesa, e enquanto aguardavamos Fernando perguntou:

– Desculpa, se vou parecer um pouco intruso ou algo assim... Mas, não vejo uma aliança, ou algo assim... Você tem algum compromisso Maria Eduarda? – Eu ri

– Vamos por partes.. Primeiro, pra você eu sou Duda. Não gosto de Maria. – Fiz careta. – E segundo.. o que você entende como compromisso? – Eu sorri, esperando a resposta

– Uau! Duda, compromisso... tipo, você namora? Casada? Enrolada? – Agora quem riu foi ele, aquele gargalhada rouca e gostosa.

– Digamos que eu tenho um rolo, que dura já alguns anos... Nada que eu queira, ou possa assumir. – Ele arqueou a sobrancelha.

– Agora fiquei mais intrigado ainda. – Eu gargalhei dando de ombros.

– Nem tudo é tão fácil, Fernando. – Ele negou com a cabeça.

– Nem tudo, mas eu sei de algo que é fácil e eu adorei, que é te fazer sorrir. — Enrubesci na hora, parecia que meu rosto estava em chamas.

Nenhum de nós falou por alguns segundos, que pareciam ser a eternidade. Nossa sobremesa chegou e então voltamos a conversar. Não voltamos ao assunto. Eu estava me sentindo mal demais por estar quase flertando.

– Você não perguntou, mas acho que deveria. – Ele riu. – Sou solteiro, com alguns rolos, que infelizmente não consigo me desvencilhar. Mas é a vida, não é? A gente demora certo tempo pra conhecer ‘aquela’ pessoa. Falhamos em insistir, em fazer mil esforços para aquilo que já começou errado, um dia dê certo. – Ele sorriu fracamente.

Terminamos o jantar e eu resolvi ir embora.

– Novamente, muito obrigada pelo convite. Eu adorei o jantar e fiquei muito feliz que pudemos nos conhecer um pouco melhor. – Eu sorri, e estava sendo sincera. Ele sorriu mais ainda.

– Imagina, foi um prazer estar contigo. Espero que possamos repitir – Eu ri e assenti com a cabeça.

Fernando fez questão de pagar a conta, por mais que eu tenha insistido em dividir. Nos despedimos no estacionamento com um beijo no rosto e um aceno. Entrei no carro e sorri sozinha. Liguei o som e tocava uma música, uma que eu gostava muito. Fui cantando até chegar em meu apartamento. Subi o elevador, com calma e ao chegar no apartamento percebi que havia deixado o celular em casa. Olhei o visor e nele haviam algumas chamadas perdidas, dentre elas, Bernardo também havia me ligado.

Deixei o celular de lado e busquei um suco na geladeira. Eu precisava realmente me afastar um pouco de Bernardo, ter uma visão mais clara do nosso ‘relacionamento’ e também da minha vida. Liguei meu aparelho de som, e coloquei minha música preferida: Nando Reis – Luz dos olhos. Sentei no sofá, tirei meus sapatos e então relaxei um pouco. Pensava em como aquilo tudo tinha chegado até aquele ponto, em como tinha sorte de ter bons amigos, mas que também tinha feito péssimas escolhas em relação aos meus sentimentos. Eu nunca deveria ter me deixado levar por Bernardo. Eu tinha um caminho pela frente, e poderia muito bem ter trilhado ele sozinha.

Levantei em um pulo. Eu ainda tinha tempo. Eu tinha tempo de mudar a minha vida, eu era jovem. E agora eu tinha um emprego. Não ganharia muito, mas o suficiente. E claro que Bernardo teria que ajudar com as despesas do bebê, então eu ainda tinha uma chance. Liguei para Julia.

– Oi gata! Pensei que nunca mais íamos nos falar. – Ela riu, do outro lado da linha.

– Senhor, que drama! – Eu ri. – Mas já que vocês está com essa saudade toda, que tal a gente sair? Tipo, ir num barzinho, uma baladinha.

– Uau, Duda! Que ânimo. Tem algo que queira me contar? – Eu quase engasguei.

– Não. Que bobagem. Só quero sair. Cansei de ficar trancada aqui em casa, sendo a amante solitária e amarga. – Gargalhei.

– Tá. Acho que podemos sair sim. Vou me arrumar. Onde vamos? – Ela perguntou, um fio de curiosidade correu na voz fininha.

– Hum. Que tal ir no Taj? Eu gosto!

– Partiu! Adoro o Taj. Você passa me buscar? Quero beber todas! – Ela riu.

– Passo né, que horas? Agora já são tipo 22h.

– Me arrumo em 40min e pode vir! – Ela desligou rapidamente.

Resolvi trocar de roupa também, afinal, meu corpo não seria o mesmo em pouco tempo e eu queria aproveitar. Corri para o quarto e procurei um conjunto, um cropped e uma saia. Me vesti e soltei o coque, meu cabelo ficou bastante ondulado, e eu gostei muito. Coloquei uma sandália preta e retoquei a maquiagem. Voltei até a cozinha e tratei de tomar mais um copo de suco. Nos últimos dias, parecia com uma sede incontrolável. Olhei quase por mania o celular em cima do balcão e haviam mais duas chamadas perdidas de Bernardo. Revirei os olhos e deixei novamente o celular ali. Olhei no relógio e já era hora de buscar a Julia. Peguei minha bolsa e desci até a garagem. Entre no carro e dirigi até a casa da Ju, ao chegar o porteiro que já me conhecia interfonou para Julia e em poucos minutos ela já estava dentro do carro, com um vestido justo e bonito.

– Uau! O Felipe que se cuide, você está abalando – Ela gargalhou, jogando os cabelos. – Tô mesmo, né? Mas você não está por menos. Grávida e já abalando assim? Me segura!

– Que boba! Te seguro mesmo, sabe que eu não posso beber e surtar como você, me poupe dos vexames... – Gargalhamos e acelerei o carro.