Blue Sky

2 Solidão e Confusão


Notas iniciais
"Nunca precisei tanto de alguém como preciso de você, nunca desejei tanto um sorriso como desejo o seu, nunca esperei tanto por um beijo como espero pelo seu "Caio F. Abreu

— Como se livrou de Maite? – Ele me olhou, e continuou acariciando meu cabelo.

— Ela foi para a casa dos pais dela. E não voltará hoje. – Ele colocou uma mecha do meu cabelo para trás de minha orelha. – E eu estava morrendo de saudade de você.
— Eu que estava. – Sorri e acariciei sua nuca.
Começamos a assistir um seriado qualquer que passava na tevê e Ber abriu a barra de Chocolate, quando o cheiro doce invadiu minhas narinas uma ânsia repentina tomou conta de mim. Corri para o banheiro, ignorando os gritos de Bernardo.
E vomitei, vomitei muito.
— Bernardo, saia daqui. Você não precisa ver isso. – Eu falava enquanto tentava me recompor do último jato ácido. E ele segurava meu cabelo, para que não o sujasse.
Logo melhorei, porém Bernardo insistiu em me levar ao médico.
— Ber, não seja bobo. Foi só um enjôo. – Eu tentava fazê-lo mudar de idéia enquanto ele me ajudava a colocar minha camiseta.
— Pode ser. Mas pode não ser Du. É melhor irmos agora, senão terá que ir depois.
— Não tenho mesmo escolhas? – Eu grunhi e revirei os olhos em desaprovação.
— Não. Sem escolhas, amor. Tá pior que criança birrenta. – Ele riu.


Terminei de me arrumar e saímos, chegamos ao hospital e logo fui atendida. Dr. Neumann me fez inúmeras perguntas. E resolveu pedir um exame de sangue.
— Não sabemos o que é Querida. Mas seu ciclo menstrual está atrasado, e você pode ter falhado o anticoncepcional. Ou pode não ser nada, apenas um enjôo passageiro. Porém, vamos pedir logo o exame.
— Mas foram só dois dias de falha. – Eu bufei.
Fiz o exame e fui liberada. Saímos de lá sem falar nada sobre o assunto “gravidez”. Chegamos ao apartamento e ainda permanecíamos calados. Somente no elevador, eu rompi o gelo entre nós.
— E se eu estiver grávida? – Seus olhos pousaram sobre mim.
— Eu não sei, Duda. – Ele falou, enquanto pousava seus olhos no chão.
— Como não sabe? Por Deus, teria coragem de me mandar de novo para aquele maldito inferno de onde eu vim com o filho na barriga, Bernardo? – Eu falei alto, e meu coração parecia tremer. De ódio, de medo.

— Eu não disse que te mandaria embora, Duda. E pare de gritar, estamos dentro de um elevador. – Ele falou com os olhos perdidos em qualquer canto.

— Pare de gritar? É isso que me diz? – Eu ri, em meio a um gesto nervoso. — Eu sou a sua maldita amante de quinta categoria, não é mesmo? E se estiver grávida, vou acabar com a sua vidinha feliz. – Eu disse aquilo e rompi minha máscara tão fria e acabei por me desmanchar em lágrimas.
Sentei ali, no chão do maldito elevador e chorei. Bernardo sentou ao meu lado, com as lágrimas estacionadas em seus olhos. Ele me abraçou sem dizer nada. Debati-me, para tirá-lo de perto de mim, mas era em vão. A porta do elevador se abriu, no 12° andar, o nosso andar. Levantei rapidamente e rompi porta a fora, entrei no apartamento com o coração em migalhas. Eu não sabia se poderia agüentar tudo aquilo. Como poderia ter ocorrido? Quando é que nos tornamos, assim? Tão dependentes? Lancei minha roupa sobre a cama e corri para o banheiro, e tranquei a porta. Bernardo bateu incessantemente.
— Vá para sua casa, Bernardo. Vá embora. – Eu falava enquanto o soluço tomava conta de minhas palavras.
— Pare com isso, Duda. Aqui é minha casa. É aqui. – E continuava a bater na porta.
Eu não abri, permaneci sentada sobre o vaso em uma cena tão idiota que eu mesma percebi. Meus cotovelos estavam sobre meus joelhos, minhas mãos lançadas sobre minha cabeça e as lágrimas geladas escorrendo. Olhei para o espelho grande na parede, onde eu poderia enxergar todo meu corpo, e senti pena daquela criatura que ali estava. Não sei o tempo exato que permaneci ali. Bernardo desistiu de bater na porta, e então resolvi sair. Ao abrir a porta, vi Ber deitado de forma pesada sobre nossa cama. Estava cansado, e eu podia ver isso em seu semblante. Era muito tarde já, pela escuridão em que se encontrava o apartamento. Fui até a sala e bebi um belo copo de uísque, acendi um cigarro e fumei.

Não sei por que, mas tive um flashback quando pensei em ‘gravidez’.

— Não Bê. – Eu gritei enquanto ele mordia meu rosto novamente. – Não tente me convencer, não me casarei nunca com você. – Eu ria enquanto brincávamos.
— Claro que vai. Você me ama. Iremos casar em Las Vegas e teremos muitos filhos. – Ele riu beijando o lóbulo da minha orelha devagar.
— Nunca. E filhos? Nunca terei filhos. Vou ficar gorda, e feia. – Eu ri e mostrei a língua.
— Feia? Nem se você quisesse ser feia você seria. E eu juro, que mesmo quando você estiver gorda, eu vou te amar. Mesmo que você esteja enoooooooorme! – Eu ri de sua ênfase na palavra ‘enorme’.
— Olha lá ein, quero só ver. – Eu beijei seus lábios com ternura. Marcando aquele nosso momento.


Suspirei ao pensar naquilo. Tínhamos apenas 16 anos, éramos tão novos. E por ironia do destino, Ber queria se casar comigo. Queria, eu disse bem. Terminei meu cigarro e voltei para o quarto. Bernardo ainda estava imóvel, como se fosse uma pedra. Sentei no chão, ao lado da cama, olhei seu rosto angelical e senti vontade de tê-lo só para mim. Garanto que Maite se vangloriava por pensar tê-lo. Seu corpo escultural sobre minha cama me fazia ter pensamentos obscenos.
— Amo você. – Eu beijei seus olhos com delicadeza, para não acordá-lo.
Deitei ao seu lado e pedi aos céus que fizesse o melhor. Que se essa gravidez era o melhor, que viesse então. Adormeci.
Despertei com o sol que invadia o meu quarto, a cortina branca estava aberta e as portas que davam para a sacada também. O cheiro forte de café dominou minhas narinas, tateei o criado mudo e peguei o relógio de joaninhas que ali estava. Nove e meia. Cocei os olhos e me levantei, andei calmamente até a sala, onde vi Bernardo sentado sobre o sofá tomando uma xícara de café e lendo o jornal.
— Bom dia. – Ele disse ao me ver ali, parada perto da porta.
— Bom dia. – Eu disse ainda com certa mágoa.

Passei direto e fui para a cozinha. Peguei uma xícara e a enchi de café preto e forte. Pinguei três gotas de adoçante e mexi devagar, sem pressa e sem vontade. Bernardo veio até a cozinha, encostou-se na bancada onde costumavam ficar as frutas.
— Vamos parar com tudo isso, Du. Por favor, eu te peço. – Ele me olhou suplicante.
— Não quero conversar. Devia ter ido embora ontem. Eu pedi que fosse. – Falei de forma engasgada.
— Eu não sairia daqui. Deixe de ser boba. – Ele percorreu o pequeno espaço que nos afastava e acariciou meu cabelo. – Eu amo você.
— Eu te amo, muito mais. — Abandonei a xícara sobre a pia e me lancei em seus braços. Num abraço esmagador, com tanto amor espremido.
Ficamos muito tempo abraçados, seus braços colados ao meu corpo, como se estivessem sempre estado ali. E naquela hora, eu soube que eu não amaria ninguém mais, a não ser ele. Soltei-me de seus braços fortes e selei meus lábios nos seus. Um selinho rápido.
— Nunca mais, vamos brigar desse jeito minha Du. Prometa-me que nunca vai pensar em me deixar. Prometa.
— Eu prometo Bê. Eu prometo. – Suspirei enquanto seus lábios percorriam minha face. – Vai ficar aqui hoje? – Eu perguntei, esperando uma resposta positiva.
— Du... – Eu apenas suspirei e lancei a cabeça para trás. – Maite deve estar chegando em casa logo. Eu preciso estar lá. Você sabe o quanto ela é louca.
— Tudo bem. Sem discussão. – Peguei novamente minha xícara de café e fui para a sala. Ber estava logo atrás de mim, sentei-me no sofá e liguei o televisor. — Pode ir, Ber. Ah, pega sua jaqueta lá no quarto. – Falei, quase que indiferente
— Ei, não começa. – Ele sorriu e me beijou lentamente. – Amo você. – Ele correu no quarto e pegou a jaqueta. – Depois eu te ligo. Ah e a Ju te ligou.
— Aham... Eu vou ligar pra ela... – Não deu tempo de concluir a frase e Bernardo estava fora do apartamento. – Eu ainda te mato. – Gritei para que ele ouvisse, talvez tenha sido em vão.