Blue Sky

3 Em meio ao caos, me apareceu você.


Notas iniciais
"Dentro dela tem um coração bobo, que é sempre capaz de amar e de acreditar outra vez."Caio F. Abreu.

Liguei para Julia e em segundos estava em meu sofá, falando de Felipe de cinco em cinco segundos.
— O que eu acho pior Du, é que aquele vestido não me cai bem. Tudo bem sei que o Felipe comprou na maior das boas intenções. Mas eu odiei. Eu fico parecendo a vovózona – Eu ri de sua cara de repulsa.
— Ju, apenas troque na loja. Vamos lá agora, se quiser. – Eu dei de ombros.
— Jura que você vai comigo? – Seus olhos brilharam docemente. Eu sorri e assenti.
— Com o seu carro ou com o meu?– Perguntei.
— Com o seu. Estou cansada de dirigir. Quero ir de chofer hoje. – Ela fez carão e jogou os cabelos, me fazendo cair na gargalhada. Peguei a chave, e vesti uma roupa. Calça jeans, e blusinha com saltos altos.
No elevador, fomos batendo papo. Chegamos até a garagem e entramos no carro, um maravilhoso e grande Sportage. Bernardo havia me dado aquele carro no meu aniversário, dizendo que seria mais um presente para ele do que para mim. Homens e carros... Bernardo tinha um lindo Honda Civic, mas eu amava o meu carro. Julia entrou apressadamente no carro, fazendo pose com seu cabelo lindo de morrer.

— Ai, estou me sentindo. – Eu ri e ela apenas sorriu.
— Vamos logo. Vai comprar algo a mais? Ou só trocar o vestido?
— Coisinhas... Eu me conheço, Duda! – Ela fez cara de santa. E eu ri.

Liguei o carro e saímos. O dia estava bonito, com sol e sem nuvens. Chegamos ao shopping em dez minutos. Estacionei e descemos. Fomos direto à loja para trocar o vestido. Quando já estávamos saindo, vi Maite. Eu parecia que ia explodir. Ela estava linda, como sempre. Seus cabelos negros e bem amarrados em um rabo de cavalo, o rosto angelical e delicado se mostrava tão presunçoso. Ela sorriu ao ver Julia, e sua falsa meiguice estava estampada em seu rosto.
— Ju, querida. Quanto tempo. – Ela falou com a voz mais enjoada do mundo.
— Pois é, Mai. Muito tempo. – Seus rostos se colaram em um beijo e um abraço. – Essa é minha amiga, Maria Eduarda.
— Olá. – Eu falei secamente, meio malcriada. Ela nem mesmo respondeu.
Conversaram por algum tempo e logo Julia se livrou dela.
— Ai, que delícia encontrar a cunhadinha. – Ironizei e ela riu.
— Tenso demais, ein.
Eu já havia me irritado em ver Maite e ainda mais ao ver o orgulho no qual ela carregava a maldita aliança brilhante em seu dedo anelar esquerdo. Enquanto eu usava apenas um anel. Só mesmo para ‘selar’ nosso compromisso, se é que podíamos chamar aquilo de compromisso. Pedi para Julia que fossemos embora, e no caminho lhe contei sobre a suposta gravidez. Julia ficou chocada, porém eu via em seus olhos certa felicidade. Afinal, seria seu sobrinho (a).

Chegamos a casa e eu tirei aquela roupa. Julia estava na sala, quando o telefone tocou. Atendi a extensão do quarto e tive uma surpresa, era minha mãe.
— Maria Eduardo, como você está? – Ela perguntou carinhosa de inicio.
— Bem... Como conseguiu meu telefone? – Perguntei, surpresa.
— Como consegui? Não tem vergonha de me perguntar isso? Você sempre some... Ás vezes manda um email e eu tenho que me contentar. – Falou, magoada. — Você é minha filha, e não te vejo há dois anos... desde que você veio pra cá. Estou quase morrendo de angustia.
— Mamãe, eu estou bem. – Respondi tentando acalmá-la.
— Não quero saber. Vou ir te ver essa semana. Será que posso ficar em sua casa? Bernardo não vai se importar? – Perguntou, meio sem jeito.
— Não, claro que não. – Respondi ainda engasgada.
—Tudo bem, filha. Eu chego aí na terça-feira de manhã. Será que você pode ir me buscar?
— Claro, mamãe. Estarei lá. Beijos

Coloquei o telefone no gancho e me sentei sobre a cama ainda em choque. Quando vim para Curitiba, disse que me casaria com Bernardo... E minha mãe, como uma bela desinformada, acreditava fielmente nisso. Pensava ao menos que nos teríamos ido morar juntos. E agora, ela estaria em minha casa. Ou eu contava a verdade, ou mentia fielmente pelo resto dos meus dias. Julia que estava entrando no quarto se assustou a me ver tão pálida.
— O que aconteceu Duda? Você está branca igual cera.
— Julia... Minha mãe vai vir pra cá. Eu estou ferrada, terei que contar que sou... – engasguei, e me recompus. -Amante do Bernardo. – Julia arregalou os olhos.
— Tem que ter outro jeito, Duda... Podemos mentir que Bernardo está viajando.
— Julia, uma hora ela descobrirá, melhor que eu conte logo... – Falei, com certo pesar.
— Ela vai odiar o Ber para o resto da vida. – Ela falou com as mãos na cintura me olhando.
— Ela vai me odiar. – Eu falei entre dentes.

— Ela vai odiar todos nós. Ponto final. E também esqueça, teremos que contar... Ela vai ver nos outdoors as malditas fotos da Revista.
— Qual revista? – Perguntei, sem entender.
— Eu não ia te contar... Mas você logo ia ver também. Ber teve de tirar fotos com Maite essa semana para estampar a capa de Caras. E está escrito ‘ O Homem da Louis Gonzáles e sua linda mulher, Maite Bianchi. ’
— Que maravilha. – Eu falei engasgada e ironizando. – Vou avisar o Ber... – Levantei-me para pegar o telefone.
— Não ligue agora. Maite deve estar com ele. – Ela avisou antes que eu pudesse alcançar o gancho.
Fui até a cozinha e enchi um pequeno copo com whisky escocês. Julia me olhou de cara feia, mas não disse nada.

— Que foi? Eu preciso me acalmar. – Disse, sem fitá-la novamente.

Ela teve de ir embora, Felipe já havia ligado trezentas vezes e ela correu para o encontro dele. Eu não podia ficar em casa, estava extremamente agoniada. E estava na hora do almoço, peguei minha bolsa e meu carro e fui até um restaurante Italiano próximo à Empresa de Bernardo. Deixei o carro com o manobrista e entrei, pedi talharim e um vinho tinto. Deveras o lugar estava calmo, sem muito movimento. Era um domingo extremamente calmo, só havia alguns casais no restaurante. Mas o que mais me chamou a atenção foi um homem, encostado no bar. Ele era muito bonito, olhos penetrantes e dentes branquíssimos. Percebi que ele mandou o garçom me trazer algo, era um papel, com algo escrito.

Olá. Pode parecer clichê, mas creio que te conheço de algum lugar... Desculpe-me ser tão invasivo, mas não pude agüentar.
Fernando.

O olhei atentamente. Oh Deus de onde ele me conheceria? Era impossível. Sua cantada havia falhado. Eu ri, ao pensar nisso, deixei o papel de lado e terminei meu almoço. Pedi a conta e paguei. Eu já estava saindo, quando fui segurada por uma mão forte, porém macia.
— Perdão, mas vi que não me respondeu. – Era Fernando.
— Não respondi, porque achei sua cantada horrível. — Eu debochei.
— Não era uma cantada. Eu juro. – Ele sorriu, e até me convenceu. – É que parece que te conheço, de verdade.
— Eu acho impossível, Fernando. – Puxei meu braço, que ainda estava em suas mãos, levemente. – Preciso ir.
— Vamos tomar um café. Se você não se lembrar de mim, juro que te deixo ir embora sem mais incômodos. – Eu assenti.
— Tudo bem. Se isso fará com que você me deixe em paz. – Ele sorriu e voltamos para dentro do restaurante.
Pedimos um café preto. E ele continuava a me olhar. Eu não podia negar que seus olhos eram lindos, que sua boca era chamativa e que seu corpo não deixava por menos.
— De onde pensa me conhecer? Talvez Curitiba não seja o melhor lugar, moro aqui há seis anos.
— Não. Creio que não seja daqui. – Ele disse, pensativo. – Qual seu nome? Talvez isso me ajude. – Ele sorriu, um olhar quase malicioso pintava em seu rosto.
— Maria Eduarda. Mas me chame de Duda, por favor. – Estiquei minha mão, de forma mais amistosa. – E você é Fernando, não é?
— Sim. – Ele puxou minha mão até perto de seus lábios, e depositou ali um beijo calmo. – É um prazer Duda.
— Digo o mesmo, Fernando. – Eu sorri. – Já se lembrou de mim, ou não? – Eu ri e tomei um gole do café.
— Estou tentando lembrar onde.
— Admita que foi apenas uma cantada, Fernando. – Ele riu e assentiu.
— Não foi uma cantada. Tá foi sim. – Ele riu, uma risada rouca e gostosa. — Mas você me parece mesmo uma conhecida.
— Você poderia ter dito logo de cara. Eu juro que não iria te bater. Mas é que estou com alguns problemas e fui um pouco rude com você.– Admiti.
— Pode se abrir comigo, se quiser. – Seus lábios vermelhos e carnudos se abriram em um belo sorriso, me fazendo perder o foco.
— Não. Você ainda pode ser um psicopata, que atrai mulheres indefesas e as matas com requintes de crueldade. – Ele gargalhou. – Preciso mesmo ir embora. – Eu disse enquanto já me levantava.
— Se puder me passar seu número, será um prazer vê-la novamente. – Seu sorriso agora, tinha uma ponta de malícia.
— Tudo bem. – Peguei uma caneta que havia sobe o balcão e risquei meu número com minha letra bem desenhada sobre um guardanapo. – Aqui está. – Entreguei em sua mão e sorri. – Tenho que ir. Foi um grande prazer conversar com você. – Ele assentiu e beijou novamente minha mão.
— Digo o mesmo, Duda.

Eu fui embora, sem mais delongas. Não era pecado, era? Eu havia dado meu telefone a um carinha legal, eu tinha sim um relacionamento, mas isso não me impedia de ter amigos. Peguei meu carro e dirigi até meu apartamento. Ao entrar, percebi que algo estava ligado na cozinha.
— Ai, droga. Devo ter deixado algo ligado. – Praguejei.
Corri até a cozinha e me deparei com Bernardo sentado sobre a pia com uma xícara na mão.
— O que você está fazendo aqui? Pensei que iria passar o dia com sua mulher. – Falei dando de ombros.
— Julia me falou sobre sua mãe, Fátima. – Ele disse calmo.
— Ai, essa Julia é mesmo uma língua de trapo. – Arfei – Oras, teremos que contar tudo a ela e ponto final.– Falei com tanta calma, que eu mesma me surpreendi.
— É. Eu sei. – Ele falou impressionantemente calmo – Onde você estava? – Ele desceu da pia, e colou o corpo ao meu.
— Eu estava em um restaurante. – Sorri – Ás vezes eu preciso comer, sabia? – Ri e ele sorriu. – Julia te contou que encontramos Maite hoje? Ela estava no shopping gastando a merda do cartão platinado dela. – Grunhi.
— Você também tem um cartão platinado. – Ele riu com sua piadinha, mas eu não. – Deixe-a para lá. Venha aqui, fique aqui... Comigo. – Seus braços me apertaram levemente contra o corpo grande e cheiroso.