Blue Sky
6 Deixo você ir.
Notas iniciais
Caio F. Abreu
Eu parecia estar dentro de algum tipo de sonho, extremamente ruim. Meu peito parecia comprimido de agonia. Não conseguia olhar diretamente para os olhos de minha mãe e mentir. Mentir tão descaradamente e ir contra todos os valores que ela me ensinou desde muito cedo. Ela também parecia saber que eu não estava normal, pois toda hora me perguntava:
— Está tudo bem, querida? – Com o olhar preocupado.
Parece que demorou horas até que avistei Bernardo adentrando pela porta com várias sacolas. Sorri, um pouco aliviada.
— Dona Fátima, que bom ver a senhora! – Ele sorriu, com toda a simpatia existente. E largou as sacolas sobre a mesa de centro. – Pensei que nunca viria nos visitar.
— Como eu viria? Vocês nunca me convidam. – Ela riu, deliciada com a própria piada. E foi até ele para lhe dar um grande abraço.
— É que as coisas são tão corridas, que nem temos tempo, não é meu amor? – Ele me olhou. E eu apenas sorri e assenti.
— Eu compreendo, não quero ser uma metida que fica vindo toda hora aqui também. Mas seria bom de vez em quando ligar e dar notícias né Maria?
— Sem dramas, mamãe. – Eu ri.
— Mas vamos almoçar. – Bernardo disse e foi logo guiando todos para a sala de jantar.
Arrumei os pratos sobre a mesa e nos sentamos. O almoço foi cheio de conversa entre mamãe e Bernardo, porém, eu sequer conseguia comer com calma. Parecia que ia explodir e começar a chorar a qualquer minuto. Bernardo logo se levantou, com a desculpa de ter que voltar para o trabalho. Saiu dizendo que voltaria a noite. No entanto, não sabíamos se aquilo ia realmente acontecer. Julia e Felipe logo se foram também. E de repente me vi ali, lado a lado com a mulher que me deu a vida, a minha melhor amiga do mundo inteiro, que de um dia para o outro, se tornou quase uma estranha.
— Você está tão diferente, Maria Eduarda! Tão grande, e tão linda. Não que já não fosse linda a vida inteira, mas está especialmente agora. – Ela sorria, quase com um orgulho escancarado.
— Mamãe, não seja boba. – Eu ri.
— Não estou sendo. E fico muito feliz de que esteja tão bem. Eu e seu pai ficamos contentes em saber que sua vida está melhor aqui do que nós poderíamos te oferecer. Bernardo é um ótimo rapaz. E sei que ele te faz feliz, só de te olhar. Sua casa é maravilhosa, você se veste tão bem, tem coisas maravilhosa, e tudo isso é graças á ele, e á você também. – Ela sorria.
— Fico muito feliz, mamãe. Sinto muita falta de vocês. – Meu olho marejou um pouco, mas segurei para não cair no pranto.
Não fique triste, meu anjo. Nós estamos bem. Super bem. Só que sentimos sua falta. Vocês deveriam ir mais nos visitar. Lógico que não temos tanto luxo, mas sempre temos um cantinho pra vocês. – Ela sorriu. A humildade em pessoa.
Abracei-a com todo o amor do mundo. Resolvi levá-la para passear um pouco, e rezei para que nenhuma revista com a cara de Bernardo surgisse em nossa frente. Eu não sabia mais se conseguiria contar para ela. E acabar com todo aquele orgulho que ela sentia de mim, e mostrar a ela que eu não passava de uma amante? Uma destruidora de lares, como ela mesma se referia? Eu não sabia se agüentaria. Descemos pelo elevador, e pegamos o carro. Levei-a ao shopping, e comprei coisas para ela e para papai. Ás vezes eu me sentia um lixo em não ajudá-los financeiramente. Entenda, meus pais não são pobres. Sempre me deram todo o necessário. Tínhamos dinheiro para sair ás vezes e até para viajar, mas nunca tivemos luxos, assim como eu podia ter agora. E muitas vezes me senti péssima em não proporcionar-lhes isso.
Mamãe já estava cansada de bater perna por aí. Voltamos para o meu apartamento e resolvi fazer um jantarzinho. Fui até meu quarto e tirei minha roupa e os saltos altos. Coloquei uma legging e uma camisa de flanela que Bernardo havia deixado por ali. Enquanto me vestia, meu celular tocou. Era Bernardo. Tremi por dentro.
— Oi amor. – Eu atendi.
— Du. Vou passar aí e vamos inventar algo. Não posso passar a noite aí. Maite estará em casa todos os dias. E essa semana é meu aniversário de casamento. – Meu estômago embrulhou. – Eu sinto muito, mas não sei o que fazer.
— Tudo bem. O que eu posso fazer? – Lágrimas geladas começaram a escorrer de meus olhos e encharcar todo o meu rosto.
— Me perdoe, Du. Eu te amo. – Não respondi e desliguei o telefone.
Sentei na cama e não conseguia levantar e encarar minha mãe, que estava lá na cozinha, toda feliz fazendo um jantar. Após alguns minutos, levantei-me. Lavei meu rosto e fui para a cozinha. Mamãe não falou nada, estava muito entretida na carne que cozinhava. O cheiro me lembrava o lugar que eu costumava chamar casa, meu pai e toda a segurança que aquele lugar me dava. Fingi que nada tinha acontecido.
— E como o papai anda? Está bem de saúde? – Eu perguntei, enquanto abria um vinho tinto.
— Ah, Duda... Seu pai é muito teimoso. Ás vezes tem algumas tonturas, porém se nega a consultar um médico. – Ela suspirou ao terminar a frase.
— Calma, mamãe. Não deve ser nada de mais. – Disse ao encher minha taça de vinho. Mamãe me olhou com certa reprovação. – Que foi? Eu já tenho 26 anos, dona Fátima. – Eu ri, erguendo as mãos.
— Pra mim, você ainda é um bebê. E bebês não bebem Maria Eduarda. Daqui a pouco está por aí, caindo pelas tabelas. – Ela falou, gesticulando com uma colher de pau. E eu ri daquela cena.
Bernardo logo chegou, lançou o terno sobre o sofá e me deu um beijo.
— Oi Du. – Disse logo após selar seus lábios nos meus. – Oi sogrinha – Sorriu.
— Que bom que você chegou, querido. O jantar já está quase pronto. – Minha mãe disse, toda empolgada.
— Pois é, sogrinha, só vim para trocar de roupa e fazer uma mala. Tenho uma reunião importante em São Paulo e alguns negócios a resolver, creio que só voltarei no sábado. – Ele falou, como se nada daquilo fosse mentira. Meu peito tremeu.
— Ah, que pena! Ainda bem que estou aqui para fazer companhia á Duda... Vocês têm que planejar um filho pra ontem... – Eu engoli em seco. Sequer cogitava contar que estava grávida. Não naquele momento.
— É, estamos trabalhando nisso. – Bernardo riu, completamente sem graça.
Bernardo se dirigiu ao quarto e eu fui atrás. Eu estava agoniada, como se algo estivesse me corroendo. Quase não podia conter as lágrimas que insistiam em brotar em meus olhos.
— Duda, se você não se acalmar, vai tudo por água abaixo. – Ele decretou, assim que fechamos a porta do quarto.
— Pois é, fácil demais você dizer isso. Não posso contar. Não posso, mas preciso. Minha mãe não merece isso, Bernardo. Ela não merece tantas mentiras. Sou sua filha única, e não passo de uma mentirosa. – Eu deixei que as lágrimas rolassem por um instante.
— Ei, se acalma, amor. – Ele colou seu rosto junto ao meu.
Naquele instante, senti uma mistura de mágoa e ódio. Não queria estar ali, não queria pertencer para aquela história. Eu queria ser apenas uma telespectadora daquele drama. Soltei-me de Bernardo, limpei minhas lágrimas e enfiei algumas roupas dele em uma mala.
— Vá. Vá embora. – O olhei, fuzilando-o. – Por favor, vá embora por um tempo. Eu preciso que não me ligue que não apareça. Que você curta sua vida, como se eu não existisse. Vou fazer o mesmo. – Eu disse definitiva.
— Não faz assim, Duda... – Ele pediu quase suplicante.
— Por favor. Eu preciso que você vá. Vou ficar bem. É só um tempo. – Eu disse e entreguei a bolsa em suas mãos. Saí do quarto, encerrando aquela conversa.
Sentei no sofá, e minha mãe já servia o jantar. Ela me olhou, quase sem entender, mas não disse nada. Logo Bernardo apareceu, de roupa trocada e mala nas mãos.
— Eu vou indo, dona Fátima. Cuida bem da Duda. – Ele sorriu e abraçou minha mãe. – Tchau, amor. Nos vemos no sábado. – Ele beijou meus lábios levemente e eu fingi corresponder.
— Se cuide. – Eu disse, antes que ele saísse pela porta.
Jantamos em silêncio. Minha mãe não disse nem uma só palavra a respeito de tudo aquilo. E nem precisou. Após o jantar, lavei a louça e me recolhi em meu quarto. Mamãe ficou no quarto de hóspedes, e pude a ouvir falando com meu pai pelo telefone.
Meus pensamentos me atormentaram durante toda a noite, e dormi poucas horas. O sol invadia meu quarto logo cedo. Levantei-me e minha mãe já estava na sala. Vestida e de malas prontas. Estranhei.
— Bom dia, mamãe. – Eu sorri. – Porque acordou tão cedo? E porque essa mala?
— Estou indo para casa. Seu pai está com saudades, e além do mais, não acho que seja o momento propício para que eu passe uma temporada aqui...
— Mas... – Ela me interrompeu apenas com o olhar.
— Não preciso que me diga nada, Maria Eduarda. Mas eu lhe conheço como se fosse a palma de minha mão, para saber que algo não anda bem. E não, eu não quero que me diga e nem vou lhe indagar nada. Você cresceu a partir do dia em que saiu de casa. É uma mulher. Confio em você, mas sei que esse é o seu momento de fazer decisões. E não quero estar aqui para vê-las. Eu te amo, muito. – Ela me olhou, quase vi uma lágrima depositada ali em seu olhar. – E espero que tudo fique bem. Seu pai mandou beijos e disse que te ama muito, também. – Ela estava sentada, mas se levantou e dirigiu-se até minha frente. – Cuide-se, Maria. Nunca esqueça que sempre terá sua casa, suas coisas. – Ela sorriu. Um sorriso fraco, nada parecido com o sorriso de minha querida mãe.
— Vou me vestir e te levo até o aeroporto... – Eu disse tentando disfarçar as lágrimas que me inundavam.
— Não se preocupe. Já chamei um táxi. – Ela sorriu, beijou minha face e me abraçou. – Não se esqueça do meu amor incondicional por você. – Dizendo isso, pegou a mala já pronta e abriu a porta. Já no corredor, vi uma lágrima deslizando em sua face.
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