Blue Scorpion And Red Aquarius
7 Capítulo 7 FERIDAS ABERTAS...
Notas iniciais
“Camus, por favor!”
Eu ouço a voz de Milo gritando atrás de mim, mas me recuso a olhar para trás. Ele consegue me alcançar, mas quando nos olhamos eu expresso tanto ódio que ele fica paralisado e me deixa seguir em frente.
“Camus... Por favor, perdoe-me.”
As últimas palavras que ouvi dele, acompanhadas de um olhar suplicante. Meus olhos ardem e eu seguro as lágrimas forçando-me a engolir a dor e a decepção.
Em meus dezessete anos, jamais senti essa mistura caótica de emoções contraditórias que fazem minhas entranhas moverem-se como serpentes famintas.
Eu transgredi as regras básicas ensinadas pela minha família de não deixar a emoção dominar a mente, de agir com frieza diante de qualquer situação, de não me envolver com quem não é digno. Porém, no fim, entreguei-me sem pesar as consequências!
Sim, eu me apaixonei por Milo e deixei que meu coração me cegasse até que fosse tarde demais. Deixei que a proximidade trazida pela convivência na mesma escola e com os mesmos amigos evoluísse e criasse um ambiente propício para o envolvimento que, finalmente, aconteceu.
Desprezei os alertas de Saga, ignorei meus pais. Estreitei minha amizade com Milo e descobri nele qualidades que eram ocultadas pelo comportamento sedutor e boêmio, mas que estavam ali e foi através delas que fui seduzido. Passávamos horas conversando e, ao contrário do que todos pensavam sobre Milo, havia muita inteligência, perspicácia e talento organizacional nele.
Eu sabia que ele era mais experiente e solto que eu e, me sentia atraído, exatamente, por isso. Com Milo tudo tinha um colorido intenso e um gosto de tempestade. Nada era morno, tudo era temperado com alegria e exagero, desde ir nadar nu na praia à noite ou dormir ao relento só para ficar contando estrelas.
Ele me fazia sentir a vida pulsando em todos os meus poros... Aquilo me assustava e excitava com tanta força que, a primeira vez que transgredi junto com ele, meu coração acelerou tanto que fiquei sem ar.
Fora, apenas, uma travessura infantil de roubar frutas do pomar de um velho excêntrico. Milo riu da expressão do meu rosto quando tomei a maçã em minhas mãos e arrastou-me pela mão, enquanto corríamos ladeira abaixo. O simples contato das nossas mãos unidas fez meu corpo estremecer e um calor se espalhar em meu peito.
Mesmo tendo transado com Saga, eu jamais tinha sentido tanta intimidade com alguém como sentia com Milo e jamais havia sentido aquela mistura de dor de estômago e coração acelerado sempre que ele me olhava daquele jeito, seus olhos fixando-se nos meus sem recuar...
Então, aconteceu. Nós nos olhamos numa noite de verão e além da dor de estômago e coração acelerado, meu corpo inteiro pediu por um toque dele.
A voz rouca de Milo misturada à maresia rompeu todas as minhas barreiras. Entreguei-me sem pensar em mais nada além do desejo...
“Fica comigo Camus...”.
Meus conhecimentos sobre sexo eram resultado da minha relação aberta com Saga. Uma relação erótica na intimidade e de amizade em público. Eu sabia o que era sexo e sentia prazer, mas nada comparado ao que descobri, naquela noite, com Milo...
A festa na mansão de Afrodite tinha sido uma ideia compartilhada pelo grupo, eu, Milo, Máscara da Morte, Shaka, Mu e Aiolia. Éramos todos filhos de homens ricos, com exceção de Máscara que era filho de um pequeno comerciante italiano que tinha um restaurante típico e de Milo, cujo pai era um jogador.
Eu estava feliz naquela noite, era a primeira vez que eu me sentia parte de alguma coisa. Acostumado a viver somente para os estudos e centrado no papel que teria no futuro eu nunca fizera muitos amigos. Aliás, amizade era uma palavra que meu pai associava a “interesse” e, ao saber da minha amizade com os rapazes, só permitiu que eu convivesse com eles porque três deles pertenciam à elite ateniense.
Como sempre, Milo ria e contava piadas e o ambiente parecia adquirir vida própria, como se ele apenas despertasse a alegria que já existia em tudo e em todos. Ele me olhou esperando a resposta para o pedido sussurrado que fizera antes.
Meu corpo se eletrificou e eu sorri, esperando que fosse o suficiente para que ele entendesse. Seu olhar transbordante de azul apenas se elevou e seus lábios se abriram num sorriso maior que o meu.
Deixamos o pessoal conversando e bebendo e subimos as escadas da mansão onde havia vários aposentos. Milo abriu a primeira porta que encontrou e me puxou para dentro.
Eu não prestei atenção onde estávamos apenas, vi a brisa fresca movendo a cortina transparente da janela ampla. Então Milo tomou minha boca com uma fome intensa e possessiva. Meus mamilos enrijeceram em resposta e minha respiração acelerou. Não vi mais nada. Meu corpo amoleceu com o excesso de sensações e tudo se resumiu à Milo...
Eu descobri uma luxúria em mim que jamais havia sido despertada e, pela primeira vez, me deixei possuir. Nos despimos com pressa, as roupas voando como fantasmas. Nos deitamos numa cama coberta com uma espécie de pele, o corpo dele cobriu o meu e minha pele ardeu em fogo e prazer.
Palavras murmuradas e carícias ardentes despertaram minha libido e eu o puxei de encontro ao corpo, bebendo fundo das delícias oferecidas pelos lábios exigentes, daquela língua ávida que me devassava como ninguém fizera antes.
Milo mergulhou em meu corpo fazendo-me gritar e gemer sem o pudor que me caracterizava. A dor da penetração se transformara em uma ânsia tão avassaladora que eu achei não poder suportar.
Ele acariciava meus lábios com a língua e o sopro úmido dos seus ofegos, enquanto murmurava e movia-se para dentro de mim preenchendo-me, tocando-me tão fundo que o gozo irrompeu tão demasiado levando lágrimas aos meus olhos e eu solucei em meio ao clímax agarrando-me a ele como se estivéssemos fundidos num só.
Milo grunhiu e empurrou-se para dentro de mim com força chegando ao orgasmo quase no mesmo instante que eu. Tombamos abraçados e só então me dei conta onde estávamos. Era um quarto cheio de objetos estranhos, alguns lembrando órgãos sexuais e então nos olhamos e rimos juntos. Ali devia ser o “santuário de fetiches” do nosso amigo Afrodite.
Eu sentia-me extasiado e Milo afagava meus cabelos quando Saga entrou no quarto.
“Aqui está Milo e você, realmente, mereceu cada nota. Confesso que perco muito mais que dinheiro...”
A voz de Saga acompanhada de um embrulho fez com que eu ficasse confuso. Então olhei para Milo e o vi levantar rápido.
“Sai daqui, Saga!” — gritou Milo ao chegar bem perto dele.
Saga olha na minha direção e eu vejo um lampejo de ira e decepção, como se eu tivesse feito algo horrível. Então ele fala com o tom debochado, o mesmo que ele usava quando queria ferir alguém.
“Eu apostei com Milo que você jamais se entregaria a ele. Sabe por quê? Porque ele sempre contou vantagem sobre seduzir qualquer um e você, Camus é mais um que cai na rede do escorpião! Eu quis acreditar que você seria inteligente o suficiente para perceber isso, que veria as verdadeiras intenções desse vadio sedutor!”
Eu não sei o que dizer, as palavras ficam trancadas na garganta e eu me sinto sujo e nu. Milo tenta falar alguma coisa, mas eu me desvencilho dele vestindo as roupas por cima da pele impregnada com o cheiro e o prazer sentido, instantes atrás.
Estava tudo tão claro que dispensava explicações. Milo apostara que eu seria dele e ganhara. Toda aquela cumplicidade, todos aqueles olhares, tudo uma armadilha para me atrair...
Volto correndo para casa, a garganta ardendo, os olhos doloridos. E, quando imaginei que não poderia sentir uma dor pior, vejo luzes vermelhas rondando minha casa que está com as portas abertas, revelando minha madrasta no saguão principal, abraçando Hyoga que está com uma expressão de horror nos pequenos olhos azuis.
Me aproximo correndo e um policial tenta impedir minha entrada no gabinete de meu pai que está com a porta aberta e homens vasculhando algo que eu não posso ver.
Eu insisto e um homem baixo e corpulento olha na minha direção com uma expressão piedosa. Ele sinaliza para me deixarem passar, então eu vejo o sangue manchando a parede e uma pilha de papéis espalhados pela escrivaninha.
A arma de grosso calibre que meu pai usava para caçar está sendo retirada pela perícia e seu corpo está sentado e jogado para trás na poltrona de couro escura.
Há um buraco onde antes existia a cabeça de meu pai. Eu olho a face desfigurada, sentindo um vazio doloroso que parece dar um nó nas minhas entranhas e faz meus olhos escurecem...
“Um dia você herdará tudo o que construí Camus! Aprenda, desde agora a agir com pulso firme e inteligência. Faça-me ter orgulho de você!”
Pareço ouvir a voz de meu pai saindo daquela cratera sangrenta e, outras se juntam a ela.
Sinto algo subir amargo pela minha garganta e não consigo evitar que saia com tanta violência que quase engasgo.
“Tirem o garoto daqui! Ele vomitou!” — grita o policial franzindo o cenho.
Alguém pega meu braço e uma voz feminina fala algo que eu não compreendo. Eu me desfaço do contato e, no mesmo instante, sei o que devo fazer.
Vou até minha madrasta e meu irmão que estão sentados na ambulância. Antes, passo a mão na boca tentando extinguir aquele gosto amargo. Ela me encara com os olhos vermelhos e inchados e balbucia frases sem sentido.
“Por quê? Por que ele fez isso? Por que nos abandonou?”
Eu retiro Hyoga dos seus braços e toco seu rosto delicado. Ela foi a mãe que eu conheci e sinto que sua sanidade está por um fio, assim como a minha. Meu pai se suicidou, deixando-nos entregues àquela situação trágica e bizarra.
Minha mente busca respostas, mas nenhuma me ocorre, além do fato de estar ali junto a uma mulher emocionalmente destruída e uma criança em choque.
Mais tarde compreendi que, apesar de ambicioso e perspicaz, meu pai fizera maus negócios e a falência o golpeara sem piedade. A saída? Abandonar a todos nós com sua escolha covarde!
Então, eu respiro fundo, sentindo uma estranha ausência de sentimentos. Meus olhos, que antes teimavam em encher-se de lágrimas, agora estão secos. Misteriosamente secos...
Não foi somente meu pai que morreu naquela noite. O Camus ingênuo também se foi.
“Não se preocupe Natássia, eu cuidarei de tudo.” – digo ouvindo minha voz como se houvesse outro Camus dentro de mim.
O funeral foi rápido, parecendo uma cena de filme, daqueles que acontecem sob uma chuva fina, apenas para os familiares que se unem como corvos e balbuciam palavras de falso conforto.
Natássia era amparada por mim e eu me sentia mais velho. Passei do garoto que vestia calças largas e camiseta para um jovem de terno escuro e postura empertigada. Os cabelos longos e ruivos que eu possuía, foram cortados curtos como uma tentativa de apagar a cena de tê-los afagados após fazer amor com Milo.
“Não devo pensar nele!” Me censuro, enquanto levo a mão à cabeça e constato que aquele corte significava muito mais que uma mudança visual. Era um adeus definitivo ao adolescente que eu fora.
Quando tudo terminou, fui ao encontro do pai de Saga e conversamos durante algumas horas. Ao final da conversa peguei Natássia, Hyoga e embarcamos para a França. Não permiti que Milo se aproximasse. Não havia mais nada a ser dito. Minha história com o grego estava acabada e enterrada. Assim como meu pai.
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