Blue Scorpion And Red Aquarius

8 Capítulo 8 PERDAS DOLOROSAS...


Shaka foi o primeiro a vê-lo. Ele estava voltando do cemitério onde tentara falar com Camus e fora rechaçado por um segurança contratado pelo melhor amigo do pai de Camus, Diomedes Domenico.

Saga, filho de Diomedes estava ao lado de Natássia e Hyoga e exibiu um sorriso discreto quando viu Milo ser impedido de chegar a Camus. Em seu íntimo, uma sensação deliciosa de vitória, enquanto via o desespero estampado no belo rosto do grego que ousara tirar Camus de si.

“Você pode tê-lo tido na cama, mas sou eu quem vai apoiá-lo e ter seu coração!” Pensou o jovem estudante de Direito, enquanto o caixão era colocado no imenso mausoléu feito de mármore negro.

— Milo... – disse o indiano ao vê-lo desesperado, a camiseta rasgada e uma expressão de desencanto nos olhos azuis.

— Não pude me aproximar! Ele me viu e virou o rosto... Por Zeus, Shaka! Eu...Eu só queria abraçá-lo e dizer que não... não foi como ele pensa! Saga... ele... fez parecer que... que eu fiz por dinheiro, mas não foi!

— É um momento delicado, Milo! Ele não vai ouvi-lo neste estado. – disse Shaka abraçando o amigo.

Milo permitiu-se chorar no ombro do amigo. De todas as perdas que sofrera aquela era a mais dolorosa. Amava Camus e era a primeira vez que experimentava tal sentimento. Um momento de arrogância e tudo se perdera... Ele desafiara Saga e no fim, perdera.

A chuva fina estendeu-se pelo resto do dia e, no final da tarde, quando as ruas enlameadas receberam a carícia do sol, Milo soube que Camus partira. Desesperado ele correu ao aeroporto mal conseguindo respirar. O coração acelerou e ele soube, quando viu o avião deixar a pista, que tudo estava terminado.

— Milo!

Ele ouviu o chamado, mas não conseguiu responder. O cérebro fervilhava e o coração batia descompassado e em frangalhos. As imagens mesclavam-se em sua mente, passado e presente formando um turbilhão tempestuoso e caótico.

Shaka aproximou-se, mas ele desvencilhou-se do apoio oferecido e correu. Seus olhos encheram-se de lágrimas e ele as limpava furiosamente, enquanto pisava forte nas poças d’água formadas pela chuva.

“Fui um idiota!” Dizia ele a si mesmo enquanto andava sem rumo, sentindo uma dor física e emocional tão intensa que, em determinado instante, seu corpo dobrou-se e ele caiu de joelhos.

— Milo! – gritou Shaka que não desistira de ir atrás do grego.

Correndo até onde Milo estava Shaka agarrou-o pelos ombros e forçou-o a encará-lo.

— Sei que está sofrendo, mas não se entregue desse jeito! – disse o indiano vendo o extremo sofrimento de Milo.

— Eu o perdi, Shaka! Eu...perdi o amor da minha vida.

Solidário, o indiano puxou Milo para si e o abraçou forte. Os soluços vieram e o grego desabou. E, assim como o entardecer cedia à noite, Milo adentrou as sombras e nunca mais soube do francês por sete longos anos. Até o dia em que a sincronicidade do destino os colocou, novamente, frente a frente...

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Num breve momento, a mente de Camus vagou pelo passado, então ele levantou-se da cama e foi em direção ao banheiro, sem olhar para Milo.

— Camus... Por favor, me escute. – chamou o grego vendo que os sentimentos expressos no olhar do ruivo haviam se esvaído.

Notando uma pequena pulsação denunciadora sob a pele de Camus quando ele enrijeceu o maxilar deixando transparecer seu estado de espírito, Milo levantou-se da cama ainda quente e úmida de suor. Seus olhos, antes inebriados de prazer agora estavam cheios de súplica. Porém, Camus falou primeiro:

— Não há nada a perdoar, Milo. Eu sepultei o passado junto com o caixão do meu pai. Éramos pouco mais que adolescentes e... Bem, não me interessa mais esse assunto.

— Não interessa? Mas... o que aconteceu agora... exatamente? – falou Milo sentindo a respiração estancar.

— O que aconteceu agora? – Camus repetiu com cinismo. Seu olhar mordaz pareceu gelar Milo da cabeça aos pés.

O desdém em seu olhar arrepiou a pele morena do grego, como se Camus a tivesse retirando com a frieza de seus olhos rubros, deixando-o exposto e vulnerável.

— Achei que para você, coisas desse tipo fossem óbvias. – disse Camus num tom gentil e completando: — Sucumbi a uma fraqueza, só isso!

Milo olhou-o, surpreso. A forma como Camus passara de homem apaixonado para aquela postura esfíngica o fez recuar e estreitar os olhos. O francês exibiu um sorriso fraco e torto que não iluminou em nada o rosto ainda corado pelo efeito do prazer nem teve efeito algum na frieza de seus olhos. Ele fez uma pausa, enquanto respirava fundo e então falou:

— O desejo causa isso. – afirmou Camus certificando-se que suas palavras fossem bem claras. – Você sempre despertou meu instinto mais primitivo, minha libido. Ainda o faz. Fui fraco e me permiti ir adiante, mas é só isso.

— Puxa! Se isso foi pra ser um elogio, aconselho que trabalhe um pouco mais a sua técnica de sedução. – disse Milo com sarcasmo, tentando esconder a dor com um sorriso.

Entretanto, Camus pareceu imune ao comentário e voltou-se na direção em que estava indo, antes de Milo chamá-lo.

— Muito bem, Camus! O objeto de sua... fraqueza está caindo fora. Obrigada pela trepada fantástica! – disse Milo procurando as roupas, ansioso para deixar aquele lugar.

— Tem roupas secas no guarda-roupa. Devem servir em você...- falou Camus, ainda de costas.

— Oh! Grande senhor! Além de me comer ainda se preocupa com o que vou vestir... Não perca seu precioso tempo comigo, eu me viro! – disse Milo em tom de deboche.

As palavras saíram de sua boca antes que pudesse avaliar se eram razoáveis ou seguras. Só sabia que não podia mais suportar a forma humilhante e desdenhosa que Camus o estava tratando. O francês voltou-se e encarou os olhos faiscantes de Milo.

— Não tome isso como uma vingança ou agressão gratuita. É somente a verdade. Não somos mais garotos e o que passou, passou. – disse Camus de forma seca e tranquila, abrindo a porta do banheiro.

— Quer saber Camus? Todos esses anos eu me culpei por ter causado sofrimento a você e a... mim. O que eu apostei com Saga não foi que eu o teria passivo na cama ou conseguiria seduzi-lo. A minha aposta foi que nós dois estávamos apaixonados um pelo outro, enquanto ele afirmava que você jamais se envolveria com um cara como eu! Ele disse que você era inteligente demais pra perder tempo com um perdedor e que pagaria pra ver. Num rompante de arrogância e ciúme, eu aceitei, porque eu... acreditava que entre nós existia um sentimento forte e real e queria que ele soubesse, que ele amargasse a derrota de não tocar você como eu. Não foi bonito o que eu fiz. Eu nos deixei expostos e aquele ardiloso se aproveitou e escolheu o momento certo pra arrasar com tudo e ainda posar de bom moço. Eu nunca usei o dinheiro que ele jogou na minha cara, naquela noite. Não espero que acredite, mas é essa a verdade. E tem mais, eu nunca... deixei de... amar você. Pra mim, você não é uma... fraqueza! – gritou Milo, antes de dar-se por vencido e escolher uma roupa seca e quente no guarda roupas.

Camus ouviu tudo, mesmo parecendo não dar importância às palavras ditas pelo grego. Dentro do banheiro pequeno, seus dedos tocaram o registro do chuveiro. Um jato forte surgiu e Camus mergulhou a cabeça debaixo da água morna. A água se espalhou pelo belo corpo, navegando através da pele alva permeada de pequenas marcas, do tórax firme, das planícies de seu rosto, levemente, corado...

Então, deu-se conta que tremia, levemente, enquanto lembrava uma frase dita por Milo: “Num rompante de arrogância e ciúme, eu aceitei, porque eu... acreditava que entre nós existia um sentimento forte e real e queria que ele soubesse, que ele amargasse a derrota de não tocar você como eu.”

As palavras “eu aceitei” piscavam em sua mente e a surpresa lhe veio como um raio, seguida por um forte gosto de indignação. Deixou que a água, agora mais fria que morna, tocasse seu rosto. Ficou ali por um tempo, pouco à vontade, percebendo que as palavras de Milo haviam acendido pontos específicos em seu coração. Terminou o banho e se enxugou. Quando voltou para o quarto, Milo já tinha ido.

Milo percorreu a distância do chalé em que Camus estava com o mesmo veículo que o ruivo o resgatara. “Certamente, ele pode arranjar outro transporte!” Pensou enquanto verificava que aquele snowsky não era tão difícil de pilotar.

Quando chegou ao hotel, Milo viu Shaka conversando com o executivo de porte gigantesco chamado Aldebaran. As luzes estavam num tom bem intimista e podiam-se ouvir acordes suaves e românticos de uma música típica. Havia também o som das vozes alegres e um aroma gostoso de assados e pães.

As sobrancelhas desenhadas e finas do indiano se elevaram.

— Com licença, Aldebaran. Preciso combinar alguns detalhes com Milo. – disse Shaka gentilmente.

— À vontade, Shaka. Nos falamos depois. – respondeu o executivo sorrindo.

Shaka notou que Milo estava perturbado. Chegou perto dele, notando o rubor no rosto e a expressão angustiada dos olhos.

— Onde você estava? Aconteceu alguma coisa? – perguntou o indiano.

— O mesmo de sempre... Por mais que me doa admitir, começo a achar que Saga tinha razão, afinal! – respondeu Milo com um tom amargo.

— Do que você está falando? – perguntou Shaka tocando o ombro do amigo.

— Camus jamais vai... me perdoar. Ah! Deixa pra lá, temos muito trabalho pela frente e eu não estou aqui por mim e sim para oportunizar um futuro decente para os garotos! Amanhã cedo começamos e eu vou dormir. — disse Milo tentando ignorar o aperto na garganta.

Silencioso, Shaka apenas sorriu e abraçou Milo. Depois ambos foram descansar para o dia seguinte.

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Está brincando, não é? Por favor, diga que está brincando. – disse Saga ao chegar ao chalé e encontrar Camus vestido com um roupão e digitando em seu notebook algo que desagradou o grego.

O advogado havia chegado uma hora depois de Camus ter estado com Milo e sua perspicácia acusava algo, pois sentia um clima no ar e alguns “sinais” como lençóis amarrotados e o cheiro peculiar, embora muito discreto, de suor e sêmen no ar.

Visivelmente nervoso, ele andava pelo chalé cujas janelas refletiam as sombras noturnas contrastando com a lareira acesa que imprimia vivacidade e cores alaranjadas nas paredes.

— Não, não estou. Estou enviando um e-mail as empresas Naxos Marbles S.A e Koukouravas S.A. suspendendo o uso da Rodós Dodekánisos para sediar a nova fusão. – respondeu Camus com tranquilidade.

— O que aconteceu com você? Transou com aquele desclassificado e agora quem comanda os negócios é a parte inferior do seu corpo? – indagou Saga, irritado.

Camus digitou uma última frase, então elevou os olhos, fitando Saga com uma calma perversa.

— Quer mesmo saber? Sim, eu transei com Milo, instantes atrás, mas não é por isso que decidi manter a República onde está.

— Não mesmo? Pois eu tenho minhas dúvidas! Depois de tudo, você ainda... o deseja! Eu não entendo você, ele o enganou e, mesmo assim, na primeira oportunidade, você vai pra cama com ele!

— Ora, Saga... Agora sou eu que não estou reconhecendo você. Para um advogado perspicaz que vive tão focado em suas próprias necessidades e cuja inteligência caminha sobre a linha entre o brilhantismo e a genialidade, você está passional demais e deixando rastros...

— Rastros? O que você está dizendo?

— Estou dizendo que você joga todas as acusações sobre Milo, como se não tivesse participado daquela aposta e me feito sentir um lixo. Você disse que Milo teve a ideia, mas eu tenho minhas dúvidas...

— Eu nunca neguei que tivesse feito a tal aposta. Eu queria que você conhecesse a verdadeira natureza daquele... vadio! Um homem sem eira nem beira, promíscuo e filho de um jogador. Ele aceitou a aposta e ficou bem feliz com o dinheiro, além é claro, de se vangloriar por tê-lo seduzido! Milo nunca foi um anjo, Camus, embora a beleza de seu corpo sugira alegria e prazer! Foi ele que sugeriu apostarmos a relação de vocês, numa tentativa de ter algo para se vangloriar.

— Como você foi altruísta e desinteressado, não é Saga? Todo esse trabalho porque queria me livrar do demônio sedutor... Que tocante. – disse Camus com sarcasmo.

— Eu gosto de você Camus! Tudo o que eu sempre fiz foi protegê-lo e...

— Por favor, não me venha com esta conversa sobre sentimentos! Desde que transamos, pela primeira vez, o seu código de ética e as suas regras foram bem claras: “Sexo sem conflitos e sem reservas”! Você sempre buscou o prazer e só. Tanto você, quanto eu, buscamos a satisfação de nossas necessidades e nenhum envolvimento mais profundo.

— Camus... – disse Saga tocando-o no rosto. – Desde que Milo retornou dos mortos, nós temos brigado. É hora de um pouco de honestidade entre nós dois.

— Honestidade? – Camus repetiu e com tanto cinismo na entonação que quase a sentiu afiada como uma lâmina em sua língua. — Se você quer honestidade, vou te dar a sua honestidade. A verdade é que você deseja ter o controle sobre mim, como tem sobre seus clientes, mas eu não sou mais aquele garoto que você conheceu e instruiu. Então, vamos acabar com essa palhaçada de “eu gosto de você e quero protegê-lo!”

O modo como Saga apertou os olhos e juntou as sobrancelhas denunciou a Camus que ele tocara num ponto nevrálgico. O francês se sentiu muito bem em jogar aquelas palavras na bela face de Saga e acabar com aquela cobrança sem sentido que o grego fazia sobre como ele lidava com suas emoções e relações.

Entretanto, Saga reagiu da forma civilizada e polida que o tornava assustadoramente letal... Camus viu quando a mão dele se aproximou, tocando seu rosto. O grego, tão acostumado ao debate e à manipulação, levantou seu queixo com suavidade para que seus olhos se encontrassem.

— Eu sempre amei você, Camus... – Saga disse tranquilamente, com uma voz rouca, quase gentil -... E creia-me, não vou dá-lo de bandeja para alguém como Milo!

Camus fitou Saga com um lampejo de confusão permeando os olhos rubros. Então, desfazendo-se daquele contato e enfrentando o olhar afiado do advogado, falou secamente:

— Este não é um daqueles momentos do tipo “Eu sempre te amei, mas nunca tive coragem de confessar”, é Saga? Porque, por mais que eu me esforce, jamais vou acreditar na declaração repentina de amor de um homem que me ensinou a criar máscaras de comportamento e que sempre fez questão de deixar claro que emoções são consideradas tão nocivas quanto mostrar-se como realmente é. Então, sendo ainda mais honesto com você, eu digo: essa nossa relação aberta acaba aqui e agora!

Notas finais
Agradecimentos especiais para:HANNAH ELRIC, ENMAHILDER, JUKIE, KERONEKOI, MILAANGELICA, MONI-D, MINOS_D_GRIFFON, SION NEBLINA e quem mais chegar, ler, comentar, ou apenas der uma olhada! Bjs