Blue Scorpion And Red Aquarius
5 Capítulo 5 O GELO COMEÇA A DERRETER...
Os murmúrios dos jovens, discutindo as suas tarefas fizeram Camus sentir algo novo e estranho. Fazia muito tempo que ele agia como um homem de negócios, plenamente consciente de suas habilidades para aumentar rendimentos e descartar maus empreendimentos.
Porém, ali, vendo aqueles garotos com expectativas e entusiasmo, uma parte de si voltou à época em que também se sentira assim, cheio de sonhos, expectativas e dúvidas sobre o seu futuro.
Ikki percebeu a entrada do francês e levantou-se, indo falar com ele. Shun e os outros ficaram em suspenso, até ver que Camus fazia que sim com a cabeça, enquanto discutia algo com o moreno. Quando Ikki voltou para junto deles, todos o olharam surpresos, até ver que Camus falava com um jovem garçom e indicava a mesa em que todos estavam sentados.
— O que você foi falar com ele, Ikki? – perguntou Shun.
— Nada demais, apenas o convidei para sentar conosco.
— Hã?! – exclamaram todos, ao mesmo tempo.
— Isso que vocês ouviram.
— M-Mas, ele é o chefão! – disse Shun.
— E daí? Assim ele já vai se acostumando com a nossa presença. – disse Ikki cheio de orgulho.
Shun riu, admirando aquele irmão maluco, cada vez mais. Ikki tinha uma autonomia e uma força excepcional desde pequeno. Era forte e implacável para enfrentar qualquer adversidade e sensível o suficiente para pegar a sua mão quando ele tinha pesadelos à noite e abraçá-lo quando ele chorava de tristeza e saudades por ter perdido os pais. Assim era Ikki e Shun o comparava aos semideuses da mitologia, confiando plenamente em seus poderes e em seus sentimentos.
Todos na mesa cumprimentaram Camus com um breve e forte aperto de mão e depois se serviram de café e bolos variados. Contrário ao que Shun e os outros pensavam, Camus não era arrogante, nem desagradável. Ouvia com atenção e opinava sobre vários assuntos e o café da manhã tornou-se um momento descontraído e instrutivo.
Na sala acarpetada e aquecida, Shaka estava sentado em posição de lótus no chão, quando Milo entrou quase tropeçando pela pressa.
— Sente-se ao meu lado, Milo. – disse Shaka mantendo os olhos fechados.
— Desculpe o atraso! É que eu...
— Eu sei. Fique calmo, tudo está indo como deveria...
— Você sabia que eu ia me atrasar?
Shaka sorriu discretamente. – Então Camus deu meu recado a você. Ótimo! –disse ele.
— Não me diga que você... planejou isso! Shaka...
— Somos apenas arautos de uma força maior e inexorável! Agora feche os olhos, respire profundamente e... cale a boca!
Milo obedeceu, não sem antes fazer uma careta e colocar a língua para o indiano.
— Ei, eu vi isso. – disse Shaka mantendo os olhos fechados.
— Para um arauto de uma força maior, você vê demais! – respondeu Milo elevando o dedo médio e apenas mexendo os lábios, pronunciou vai se foder...
— Eu vi isso também... Vê se cresce Milo! Agora continue respirando antes que eu perca a paciência.
O grego fechou os olhos e inspirou, profundamente, seguindo as instruções de Shaka. Dez minutos depois de inspirações e expirações longas e alongamentos de yoga para a coluna e membros, Milo abriu um olho e olhou para o amigo que mantinha a expressão mais serena do mundo, enquanto seu estômago já roncava de fome. Fechou o olho e esperou. Nada. Mais um minuto. Nada. Três minutos, quatro, cinco...
— Ei, Shaka, você não dormiu aí, não é?
O mesmo silêncio. Milo arregalou os olhos ao perceber que Shaka mal respirava. Nervoso, lançou-se quase no colo de Shaka e, quando ia sacudi-lo, o indiano abriu os olhos e sorriu travesso.
— O que foi? Pensou que eu estava morto?
— Shaka! Seu... seu... trapaceiro!
— Pensa que é só você que sabe jogar, escorpião? Isso foi pelo dedo feio e pelo palavrão. Agora vamos, os garotos nos esperam para o café. – disse Shaka levantando-se com graça e desenvoltura, enquanto Milo sentia as pernas dormentes por ficar tanto tempo sentado naquela posição.
Shaka e Milo chegaram ao refeitório encontrando a mesa animada e Camus entre os garotos. O grego ficou com a respiração em suspenso ao ver o francês sério, mas com uma expressão mais relaxada. Trocaram um educado bom-dia e Shaka, discretamente, perguntou aos jovens se já haviam acabado o café. Todos sinalizaram que sim, então ele pediu licença e deixou Camus e Milo sozinhos.
— Ei, Shaka, você não vai tomar café? – perguntou Milo nervoso.
— Já tomei. Bebo meu chá, exatamente às 05h00min. Estaremos aguardando na recepção. – disse o indiano saindo com Ikki, Shun, Seiya e Shiryu.
— Café? – ofereceu Camus normal, como se a presença do grego não o afetasse.
— Sim, obrigado. Mas, não se incomode eu me sirvo. – disse Milo pegando o bule e fazendo o possível para que sua voz soasse tão forte e tranquila quanto à de Camus.
O francês colocou um pequeno pedaço de bolo na boca e mastigou-o devagar. O olhar dele estava nos lábios de Milo e o grego tentou não reagir ou demonstrar que aquele olhar fazia seu corpo ansiar por ser tocado por ele.
— Você parece ter aprovado a equipe que eu e Shaka escolhemos. – disse Milo tentando deixar a conversa no nível profissional.
— São garotos dispostos e inteligentes. Espero que correspondam a expectativa que me causaram. – disse Camus sorrindo.
Aquele sorriso fez o coração de Milo disparar. Era a primeira vez desde que tinham se separado que ele via Camus sorrir. Instintivamente, sorriu também ao responder.
— Pode ter certeza que vão!
— Sinceramente, eu espero que o façam. Agora preciso acertar alguma coisas antes de seguir caminho para Inverness Castle. Com licença! – disse Camus deixando a mesa.
Assim que Camus saiu, Milo foi até a janela e olhou para fora. Embora o jardim ainda estivesse quase todo coberto de branco, a tempestade noturna já tinha passado e, em alguns arbustos e árvores, podia-se ver pingos de água refletindo a luz do sol e perecendo pequenos diamantes em meio ao branco e verde.
Shun e Seiya atiravam bolas de neve um no outro, enquanto Shaka, ikki e Shiryu conversavam. Havia um clima favorável, naquele lugar e Milo desejou, ardentemente, que tudo desse certo, dando-se conta que, além de assegurar o futuro daqueles jovens, queria impressionar Camus e quem sabe derreter aquele gelo que se instaurara no coração do francês.
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A estrada estava enlameada de neve e os carros derrapavam em alguns pontos da viagem. Depois de cerca de quatro quilômetros, já no final do dia, eles chegaram a uma propriedade exibindo quatro esculturas de leões que pareciam rugir, proibindo a entrada. Contrastando com eles, os portões de ferro negro, estavam abertos, em sinal de boas-vindas.
Uma estrada levava para dentro da imensa propriedade e, ao longo dela, uma placa azul escuro com letras douradas anunciava que eles estavam em Inverness Castle, um dos hotéis e centros de esqui mais famosos da Escócia.
A neve caía suavemente, como se não tivesse nenhuma pressa e já começava a escurecer. O prédio longo e baixo à frente dos carros era uma festa de luzes. Lanternas decorativas penduradas nas árvores davam um encanto especial ao lugar. Estacionaram no amplo pátio e logo dois jovens sardentos saíram de dentro da propriedade para ajudá-los com a bagagem. Um homem corpulento foi ao encontro de Camus e apertou forte a mão do francês com entusiasmo.
— Senhor Leclercq ! Meu nome é Bowan e muito me honra a sua escolha pelo nosso humilde hotel. Seus amigos já chegaram e foram instalados.
Camus agradeceu e seguiu, junto com os outros, para dentro do hotel.
Abrindo a imensa e pesada porta de carvalho, a visão que todos tiveram foi de um salão aquecido e lindamente decorado. Sofás macios de couros, várias poltronas e mesinhas baixas estavam dispostos na frente do fogo que crepitava numa lareira esculpida em pedra acinzentada.
Do lado esquerdo ficava um bar semicircular com bancos altos e do lado direito estava a mesa de recepção, linda e polida numa madeira escura. Atrás da mesa, examinando alguns papéis, estava uma moça jovem e bonita de cabelos vermelhos e cacheados.
— Esta é Marin. – disse Bowan. – Tudo o que precisarem podem se dirigir a ela!
Camus estendeu a mão à jovem sorridente e apresentou todos que estavam com ele. Depois fez todos os encaminhamentos sobre as atividades planejadas por Shaka e Milo e, por fim, pediu que fossem servidos chá e bolo de frutas para todos, como se os tivesse recebendo em sua própria casa.
Depois que cada um recebeu uma xícara de chá e um prato com bolo feito em casa, Marin sorriu satisfeita ao ver as expressões de prazer no rosto de seus jovens hóspedes. Entretanto, a cena familiar durou pouco. Logo, os convidados de Camus saíram de seus quartos e foram até o grande salão, onde foram se apresentando de maneira informal.
Eram eles, Jamian, um poderoso investidor da Bolsa de Valores, apelidado de O Corvo, por suas feições um tanto disformes e desagradáveis, unidas a um instinto nato para farejar a queda de outros e tirar proveito, como o pássaro que lhe cedera o nome.
Saori Kido, uma das empresárias mais bem-sucedidas na engenharia civil, citada como exemplo de inteligência, beleza inocente e capacidade de liderança, assim também como... uma delicada devoradora de homens.
Aldebaran, executivo brasileiro conceituado no ramo de materiais de construção, homem de impressionante constituição física que, segundo diziam seus empregados, era o tipo de chefe que não tinha medo de botar a mão na massa. O esforço e a capacidade lhe rendeu o apelido de O Touro.
Guilty o implacável proprietário da Naxos Marbles S.A uma das maiores empresas imobiliárias da Grécia que buscava uma fusão com a Koukouravas S.A, empresa que Saga e Kanon haviam herdado do pai e que também era ligada a Leclercq Aquarius Corporation.
Saga e Kanon, os mais famosos advogados especializados em Direito empresarial.
E, finalmente, o jovem armador Aiolos que, junto com Hyoga, irmão caçula de Camus, era a nova geração integrando-se aos negócios dos chamados peixes grandes.
— Bem, senhores e senhorita, a convenção deste ano será diferente das anteriores. Pensei em deixá-la a cargo de uma equipe de jovens empreendedores que nos oferecerão novas possibilidades de troca de experiências sob uma ótica não convencional. Os orientadores deste projeto são Milo Seferis e Shaka Akhilesh. – falou Camus.
Saori deu um sorrisinho discreto, Jamian focou, imediatamente em Milo, passando a língua nos lábios e tendo pensamentos libidinosos. Aldebaran sorriu franco, estendendo a mão para todos, Guilty fez um cumprimento seco com a cabeça, Aiolos e Hyoga disseram oi e Saga e Kanon sorriram e ergueram os copos, dando as boas-vindas a todos.
Num primeiro momento, Milo estancou ao ver Saga, mas graças ao alinhamento energético de Shaka, respirou fundo e sorriu, sendo seguido por Shaka que fez uma saudação com a cabeça no estilo oriental.
— Obviamente – Milo disse, tomando a palavra – este encontro será bem diferente do que estão acostumados. Nós tomamos conhecimento da pauta e organizamos alguns momentos que os ajudarão a ver, determinados pontos e conceitos com outra ótica. Já aviso que, amanhã bem cedo, nós os esperamos no salão já preparado na casa, ao lado do hotel e pedimos que venham com roupas confortáveis. Nada de ternos, sapatos ou qualquer acessório que lhes tolha a liberdade corporal. Obrigado.
Saga continuou bebendo seu puro e caro uísque escocês, enquanto Kanon foi ao encontro de Milo e Shaka para cumprimentá-los. Camus foi até ele.
— Então era essa a sua surpresa... Bem, o que posso deduzir de tudo isso é que você tem uma capacidade insuperável, Camus. – disse Saga tirando os olhos do líquido ambarino e focando no francês.
— E qual seria? – perguntou Camus.
— A do esquecimento...
Os olhos rubros de Camus vibraram num desprezo frio que pareceu congelar o espaço entre eles. Parecendo imune àqueles olhos, Saga voltou-se para um carrinho de bebidas.
— Bebe alguma coisa? Uísque ou um conhaque, talvez?- perguntou o advogado.
— Vou deixar algo bem claro, Saga. Aproveitando o aprendizado que tive com um mestre em dissimulação, eu o aconselho a não confundir as coisas... – disse Camus olhando bem dentro dos olhos azuis do advogado. — Estamos aqui à trabalho. Independente do que aconteceu entre eu e Milo, oportunizar que ele e sua equipe demonstrem sua capacidade, é algo que eu assumi e dei minha palavra que, se obtiverem sucesso, eu os deixo permanecer na república. Portanto, meu caro, vamos evitar esses... joguinhos de poder.
— Como quiser Camus! Agora, sinto dizer que seu aprendizado com o... mestre em dissimulação foi ineficaz e, eu assumo plenamente, esta falha! – disse Saga sorrindo com escárnio.
— O que quer dizer?
— Que você está louco para ir pra cama com aquele vadio. Está explícito nessa sua... benevolência inesperada! A quem você pensa que engana Camus? A mim? Não, meu caro, eu não preciso nem jogar pra ver que você, mais uma vez, está disposto a cair na rede do escorpião. Seja homem e admita, antes de me insultar com essa sua dissimulação ridícula! – respondeu Saga deixando transparecer um pouco de irritação na voz.
Camus encarou Saga e perguntou cinicamente:
— E porque essa sua... certeza incomoda tanto você? Afinal, posso não ter aprendido a dissimulação, mas aprendi muito bem as lições sobre sexo sem vínculos e sem cobranças. O que importa é o prazer, lembra?
Saga sorveu todo o uísque que ainda restava em seu copo num só gole. Depois tornou a olhar para Camus e sorriu.
— Mas é claro que é! Não se esqueça que essa também é a política de Milo... – disse Saga deixando Camus e dirigindo-se ao encontro do grupo.
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A primeira sensação de Milo foi alívio. Depois que falara com todos aqueles executivos e apresentara sua equipe, a noite transformou-se numa oportunidade de observar aquelas pessoas e analisar se as propostas estavam mesmo adequadas.
Após o jantar, Shaka avisou Milo que eles ficariam num chalé concomitante ao espaço do hotel. O indiano achava que assim teriam mais privacidade. O grego concordou com a ideia e voltou a dar uma olhada no grande salão onde os executivos conversavam animadamente e bebiam o mais puro uísque de malte escocês.
Hummm... esses aí gostam de uma bebida alcoólica! Pensou Milo enquanto via o clima de camaradagem aumentar por conta da desinibição provocada pelo álcool. E, observando a todos, não se deu conta de um par de olhos cinzentos sobre si.
Jamian bebia o uísque e devorava Milo com os olhos. Tomando coragem, ele se levantou e foi na direção do grego, atitude que fez Camus interromper a conversa com a animada Saori e estreitar os olhos na direção dos dois.
Mesmo acostumado a seduzir e a viver em meio à vida boêmia, ali, Milo tentava focar somente naquele trabalho e, além de provar que seus protegidos eram bons, ele queria que Camus também o admirasse e percebesse que ele havia mudado. Assim, quando Jamian se aproximou, ele apenas achou que o homem tinha bebido demais, porém era inofensivo.
— Até que enfim! – ele disse, com um sotaque estranho e uma voz anasalada. – Eu estava esperando por uma chance de conhecê-lo melhor e saber mais sobre esse projeto com jovens! Por favor, vamos conversar ali, tem menos gente! – continuou o executivo apontando para um canto do salão onde haviam mesinhas com luzes baixas e aconchegantes.
— Bem, nós podemos conversar amanhã sobre isso. – respondeu Milo percebendo que Jamian estava chegando perto demais e cheirava a uísque e loção de barba cara.
— Não, não! Vamos, eu sou um dos maiores investidores e não costumo perder tempo. Venha, vamos conversar! – disse ele pegando Milo pelo braço.
Lembrando-se do seu papel ali, Milo pensou que seria melhor ir com ele e conversar um pouco. Não faria uma cena logo na chegada. Seguiu com ele para a ala reservada. Sentaram perto um do outro e o grego preparou-se para ouvir o que o executivo desejava falar. Foi então que Jamian soltou o copo e olhou nos olhos de Milo o chamou como se fosse cochichar algo. O grego se abaixou e a voz desagradável e arrastada em seu ouvido.
— Se for pra cama comigo, eu dou emprego para todos esses aí! Qualquer um que você indicar!
Num primeiro momento, Milo teve vontade de rir. Porém, quando Jamian o agarrou num rompante e colou a boca na dele, o grego o empurrou, mas o homem se atirou, pesadamente sobre ele e arrancou outro beijo à força, os lábios molhados e escorregadios, o hálito cheirando a uísque e os dentes afiados, novamente, em sua boca.
— Mas o que significa isso? – perguntou uma voz baixa que parecia tão afiada quanto um punhal.
No mesmo instante, Milo empurrava Jamian. Tremendo e limpando a boca com as costas da mão, ele olhava para o rosto furioso de Camus.
Levando em conta o estado de semiembriaguez em que se encontrava, Jamian se recuperou rapidamente. Sorrindo, ele falou de forma maliciosa.
— Não aconteceu nada! Estávamos eu e... o senhor Milo, trocando algumas considerações sobre trabalho, não é?
— Acho melhor que se recolha Jamian. Amanhã começamos bem cedo. – disse Camus num tom firme e frio.
— Boa ideia. Boa ideia. É isso aí... Com licença, senhores! – disse o executivo fazendo uma saudação e saindo meio trôpego.
Assim que Jamian saiu, Milo fez menção de sair também quando Camus ordenou bruscamente:
— Fique onde está. Eu quero dar uma palavrinha com você.
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