Blue Scorpion And Red Aquarius

2 Capítulo 2 MÁGOA E DESEJO...


Nunca deveria tê-lo tocado! Camus disse a si mesmo, enquanto exibia uma expressão fria e desdenhosa. Nunca deveria ter fraquejado a ponto de adentrar o abismo entre eles e provar, mais uma vez daquela boca, a única capaz de despertar nele uma luxúria absurda e, ao mesmo tempo, um sentimento além dela...

Bastou vê-lo para saber que sete anos não eram nada e tinham sido pouco para fazê-lo esquecer. Aquele maldito magnetismo existente entre eles sempre o atraíra, como a chama atrai a mariposa e depois a queima sem piedade.

Ele devia estar louco, senão porque o tinha beijado daquele jeito? Um toque no rosto de Milo e lá estava ele louco de desejo se apossando dos lábios do grego, estreitando-o nos braços como... no passado.

Inferno! Era um homem agora e devia controlar-se, dominar o desejo.

— Bem, se não tem mais nada a dizer, preciso me organizar para o próximo compromisso. – disse Camus injetando todo o controle que se autoimpunha no tom impiedoso de sua voz.

Milo ainda atordoado passou a mão nos lábios sentindo o rosto quente, a cólera derramando-se dentro dele como chumbo derretido. Com o coração descompassado e a voz trêmula, ele gritou:

— Seu... Seu filho da puta! Quem você pensa que é para... Para me tratar desse jeito?

— Eu? Ora, sou o homem que você teve a ousadia de procurar para fazer um pedido inaceitável!

Inaceitável?! Você acha inaceitável pensar em seres humanos ao invés de me curvar ao seu maldito dinheiro? Você possui propriedades mais valiosas que Rodós Dodekánisos. Você está fazendo isso por vingança! Uma vingança contra mim que vai atingir inocentes que nada tem a ver com essa história.

— Acabou? – perguntou Camus olhando o relógio. Eu nem sabia que você estava envolvido nessa história. Agora, se me dá licença...

— Não Camus! Não acabou! Se você continuar a se recusar em me ouvir, vai se arrepender amargamente de me ter como adversário.

-Pois creio que não vou me arrepender mais do que me arrependo de ter me envolvido com você um dia! Pode ter certeza. – esbravejou Camus com os olhos faiscando.

Arrependido? Não foi isso que eu senti agora há pouco quando me beijou. Pelo visto, depois de mim não achou alguém capaz de despertar esse seu fogo que você faz questão de mascarar com indiferença... – disse Milo com um ar de triunfo.

— Se quer saber Milo, eu queria saber se você ainda tinha o mesmo gosto. E é incrível, você tem! – disse Camus bruscamente e fazendo um aceno de impaciência com a mão.

— Gosto? – perguntou Milo surpreso com a afirmação.

— É, seu gosto peculiar de veneno! Um gosto que eu não reconheci quando me envolvi com você. O gosto da mentira, da falsidade e da traição... Fui tolo, mas agora você não me engana mais! – disse Camus e seu tom de voz denunciava amargura.

Milo estremeceu por dentro quando as palavras de Camus foram despejadas como bofetadas em seu rosto. Desejou poder negá-las, desfazer o que havia acontecido e retirar aquela expressão de desdém do rosto do francês. Mas como poderia se, no fundo, sabia que era verdade? Tinha sido uma idiotice, um momento de autoafirmação adolescente e, no entanto, aquilo havia destruído a confiança que Camus tinha nele e muito mais...

— Você nunca me deixou explicar... Não foi bem como pensa. Mas imagino que não queira escutar o que eu tenho a dizer sobre isso.

— Tem razão, não quero. Na verdade, não quero ouvir mais nenhuma palavra sua. Aliás, seu tempo acabou. Passe bem! – disse Camus caminhando até a porta e abrindo-a.

— Camus... Eu não peço por mim. A República na verdade... – disse Milo olhando nos olhos do francês que permaneciam escuros e frios. – Não, tudo bem! Não vou mais fazê-lo perder seu precioso tempo. Afinal, como dizem os milionários, tempo é dinheiro!

Milo ergueu a cabeça, endireitou as costas e caminhou até a porta que Camus indicava. Decidiu que não diria mais nenhuma palavra e não fraquejaria diante dele. Tinha errado no passado, mas agora a história não era somente entre eles. Entretanto, conhecendo Camus, sabia que ele seria irredutível e quanto mais se humilhasse, pior seria.

Armado com seu orgulho, Milo dirigiu um olhar firme para Camus e sorriu de forma diabólica.

— Como eu disse antes, posso ser tão formidável como inimigo, como sou como amante. A gente se vê Camus!

— Pois eu espero que ao sair daqui, senhor formidável, você e quem mais estejam naquela casa comecem a empacotar as coisas. Quero a casa desocupada até o final do mês! – vociferou Camus sustentando o olhar do grego.

— Só mais uma coisa, pense bem se deseja se tornar um monstro só para me destruir. Tem gente inocente no meio disso tudo e, mesmo que você tenha se reduzido a um babaca rico, não creio que queira ser responsável por colocar crianças na rua, apenas por dinheiro! – Milo respondeu rompendo o contato visual e dando as costas à Camus.

Mais alguns passos, e Milo estava fora do escritório, atravessando o longo corredor e olhando sempre para a frente. Quando enfim, chegou ao elevador e fechou a porta, permitiu-se desabar contra a parede e seu corpo escorregou para baixo, sem forças, enquanto sua cabeça pendia para frente, de olhos fechados. Alguns segundos se passaram até que conseguisse apertar o botão do térreo.

Ele tentara o máximo possível e fracassara. Parecia que nada poderia superar o ressentimento que Camus cultivara durante todos aqueles anos e essa constatação doeu fundo em seu corpo e em sua alma.

Sentado em sua mesa, Camus mantinha o semblante fechado e tamborilava os dedos no vidro polido, quando Kanon entrou em sua sala estranhando a pressa com que fora chamado.

— O que foi Camus? Era mesmo o... Milo, quem eu vi sair daqui? – perguntou ele.

— Era. Agora me diga, Kanon, o que acontece no Rodós Dodekánisos? Saga me disse, apenas, que aquela propriedade era importante para os negócios. Que história é essa de República? O que descobriu quando entrou em contato para comunicar a desapropriação? – perguntou o francês com o cenho franzido.

— Bem, o chalé abriga jovens que não foram adotados e saem dos orfanatos e abrigos, após completarem dezoito anos. Milo é assistente social e transformou o lugar numa espécie de República para estudantes, mas na verdade Rodós Dodekánisos é um projeto piloto para impedir que esses jovens voltem às ruas e à marginalidade e também para encaminhá-los para o mercado de trabalho e, em alguns casos, também para a universidade.

Em meio aos arquivos das transações do mercado, dos investimentos e de todo o trabalho que tinha pela frente, Camus pegou caneta e um pequeno bloco de papel, escrevendo uma mensagem rápida. Depois, enviou-a pelo elevador executivo, instruindo o ascensorista para entregá-la à secretária no saguão.

Milo sacudiu a cabeça, tentando pensar no que dizer quando chegasse à República onde todos esperavam por uma solução. O elevador parou, as portas se abriram e ele pôs-se em movimento, louco para deixar aquele lugar.

Enquanto cruzava o amplo saguão ouviu um toque de seu celular. Respirou fundo e atendeu. Preferia não ter que fazê-lo, mas enfim, chegaria o momento de enfrentar a verdade e assumir o fracasso.

— Então, como foi? – perguntou a voz suave e pausada do outro lado.

Em pé no meio do saguão e com a cabeça latejando, Milo inspirou antes de responder.

— Eu falhei Shaka. Ele não quer saber nem de ampliar o prazo para a desocupação.

Senhor Seferis?

Demorou um pouco até Milo perceber que aquela voz não vinha do celular e sim da mesma recepcionista que o atendera.

— Com licença, senhor Seferis. Tenho uma mensagem que desceu agora para o senhor.

— Uma mensagem?

Milo olhou sem entender para o papel dobrado que a jovem estendeu para ele. Desdobrou o papel com nervosismo e reconheceu a letra simétrica e desenhada. Não tinha saudação, nem assinatura, mas não era necessário, ele sabia de quem era. Apenas quatro palavras breves, escritas rapidamente que o deixaram confuso.

Vecchio Torino às 20h. Esteja lá.

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O restaurante era pequeno e pouco mudara em sete anos. Fora a pintura de ano novo, o Vecchio Torino continuava o mesmo. Mesinhas e cadeiras de madeira escura e brilhante, espaços reservados com pouca luminosidade e velas dentro de garrafas vazias de vinho, com cera escorrida no gargalo e sobrepostas às toalhas de mesa quadriculadas de vermelho e branco.

Os pôsteres de artistas ainda eram os mesmos e Milo voltou no tempo, lembrando-se do seu primeiro encontro com Camus e da expectativa que ambos vivenciaram naquela noite... E, a partir daquela noite, outras se seguiram e foram os mais prazerosos momentos que tivera ao lado de alguém.

Imbecil! Você estragou tudo. – murmurou prá si mesmo. A amargura dessa lembrança fez as palavras saírem de sua boca, sem querer.

— Perdão, signore?

O garçom escutara Milo e parou para olhá-lo com ar interrogativo.

— Hã... desculpe, estava falando sozinho. Eu vim encontrar uma pessoa.

— Oh, sim! Fique à vontade.

Milo olhou na direção de um reservado e ele estava lá. Camus levantou-se e indicou onde iriam ficar.

Por um instante, Milo ficou sem respirar. Aquele não era o homem que o confrontara em seu escritório pela manhã. Esse Camus não era o empresário de terno e gravata que comandava a Leclercq Aquarius Corporation. Em vez disso, estava devastador em uma camisa preta de tecido macio, um jeans escuro que marcava seus quadris e coxas e sua cintura estreita estava realçada por um cinto de couro em tom grafite.

O que ele pretendia vestido assim? O pensamento rápido passou pela mente de Milo. Ou seria uma interpretação errada, já que ele mesmo levara um tempo para se decidir sobre o tipo de roupa que usaria naquele encontro. Depois de olhar as poucas opções que tinha, optara por uma calça jeans clara e um blusão de linha em tom cru que não parecesse nem arrumado, nem displicente e agora estava extasiado ao ver o francês absurdamente lindo esperando por ele.

— Não vai sentar?- falou Camus.

A pergunta retirou Milo daquele devaneio, alertando-o que estava em pé, imóvel e com os lábios entreabertos, olhando para Camus como se nunca o tivesse visto.

— Ah! Sim... Boa noite! – disse o grego sentando-se em frente a Camus.

O francês por sua vez, admirou o corpo perfeito de Milo, a sensualidade natural que o fazia belo mesmo se ele estivesse esfarrapado. Porém, diferente do grego, podia fechar os olhos e visualizar cada detalhe anatômico de Milo, quase perder o fôlego e, ainda assim, fingir total indiferença.

— Então, você veio. – falou Camus quando o garçom lhes entregou o cardápio e saiu para que escolhessem.

— Claro que vim! E eu tinha escolha? Era isso ou ficar na república empacotando as coisas como ordenou, gentilmente, para que eu o fizesse. Então, qual é o jogo, Camus?

— Nenhum jogo. Apenas o convidei para jantar. Então, o que quer comer?

O seu fígado! Pensou Milo, para depois perguntar sério:

— Convidou para jantar... Já não bastou me humilhar em ambiente privado? Vai querer expor a nossa relação em público?

Camus levantou os olhos do cardápio com uma sobrancelha erguida em zombaria.

— Nossa relação? Não... não o convidei prá revirar túmulos ou caçar fantasmas. Mas, acalme-se, você saberá na hora certa. – respondeu Camus imperturbável, erguendo uma das mãos para chamar o garçom.

O garçom atendeu-o de imediato e Camus pediu vinho, fazendo-o de forma natural e descontraída. Milo se sentiu encurralado e pegou o cardápio, tentando acalmar-se. Olhou um grupo de massas e escolheu aleatoriamente.

Quando o garçom voltou com o vinho, Camus fez um trabalho minucioso em checar o rótulo e provar a bebida. Milo tinha a impressão que o ruivo fazia tudo de propósito e já estava com vontade de gritar e sacudi-lo, enquanto Camus bebericava e apreciava o bouquet do vinho tinto.

Mordendo o lábio inferior, Milo, surpreendentemente, recusou ser servido pelo garçom e se remexeu ansioso. Não aguentava mais aquele suspense e, quando Camus pareceu satisfeito com o gosto do vinho ou... com a satisfação maquiavélica de torturá-lo, olhou-o e falou:

— Bem, Milo eu sou um homem de negócios, mas soube do trabalho que está fazendo. Sou um homem que acredita no trabalho duro e no esforço feito para se crescer. Nesse ponto, você tem razão, a questão não diz respeito a nós, e sim a outras pessoas que nada tem a ver com o que aconteceu. Então, eu pensei melhor no caso e tenho uma proposta a fazer!

— Proposta?

— Sim, uma proposta. Isto é, se você estiver disposto a pagar o preço... — disse Camus com frieza ao tomar outro gole de vinho.

— E que preço seria esse? – perguntou Milo.

— Haverá uma reunião de negócios com todos os acionistas da Leclercq Aquarius Corporation na Escócia, daqui a dois dias. É num hotel de inverno pequeno, onde realizamos algumas convenções anuais. Seu desafio é organizar esse evento de uma forma, totalmente, inusitada. Você tem que surpreender a eles e a mim. Se provar que existem jovens talentosos nessa sua República, eu deixo nossas diferenças de lado e alugo Rodós Dodekánisos para vocês. Caso contrário, se não mostrarem competência ou criatividade, meu prazo de desapropriação continua de pé. Não faço caridade e sim, dou oportunidade!

O coração de Milo deu um solavanco e, no mesmo instante, um trovão se fez ouvir na noite. Os jovens sob a sua responsabilidade eram talentosos, mas organizar um evento do porte que Camus propusera significava precisar de muita ajuda e muita experiência, algo que nem ele, nem os garotos possuíam. Porém, foi a lembrança dos jovens ansiosos para saberem sobre o futuro da República que o fez arriscar:

— Nós o faremos! – disse Milo. – Parece que não temos escolha.

— Sempre se tem escolha, escorpião... Embora, muitas vezes ela seja covarde! – falou Camus sorvendo o restante de vinho e Milo sentiu uma dor extrema na voz do francês.

Por um instante os olhares se encontraram e foi como se estivessem de volta àquele primeiro encontro, com suas expectativas e excitação bramindo no corpo e no coração.

A luz trêmula das velas iluminou o belo rosto de Camus, os cabelos vermelhos e curtos adquirindo um tom dourado, os lábios finos e umedecidos pelo vinho... Havia um encanto nos traços endurecidos que agora pareciam mais relaxados e realçavam o poder masculino do francês.

Milo ficou com a respiração presa na garganta e, mesmo temendo a resposta, ele perguntou o que desejava desde que recebera aquele bilhete:

— Por que esse restaurante?

— Porque eu precisava saber...

— Saber o quê? – falou Milo sentindo um tremor por dentro.

— Se eu ainda o desejava ou se essa parte da minha vida estava, efetivamente, zerada.

— Camus... Eu...

— Já tenho minha resposta. Boa noite, Milo! Arrume as malas e escolha a sua equipe. Viajaremos para Salisbury Crags depois de amanhã. Instrua-os para levarem roupas quentes. – disse o ruivo interrompendo a fala de Milo e olhando-o com tanto distanciamento que fez o peito de Milo doer.

Camus levantou-se da mesa e deixou Milo sem palavras. Como um titereiro, o francês o tinha dançando sob as cordinhas que segurava, controlando tudo e todos. Mas, ali, por alguns momentos, Milo sentira que ainda havia algo entre ele e Camus, algo que esperava uma oportunidade de ser resgatada...

Notas finais
Obrigada MEYZINHA, ANDREIAKENNEN, ANJODASTREVAS, SION NEBLINA, KERONEKOI, DDD, NINA CORTTINELLY, MILAANGELICA, KAMY_JAGANSHI E HANNAH ELRIC vocês são as flores que alegram o meu jardim! Obrigado também a que lê em silêncio.