Blue Scorpion And Red Aquarius
3 Capítulo 3 DESAFIOS EM AMBOS OS LADOS...
Milo chegou à República, dividido entre dois sentimentos: um era de expectativa e entusiasmo, enquanto o outro era de medo. Entretanto, medo não era uma opção viável, não para o grego orgulhoso que havia descoberto o seu propósito de vida, após passar por um longo e difícil período de perda e dor.
Olhou para a fachada da casa e imbuiu-se de toda a sua capacidade de elevar o moral alheio e entrou.
Rodós Dodekánisos era uma imensa casa branca com três andares que começavam na rua principal e desciam pela colina. No andar mais baixo, podia-se sair pelo portão dos fundos e adentrar a pequena praia Akti Salonikiou, onde a água cristalina do mar Egeu batia contra a areia, há apenas alguns metros.
Todos os quartos tinham varanda com vista para o mar e eram arejados e amplos, possibilitando a acolhida de até seis jovens distribuídos em beliches. Fora os quartos, a casa possuía quatro banheiros, uma sala de jantar, uma sala de estar, uma cozinha espaçosa e um pátio com piscina e uma quadra de esportes.
Era, realmente, uma propriedade magnífica e cara, que Milo conseguira com o mesmo talento que lhe privara do amor: a sorte no jogo.
O pai de Milo era um jogador profissional, um arrasador dos cassinos e conhecidíssimo na vida noturna e agitada em Atenas, Thessaloniki e em algumas ilhas, como Mykonos e Ios. Porém, era nos cassinos de Corfu ou Rodes que ele instalava-se, com frequência, a ponto de ser contratado pelos proprietários para identificar os jogadores com “sorte” em potencial e evitar a quebra das bancas de jogos.
Sedutor, Argeu Seferis enviuvara cedo e criara o filho dentro de seu mundo boêmio e permeado de aventura. Frequentemente, deixava Milo sozinho e gastava o dinheiro em bordéis caros e presentes para suas amantes. Então, quando começava a faltar o básico como roupas e comida, voltava aos cassinos e sempre retornava com algum dinheiro.
Foi nesse mundo que Milo cresceu e, ao completar quinze anos, foi iniciado no mundo de seu pai, demonstrando um talento superior ao dele para antever jogadas e... apostar prá ganhar.
Quinze, dezesseis, dezoito anos. O tempo passou rápido e, entre a rotina normal de um jovem da sua idade e a malandragem aprendida com seu pai, Milo adquiriu uma fama tão grande que quase o superou.
E, quando tudo parecia perfeito, o grego que aprendera também a seduzir, conheceu Camus Leclercq, seu primeiro e único amor.
— Foco, Milo! – disse o grego para si mesmo. – Não é hora de ficar relembrando o passado...
Endireitando as costas e suspirando, longamente, Milo abriu a imensa porta de entrada e foi recebido por vários pares de olhos brilhantes e curiosos. Porém, um determinado par de olhos azuis que sempre lhe parecera um plácido e profundo oceano de mistérios e revelações, assegurava-lhe, apenas com um suave piscar, que tudo estava sob controle.
— Seja bem-vindo, Milo! Venha, sente-se e tome um chá antes de ser bombardeado de perguntas. – disse Shaka sorrindo e estendendo a mão ao amigo.
Milo agradeceu a Zeus por Shaka estar ali, pegou a mão que ele lhe estendia e a beijou, afundando-se no sofá de três lugares, enquanto o indiano servia calma e cerimoniosamente uma xícara de chá.
Shiryu, Seiya, Shun e Ikki olhavam, em silêncio para Milo, enquanto ele sorvia um gole da bebida quente e aromática. Dos estudantes da casa, eles eram os mais jovens e recém-instalados, desejosos de fazer algo novo já que a grande maioria ali, já estava encaminhada.
— Hummmm... Que delícia... Eu não sou muito de beber chá, mas esse... Esse mostrou que você é o cara, Shaka! – disse Milo com os olhos fechados e um suspiro de prazer, sentindo um calorzinho relaxante devido ao sabor frutuoso.
Ikki, o mais novo inquilino da república estava ansioso. Ele e o irmão Shun haviam procurado Milo, assim que souberam do trabalho do grego. Haviam chegado do Japão, após sobreviverem a um terremoto e arriscarem a embarcar num navio dispostos a trocar trabalho duro por uma passagem para qualquer lugar.
Orgulhoso, o jovem oriental tinha a expectativa de achar um emprego logo e iniciar uma vida nova ao lado do irmão caçula. Não encontrara muitas portas dispostas a se abrirem para dois garotos estrangeiros. Então, conheceu Milo e tudo mudou.
Enquanto todos esperavam uma resposta, ele não suportou mais o suspense:
— Por favor, Milo, não nos mate de curiosidade! Teremos mais um tempo aqui?- perguntou Ikki.
— Bem, temos uma proposta de trabalho e a nossa permanência aqui depende de termos sucesso nesse trabalho. – respondeu Milo terminando o chá.
— Proposta? Que tipo de proposta Camus poderia fazer? – perguntou Shaka.
— A companhia dele realiza uma espécie de convenção anual e ele quer que a gente organize o tal evento. – respondeu Milo observando a reação do indiano.
— Uma convenção de negócios... Ele espera que um bando de garotos e um assistente social organize um evento desse porte? O que ele pretende com isso? – perguntou Shaka estreitando os olhos.
— Acho que no fundo, ele quer apenas se livrar do estigma de ser um despejador. É claro que ele sabe que não somos qualificados prá isso, mas...
— Mas... Nós vamos surpreendê-lo! – disse Shaka num tom firme.
— Contava que dissesse isso! Vamos precisar da sua ajuda, meu amigo. Eu aceitei no impulso, mas não tenho a mínima ideia do quê e como fazer. – respondeu Milo apertando o canto dos olhos.
— Isso mesmo! Somos jovens, mas cada um aqui sabe fazer alguma coisa. Se tivermos uma orientação, podemos direcionar nossos talentos. – falou Ikki entusiasmado e olhando na direção de Shaka.
O indiano olhou para Ikki, percebendo-o bastante diferente dos jovens naquela fase. Havia nele uma força e uma energia incomum e ele não deixou de admirá-lo, embora nunca tivessem trocado mais que um cumprimento.
— Ikki tem razão! Com minha experiência como proprietário de um restaurante inovador vou expor a minha ideia. Vejam se concordam e se têm algo mais a acrescentar! – disse Shaka reunindo todos ao redor de si.
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Camus franzia a testa, enquanto dirigia seu Lexus negro pela alameda estreita e cheia de curvas que levava a mansão em que morava. Devia estar se concentrando em Guilty e na fusão do Naxos Marbles S.A com a Koukouravas S.A, ou como lidaria com Saga quando o confrontasse sobre a compra de Rodós Dodekánisos.
Em vez disso, suas mãos apertaram com mais força o volante enquanto se lembrava dos olhos azuis de Milo e da proposta que lhe fizera. Continuava a dizer a si mesmo que a atitude tomada era acertada, que embora Milo não merecesse a sua consideração, o trabalho que ele fazia era digno e, só por isso, dera-lhe uma chance. Nada de motivos pessoais ou mesmo uma tentativa de provar a si mesmo que o grego continuava o mesmo e não seria bem sucedido.
Porém, o que mais o incomodava era sentir-se tocado em seus sentimentos. Todos os anos em que se afundara nos negócios, tornando-se um homem de sucesso pareceram evanescer com a simples presença do grego. Mostrara-se indiferente, deixara-o sozinho no restaurante em que haviam se encontrado para o primeiro jantar após se apaixonarem um pelo outro.
Merde! Saíra com o coração disparado e um aperto na garganta. O corpo formigando de vontade de ter o grego, mais uma vez...
Com seus pensamentos num caos, Camus freou com rapidez excessiva e os pneus rodaram no mesmo lugar sobre o cascalho, enquanto estacionava.
A lua já se insinuava por entre as nuvens e o ar estava seco e agradável. Saiu do carro e respirou a brisa noturna com cheiro de maresia, caminhando lentamente em direção à mansão iluminada.
Franzindo o cenho, dirigiu-se para a escadaria, mas no momento em ergueu a mão para a maçaneta da porta, ela foi aberta por alguém do lado de dentro da casa.
— Ora, olá Camus! Sua governanta teve a gentileza de me receber já que você não atendeu as minhas chamadas. – disse a voz grave e familiar.
— Como vai Saga? Foi bom ter vindo precisamos conversar! – disse o francês entrando no amplo hall central.
Antes que Camus erguesse aquela barreira conhecida, quando estava contrariado, Saga puxou-o contra si e o beijou, abraçando-o com força para que o francês não tivesse dúvidas sobre a rigidez e a extensão de seu desejo. Sua boca devorou a de Camus, prendendo-o ao seu corpo enviando uma mensagem de posse e sedução. O ruivo deixou-o aproveitar um pouco e então se afastou, sem demonstrar a excitação que Saga esperava.
— O que houve? – perguntou o grego, mostrando visível desagrado.
— Eu estava com Milo. – disse Camus atirando-se na poltrona escura.
O grego estreitou os olhos, depois foi até o bar e serviu-se de uma dose de uísque puro.
— Bebe alguma coisa? – perguntou ele a Camus como se não tivesse ouvido nada demais.
— Não. – respondeu Camus observando as reações calmas e estudadas de Saga.
— Bem, e como está o grego fanfarrão? Continua o mesmo, apostando na sorte?
Se havia algo em que Saga era um especialista, era em achar as palavras certas, aquelas que tocavam no ponto nevrálgico tanto de seus amigos, quanto de seus inimigos. Não era à toa que era considerado um dos melhores e mais ferozes advogados de Atenas.
— Poupe-me de suas ironias. Não está tratando com um qualquer, então não mascare as suas ações ardilosas com esse tipo de comentário. – respondeu Camus lançando um olhar gélido ao amante.
Uma sonora gargalhada encheu a mansão e Saga bebeu o último gole de uísque, após fazê-la ecoar.
— Está me acusando de quê, especificamente? De tê-lo incentivado a comprar aquela propriedade? Ora, Camus! A área onde se localiza Rodós Dodekánisos será utilizada para a construção de prédios comerciais modernos. Faz parte do planejamento de fusão entre as empresas Naxos Marbles S.A e Koukouravas S.A. Eu só soube que Milo administrava aquela...república de estudantes depois que as investigações do Kanon revelaram que ele ganhou o aluguel daquela casa numa mesa de jogo há três anos atrás e a usa como uma espécie de casa de passagem para jovens que ninguém quis adotar. Pensei em falar com você para recolocá-los em outro lugar.
— Ah, é? E quando você ia me falar? Depois que eu tivesse autorizado colocar esses jovens na rua? Você, mais que ninguém, sabe a repercussão negativa de um ato desses!
— Você está preocupado com a repercussão do fato ou com Milo? Ficou tentado a retomar o passado? – perguntou Saga com malícia na voz.
A menção do nome do grego e a ênfase dada fizeram Camus levantar-se, irritado e tomar Saga em seus braços, mesmo sendo um pouco mais baixo que ele.
O francês beijou-o com fúria e pareceu fora de si, enquanto arrancava as próprias roupas e as de Saga com selvageria, jogando-as no chão e levando-o escada acima em direção ao quarto.
Ao chegar ao aposento, Camus empurrou-o em cima da cama ampla e cobriu-lhe o corpo com o seu, tomando-o em uma só investida, sem preparo, nem palavras de sedução.
Os abajures em metal antigo cintilavam uma luz baixa e dourada sobre os corpos nus e os movimentos sôfregos produziam sons baixos, que se perdiam em meio ao ambiente requintado.
Com um ofego de prazer, Saga que só se permitia ser passivo com Camus, envolveu-o com as pernas e o apertou realizado com aquela demonstração de posse, excitado com a dor e o prazer que o ato lhe proporcionava.
Não havia suavidade ou ternura na forma como Camus se projetava para dentro do grego e Saga não se importou quando ele o penetrou de novo e de novo dominando-o e fazendo amor depressa e com força.
Transaram com intensidade e violência, com Camus agindo como se quisesse expulsar seus demônios internos, como se o corpo de Saga pudesse fazê-lo esquecer de Milo.
O gozo irrompeu estranho e desesperado, com Saga tremendo e saciado e Camus mordendo o lábio para que o nome de Milo não lhe escapasse.
Quando terminaram por completo e Camus saiu do interior do amante, com o corpo enrijecido e uma sensação de vazio, o francês soube que o seu inferno pessoal estava apenas começando...
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