Blue Rose

4 Silenciada


Notas iniciais
Oii!! Desculpa a demora, espero que gostem!
Beijooos,
Ju!
Ps: Comentem!!

A porta do guarda-roupa foi fechada com certa força, fazendo com que ela voltasse a ficar aberta, e pude ver os dois homens saírem carregando suas armas. Pude ver outra pessoa miúda no canto esquerdo do quarto, carregando uma máquina velha, tirando foto de todos os cantos possíveis.

Saí de dentro de meu esconderijo ainda com Rubens no colo, permanecendo invisível, e cheguei tão perto do humano que pude tocar sua câmera.

Ele se virou para mim bruscamente, e apontou-a para mim. Fiz o favor de tapar a lente para que a foto ficasse inteiramente preta. Após bater a foto, ouvi seu coração acelerar e ele deu uns bons passos para trás, indo em direção à porta.

Não ousei me mexer.

Ele apontou a câmera em minha direção novamente, e meus olhos se arregalaram de medo, assim como os de meu irmão, e então eu senti o flash entrando em meus olhos, causando uma pequena dor de cabeça.

- Me desculpe. – ele sussurrou para o nada antes de sair do quarto.

Fiquei algum tempo ainda chocada com o que havia acontecido ali.

Em vários meses vivendo sob aquele teto, nunca – ninguém – havia se atrevido a entrar no casarão. Nem mesmo os guardas.

Esperei-os sair de nossa casa, e o homem com a máquina nas mãos parecia ainda bobo com algo na câmera. Cheguei bem perto dele, e sussurrei em seus ouvidos, ainda invisível, com Rubens bem colado ao meu corpo.

- Apague isso.

Ele estremeceu.

- Vamos voltar outra hora. É melhor procurar outro lugar para se esconder. – ele sussurrou.

Pude ver o nome em seu crachá: Marcel.

- Por favor, Marcel. – tentei mais uma vez.

Ele se virou para mim, e seus olhos lacrimejaram de leve.

- Não posso. Me desculpe.

E então Marcel saiu. Sem mais nem menos.

Ouvi o carro que eles haviam vindo sair da garagem de casa, e subi novamente as escadas.

Ainda chocada, baixei Rubens, e o mandei tomar um banho para trocar de roupa. Hoje seria mais um dia que ficaríamos de tocaia, esperando que o pior não acontecesse.

Só para garantir que nada acontecesse com meu irmão, fiquei dentro do banheiro, esperando com o rosto virado para porta, enquanto ele se queixava sobre não ser mais uma criança, e ser praticamente um adulto formado.

Senti uma vontade imensa de manda-lo calar a boca, mas a necessidade de rir de toda essa baboseira que ele falava era bem maior, porém consegui segurá-la com muita força de vontade.

Depois do incidente, não ousamos mais dormir em quartos separados, e nem ao menos descer para a sala.

Quando tudo parecia calmo, o caos veio novamente.

Enquanto dormia, pude ouvir a porta se abrir com um rangido alto.

Corri novamente pelo corredor e fiquei espionando pelo alto da escada de mármore branco. Ela levava até a “Sala Fria” – como chamávamos, pois não tinha quase iluminação nenhuma e nem tapetes – e os pisos pareciam rastejar pelos pés das pessoas dali, na sua própria melodia romântica e patética.

- Têm que ter mutantes aqui! – esbravejou um homem magro e baixo cutucando o sofá empoeirado com a ponta da arma, e logo depois espirrando por causa do pó que ficou grudado em sua narina e suas roupas.

- Eles têm o cheiro adocicado, amargo, dependendo de qual tipo. – disse outro homem, vestido com um jaleco branco acinzentado, carregando a maior arma, mas deixando-a relaxada ao lado do corpo. Ele parecia não querer machucar ninguém.

Qual tipo? Viramos o que? Bichos?, pensei.

- Não tente me ensinar a achar essas coisas! – berrou novamente.

- Na outra caçada você perdeu quatro deles para a Colônia. Se deixar que outros escapem, você vai morrer.

- Aham. Tanto faz. Já vasculhamos aqui embaixo, agora vamos lá para cima! – disse o homem baixo.

Meus batimentos cardíacos eram tão rápidos que já era possível senti-los em minhas orelhas. Fiquei sem saber o que fazer. Ficar e enfrentar esses bocós, ou subir para meu irmão? Oh, droga, pensei olhando ainda para os homens que se ousavam a subir pelos primeiros degraus da escada de mármore.

Como eles se atrevem a subir ao nosso esconderijo, e ainda ficar cutucando as coisas?, perguntei a mim mesma, mas parecia que eu já tinha toda a resposta elaborada em minha cabeça desde que meu irmão veio com a notícia de que humanos haviam praticamente invadido nossa casa, dias atrás.

Rubens ainda estava dormindo, isso era o que eu menos queria no momento.

Dei mais uma bela espiada nos homens que agora se encontravam no meio da escada. Um deles mirou bem dentro de meus olhos, e berrou.

- Ali!

A única coisa sensata que pude fazer foi correr. Correr tanto que o chão aos meus pés parecia correr em sentido contrário. A respiração falhou duas vezes, e parecia que meu pulmão iria explodir a qualquer momento. Oh, Deus, porque é que esse corredor não acaba nunca?, pensei exausta e fatigada.

- Parada! – berrou novamente agora carregando algo, e atirando uma vez na parede à minha frente.

Tampei os ouvidos pensando que havia pegado em um deles, mas de repente fiquei aliviada quando percebi que não havia acontecido nada.

- Babaca! – gritei mostrando o dedo do meio para ele, e correndo até meu irmão. Derrapei quando fui fazer a curva para entrar no quarto, mas me recompus rápido.

- Rápido, levanta daí! – disse tirando meu irmão da cama com certa brutalidade, e fazendo com que seu ursinho ficasse para trás.

- Me deixa aqui!

- Cale a boca, Rubens. – sussurrei o pegando no colo depois de certa relutância do mesmo, e botei a cabeça para fora da porta.

- O que? O que foi? – perguntou ele interessado em saber tudo.

- Não te interessa!

Mais uma rodada de tiros, e nós voamos para atravessar a parede do outro lado. Apesar de a parede estar a quase um metro e alguns centímetros, pareceu quase infinitos metros.

Prensei o rosto na parede respirando com dificuldade. Atravessei-a em poucos segundos e arrumei meu irmão em meu colo. Ficamos dentro da parede grossa e empoeirada, respirando o puro pó. Queijo passou por nós caminhando calmamente, até que sumiu de vista. Até parece que ele não está sentindo nada estranho, pensei rodando os olhos.

Talvez eles pensem que escapamos para a rua, e tentem nos seguir, desejei calma e profundamente.

A parede, na parte de dentro, era quase como um cômodo bem longo e estreito. Não cabia nem uma luz, por isso era escura. Ele era praticamente um corredor, assim vamos dizer. Tínhamos que ficar mais ou menos de lado por causa de seu espaço. Ele era pequeno, e se estendia até o final da casa, tendo bifurcações que passavam por cada cômodo, antes de bater na parede da sala e parar.

- O que está acontecendo? – perguntou meu irmão sussurrando e olhando para todos os lados possíveis e imagináveis.

- Nada. – respondi e minha voz se projetou como um eco. Seco e longo.

Comecei a coçar a cabeça lenta e depressivamente, olhando para todos os lados, e novamente e depois mais uma vez, só para ter a certeza de que poderíamos escapar da casa. As bifurcações não acabavam, e a cada dobra que minha visão alcançava, parecia que outra quadra se estendia adentrando o casarão no subúrbio.

- Ah, maldição! Porque é que fui me esconder em um labirinto? – perguntei a mim mesma, olhando para o teto, e virando a cabeça alguns graus.

Tinha como se fosse uma linha brilhante e ao mesmo tempo muito opaca que se estendia até a primeira bifurcação.

Comecei a andar olhando para cima, e apertando meu irmão em meu corpo como se fosse um filhotinho ou um bebê recém-nascido que precisasse de algum tipo de proteção.

Ouvi uma respiração na parede e alguém bater nela. Fiquei sem respirar por alguns segundos. Mais algumas sessões de batidas ritmadas em lugares diferentes da parede, e um som não distinguido por meus ouvidos.

- Aqui. Ela é oca! – gritou um homem, que não pude saber se era o cara baixo e chato que atirou em mim, ou o médico.

Mais algumas batidas e a parede atrás de nós foi perfurada. Gritamos e saímos correndo, Rubens se debateu e acabou indo para o chão. Meu irmão, com medo, fez com que todas as luzes ficassem piscando e explodissem!

- Rubens! – ralhei com ele em vão, pois estava mais assustada que ele.

- Não fui eu! – gritou ele correndo mais à frente. Ouvi passos correndo em nossa direção e olhei para trás, caindo logo após.

Praguejei alto e chutei a parede fazendo com que ela se desfizesse em cima dos homens. Rubens não se encontrava ao meu lado, e sim mais a frente. A parede foi derrubada com um barulho alto. Meu irmão havia paralisado no buraco e olhava atônito para fora.

Não tive tempo de parar, então me choquei com o corpo de meu irmão e ele perdeu o equilíbrio, caindo para frente. Segurei na barra grossa de seu pijama do Barney e agarrei-me a parede lascada. Puxei Rubens para meu encontro, de modo que ele não ficasse pendendo e o abracei de uma maneira protetora.

Havia helicópteros, carros fortes, viaturas de policia, e um bando de homens armados. Minhas pernas pareciam ter virado massinha de modelar, e minha respiração estava muito alta. Se eles estavam tentando chamar atenção, conseguiram. Um brilho azul na multidão fez com que meu rosto virasse em direção a ele, mas a pessoa se abaixou, ou sumiu. Vizinhos saiam de suas casas, e nos olhavam enojados.

Até D. Morwing parecia estar assim. Justo ela que havia nos acolhido com todo o carinho do mundo, parecia ter nojo de nós.

- Rubens, foi você que fez isso? – sussurrei referindo-me ao enorme buraco que se encontrava agora instalado ao lado da casa. Olhei para baixo, e vi Queijo se esquivar para uma parte escura dali, bem na hora que os homens abaixo de nós carregaram as armas e apontaram para meu peito.

- Não. – respondeu ele com a voz fina de criança. – Você pode nos tirar daqui? – perguntou ele presunçoso.

- Não. Não consigo abrir as asas aqui! – sussurrei puxando ele para trás de mim.

- Ei você ai! – gritou um homem apontando as armas para nós. – Mãos na cabeça!

Obedeci temendo que ele fizesse algo conosco. O cientista chegou perto de mim e pegou meu irmão de meus braços, gentilmente. Rubens gritava desesperado.

- Fique calmo, meu pequeno. – o cientista tentava lhe acalmar. Meu irmão se soltou dele e correu para meu braço.

- Eu não sou o seu pequeno! – gritou ele grosso, apertando meu corpo.

O homem baixo se irritou e puxou Rubens pelo braço.

- Fique quieto se não quiser morrer, pirralho!

Avancei para ele com sangue injetado nos olhos, pensando em várias alternativas de matar esse homem e ainda sair inteira. Mas com a quantidade de oficiais e praticamente o exército na nossa porta, eu duvidava muito. A última coisa que me lembro, foi de ouvir um barulho de arma sendo disparada, e sentir um impacto que queimava e ardia. Caí para trás perdendo o equilíbrio, e a última coisa que ouvi foi:

- Mila! – meu irmão gritou tentando pegar meu corpo antes de bater no chão.

Senti a escuridão engolir-me, e tudo ficou em silêncio.

Notas finais
Continua?