Blue Rose
5 Caçada
Notas iniciais
Beijoooos,
Ju!
Havia algumas luzes passando por meus olhos, e pessoas estavam em cima de mim. Parecia que eu estava olhando tudo com os olhos fechados, e por mais que quisesse, não conseguia abri-los.
- Ela vai ficar bem? – perguntou um homem, grosso. – Não posso perder mais um deles.
A voz parecia estar longe e tão perto ao mesmo tempo.
- Ela só não morreu por causa de sua cicatrização rápida. Caso contrário, não estaríamos aqui, e sim no necrotério. – respondeu uma voz baixa e rouca pela idade. – Aconselho que o senhor fique longe dela quando Camila acordar.
- Por quê?
- Porque ela é única. Diferente de todos os outros. Tem uma força inimaginável e pode dilacerar um ser humano em segundos. – sussurrou a voz rouca.
Eu nunca machucaria alguém! Isso é um absurdo!
- Hoje iremos transferi-los para o castelo.
- Uhum. Daqui algumas horas ela acordará, então sugiro que você coloque as algemas, o colar de choque e o número de série.
O homem bufou baixo e senti uma pressão em meus braços e em meu pescoço. Abri os olhos vendo bolhas brancas vindo em minha direção, uma tontura atingiu-me, e um ponto de vertigem fez com que tudo voltasse ao normal. Da pior maneira, mas voltei.
- Para trás. – ordenou o médico, ou o homem armado, não pude distinguir.
- Onde está meu irmão? – perguntei com dificuldade.
- Ele está bem. – assegurou puxando meus braços para eu sentar na maca.
O homem vestia um jaleco e tinha cinco balas ensanguentadas nas mãos. Olhei feio para o baixinho que deu de ombros e descarregou a arma com desgosto.
Ainda estava desnorteada, e minha cabeça girava um pouco. Tudo parecia brilhante demais, e com um cheiro de formol, doença e morte.
- Você! – gritei apontando para o que carregava a arma. Percebi que meus punhos estavam presos em um tipo caixa, e minhas mãos ficavam de fora. – Posso saber por que atirou em mim? – perguntei grossa, tentando fazer com que minha voz saísse direito.
Ele carregou a arma novamente e apontou para mim.
- Mais respeito comigo, animal!
- O respeito tem que ser mútuo. Você me respeita, eu te respeito...
Não pude terminar de falar, pois ele me interrompeu.
- Ei, você é só mais um monstro que irá apodrecer naquele castelo imundo. E eu vou ficar aqui...
- Apodrecendo nesse emprego miserável. – rebati e senti-o mudar de pálido para um vermelho que denunciava sua raiva, em poucos segundo. – sem querer ser grossa, mas porque tanto ódio?
- Não é da sua conta. – gritou saindo da sala.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, até que o médico “barra” cientista bateu uma mão na outra e colocou o que parecia ser um rastreador, em meu tornozelo.
- Não ligue para Gordon, ele é rabugento assim, pois um transformador matou sua mãe. Ele vive aqui. A sua família está aqui.
Senti pena do homem por alguns segundos, mas depois me lembrei da dor das balas perfurando minha pele, e a dó se foi.
- Hmm... Vocês estavam conversando sobre um castelo. Sobre sermos transferidos...
- Vocês não podem ficar nos Estados Unidos. A não ser para proteger os humanos. – respondeu ele pegando um livro grosso. – Porque estavam se escondendo?
Revirei os olhos.
- Sério? – perguntei dando um sorriso extremamente ácido.
- Para evitar isso, é óbvio! – completei.
Ele suspirou.
- E se eu te contar um segredo?
- Hmm... O que? – perguntei entretida na maneira que ele falou.
- Eu sou um mutante também, mas por causa de minha inteligência avançada, deixaram que eu cuidasse dos mutantes que fogem. – ele se gabou.
Fiquei meio abobada, e depois irritada. Como ele tinha a ousadia de mentir para mim desse jeito?
- Mentiroso!
- Ok, não acredita em mim, não é?
- Não, não acredito.
Ele apertou a ponta do bigode grosso e preto, e sussurrou. Tão baixo, que de primeira vez pensei que ele estivesse falando com outra pessoa.
- Escolha um livro da prateleira.
- O que isso vai fazer você provar que é um mutante? – perguntei tentando coçar minha cabeça, mas estava inacessível no momento.
- Só escolha. – exigiu.
Eu apontei para um azul com capa de veludo e folhas emaranhadas e amarelas.
- Aquele.
Ele esticou a mão e, depois de algum tempo, o livro veio flutuando e tocou seus dedos.
- Hmm... Só isso?
- Eu não sou poderoso como você. – rebateu frustrado. – Meu pai era humano e minha mãe tinha o poder da telecinese.
- Uau! – menti. Odiava ver os outros tristes.
- Posso lhe pedir um favor? – perguntou.
- Claro.
- Camila, poderia abrir as asas? – perguntou formalmente.
- Por quê?
- Você é o primeiro mutante que contém asas, até alguns anos atrás, pensávamos que sua espécie estava em extinção. – sua voz parecia perdida no tempo. Muitas coisas pareciam passar descompassadas por seus olhos.
- Ok. – sussurrei meio desconfortável em reação aquilo. Não seria muito excitante ficar mostrando o que eu tinha nas costas para todos. Senti as penas rasgando o tecido da roupa que eu vestia, e percebi que me senti livre. Suas pontas chegavam a tocar de canto a canto a sala grande. – Se você contar a alguém cortarei sua língua fora, e doarei para quem precisa. – ameacei estreitando os olhos.
- Nem um pio.
O cientista estava paralisado e olhava para elas como se fossem a coisa mais bonita do mundo. Ele exclamou algo baixo e tocou minhas penas. Elas eram pontudas, quase como as de um pássaro, e eram tingidas com preto, marrom, cinza e branco em certas partes. Elas se encolheram por vontade própria e depois se esticaram mais ainda, como se estivessem orgulhosas da própria imagem.
- Ela é linda!
Ouvi a porta bater e pensei que fosse o vento, mas havia me enganado.
- O que diabos... – gritou um homem jovial apontando o dedo para mim.
- Experimentos, Joshua.
- Ah. O chefe não vai gostar nada, nada disso. – sussurrou ele fechando as cortinas e a porta. O tal de Joshua caminhou até mim e perguntou: — Que bicho você é?
Já estava pronto para xingá-lo, mas alguém me cortou:
- Da raça mais distinta de alados. Os magnolos. – respondeu o cientista por mim.
- Uhum. Seu irmão está na ala das crianças. Ele disse que se você não fosse para lá agora, iria explodir o prédio todo. – bufou Joshua.
Dei um salto e coloquei as asas de volta nas costas. Ele iria fazer um grande estrago!
- Onde fica isso? – perguntei gritando e apertando o colarinho do cientista que tremia por causa do choque.
Eu não o estava ameaçando, mas as circunstâncias não eram muito favoráveis para eu manter a calma.
- Segundo corredor, direita, esquerda, escadas do fundo! – respondeu sem ar.
- Obrigada... – soltei-o;
- King. Barnabé King – terminou o cientista sufocado.
Saí correndo pelo caminho que Barnabé me indicou e percebi que as luzes piscavam um pouco. Estava perto dali e precisava agir rápido. Rubens deveria estar assustado ou bravo.
Abri a única porta que havia ali e entrei. Crianças-mutantes brincavam, caiam, gritavam, atiravam umas as outras na parede – literalmente –, e no meio daquilo tudo, vi Rubens tremendo. Caminhei até ele e puxei seu braço, ele pulou e seu susto fez com que ele explodisse uma fileira de lâmpadas caras. Ficou silêncio e todos olharam para ele por um segundo, e começaram a rir logo após.
- Vamos embora logo, Mila! – sussurrou ele puxando minha mão bruscamente.
Corremos novamente pelo corredor e parei quando trombei com Barnabé.
- Você é louca? Os ônibus saem dentro de dois minutos e vocês ainda estão ai! – gritou ele.
- Dá pra se acalmar? – perguntei estressada.
Ele respirou fundo.
- Hey, King? – gritou uma voz fina vindo do corredor. – Esses são os mais novos hospedeiros? – perguntou ela aparecendo na luz fraca da lâmpada que piscava furiosamente.
Ela era loira e de estatura mediana, com os olhos cor ônix, e a raiz do cabelo preta, o que denunciava ele não era verdadeiro. O nariz pontiagudo e clarinho, o corpo escondido por trás de uma malha espessa e a faixa da arma que se posicionava pesadamente em cima de seus ombros, e caia mais pesada ainda em suas costas pequenas.
Ela bufou e mexeu o pescoço de um lado para o outro, fazendo um grande barulho de estralo. Uma agonia descomunal percorreu minha espinha dorsal, e eu fiz um barulho parecido com o de uma pessoa engasgando e começando a chorar ou... Algo assim.
- Sim, são os mutantes. Estava pedindo para que alguém lhes mostrasse o ônibus e onde eles irão sentar. – disse ríspido.
- Ok. Pode deixar comigo! Vamos lá? – perguntou doce. Sabia que por detrás da máscara de pessoa rude, todos tinham alguma compaixão por nós. Mesmo que fosse um ínfimo dessa compaixão.
Meu irmão pegou em minha mão e andou grudado em minha perna. Chegamos a um túnel interno e ouvi uma buzina lá de dentro.
- Vamos logo, Grayce! – gritou alguém.
- Já vai, Billy! – respondeu. Ela se abaixou para olhar para meu irmão e disse mirando dentro de meus olhos: — São horas de viagem, não tem comida ou água potável, vocês não podem fugir. As tornozeleiras têm um radar e qualquer lugar que vocês forem, estarão sendo vigiados. As armas têm um tipo de veneno que lhe deixa paralisado! Aconteça o que acontecer, sua espécie vem em primeiro lugar!
Fiquei sem entender.
- Só... Se cuidem, ouviram? – disse ela levantando.
- Obrigada Grayce. – sussurrou Rubens dando lhe um abraço na cintura.
- Vão logo. – murmurou ela apontando com a arma para o túnel.
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