Blue Rose

3 Perturbada


Notas iniciais
Oiii!! Espero que gostem desse cap!
Beijooos,
Ju!
Deixem reviews bonitos kkk

Acordar todos os dias, e perceber que se está no meio de uma “guerra”, é doloroso. Estávamos em um tempo de ruínas. Mutantes e humanos combatiam entre si. O que antes era paz, agora é o inferno. Tudo não passava de guerra e mortes. O sangue de minha espécie escorria pelas paredes. Éramos marcados e caçados como bichos que fugiram de um zoológico medíocre.

A única diferença é que com os animais eles tinham piedade.

Abri os olhos e encarei o teto que despedaçava. Teríamos de nos mudar mais cedo do que esperado. Iríamos para um refúgio, e esconderíamos nossa identidade do mundo. Isso era necessário.

Ainda lembro-me das palavras de minha mãe antes de sair pelo mundo inseguro: O mundo não é mais o mesmo. Tudo o que você e seu irmão fizerem estará sendo vigiado. Caso eles te peguem, proteja seu irmão acima de tudo! E não revele quem somos de jeito nenhum.

Suas palavras, no dia do ocorrido, não chegaram a ter importância nenhuma, mas quando um dos militares invadiu nossa casa antiga, logo nas colinas, tive que fazer o necessário para manter meu irmão seguro. Mesmo que isso significasse que eu teria de sujar minhas mãos.

Meus pais foram para o refúgio como ilegais, e por isso, corriam o risco de serem mortos. Ficamos aqui nos Estados Unidos, onde tem a maior concentração de humanos e menos mutantes. E pensar na possibilidade deles estarem mortos agora, fazia meu coração se apertar.

O lugar em que estávamos era bem pobre. As paredes beges estavam com o forro já aparente por conta da infiltração e as tábuas de madeira que estavam atrás eram comidas pelas traças, e estufadas pelo problema no encanamento. As balas que as perfuraram no passado, jaziam no chão. Empoeiradas, amassadas, e esquecidas. O piso de madeira era meio antiquado. A casa em si era toda velha, caindo aos pedaços. Mas, todo mundo que via esta casa, sentia certa repulsa pela mesma. Até eu senti isso, e foi exatamente por isso que ficou escolhida como nosso esconderijo. Ninguém pensaria em entrar nessa casa nem em um milhão de anos.

Lembrei-me das noites que passei em claro cuidando da porta, morrendo de medo de cada mísero barulho, e de cada rato ou barata que passava por ali. Eram tantos ratos, que um dia, um bando de gatos apareceu por ali, e se instalou no quarto de hóspedes. Como não havia comida o suficiente nem para nossa mínima família, alguns deles foram embora.

O único que ficou foi um gato vira-lata, meio sarnento, branco, preto e cinza. Parecia um ser extremamente maldoso, mas com o passar do tempo, se instalou ao lado de meu irmão na cama, e agora ele ajudava a proteger a casa quando dormíamos. Demos o nome dele de Queijo, porque meu irmão insistia que ele fedia a queijo.

Não. Esse não é um cheiro que eu gostaria de imaginar para um gato.

Abracei meus ombros como se fosse para espantar o frio inexistente, e tentei focar minha mente em algo que não fosse o fato estar sozinha mais um dia pelo mundo, correndo o perigo de ser pega à qualquer segundo, com uma criança sob meus cuidados.

Meus pais haviam se mandado fazia algum tempo para uma colônia onde só havia mutantes. Mutantes azuis, que voavam e que tinham pelagens diferentes de tudo que conhecíamos e também alguns com uns poderes nem ainda denominados.

Pelo menos era o que eles nos contavam da colônia.

Aquilo me enraivecia por um lado, mas por outro me deixava mais tranquila. Uma parte pensava que mamãe e papai estavam seguros e felizes, e por outro lado, o lado “irritado”, pensava estarrecido do “por que” nos deixar aqui, inofensivos.

Meus avôs maternos eram humanos, por mais idiota que isso seja, e foram mortos no campo de batalha há muito tempo atrás. Minha avó se chamava Coral, e meu avô, Will. Eles fugiam de algo, e acabaram se instalando numa pequena cidade na parte rural dos EUA, procurando uma vida melhor, coisa que acharam rápido. Minha avó e meu avô se casaram somente no papel e logo viraram pais. Algum gene mutante trazido lá da quinta, sexta geração, fez com que minha mãe nascesse mutante. Ela era pequena quando descobriu seus poderes. Até hoje não sei qual é, pois ela tem medo dele.

Pura bobeira.

Meus avôs paternos eram mutantes. E por isso meu pai é um deles. Também desconheço os poderes de meu pai. Nunca conheci meus avôs, e por isso não sei seus nomes. Nunca me interessei muito pela história de nossa família, e por isso sei muito pouco deles. Meus avôs se conheceram quando ela trabalhava em um circo, fazendo malabarismo. Ela, como dizia meu pai, era uma bela mulher, com cabelos louros e anelados, e que também tinha um grande coração.

Mas uma coisa que me incomodava muito mais do que eu gostaria, era o fato de que minha infância passava em lapsos por minha mente. Nunca era nada concreto. Por isso, não sei absolutamente nada de mim mesma.

Respirei fundo e abri a porta do quarto. Isso era ridículo. Ficar me escondendo como um ratinho com medo entre as cobertas.

Corri pelo corredor com algum tipo de receio e escondi-me na fresta da parede. Passos ecoaram pelos ares, e eu prendi a respiração contando os segundos.

- Camila? – perguntou meu irmãozinho. Ele era o único da família que não tinha medo de andar pelas ruas livremente, pela casa vazia ou brincar na casa de outros garotos, mesmo nos tempos difíceis.

- Aqui. – sussurrei saindo do esconderijo. – O que foi?

- Têm uns homens lá fora, e eles estão carregando armas. – disse ele agarrando o ursinho de pelúcia, seus grandes olhos castanhos parecendo cheios d’água. – Eles estão tentando não fazer barulho, e estão subindo. – avisou correndo para dentro do quarto, se encolhendo pela cama bagunçada que eu havia acabado de levantar.

Andei calmamente até o corredor, e dei uma olhadela no que meu irmão denominava de ameaça. Talvez tivessem homens ali mesmo, quem sabe...

Barulhos de botas me acordaram de um devaneio rápido, e quando vi a ponta de uma arma surgir no vão da escada, sufoquei um grito no topo da garganta e praticamente me joguei para dentro do quarto.

Meu irmão parecia tão pequeno e inocente segurando um ursinho de pelúcias, vestido ainda de pijamas, estagnado no meio da cama com um olhar assustado que me partiu o coração.

Tive que me manter calma, afinal, estava tão assustada quanto ele.

Rubens deveria ter percebido o quão eu estava assustada, pois seus olhos começaram a marejar fortemente, e seu queixo enrugar indicando choro.

O peguei no colo rapidamente, sem me esquecer de fechar a porta devagar para que ela não fizesse nenhum ruído, e entrei com Rubens dentro do armário velho.

Nós tínhamos uma conexão que, uma vez juntos e concentrados, o que não era o caso no momento, poderíamos ficar invisíveis por várias horas, até dias se conseguíssemos. Nunca tentamos sozinhos. Mas isso deveria necessitar de muita energia.

Ouvi um choro baixo vindo da garganta de meu irmão, e logo depois vozes do lado de fora do quarto. Meu coração começou a bater rápido demais, e uma lágrima silenciosa escorreu pelo meu olho esquerdo, percorrendo quente todo o caminho até meu queixo.

Tapei a boca de meu irmão impedindo-o de fazer qualquer barulho e afundei sua cabeça em meu ombro, segurando-o protetoramente contra meu peito, deixando-o perto de meu coração. Mantive os olhos abertos todo o tempo, tentando imaginar em qualquer coisa que não fosse o fato de que havia pessoas em minha sala de estar, zanzando pela casa que eles julgavam abandonada, procurando alguém de nossa espécie para nos levar para onde quer que eles levassem nossa espécie.

A porta de meu quarto se abriu com certa brutalidade, e com o baque dela se chocando com a parede velha, me assustei, e meu irmão fez um barulho absurdamente baixo, indicando seu medo extremo. Fechei os olhos e imaginei estarmos num campo cheio de vida, com uma melodia suave ao fundo, e senti meu corpo mais leve, indicando que estávamos invisíveis.

Nos minutos seguintes, consegui observar certo movimento pela fresta da porta do guarda-roupa, e como ele estava vazio, eles certamente não teriam paciência para procurar.

Quando pensei tudo estar acabado, a porta do guarda-roupa se abriu violentamente, e eu encarei um par de olhos tão escuros e feições maldosas, que segurei o ar nos pulmões para me certificar que ele não conseguiria nos encontrar de maneira nenhuma. Seus olhos passaram direto por mim, e se focaram em algo ao meu lado.

Uma foto antiga minha.

Na foto eu estava com os cabelos amarrados em um coque mal feito, e com o rosto sujo de farinha, enquanto Rubens ria com as mãos sujas de massa. Minha mãe havia tirado aquela foto quando ainda éramos pequenos.

Mas coincidentemente, ou não, eu não conseguia me lembrar de nenhum detalhe daquele dia.

Meu Deus, que ele não leve a foto!

Nós tínhamos vários documentos com foto, e isso só dificultava as coisas para nosso lado.

Se eles se interessassem por essa foto, poderíamos estar ferrados.

Rubens desencostou a cabeça de meu peito e olhou diretamente para o homem, como se tivesse vontade de fuzilá-lo, e então voltou a atenção total para mim. Ele fez a menção de falar algo, mas eu balancei a cabeça repetidas vezes, quase o mandando calar a boca.

- Vem ver o que eu achei. – o homem gritou.

Pude ver seus dedos machucados por alguma coisa, e com cicatrizes vermelhas ao redor da mão.

Um tremor percorreu toda a minha espinha.

Outro homem se aproximou, seu rosto era anguloso, olhos mortíferos e boca numa linha reta, como se ele tivesse fazendo um grande esforço para controlar sua raiva, e sem nem dar uma olhada na foto, a enfiou no bolso da frente, parecendo olhar diretamente para mim, o que me fez quase chorar de medo. Mas então ele raspou o fundo do guarda-roupa com a unha, fazendo um barulho desagradável, e o cheirou.

- Está velho o suficiente para ninguém habitar aqui à um bom tempo. Estas pessoas já devem ter morrido. – ele disse seco, limpando o dedo sujo na calça camuflada escura cheia de terra.

Silêncio em ambas as partes fizeram com que eu e Rubens precisássemos segurar um pouco mais o fôlego, para evitar quaisquer possíveis barulhos.

Sua voz metálica cortou novamente o silêncio que havia se instalado aí, com uma rudez desnecessária.

- Quando achar algo que realmente valha à pena, faça o favor de me chamar. E não uma foto imbecil qualquer. – ele pegou a foto, e a amassou, jogando-a em algum canto do quarto.

Apesar das feições nada amigáveis do homem com os olhos ônix e cabelos anelados, seu maxilar se enrijeceu apenas alguns segundos, como se ele estivesse se controlando para não fazer alguma besteira, ou até mesmo falar algo que não deveria.

- Sim, senhor.

Notas finais
Continua?