Blue Ocean! (2ª Temporada)
10 A História.
Notas iniciais
Dessa vez foi diferente das outras. Primeiro, eu estava sentado na mesma sala, e Mors segurava um microfone e tocava uma música triste de fundo – tenho quase certeza que era a trilha sonora de Titanic.
– Boa noite – ele disse. Soava como um apresentador famoso de programas de auditório. – No episódio de hoje, veremos A História! Onde você ouvirá a história de uma criança que nasceu há alguns séculos.
Encarei-o confuso. Mors sorriu e continuou. Atrás dele, um telão apareceu. O mapa-múndi se abriu, com um destaque na França.
– Eu nasci em um reino chamado Dragonfists, localizado onde atualmente está a França – ele começou a falar. – Eu costumava ser o príncipe. Filho do rei Mitakrus e da rainha Petrácia, aparentemente. Assim que o rei descobriu que minha mãe havia traído ele com um camponês chamado Poseidon, fomos atirados no mar. Minha mãe, obviamente, morreu afogada. Eu sobrevivi, mesmo tendo apenas seis anos, o mar me envolvia e me protegia. Eu fugi para onde agora é a Itália, lá eu cresci e completei doze anos, até que os problemas começaram a surgir.
A imagem agora destacava a Itália.
– Primeiro um monstro me atacou. – O telão mostrou o Minotauro. – Os cavaleiros me salvaram, mas não antes de eu usar meus poderes sobre as águas para prender o Minotauro. Aquilo, obviamente, não foi bem visto. Consideraram-me um bruxo, e estavam prestes a matar-me, quando eu fugi colina abaixo. Eu quase morri, mas antes, consegui fazer uma onda gigante que devastou todo o reino e matou os cavaleiros. Depois fugi pelo oceano, até alcançar o território brasileiro.
A imagem mudou novamente, agora o Brasil era destacado.
– Os índios receberam-me e me trataram como um deus, pois eu podia curar suas feridas com a água do mar – ele continuou. – Fiquei lá por muitos anos, até que completei dezesseis anos, e um dos índios ciumentos tentou me matar. Ele atingiu-me com uma lança bem no peito. A única alternativa que encontrei foi saltar no mar e tentar salvar-me. Apaguei imediatamente, quando acordei, estava no centro da sala de reuniões do Olimpo, onde meu pai, Poseidon, me declarou o deus menor dos mares orientais.
O telão mostrou o oriente, mas não tinha nenhum destaque.
– E assim, nasceu a lenda. Mors, o filho de Petrácia e Poseidon.
Apaguei mais uma vez.
Quando acordei, eu estava em minha casa. Deitado no sofá, com Beatriz encarando-me assustada.
– Graças a Deus, você está vivo. – Ela me abraçou.
Sentei no sofá lentamente. Minha cabeça latejava.
– Que diabos...?
– Você apagou quando John... – Ela parou de falar. – Mors, quando o Mors, tocou em você. Ficou dois dias dormindo.
– Então foi só um sonho – murmurei.
– Nunca é só um sonho. – A voz de Poseidon invadiu a sala e ecoou por todos os lados. – Não para um semideus.
– Poseidon?
– Agora você já conhece toda a história – Zeus entrou na sala. – Não imaginei que seria tão rápido.
– Irmãos – Hades apareceu ao lado de meu pai e Zeus. –, o garoto não conseguirá processar tanta informação. Vamos começar pelo básico: os três grandes estão de volta.
Meu queixo foi parar lá no submundo.
– Filho – Poseidon tocou meu ombro direito. – A magia de Mors não é forte o suficiente para manter todos os deuses sem memória. Ele sabia disso. Seja qual for o plano dele, já está acontecendo.
Hades ligou a televisão. Um tsunami atacava parte da Itália. Os céus estavam mais limpos, sem trovões. E o pior de tudo, um gigante destruía Nova York.
– É, acho que você tem razão – Hades disse.
– Preciso ir para Atlântida – Poseidon manifestou-se.
– Não! – Zeus bradou. Todos olhamos para ele. – Precisamos de você.
– Não é Tifão, podem derrota-lo – Poseidon protestou.
– De fato, ele não é Tifão, mas somos apenas três agora – Zeus disse.
Hades deu um passo na frente de Poseidon.
– Está na hora dos três grandes e seus filhos lutarem lado-a-lado novamente – ele disse.
Olhei para Bia.
– Nunca imaginei que Hades fosse tão legal – ela sussurrou.
– Ei, vocês – disse alguém que não pude identificar. Olhei para a porta e vi um garoto mais pálido que John, magro e de cabelos negros e lisos. –, o mundo está sendo destruído e tem um exército de semideuses impacientes aqui fora.
Hades sorriu. Ele puxou o garoto até minha frente.
– Caio, este é Nico. – Se existe algum lugar abaixo do submundo, era lá que meu queixo estava agora. – Meu adorável filho.
Estiquei a mão.
– Não – Poseidon entrou na frente. – Não toque nele.
– Por quê? – perguntei.
– Poseidon – Nico disse. Meu pai virou-se para ele. O garoto estava bufando de raiva. – Você está pisando no meu pé.
Hades puxou Poseidon.
– É o seguinte – Zeus murmurou. – Os semideuses seguiram para os reinos. Isto é, filhos de Poseidon, irão para Atlântida, filhos de Hades para o submundo e os meus, para o Monte Olimpo. Os outros semideuses decidem para onde irão. Exceto Caio e a garota de Atena, Mirella, eles virão conosco.
Encarei Poseidon. Ele abaixou a cabeça em confirmação.
– Okay – concordei. – Vamos fazer isso.
– Caio – Poseidon disse. –, leve sua irmã até lá fora. Nico vá também. Eu e meus irmãos precisamos conversar.
Nós três saímos. Afastei Bia dos outros muitos semideuses.
– Escute – eu disse. –, é a sua primeira batalha. Não tome a linha de frente, fique calma e ataque quando vir uma brecha. Tome cuidado com...
– Caio – ela interrompeu. –, vou ficar bem.
– Mas e se...
– Eu vou ficar bem. – Ela me abraçou.
– Tudo bem. – Beijei sua testa. – Só... fique viva.
– Pode deixar. – Ela sorriu. – Nem pense em perder essa batalha, ou eu vou até o submundo para te atormentar eternamente. Entendeu?
– Perder? – gargalhei. – Esses idiotas não têm chances!
– É bom mesmo que não tenham – ela disse.
Bia me abraçou mais uma vez.
– Obrigada.
– Eu não fiz nada.
– Você sempre me apoia quando preciso. – Ela encostou o queixo no meu ombro esquerdo. – Já é o bastante.
– Para que servem os irmãos? – Apertei meus braços em torno dela. – Cuide bem de Atlântida.
Bia me soltou. Encarou-me. Seus olhos um pouco molhados.
– Cuide do nosso pai. – Ela esticou a mão. Apertei. – Não faça com que isso seja um adeus.
Soltei a mão dela.
– Adeus? – sorri. – Nós nunca daremos adeus.
– Assim espero.
– Boa viagem, maninha. – Beijei sua bochecha.
Bia e os outros semideuses partiram logo depois. Zeus, Hades e Poseidon ainda estavam dentro da minha casa, quando Mirella chegou.
– Boa noite – ela disse.
– Boa noite – respondi.
– Como vai sua namorada? – Mirella soou fria como o gelo ártico.
– Estou radiante. – Uma fumaça rosa apareceu na minha frente. A voz de Afrodite ecoou por toda vizinhança. Mirella deu um passo atrás, quando a deusa apareceu. – Obrigada por perguntar.
Uma coruja sobrevoou minha cabeça e, logo em seguida, Atena apareceu ao meu lado.
– Dite, não seja tão rude com minha filha.
– Parece que não foram apenas os três grandes que recuperaram a memória – comentei. As duas viraram para mim.
– Seja quem for que lançou esse encantamento – Afrodite começou.
– Ele não é tão forte assim – Atena finalizou.
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