Brisa correu sem rumo até uma praça abandonada, o calor deixava seus cabelos grudados na testa por conta do suor, a menina tentava secar enquanto sentava na ponta de um escorrega, mas depois de alguns minutos, ela já estava com o rosto molhado novamente.

– O que faço agora... — pensou em voz alta prendendo seus cabelos loiros num coque.

"Eu matei alguém" ela pensava.

"Como posso ser tão estúpida? Eu não sou tão forte assim, aquilo não mataria alguém" tentava se consolar em vão.

A garota acordou com uma criança ao seu lado, pedindo licença pois queria usar o escorrega.

"Quem usaria um brinquedo nessa praça?" pensou mal humorada e se levantando com dificuldade, o mato do lugar batia nas canelas, fazendo com que as pernas coçassem.

Chegou em casa não muito depois das dez da manhã, sua mãe estava no trabalho e seu pai não morava com ela. Subiu com dificuldade as escadas, seu corpo inteiro doía, suas dedos estavam com pequenos machucados e não esticavam totalmente.

Começou a encher a banheira de sua mãe com água bem morna e alguns sais de banho, tirou as roupas imundas e acendeu um cigarro entrando no banho como uma idosa, a cada movimento uma careta ou gemido de dor.

– Anna Brisa você está em casa? — gritou Camila, mãe de Anna.

– Eu... Estou... — respondeu mas não tinha certeza se sua mãe havia escutado, tinha pegado no sono e estava um pouco sonolenta.

– Então é melhor descer aqui agora. — respondeu Camila ainda gritando, mas num tom calmo.

Brisa limpou o resto da sua maquiagem pesada que havia escorrido no banho pois seus olhos estavam coçando, se enrolou na toalha e desceu. A mãe provavelmente já sabia de Natália, não era a hora dela estar em casa e só tinha uma coisa que a tirava do trabalho mais cedo, as merdas que fazia.

– Arrume suas coisas, — começou a falar séria e com uma das mãos esfregando a testa nervosa, mas sua voz não se alterara — você vai para São Paulo, eu passei a minha manhã inteira tentando fazer com que a mãe de Natália Salles não tacasse um processo para cima de você Anna, eu não aguento mais suas babaquices, suas mancadas, você tem tudo, o que te falta minha filha? Eu não posso passar a minha vida inteira limpando as cagadas que você faz.

– Ok, e eu vou para São Paulo fazer o que? — respondeu secamente, ignorando a preocupação da mãe, ignorando o fato de talvez a menina estar morta.

– Internado Anna Brisa, é pra lá que você vai, espero que aproveite seu tempo, e entenda que na vida as coisas tem consequências. É só isso que eu tenho pra lhe falar, você parte hoje às 18h. Esteja pronta, volto do trabalho para te levar até o aeroporto.

Brisa era estranha, raramente sentia culpa, e se sentisse era por um curto espaço de tempo. Ir para um internado não era seu sonho de consumo, mas com certeza continuar ali também não era. Ficou sentada na escada da casa ainda enrolada na toalha e fumando um cigarro atrás do outro, a maquiagem ainda escorria dos olhos o que tinha deixado eles avermelhados e incomodando um pouco.

Subiu para o seu quarto abrindo sua mala de viagem e jogando tudo quanto era roupa lá dentro, sem nenhum critério em especial, colocou uma blusa do Pink Floyd que deixava um pouco da sua barriga aparecendo e uma calça jeans preta rasgada, escovou seus cabelos que iam até a cintura num loiro dourado, dessa vez nada de maquiagem.

– Alô? — a pessoa do outro lado da linha falou.

– Oi Steph... — Brisa respondeu — To ligando para dizer adeus. — falou num tom um pouco animado.

– Hã? Você está cada vez mais maluca, a Natália, ela... — Stephanie, sua amiga começou a falar, mas foi cortada.

– Eu não quero saber dessa garota, estou dizendo adeus e só. Vou para São Paulo hoje a noite.

– Vai fugir? Você não pode fugir Anna, não dessa vez!

– Eu sempre posso fugir Steph, não percebeu ainda? — respondeu, mas sem tanta certeza dessa vez, ela não estava fugindo, fora obrigada a fazer isso — Enfim, diga isso para os que perguntarem.

– Vou sentir sua falta...

– Eu também ruiva... Eu também.

Então desligou o telefone, e deitou encarando o teto do seu quarto, Stephanie era uma menina alta, muito magra e com cabelos cor de fogo, era amiga de Brisa desde o maternal, em todas as férias elas duas aprontavam juntas e os planos para as próximas férias envolviam até outro país. "Acho que vamos ter que adiar algumas coisas Steph, não me esqueça." Brisa pensou consigo mesma beijando o colar do yin yang que ela e Stephanie tinham iguais, essa amizade era uma das poucas coisas que sentiria falta, e o calor do Rio, isso ela com certeza sentiria muita falta.