Blue Bricks
3 Margot
– Margot, feche as pernas, sente como uma menina! — gritou a inspetora Luiza — Não vamos tolerar esse tipo de comportamento esse ano, muito menos hoje, receberemos novos internos e eu espero que a senhorita se comporte, ou irá para a Torre Leste. — ameaçou a mulher.
Margot era ruiva, com seus cabelos cabelos desgrenhados, sardas por todo o rosto e olhos azuis como o céu em dias ensolarados.
– Falando assim parece até que eu tenho medo, até criei algum tipo de afeto por aquele lugar. — respondeu Margot fechando as pernas e sorrindo com deboche.
– Está avisada Mahoney, não vou repetir, se comporte!
São Vicente era um internato renomado nos confins de São Paulo, de difícil acesso, os adolescentes mandados pelos pais não tinham o poder de fugir e arrumar alguma festa para ir, ou marcar encontros fora da escola.
Margot estava sentada na grama se apoiando nos braços que estavam para trás, aproveitando o Sol da manhã enquanto ele ainda estava deixando a pele de seu rosto morna.
– Olá ruiva.
– Oi Pedro! Animado para hoje? Acho que vai conseguir um novo colega de quarto.
– Hum, na real não, — ele riu — sabe que prefiro dormir sozinho... Por um momento achei que universo tinha conspirado para minha felicidade.
– Bom, você gostando ou não, só espero que ele seja gato e não um estranho com belos olhos e essa cabeleira maior que a minha, igual a você. — respondeu mexendo nos cabelos pretos de Pedro que batiam um pouco abaixo do ombro.
– Não seja tão invejosa. Estou louco por cigarros vamos no bosque?
– É pra já capitão.
Eles estavam caminhando em direção ao pequeno boque, um lugar com árvores imensas e um lago no meio que ficava ao lado do prédio Leste, quando a diretora Valéria chamou por Margot.
– Em que posso ajuda-la? — perguntou em tom de ironia.
– Não me olhe assim Mahoney, está chegando uma aluna nova mas tenho que atender a mãe de Sarah, então...
– Mas nem está no horário de chegada dos novatos. — Margot perguntou intrigada e olhando de relance para Pedro, que devolveu o olhar.
– Não me interrompa, leve a garota para o quarto 102, mostre aonde fica os banheiros e também a de refeição.
– Hum, minha vizinha. Missão dada é missão cumprida Senhora. — fez uma reverencia para diretora com um sorriso nos lábios e começou a caminha em direção aos portões do internato.
– O nome dela é Anna Brisa, se apresente educadamente Margot e sem gracinhas! — falou com ênfase no "gracinhas".
– Opa, uma vizinha... Gostando ou não, espero que ela seja gata e não desgrenhada que nem você. — disse Pedro brincando enquanto andavam para a portaria.
**
Estava começando a chuviscar e já estava quase na hora do almoço quando o táxi chegou, a barriga de Margot roncava e ela já estava impaciente, reclamando com Pedro sobre qualquer coisa.
– Você é uma velha amargurada, ai está sua nova protegida, eu vou andando, não está mais sozinha. — falou Pedro.
– Não vai nem esperar pra ver se é bonita ou não?
– Prefiro manter o mistério, na hora do almoço nos vemos.
– Ok, tchau!
Os porteiros ajudavam a menina loira a tirar suas malas do carro enquanto Margot olhava impaciente para o relógio que estava no seu pulso. Finalmente viu a garota andando em sua direção com seu short preto, tênis surrado e um cigarro pendurado no canto da boca.
– Você deve ser Anna Brisa, — falou fazendo a loira parar na sua frente — eu sou Margot, você não pode fumar aqui...
– Tanto faz. — respondeu deixando a outra garota se perguntando se o tanto faz foi para a advertência sobre o fumo, ou pra sua apresentação.
– Deixa eu te falar uma coisa sobre essa instituição, — falou chegando mais perto da outra garota — se seus pais não te educaram, nós educamos. -
Foi ai que Margot fechou bem a mão e acertou o nariz de Anna em cheio, fazendo com que a garota caísse estatelada no chão com a mão no nariz e olhos cheios de ódio.
Fale com o autor