Blow Mind
2 Gotas de ansiedade
As combinações perfeitas entre egocentrismo, arrogância e completa frieza poderiam ser descritas em apenas um casal: Henry e Sally.
Diretores de empresas diferentes, se conheceram em uma das diversas conferências para fecharem acordos. O ritmo das viagens para fora do estado era constante.
Com apenas cinco anos de idade, decidiram que seria melhor se eu morasse com o irmão de Henry e sua esposa. .
A distância era planejada como perfeita. Longe o suficiente. Já as visitas prometidas, elas nunca aconteceram. Sempre tive o apoio dos meus tios no momento em que as perguntas sobre Henry e Sally começaram a surgir.
E foi assim durante muito tempo.
Até que em 2001, numa tarde de sol de um final de semana qualquer, lá estava o carro preto importado, parado na frente da casa ...
Eram eles.
A briga foi inevitável. –Ela não pode mais viver nesse subúrbio ! É nossa filha!- Era o que Henry gritava repetidas vezes para meu tio, que não queria aceitar minha partida.
Era até irônico pensar que ele dissesse uma coisa dessas, principalmente quando a ideia de me deixar morando ali por dez anos, fora dele. E insistir para me deixar ficar, foi em vão.
A discussão se promoveu até finalmente eles convencerem meus tios a me deixar ir.
Uma semana depois de me mudar, Henry voltou para suas viagens fora do estado . Era realmente raro eu o ver mais que dois dias na semana.
Já Sally se firmou em uma empresa aqui mesmo em Monatana.
Na minha opinião,apenas um pretexto para mostrar aos meus tios que eu não ficava sozinha –Quando na verdade eu só a via no período da tarde, e ainda sim quando ela não se trancava no quarto durante horas e depois saía sem dizer uma palavra.
Dois anos se passaram vivendo aqui, e confesso que até hoje não entendo o motivo para eu ter sido tirada daquela forma, pra ficar nessa situação.
Pelo menos em casa ,uma das coisas que eu costumava fazer para descansar quando chegava era tocar um pouco de música.
Sempre gostei do bom e velho rock, desde criança, então no meu 14°, meu tio Stan me presenteou com uma gibson 137 . Pode –se dizer, sem dúvida que depois do meu mustang, minha guitarra era umas das coisas que eu tenho que mais considero. Nunca tive um animal de estimação, então pra mim, era como se ela fosse. Quase sempre estava ao meu lado, nos bons e nos maus momentos.
Em uma das tardes da semana, resolvi dar uma volta pelo bairro, o tempo havia melhorado e o Sol estava colaborando para as crianças que brincavam e corriam pelo playground da praça.
Passei pelas vitrines de vestido de festas, livrarias, a antiga loja de brinquedos do Bill...
Passando e deixando rastros de pingos de sorvete, continuei andando e olhando pra baixo tentando limpar o que ainda restava de sorvete na minha roupa .
– Opa! Desculpe moça!- disse quando esbarrei em uma mulher , e algumas coisas dela caíram.
Me abaixei para ajudá-la.
– Pode deixar! — disse ela sorrindo enquanto guardava as coisa caídas, dentro da bolsa. Talvez estivesse tão distraída quanto eu .
Um batom dela tinha rolado para longe , fui pegá-lo e quando o entreguei , notei que ela usava um anel com uma joia bem grande colorida. Já havia visto aquilo em algum lugar... Olhei pro rosto dela e logo um flash da minha infância veio bem na hora.
Eu sabia quem era ela!
– Lisa?! – perguntei e ela olhou direto pra mim.
– Sim... ? — ela respondeu com uma expressão tentando lembrar de onde me conhecia.
– Sou eu! Ellie!- disse sorrindo.
Ela olhou mais um momento pra mim e foi como se tivesse levado um susto.
–Oh Meu Deus! Ellie ?! É você ?!- ela perguntava- Não acredito ! Quer dizer, olha só pra você ! Está enorme !
Ela me abraçou.
Lisa Rooth, era uma psicóloga, amiga da minha tia Valerie. Quando era criança, ela costumava ir à minha casa conversar um pouco comigo. Sempre foi muito querida e amigável com todos, e continuava a mesma, tanto no jeito como na aparência.
Era uma mulher alta, negra e muito bonita. Sempre usava seus grandes anéis, não importava pra onde quer que fosse.
Fiquei muito feliz em reencontrá-la.
– Um café expresso – disse Lisa à garçonete do restaurante em que fomos depois – E...um suco de abacaxi com hortelã – ela olhou para mim. Lembrava até hoje o meu suco preferido.
Conversamos sobre o que eu fazia, como estava a escola e a faculdade de direito para qual eu estava indicada.
– Bem, eu ainda faço algumas sessões com crianças, e até com alguns adultos.- explicava ela enquanto bebia o café- Umas três vezes por semana , faço essas sessões em Claymoore.
–Claymoore ? – perguntei, já ouvi falar desse lugar em algum momento.
– Sim. É um hospital psiquiátrico daqui da cidade mesmo. Fica só a uma hora daqui .
– Nossa... Um hospital psiquiátrico ? –perguntei surpresa.
– É uma experiência bem diferente, até pra mim que lido com situações como essas quase todos os dias
– Uma experiência diferente ?- perguntei.
–Sabe... Tentar entender a mente de alguém que parece ter a perdido, é algo que realmente que me instiga.- explicava ela. – Cada pessoa lá tem uma história e eu busco ajuda-la a relembrar e... poder fazer com que ela acorde desse pesadelo.
Será? O que ela dizia se encaixava exatamente no que...
– Ellie ?– perguntou ela .- Tudo bem ?
– Lisa, eu tenho que fazer um trabalho , e acho que vou precisar da sua ajuda. O lugar que você trabalha...Talvez seja exatamente o que eu precise .
– Claro, o que eu posso fazer ?
– Hm, você pode me dar o endereço dele?
–Aqui.- Ela colocou um cartão branco sobre a mesa. Estava escrito Claymoore em letras vermelhas desenhadas, e no rodapé alguns telefones.
Eu expliquei mais um pouco sobre o tal trabalho e depois nós saímos e ela se despediu .
Voltei logo para casa, queria logo resolver essa história do hospital. Peguei o cartão que Lisa me deu e telefonei para lá.
O primeiro número dizia que estava fora de área, tentei o outro.
Chamou... Chamou... e nada, acho que nenhum número funcionava.
– Instituto Claymoore, Jeremih falando — uma voz calma atendeu o telefone, era a de um homem.
– Oi, meu nome é Ellie Mckibben, gostaria de marcar uma visita para amanhã a tarde.
– Qual o paciente ?- perguntou
–Hm, na verdade, é só para entregar alguns formulários. Eu conversei com a Lisa ,a moça que trabalha ai .
Achei melhor explicar o trabalho pessoalmente
–Entendo ... – disse ele – Só um minuto.
Ele ficou alguns instantes fora da linha , consegui ouvir algumas vozes ao fundo.
–Senhorita ?- ele voltou
– Sim, estou aqui .
– Lisa Rooth confirmou a visita. O melhor horário seria às 15 horas amanhã.
– Ok, muito obrigada!
Desliguei.
No dia seguinte na escola, só pensava no que poderia encontrar naquele hospital, no que a Lisa disse a respeito das pessoas.. E talvez fosse isso que aumentasse minha curiosidade.
A manhã para minha sorte, estava passando rápido, mas ainda havia o treino da Allison.
Há muito tempo que vôlei não era mais uma opção pra mim, mesmo assim, tínhamos que ficar assistindo ao treino até a hora de ir embora.
Como todo começo de torneio, uma seletiva era feita para determinar se as posições das jogadoras continuavam as mesmas. Mas todas já sabiam o que isso queria dizer: ''Parabéns, você continua no time, agora volta pra quadra ''ou a mais comum... '' Tenho quase certeza que você se enganou... A equipe de xadrez fica no andar de cima, até logo! ''.
Seguido é claro do clássico sorriso nada amigável dela .
Minha mochila estava uma bagunça, percebi isso quando fui tentar tirar meu livro de matemática e junto um monte de papéis caíram e se espalharam na entrada do ginásio.
Na arquibancada estavam sentadas algumas garotas da minha sala, e alguns garotos do segundo ano apreciando o começo do treino . Sentei no começo da arquibancada próximo às garotas, e fiquei tentando amenizar a bagunça dos papéis.
Ver por um minuto esse treino, me fez lembrar da época em que eu jogava. Não vou dizer que eu não gostava,era algo que até me relaxava de alguma forma.
–Mckibben! Está atrasada-disse Alisson em voz alta.
–O que ?!- Fiquei uma expressão confusa enquanto olhava pra ela , depois continuei a arrumar as coisas.
–Vamos! -disse batendo palmas- Mas o que é que você está fazendo?!- Anda, vamos logo! Você já está atrasada.
Não era possível que ela esteja falando sério, pensei .
Me levantei deixando as coisas na arquibancada e fui na direção dela. Tentei explicar de forma educada, mas percebi que ela não estava com muita paciência.
–Er.. treinadora deve ser algum engano ... Eu não estou mais no time.Pensei que estava tudo certo quando você e eu conversamos antes das férias....
–O que ?! Não, não me lembro de nada disso -disse ela, mas ainda prestava atenção ao jogo na quadra.
Ah. É claro que não. Era bem difícil se concentrar em alguém falando com você, enquanto devora uma caixa de rosquinhas !
–Escuta, o uniforme novo chegou. Se você se trocar em cinco minutos, eu não vou fazê-la dar dez voltas pela quadra, ok ?! -disse ela numa voz baixa e calma , como se aquilo fosse um favor .
Não é possível. Essa mulher é louca ou o que ?! Eu fui bem clara , e me lembro de dizer bem na cara dela ''Não vou mais fazer parte do time!''.
Me acalmei um pouco quando me lembrei que o coordenador estava no dia da conversa. Ele podia ser um pouco atrapalhado, mas eu sabia que tinha entendido o recado. Já que ele era responsável pela encomenda dos uniformes, não compraria mais um a toa ...
Sim. Ele pelo menos.
Tranquila naquele momento, respirei fundo e olhei na caixa dos uniformes. Tinha certeza que o meu não estaria lá, e dessa vez, ela entenderia a mensagem.
Estava pronta para dizer isso em voz alta,quando de repente vi um dos últimos uniformes que estavam na pilha : Mckibben 9.
Filho da mãe !
Eu não estava acreditando. Larguei o uniforme na mesa em que a caixa estava e disse em voz alta para Allison:
–Treinadora... Se eu não pareci clara da primeira vez, eu repito agora. — olhei bem para ela e disse pausadamente Não- estou- mais- no time.
Sei que pareceu grosseiro da minha parte, mas parecia a única forma dela entender.Eu não ia desistir tão fácil.
Continuei.
–Desculpe, mas não é justo ... Quer dizer que qualquer outra pessoa também não pode desistir ?!
De repente ela foi em direção à mesa, pegou a embalagem em que estava meu uniforme e parou na minha frente.
–Não a capitã do time.- ergueu as sobrancelhas e apontou em direção ao vestiário.
Respirei fundo. Mas dessa vez fui em direção à ele.
–Três minutos!- ela gritou .
Andei mais rápido.
No vestiário, vendo o tamanho que era o shorts do uniforme, agora eu sabia o motivo dos garotos do segundo ano estarem na arquibancada admirando o jogo. Talvez ser a mais alta da sala nessas horas fosse até pior...
–Era só o que faltava! — Hannah revirou os olhos e continuou a bater a bola quando cheguei .
Esqueci completamente que ela estava no time.Que sorte a minha.
–Ok, já podemos começar. Os times já estão formados e as posições também! Quero jogo rápido.
Allison me apontou o time em que eu ficaria.
Que bom que você voltou, não tinha certeza se iríamos ganhar esse último torneio.- disse Zoe quando me aproximei.
O que era estranho, já que nós nunca conversávamos.
Sorri e fiquei no meio . Central era minha posição no ano passado, então fiquei por lá mesmo.
Treinadora! gritou Hannah.
–O que ?- se virou impaciente.
–Pensei que todos teriam que participar da seletiva antes de fazer parte do time... Quero dizer, acho que nada mais justo que um novo teste para capitã... — Hannah ergueu as sobrancelhas e olhou diretamente pra mim .
–Ótimo. Se está pensando em preencher o cargo, sugiro que jogue muito bem essa partida... Na verdade, espero que todas joguem . Vou decidir essa história ao término dela.
O apito foi dado. A bola já flutuava por cima da rede.
–Minha!
–Aqui!
–Sua Anna!
Bola salva pelo time oposto
–Deixa!
–Dentro Brooke! Pega!
–Minha- gritou Hannah.
De repente a bola que ela jogou veio com força na minha direção. Escorreguei para tentar alcançar, mas a bola veio e caiu centímetros da minha mão. Ponto delas.
Do lado oposto da quadra, Brooke e Hannah deram um tapinha entre si, e depois riram.
Isso era novidade pra mim.
–Essa vai ser fácil!- disse Hannah ao time dela.
Talvez eu não estivesse tão ágil como antes. Talvez o fato de ver a Brooke fazendo exatamente as coisas que tanto ríamos e dizíamos que nunca faríamos, me deixava um pouco extasiada... Então por um minuto eu pensei , e decidi que já que era pra estar ali, -à força ou não- Eu não perderia o título de capitã. Se é pra jogar, então vamos jogar.
–Zoe, quero que fique atrás da linha dos três! Jenna, levanta pra mim, só que dessa vez, pode ser no meio, bem no meio... -disse isso olhando diretamente para o alvo. Aquela cabeça loira tingida estava na mira.
Allison apitou.
Katie deu inicio à jogada. Saque flutuante para o nosso time.
–Zoe!-gritei, mas nem precisei chama-la . Bela recepção, seguida pelo levantamento de Jenna e por fim, minha vez.
Eu podia não estar tão ágil, mas minha impulsão ainda era a melhor. Bola no topo da rede e finalmente...
Ponto!
Hannah estava bem onde eu queria, caída embaixo da rede por tentar salvar a bola sem sucesso.
E jogo prosseguiu. Alguns pontos marcados para o nosso time, algumas bolas perdidas, mas eu não desisti, joguei até o apito final de Allison encerrando a partida
–Belo jogo garotas !- disse ela enquanto terminava de escrever algo em sua prancheta . — Podem descansar.
Todas sentamos no começo da arquibancada para ouvir o que a treinadora tinha ainda para dizer.
–Valeu Zoe!- disse sorrindo.
Ela apenas se virou e então desviou o olhar. Como eu disse, uma reação estranha a cada minuto. Bem vindos à minha escola!
–Bem pessoal, vejo que ainda estão em forma! E espero que continuem assim até o fim do torneio- disse ela, agora de frente para nós.
–Antes de irem embora só quero terminar dizendo que gostei do seus saques Katie; Zoe, bela recepção nas jogadas, continua nossa líbero- Zoe comemorou junto com as outras garotas- Amber, cuidado com as bolas curvas... Uma bola fora pode decidir a vitória, ou no pior dos caso uma derrota...- Amber assentiu.
– Hannah gostei dos passes e principalmente do bloqueio, parabéns!- Risadas e comemoração vinham do lado delas, Hannah olhou diretamente para mim como se estivesse provando algo do tipo ''Ser melhor do que eu em tudo''. Quando é que ela não faz isso.
–Ellie, gostei dos passes e da formação do time. Pelo o que eu vi sua impulsão ainda é da melhores.- acrescentou ela — Vestiário garotas!
Todas já estavam se levantando e arrumando suas coisas a caminho.
–Treinadora! Você ainda não decidiu a respeito da capitã!-gritou Hannah de braços cruzados e sorrindo.
–Ah, tem razão. disse ela quando já estava em direção à saída do ginásio- Mckibben! Você continua.- acrescentou, apontando pra mim.
–M-Mas treinadora!!- Hannah desceu a arquibancada enfezada.
–Vestiário Hannah!- Allison saiu do ginásio.
Eu não esperei para ver qual era a reação dela ,apenas peguei minhas coisas e fui para o vestiário.
Meio dia e quarenta e cinco. Tomei o banho rápido e me troquei .
Uma sensação de ansiedade e nervosismo tomou conta de mim assim que entrei no carro e olhei para o endereço do cartão.
Liguei o carro e segui para estrada.
Tetos conversíveis eram ótimos em dias de Sol como esse...
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