Blow Mind

3 Antes da tempestade


O hospital não era muito longe e a estrada estava livre. Consegui chegar pouco antes do horário marcado.

Apesar ter morado a minha vida toda nessa cidade, era estranho não saber ao certo que lugar era esse.

Para começar pelo tamanho.

Ocupava uma área enorme do campo. O edifício era antigo, a julgar pelas esculturas de cavalos ao redor do pátio e as fontes de anjo na entrada. Parecia ter sido construído na década de 70. Mesmo assim, era muito bem cuidado. Bem ,e tinha mesmo de ser. Segundo Lisa era um hospital ultra particular, como um hotel cinco estrelas.

Não fazia ideia do que encontraria lá dentro. Só imaginava aquilo que via nos filmes , e só.

Atravessei o campo cercado de rosas e outros tipos de flores. Por cima da entrada o letreiro “Hospital Psiquiátrico de Claymoore’’.

Corredores largos com piso xadrez que pareciam não ter mais fim, levavam à recepção .

Uma moça baixa, de cabelos pretos em volta de um coque e roupas claras passou por mim .

– Oi mocinha, posso ajudar ?- perguntou ela enquanto colocava o jaleco e ia para trás do balcão de recepção .

– Sim, por favor. Me chamo Ellie Mckibben, ontem falei com um outro enfermeiro. Acho que o nome era Jeremih.

–Ah, sim ... Você deve ser a garota que a Lisa comentou. Só um minuto. – procurava algo no meio de algumas pastas que estavam sobre o balcão.-Aqui está. –puxou um papel com uma anotação- Você veio trazer a as autorizações, certo ?

– Isso! Aqui está a do colégio... E do responsável também.- deixei os em cima da mesa.Imitar assinaturas sempre foi fácil pra mim. E como o diálogo em casa não era muito comum... Meu dom foi necessário.

Algumas pessoas começaram a chegar e se sentaram nos sofás do centro da sala. A maioria estava em silêncio. Algumas delas curvadas e com os braços cruzados.

–Ótimo! Eu só vou precisar da sua assinatura,precisamos do seu consentimento também.

Era um pouco estranho o comportamento daquelas pessoas... Ninguém conversava, ou interagia com algo. Uma das enfermeiras ligou a TV que ficava de frente para os sofás, mas ninguém pareceu prestar atenção, apenas olhavam ao redor e algumas com a cabeça encostada no sofá.

– Mocinha ?- perguntou ela , com o papel da assinatura em uma mão e uma caneta uma outra.

Peguei a caneta e virei o papel de frente pra mim. Havia um parágrafo explicando os termos do hospital, outro com as diretrizes e no roda pé da página , o pedido da assinatura.

– Se estiver pensando ainda, não tem problema- disse ela pegando uma prancheta- Tenho que verificar algumas coisas na outra sala. Qualquer coisa pode me chamar .

Não levava muito tempo para ler aquilo. Algo me impedia de assinar... Era um olhar para o papel e outro para a sala.

Ficava imaginando o que iria encontrar pela frente. E talvez fosse isso, a sensação de me envolver demais no meio de tudo aquilo.

Deixei a caneta sobre o papel e fiquei de costas apoiada no balcão. Parte de mim gostaria realmente saber o que aconteceu à essas pessoas cabisbaixas . Homens e mulheres que poderiam estar trabalhando, estudando, juntos à sua família... Mas estavam ali, sentadas, sem se atentar a nada.

Como se o Mundo tivesse parado bem diante de seus olhos.

– Uau... E eu que achei que era o único que dormia nos discursos do Bush...

Um garoto segurando uma caixa cheia de arquivos estava atrás de mim.

Me virei, e confesso que me surpreendi.Não esperava encontrar um cara assim trabalhando em um lugar como esses...

Era mais alto do que eu, o cabelo mel levemente bagunçado na frente. Sem falar nos olhos... Era como se eles se camuflassem junto ao moletom azul escuro que ele usava.

–Precisa de ajuda ?- ele se aproximou.

– Não, obrigada.

– Veio visitar alguém ?- perguntou enquanto mexia nos arquivos dentro da caixa.

– Não. Quer dizer sim. – suspirei- Eu ainda não sei...

– Hm. Então ...você não sabe ? Mal entrou aqui e já está com a cabeça confusa ?

Ele riu .

– É um trabalho para escola. Eu só não tenho certeza se esse o lugar certo — olhei mais uma vez ao redor da sala.

Confesso que ele me deixou um pouco nervosa.

– Eu não sei do que se trata o seu trabalho. Mas pra fazer de um lugar como esse uma das suas opções ...

– Na verdade eu não tenho outras opções.

– Bem, então nesse caso... Eu sugiro que dê uma chance. Seja o que for, tente aqui .

Ele foi até a frente do balcão onde eu estava e colocou a caixa do lado de dentro.

– O que exatamente você está procurando pro seu trabalho ?- perguntou próximo a mim.

– De acordo com meu professor, algo que seja fora da nossa rotina, algo intrigante ...Que nos envolva.

De repente ele se aproximou ainda mais, até seu rosto ficar ao lado do meu.

–Então, você veio ao lugar certo... – ele sussurrou e depois se afastou.

De repente as pessoas que estavam sentadas naquele meio , começaram a conversar repentinamente , como se estivessem em estado de espera e de repente fossem ligadas por algo.

A enfermeira de cabelos pretos tinha voltado e ficou de frente para nós.

–Ryan ! Que bom que te achei!- disse ela colocando a mão sobre o ombro dele — Dayse está te chamando, precisa de ajuda na ala 3.

– A pequena Ashley de novo ?- ele perguntou

– E quem mais te adora daquele jeito ?- a enfermeira se inclinou para frente .

– Ah claro... Só espero voltar com a camisa inteira dessa vez!- passou a mão pela nuca.

Os dois começaram a rir.

– Então... a gente se vê por ai ?- Ele me perguntou quando já estava saindo

– Claro... – assenti.

Observei ele até que desaparecesse do corredor .

–Belos olhos, não ? — perguntou a enfermeira escrevendo algo na prancheta.

– O que ?- voltei meu olhar a ela.

Ela riu.

Peguei a caneta que ainda estava sobre o balcão e sem mais hesitação assinei o tal papel, e o entreguei .

–Os horários de visitas estão aqui –ela me entregou um folheto- Qualquer coisa é só ligar para cá e me procurar.

– Ok. -Peguei o folheto- Desculpe, qual seu nome?- perguntei antes que ela saísse.

– Oh, que cabeça a minha! Sou Cassie . – ela se despediu e foi em direção ao grupo sentando no sofá.