Blow Mind

5 Claymoore


Estranho como as pequenas coisas que acontecem ao longo do dia, de repente se tornam grandes presentes.

Aquela sensação boa de receber a única fresta de Sol que entra pela janela da sala.

Parecia não ser nada, mas naquele momento, ser aquecida por alguns segundos na manhã gelada que fazia, já era um presente.

– ‘’Wayne Booth’’! Isso significa algo para vocês?

– Hey! Não é o seu tio, Katie ?!

–O nome dele é Benny, idiota! — comentou Katie.

– Hm, ok. Sei que literatura nesse frio pode parecer cruel... Mas vamos lá pessoal!

Logan gostava de circular pela sala enquanto falava.

–Começando de uma maneira simples: Todos os escritores são artistas, de fato. Mesmo assim eles têm a obrigação moral de escrever bem, e transmitir a ideia central de forma clara, só para que nós, Meros leitores, consigamos pelo menos ter uma vaga noção da visão dele. Em uma palavra, como vocês resumiriam a ideia central de Shakespeare, por exemplo? Sexo? Romance? Traição? Ou um simples delírio da ‘’famosa ‘’ noite de verão?

– Shakespeare era só mais um maluco da época- disse Tyler em voz alta- Um maluco entediado.

– E por quê?- perguntou Logan.

– Todo esse papo de ‘’ser ou não ser’’... É só mais uma das loucuras tediosas. Quer dizer, o cara vivia no mundo da lua! Qualquer coisa que pra ele não fazia sentido, já era motivo pra tanto alvoroço...

– Então essa é a conclusão depois de ler alguma obra dele?

– É, é isso. — Tyler elevou a voz.

Sem dúvida Tyler não tinha lido nenhuma obra. E o pior que ele não era o único e ter essas ‘’conclusões’’. Embora fosse o único que parecia ter orgulho em demonstrá-las.

– Hm, interessante... – Logan sorria assim como a maioria da sala ao ouvir aquilo. — Bem, essa é a conclusão dele. E sabem por quê?

– Por que ele acabou de descrever um rapper e não Shakespear?– Matthew imitou uma expressão confusa.

– Bom, Matthew, todos tem a sua opinião- disse Logan enquanto todos riam. – Mas é exatamente o que eu quero mostrar a vocês. Ou melhor, o que Booth resolveu nos mostrar. Ele tentou definir a ideia das obras, através do mundo do leitor, e do próprio autor. Ele apresentou formas de ‘’interesses literários’’- escrevia no quadro em letras grandes- Ambos os modos de um texto e seus silêncios: irônico, satírico, lírico, dramático, ridículo, policial, fantástico, grotesco... Andem, me digam o que isso quer dizer, usem alguns desses interesses! – disse em voz alta.

A sala permaneceu em silêncio. Talvez uma frustração rotineira para todos os professores.

Confesso que Wayne Booth não era um dos meus ‘’temas’’ preferidos. Mas depois de ler algumas páginas durante a aula, vi que nós dois tínhamos algo em comum. Ambos usávamos ironia, sarcasmo e outros elementos, que faziam de certa forma nos sentir... Seguros.

– ‘’A retórica da Ironia ‘’- disse num tom alto, já que a sala havia permanecido em silêncio quase que no mesmo instante.

Logan inclinou a cabeça tentando procurar minha voz no meio dos atletas gigantes- infelizmente eu sentava atrás deles.

– Ellie?- ele perguntou distante.

Inclinei a cabeça para o lado para me identificar.

–Por favor, continue!- ele se aproximou.

–No caso da ironia, como foi uma das obras dele. Sabe, eu posso dizer ao senhor o quanto eu gostei da sua camisa, embora seja horrível.– disse olhando pra ele, exatamente num tom irônico.

– Mckibben como sempre sem modos, que pena... — disse Matthew.

– É exatamente como Booth mencionou... – continuei- O ‘’mundo’’ do autor que sabe a que se referiu, no meu caso sobre a sua camisa, ou no caso do ‘’mundo’’ de quem ouve e de fato – direcionei meu olhar para Matthew- pode não fazer a menor ideia do ‘’por que ‘’, da diferença do meu tom de voz, com o sentido da minha frase... Algo simples, mas ainda há quem não entenda.

–‘’ Touché ‘’- sussurrou Logan sorrindo. – Mas é esse o ponto Ellie. Exatamente como um dos interesses.

O sinal bateu. Todos se levantaram rápido e foram em direção à porta, mas antes tivemos que deixar a redação sobre Wayne em cima da mesa dele.

– Desculpe ter usado o senhor como exemplo...- disse deixando a redação na mesa.

– Tudo bem... Oh! Ellie

– Sim ?

– Acha mesmo minha camisa horrível ?- perguntou sorrindo.

–Não! Azul é minha cor preferida- disse quando já estava na porta.

– Que bom!-ele riu.

Apesar das aulas terem começado a poucos dias, isso não influenciou em nada aos professores em nos dar uns dias a mais, para nos recompor das férias. Mas a questão era que estávamos no último ano e em menos de 6 meses estaríamos fora dali. Talvez nesse anseio, de que tudo acabasse, se tornasse nosso grande alívio, nosso incentivo.

– Com licença.... isso aqui chegou pra você.

– Entra Grace!- parei de tocar e coloquei a guitarra deitada na cama.

Grace era a moça alta de pernas e braços compridos que cuidava da casa. Desde que comecei a morar aqui, ela se tornou mais do que uma simples empregada pra mim. Era a única pessoa da casa da qual os diálogos duravam mais do que 2 minutos. Grace tinha uma filha da minha idade- Natalie- , mas que morava com o pai em outra cidade.

Eu gostava de conversar quando ela não estava ocupada. Grace sabia o que acontecia na casa.... Ou melhor, o que não acontecia. Então quando Sally tinha seus momentos de chegar em casa e não sair mais do quarto- o que era constante-, Grace sempre vinha me perguntar se estava tudo bem comigo, e quase sempre acompanhada de algum de seus doces caseiros que sem dúvida me faziam sentir bem.

– Desculpe te interromper, é que chegou uma carta... – Grace encostou a porta e se virou com um grande sorriso.

Saltei da cama e peguei a carta. Nós duas sabíamos do que se tratava.

Em geral, meu tio não costumava ligar para casa. Mesmo sabendo que as chances do Henry e Sally atenderem ao telefone eram mínimas, ele não corria o risco de ter que ouvir a voz de quem tanto causava raiva. Então ele se comunicava através de cartas.

– Ei! Você cortou a franja! – disse à Grace.

– Só um pouco... –ela riu enquanto passava a mão sobre o cabelo. – Ah, o jantar está quase pronto, se você quiser descer depois...

–Ok G, eu desço sim.

Grace saiu do quarto e fechou a porta.

Abri a carta. Segundo ele, Valerie estava bem,continuava a tocar violão aos domingos com as amigas e colocando as coisas em ordem na casa . Ele, continuava na loja de acessórios para carros e fizera uma parceria com o tal Jonhson O’doniel, dono da loja. Respondi que estava tudo bem – o que queria dizer que as coisas estavam na mesma- e que havia decidido continuar no time de vôlei da escola.

Desci para jantar, nada de Sally, nada de Henry. Que novidade.

Acabei dormindo cedo naquela noite.

***

O dia começou frio,como em um daqueles em que você prefere adiar todos os seus compromissos à sair da cama.

Mesmo com toda a vontade do mundo de ficar ali, sem me mexer debaixo das cobertas, a visita ao hospital era hoje, por volta das onze horas da manhã. Eu não poderia perder por nada. A não ser que...

Olhei para o relógio ao lado da cama: Nove e quarenta e cinco.

Droga!

Levantei da cama e em apenas um pulo eu já estava no banho. Não me importei com o café.

O trajeto até Claymoore era de aproximadamente uma hora. Considerando o transito, eu já deveria estar com o carro na estrada.

Por sorte não havia tantos carros no caminho.

– Ah... Pensei que não vinha mais! – disse uma enfermeira parada na frente da recepção, escrevendo algo na prancheta.

–Desculpe, não vai mais acontecer... — olhei para o relógio que estava no alto da parede, pensando já ser tarde.

Onze horas e sete minutos.

–Dessa vez tudo bem, mas temos normas aqui, espero que entenda.- ela ainda escrevia na prancheta.

Cassie chegou à sala no mesmo momento.

–Não ligue pra ela...- Cassie sussurrou próximo a mim.

– Ok,mas prometo chegar pontualmente na próxima vez.

– Bem, podemos começar mocinha?

– Podemos.

Cassie entrou em um dos corredores da sala e eu a segui.

Em todas as janelas do edifício havia grades de segurança.

– Aqui é a sala de música- ela abriu a porta.

Havia instrumentos de diversos tipos, e estavam devidamente organizados em uma parte reservada.

A sala era grande, e em torno dela algumas cadeiras espalhadas formando um círculo. Havia também uma TV junto a um aparelho de vídeo no fundo da sala.

– O professor de música , gosta de passar alguns vídeos de shows e orquestras para os pacientes- explicou Cassie, apontando para o fundo da sala.

Ela trancou a porta assim que saímos.

– Vocês tem que trancar todas as salas depois que saem?- perguntei

– É a norma do hospital... – ela seguiu para o corredor- Assim como o check dos quartos.

– ‘’Check ‘’?

– Sim... Uma espécie de ronda que fazemos pelos quartos, e pelas instalações do prédio. Só para garantir se está tudo bem com o pessoal.

Ela abriu mais uma porta.

– Alguns pacientes se sentem desconfortáveis na sala de terapia. Então o Dr. Kane dá como opção essa sala.

O lugar era realmente aconchegante. Até mesmo para uma sessão de terapia...

– Parece confortável... Um bom lugar pra pensar e conversar.

Observei as poltronas de couro e as obras de arte que estampavam boa parte da sala.

–Concordo. Mas gostaria que os pacientes também pensassem assim. Não são todos que expressam tudo que pensam.- ela ficou observando ao redor da sala- E esse é um dos motivos que os impede de seguir em frente ...

– Cassie ?!

Uma enfermeira parou no corredor em frente à porta.

– Sim?

– Susan Grayson está na linha, quer saber sobre a dosagem da Cameron.

– Que dia ela recebeu alta?

–Semana passada. Mas parece que ela não reagiu muito bem à essa última medicação...

– Ok, diga a ela que já estou indo .

Cassie saiu da sala.

– Ellie,pode me acompanhar ?

Ela trancou a sala e novamente eu a segui. Fomos em direção às escadas e subimos até o segundo andar.

Um grupo de pessoas conversava alto no meio do corredor. Cassie passou por eles e entrou na sala ao lado, uma espécie de biblioteca.

Fiquei esperando na porta. Ela foi em direção a um garoto que arrumava alguns livros na prateleira.

Era ele. O cara de olhos azuis que estava na recepção naquele dia.

Ela conversou por alguns instantes,ele apenas assentia. Depois ambos vieram até a porta .

– Ellie, eu preciso resolver mais alguns problemas... Se importa se Ryan continuar a mostrar o lugar pra você?

–Er, não, tudo bem .

– Pode chamar a enfermeira deste andar se precisar, ok?- Então seguiu rápido para as escadas.

Nós dois seguimos pelo corredor.

– Então,você se decidiu...- disse Ryan.

– Bem, eu pensei no que você disse. Resolvi dar uma chance .

– Isso é bom!- ele sorriu

Entramos em uma das salas do corredor, que estava aberta.

– Um... Salão de jogos ?– perguntei , deslizando a mão sobre a mesa de ping-pong.

–É sempre bom pra aliviar um pouco a cabeça.

Depois seguimos para outras salas, talvez eu não tivesse dado conta de quão grande era esse lugar.

Sala de música;

Biblioteca;

Refeitório;

Sala de artes;

Hall de visitas;

Jardins grandes e floridos;

Estávamos andando por um dos corredores do primeiro andar, quando duas pessoas passaram por mim correndo e rindo.

Uma das enfermeiras –um pouco ofegante- chegou momentos depois, observando em que direção eles haviam ido

Ryan apontou a sala em que eles haviam entrado.

–Só assim pra que eu me exercite...- disse a enfermeira sorrindo e foi em direção à sala.

Passamos pela sala, ela havia contido as duas pessoas, que agora estavam sentadas, olhando atentamente ao que a enfermeira dizia em tom baixo.

Eram pessoas adultas, mas naquele momento pareciam dois adolescentes que haviam aprontado e agora estavam recebendo uma bronca.

Ryan parou no corredor para olhar um memorando que estava na parede, informando alguns horários.

–Gosta mesmo de trabalhar aqui?- perguntei observando também o memorando.

– Como ?- ele olhou pra mim.

As duas pessoas que estavam na sala, correram para o corredor. A enfermeira balançou a cabeça e foi atrás deles novamente.

– Como você consegue trabalhar aqui ? É tudo tão diferente...

–Trabalhar ?- ele fez uma expressão confusa.

– Sim.. Quero dizer, no meio dessas pessoa. Elas são tão... Estranhas — não era bem o adjetivo que eu procurava- Não acha?

Ele se aproximou.

–Bem...Na verdade, eu sou uma delas.- disse com uma expressão séria.

– Er,O que? – perguntei sorrindo, sem acreditar muito.- Tá dizendo que você é um pacie...

– Sim. –ele interrompeu.

Nem a expressão nem o tom de voz dele mostravam que aquilo era algum tipo de brincadeira.

Era sério.

– E-Eu não sabia...

Naquele momento gostaria de desaparecer. Não sabia onde me esconder.

– Achou que era um lugar onde todos corriam com camisas de força, imitando passarinhos e assistindo a TV cinza chiada? Embora o Ben faça isso às vezes...- ele sussurrou .

Na verdade era exatamente o que eu via nos filmes.

Eu não disse nada, apenas olhei pra ele. Acho que ele percebeu o quão sem graça eu estava, então ele riu.

– Oh... Tudo bem, você não seria a primeira e nem será última a pensar assim.

Estávamos indo em direção à porta da recepção. Fiquei o caminho todo sem dizer nada.

Ele colocou o molho de chaves em cima do balcão.

– Olha, desculpe...Eu não queria ter falado daquele jeito.- disse a ele.

– Hm... Ellie não é ?

– Sim...

– Eu já disse que tudo bem, tá legal ?!- ele sorriu.

– É só que eu fiquei... surpresa acho. Quando vejo você, está sempre fazendo alguma coisa. Achei que trabalhasse aqui.

–Eu gosto de ajudar o pessoal. Acaba me distraindo.

Estávamos no jardim, indo em direção ao portão. O som que vinha das fontes quando a água caía era extremamente relaxante.

– Ryan ?

– Sim?

–Eu estava pensando...

–Isso é bom de vez em quando.- ele disse sorrindo.

– Não é sério!

– Eu sei, só estava brincando, o que foi ?

– É que eu ainda preciso de alguém que possa ser a referencia do meu trabalho.

– Posso te ajudar a encontrar alguém aqui dentro.

–Depois de saber que você é um... Paciente – inspirei, ainda era difícil absorver aquilo. – Eu estava pensando se você se importaria de ser esse ‘’ alguém’’.

– Quer que eu seja a referencia do seu trabalho? – perguntou surpreso.

– Se não se importar...

– Ficou tão curiosa assim a meu respeito ? – ele sorriu.

–Bem... Considerando o propósito do trabalho... Sim.

– Só aviso uma coisa, eu sou um chato.

– Tudo bem pra você então ?!

– Hm, tudo bem. Se você acha que vai me aguentar...

– Vou correr esse risco.

Cruzei o portão e me despedi.