Blow Mind

6 Um começo nada agradável


Já foi dito que o gênio, o crime e a loucura, provêm, por igual, de uma forma anormal e representa de diferentes maneiras uma inadaptabilidade ao meio em que vive.

Questionei-me por várias vezes se todos nós não nascemos loucos, e então com o passar do tempo, essa loucura se manifeste.

Enquanto em alguns ela se propaga de forma positiva, outros beiram a insanidade. Por que afinal temos grandes artistas como Paul Gauguin, Tchaikóvski,ou Edgar Allan Poe que conseguiram até então, fazer com que essa manifestação tendesse para o lado positivo de alguma forma?

Doutores dizendo que a inteligência e a loucura andam lado a lado, como uma instabilidade psíquica, enquanto outros chamariam apenas de “loucura divina”. Se ambas andam lado a lado, por que em alguns a loucura passa a ser a única a caminhar pela mente, abrindo lugar para a insanidade?

–Cassie Daniel’s por favor? –me aproximei do balcão.

–Só um momento, ela já está descendo. –Jeremih sorriu e continuou a falar ao telefone.

O hall de entrada estava vazio, com uma visão distante do largo e xadrez corredor pude ver a sala de estar com apenas algumas pessoas sentadas nas poltronas. Pareciam ser as mesmas da semana passada, mas não me lembrava de todas.

– Ellie? – A voz suave de Cassie ecoou pelo hall.

– Oi! Espero não ter me atrasado muito dessa vez... –ergui o rosto para o relógio no alto da parede, mesmo estando na hora marcada.

Cassie sorriu ajeitando seu jaleco, enquanto fitava de longe com uma careta a tal enfermeira que me repreendera da última vez.

– Sabe se Ryan está por ai? –perguntei.

– Ele ainda está na reunião semanal da ala 3. –ela olhou para a prancheta em suas mãos –Deve estar acabando daqui alguns minutos.

–Hm... –olhei em volta procurando um lugar para me sentar.

–Por que não espera um pouco aqui? –Cassie apontou para uma das poltronas ao centro do salão.

Fui em direção à poltrona de lugar único, mas no mesmo instante um homem de meia idade entrou na minha frente e se sentou.

Olhei para o lado e o único lugar vago era no sofá à esquerda. Uma moça de cabelos envoltos por uma touca de tricô branca se sentava em uma ponta e na outra uma senhora de roupão de seda rosa. Sentei-me entre elas e pareceram não se importar.

Novamente a TV ligada sem qualquer sinal de interesse dos que estavam presentes. A não ser por uma mulher... Sentava-se no braço da poltrona de couro com os braços sob os joelhos apoiando a cabeça. Poderia até dizer que prestava atenção à programação, se não fosse por seu sorriso altamente largo e momentos passageiros de gargalhadas soluçantes.

A noticia sobre o furacão na Ásia parecia soar de forma hilária para ela.

Na minha frente além dela, apenas um homem com as mãos entrelaçadas sobre a cabeça e um garoto de uns catorze anos com os olhos vidrados em um game-boy.

A voz centrada da repórter e as gargalhadas soluçantes eram as únicas ouvidas em todo o salão.

Fiquei sentada um tanto estática e apertando os olhos para ver as horas no relógio em cima do balcão.

Uma mulher havia passado por trás de mim, seu cheiro de cigarro a acompanhou até se sentar no outro braço do sofá da frente.

–Hey Luci! –falou em voz alta a senhora de roupão ao meu lado.

–Fala gorda, já te doparam essa manhã ou perdeu o juízo de vez? –disse ela num tom seco, mas com um sorriso lateral.

A senhora não pareceu se importar e ainda riu como se a tal Luci tivesse lhe contado uma piada.

–E ai Luci, mandou bem com o Kane hoje?-perguntou a mulher de touca de tricô.

–Claro que sim, ele me ama...–ela respondeu ainda em tom seco e convicto.

–Como é que Dr° Kane te ama? Que sorte a sua... –perguntou ingenuamente a senhora de roupão.

–Por que eu não sou uma velha gorda... –ergueu as sobrancelhas e a olhou com desprezo.

A senhora novamente apenas riu alegremente do insulto. Assim como a mulher da touca de tricô.

Luci era branca como a neve, contrastando seu cabelo curto e ruivo artificialmente, com a raiz preta já a mostra. Suas olheiras extremamente escuras e seu corpo esguio como uma mangueira com braços longos a fazia parecer ainda mais depressiva, apesar de seu ego forçado.

O silêncio permaneceu por alguns instantes.

Mas foi quebrado pelas gargalhadas soluçantes.

–Mas o que diabos essa CRETINA tanto ri?! –perguntou Luci em voz alta.

–Outro furacão. – o homem com as mãos entrelaçadas respondeu sem se mover.

Luci revirou os olhos, mas os fitou direto para mim quando percebeu que eu a olhara por alguns instantes.

– Helen disse alguma coisa do meu sangue hoje –disse a mulher de touca –Alguma coisa de diaté... diadé...

–“Diabetes” sua burra. –interrompeu Luci.

–Mas então quer dizer que...e-eu vou morrer?!

Todos começaram a rir.

– Merda!! Eu sabia! –ela continuou- Eu vou morrer e ninguém me diz que Porra é essa!

Ela se encolheu no canto do sofá e colocou as mãos sobre o rosto. Choramingava enquanto todos riam ainda mais.

Olhei ao redor, ninguém parecia se importar com a preocupação dela, apenas balançavam a cabeça e a olhavam. Não balcão da sala de espera não havia ninguém, me inclinei e Jeremih não estava mais lá.

Encostei a cabeça no estofado, mas a o choro dela ecoava pela sala, junto às gargalhadas. Finalmente me aproximei dela, apenas inclinando o rosto.

–Quer dizer que você está produzindo uma quantidade baixa de insulina, então sua taxa de açúcar no sangue ficou alta –tentei dizer da forma mais simples possível para tentar acalmá-la- Tem tratamento, você não vai morrer...

–S-sério... ? –ela levantou levemente o rosto.

–Sério. –sorri.

O choro diminuiu restavam apenas os soluços.

–Ei! Você! O que disse pra ela?! –Luci disse em voz alta na minha direção.

Recostei-me.

–Estava tentando acalmá-la... –mantive o tom baixo e suave.

–E você agora e médica?! –continuou ríspida.

As risadas cessaram. E o silêncio voltou, apenas o som da TV permanecia.

–Não... Não s...

–É claro que não é! –Luci levantou-se.

As duas mulheres do sofá se levantaram no mesmo instante e foram para o canto da sala.

A senhora não ria mais, e a mulher de touca se sentou novamente encolhida no chão e voltou a chorar. Mas o motivo não parecia ser o mesmo.

Levantei-me por impulso.

–Você acha que eu não te conheço?! – Luci elevava ainda mais a voz, agora estava na minha frente.-Vem aqui com o seu cabelinho dourado e com essa roupinha de santinha...

Olhou-me dos pés a cabeça com uma feição nada amigável.

Virei a cabeça para o lado, nada de Jeremih, nada de Cassie.

–Você se acha melhor do que ela? –apontou para as mulheres ao canto – Se acha melhor do que eu?!

De repente o garoto saiu em disparada pelo corredor e os dois homens permaneciam na mesma posição.

Minha primeira reação foi sair de perto dela, mas antes que pudesse pensar em algo, Luci me dera um empurrão na altura do peito que automaticamente me fez cair sentada no sofá.

– Por que a gente não conversa então.... — sussurrei.

–CALA A BOCA SUA VADIA! Você não me conhece!

Luci recuou do sofá e contornou a mesa de centro na qual havia alguns folhetos e algumas canetas esferográficas.

–Sabe...-mudou para um tom suave –Quase sempre fico me perguntando o motivo de eu vir parar aqui. Quer dizer... Eu não tive culpa. Aquele bêb...

Ela me empurrou novamente quando dei um impulso para me levantar.

–Aquele bêbado, me trocou por aquela putinha magricela... — ela continuou me olhando dos pés à cabeça- Você acha justo?!

Luci pegou uma das canetas e a destampou...

Ela riu.

Continuei a olhar em volta, mas ninguém aparecia. Nenhuma enfermeira ou enfermeiro a vista. Pensei nos doutores de jaleco que passavam a todo o momento quando cheguei, e em que lugar eles poderiam estar agora.

Quando eu menos esperei, olhei para frente e Luci pulou em cima de mim. Não conseguia me mexer. Era esguia, mas seus braços e pernas me prenderam fortemente.

–Me solta! Luci, me solta! – Minha voz já não era ponderada.

Seus olhos eram de um verde claro que ressaltavam ainda mais as veias, completamente avermelhadas, e que pareciam cobrir quase que toda a esclera.

Seu rosto a centímetros do meu e seu hálito de cigarro fazia arder meus olhos.

Tentava me livrar de qualquer jeito, mas sua força era estranhamente exagerada.

Uma de suas mãos apertou minha barriga, sentia como se sua unha penetrasse em minha pele.

–Sabe qual a vantagem de estar presa nesse inferno? –ela pausou- É que Ninguém pode me culpar mais de nada!

Ela riu e então segurou com força a caneta, já a centímetros do meu pescoço.

–Cas-sie! –gritei o mais alto que pude, mas minha voz falhava.