Blood Red

1 Você sabe onde.


Terminei de entalhar minha abóbora e fiquei feliz com o resultado. Ela estava tão macabra quanto deveria. Perfeito para a noite dos mortos. Noite de Halloween, a noite em que o véu entre o mundo real e o mundo dos mortos fica mais fino, permitindo que as criaturas do submundo visitem-nos. Ah, quem dera se isso fosse verdade. Talvez se a minha vida fosse como um filme cheio de criaturas sobrenaturais, eu ficaria mais feliz. Não se engane, meu desejo é que essas coisas não existem e, nos filmes, mesmo existindo, são bem mais fáceis de exterminar. Andei até aquela minha estante velha e peguei um grande livro antigo que até parecia uma enciclopédia – na contra-capa dizia que ele havia sido escrito em 1937; Bem, ele era realmente velho. Abri na página em que eu havia parado da última vez e voltei a ler.

Raças e Espécies
Há diversos tipos de espécies e raças de vampiros – algumas mais letais que outras.
Existe uma, em especial, conhecida como Vermelho Sangue. Eles são os mais fortes e letais vampiros que já existiram. Acredite, você não quer encontrar com nenhum deles.

– Ah, eu quero sim – suspirei.


Os Vermelhos Sangue surgiram na Europa durante o início do século XIX. Fontes dizem que a família chamada Cervenka (vermelho, em tcheco) era do Reino da Boêmia, no exato local onde agora fica a República da Checoslováquia. Outros dizem que, provavelmente surgiram na capital, em Praga.
Essa espécie de vampiros é de puro-sangue, todos eles já nasceram assim. As lendas dizem que eles apenas matam suas vítimas e que eles nunca transformaram ninguém para não “sujar” o sangue da família. É terminantemente impossível existir algum vampiro Vermelho Sangue que não seja um Cervenka.
No início do século XX, pouco antes de formarem a República da Checoslováquia, essa família fora quase totalmente extinta. Sobraram apenas três de sua espécie para contar a história; Três irmãos. Cuidado! Dois deles, quando juntos, podem ser muito mais fortes do que qualquer pessoas possa imaginar; As...

– Olá, bonitão! – ouvi a porta bater e fechei o livro com força – Ai nossa, eu venho aqui toda feliz te fazer uma surpresa e você está aí, lendo esses livros gigantescos.

– Eu também amo você, Rebecca – fiz careta – Você sabe que eu estudei história. Então sempre vou estar lendo livros desse tipo.

– Não tenho certeza – ela pareceu pensativa – Mas acho que em História você lê sobre coisas reais, que realmente aconteceram, amor... Não enciclopédias infinitas sobre criaturas sobrenaturais.

– Você não se cansa de falar isso?

– Vou dar um desconto porque hoje é 31 de outubro, meu dia favorito do ano – ela levantou as sacolas da loja de fantasias que ela segurava nas mãos – Doces ou travessuras?

– Gosto bastante de doces – abri um meio sorriso – Mas com você eu sempre vou escolher travessuras.

– Bobo – ela sorriu.

– Hey, espera, isso é um milagre – ela arqueou a sobrancelha – Você saiu de casa.

– Só porque não gosto de sair lá de dentro, não quer dizer que eu não saio quando preciso – ela fez careta – Apesar de que o tempo estava terrivelmente nublado durante a tarde, tive que ir à loja de fantasias do Centro. As melhores fantasias são de lá.

– Então iremos à uma festa – observei.

– Ah, verdade – ela espalmou a mão em sua testa pálida e eu ri daquilo – Esqueci de te entregar isso.

Ela me entregou uma papel grosso, preto com branco. Ele estava dobrado no formato de um caixão. Aquilo era típico de Halloween. Só podia ser de algumas festa louca à fantasia que teria hoje à noite por Atlanta. Desdobrei o cartão com cuidado e comecei o li, em voz alta.

Casa dos Horrores

Esperamos que você não tenha medo do perigo, ou pelo menos, seja corajoso o suficiente para gostar dele. Então vista a sua melhor fantasia, porque essa é a melhor noite do ano – você pode ser qualquer coisa que desejar.
Nós, particularmente, adoramos o Halloween! É o único dia do ano em que todos usam máscara, e não apenas nós. As pessoas gostam de fingir que são monstros, enquanto temos que passar as nossas vidas inteiras fingindo que não somos.
Criaturas horrendas, macabras e demoníacas, seres grotescos e aterrorizantes vagam sem rumo, sob a luz suspeita desta noite perfeita, apenas esperando até que suas vítimas resolvam aparecer.
Estamos aguardando vocês, assim como eles estarão.
Às dez horas da noite dos mortos, onde não existe mais véu entre o nosso mundo e o deles;

Você sabe onde.

Xx

– Você sabe onde – repeti – Onde?

– Na casa da Audrey, é óbvio – revirou os olhos – Aquela casa é gigantesca, é perfeita!

– Tem razão – concordei normalmente.

– Ah, Dylan, por favor – reclamou – Ela é minha melhor amiga. Pode pelo menos fingir que se animou com a ideia? – abri um sorriso forçado e ela apenas bufou – Eu até comprei uma fantasia que você iria gostar. Mas deixa, eu vou sozinha.

– Não, para. Volta aqui – fechei a porta que ela havia aberto e a puxei de volta – Não vou deixar de ir com você só porque detesto a sua amiga.

– Sabia que você iria! – ela me beijou brevemente.

– Agora me mostra quais são as fantasias.

– Só me trouxe de volta por curiosidade, não é? – eu neguei prontamente, mas ela começou a rir – Dylan, amor, você não sabe mentir para mim.

– Mostra logo, Rebecca – eu dizia, inquieto e ela gargalhava.

– Primeiro quero perguntar algo – suspirei e fiquei esperando pela questão – Você gostou do convite? Quero dizer, do cartão em si.. Do que está escrito nele?

– Achei interessante – fui sincero – Foi legal falar como se Audrey fosse um monstro, o que ela é – Rebecca fez cara feia – Ah, o que foi agora?

– Você realmente gostou ou só está sendo trouxa com ela? – questionou-me, cruzando os braços.

– Eu gostei muito – expliquei – Só não podia perder a oportunidade de tirar sarro dela. Então, quem escreveu?

– Audrey e eu – deu de ombros – Criamos juntas. Até ajudei ela na decoração da Casa dos Horrores.

– Mal posso esperar para ver – sorri, animado – Agora pode me mostrar as fantasias?

– Está parecendo uma criancinha de nove anos, Dylan – fez careta – Não um cara de 26 anos.

Ela jogou a sacola para mim e eu a abri, tirando um vestido preto com vermelho de lá.

– Acho que você me deu a sacola errada – falei, meio incerto.

– Não, está certo – ela confirmou – Você vai vestido de mulher e eu de homem. Okay, estou brincando, não fica sério desse jeito. Nossa, até parece que você não é a pessoa mais sarcástica que eu já conheci.

– Pare de reclamar da minha cara e me dá minha fantasia – ela riu e trocou as sacolas comigo.

Abri a sacola e tirei a fantasia dali. Estava dentro de um saco plástico, que não deixava-me ver qual roupa era. Quando finalmente consegui abrir o saco, dei de cara com uma fantasia de vampiro. Fiquei pasmo na mesma hora. Não acredito nisso.

– O que foi? – ela pareceu decepcionada – A fantasia é ruim, você não gostou? Comprei o estilo errado? Ah, qual é, comprei até uma para mim.

– Não, não. É perfeito! – garanti à ela – Eu só fiquei surpreso por você ter comprado fantasias de vampiro.

– Confesso que não queria vestir-me de vampira – riu, parecendo incerta – Mas Dylan, meu amor, você ama isso!

Eu não podia dizer à ela o que me afligia sobre aquilo. Rebecca havia esforçado-se tanto para me agradar. Ela não tinha culpa de pensar que eu amava vampiros, afinal, eu passava horas dos meus dias lendo aqueles livros sobre eles. Ela não tinha como saber... E bem, a fantasia era bem legal. O Halloween é tão bom porque – apesar dos vampiros, bruxos, demônios, lobisomens e zumbis – é tudo fingimento. Nada é real... Essa é a melhor coisa dessa noite.

– É sério, eu realmente gostei – garanti – Obrigado por ser uma namorada tão prestativa.

– Isso era tudo o que eu precisava ouvir – ela abriu um sorriso enorme, me empurrando para o quarto – Agora senta aí que vou maquiar você.

– O que? Não. Para quê?

– Só vou deixar sua pele pálida como a de um vampiro – revirou os olhos – E escurecer um pouco mais em baixo dos seus olhos.

– Mas...
Hesitei e então sentei. Que escolha eu tinha? Rebecca amava o Halloween muito mais do que eu. Ela nunca deixaria eu sair de casa se, além de vestir a fantasia, não tivesse com a maquiagem certa para isso – ou, nesse caso, o tom de pele. Halloween era uma coisa séria para ela. Agora era mais importante do que antes para mim – afinal, havíamos nos conhecido em uma noite 31 de outubro, em uma festa à fantasia no Centro. Ela não demorou muito para finalizar o trabalho que fazia em meu rosto. Em compensação pela rapidez, ela ficou o tempo todo me xingando porque não era para eu ficar me mexendo. Eu só ria daquilo e ela me estapeava porque “eu estava a atrasando”.

– Prontinho! – ela abriu um sorriso enorme, gostando do que estava vendo – Agora se veste que eu vou me vestir lá no outro quarto. Espero você na sala, amor.

– Você não vai se maquiar?

– Eu não preciso de muito, olhe para mim – apontou para o seu próprio rosto – Já sou pálida e, para ajudar, tenho essas malditas olheiras. De qualquer modo, já passei o básico antes de sair de casa, junto com essa sombra escura. Só vou passar batom mesmo.

Saiu rapidamente do meu quarto, indo – provavelmente – para o quarto de hóspedes para se vestir. Quem vê pensa que nunca trocou de roupa na minha frente. Ela queria que eu a visse vestida só depois que estivesse totalmente pronta. Tudo bem, então. Vesti com calma a fantasia, já que era quase certo que Rebecca demoraria mais que eu.