Blood Red

2 Não vamos te morder... AINDA.


Quando estava pronto, andei de volta para a sala e vi minha namorada parada na frente da porta com uma cesta em formato de abóbora. Ela estava linda.

– Doces ou travessuras? – ouvi a voz de algumas crianças pedirem.

Rebecca tirou algumas guloseimas da cesta e deu um pouquinho para cada uma delas, enquanto eu observava tudo. Então, antes das crianças irem embora e Rebecca fechar a porta, ela deu um passo para trás, e então voltou e fez um barulho estranho, correndo para cima das crianças. As crianças gritaram e saíram correndo assustadas. Rebecca começou a rir muito enquanto eu só negava com a cabeça.

– Ah, qual é? Pare de ser tão antiquado – ela fez careta – Nem parece que eu sou a mais velha aqui.

– Olha o drama da pessoa – eu ri – Você só é um ano mais velha, pare de se achar a idosa.

– Mas eu sou – ela disse, rindo.

– Preciso usar a cartola? – perguntei, mostrando o objeto que tinha vindo junto da roupa.

– Não, fica mais legal seu cabelo normal – ela sorriu.

Depois de algumas brincadeiras, paramos em frente ao espelho, olhando o reflexo de nós dois juntos – um casal de vampiros sangue-sugas. Eu costumava gostar de vampiros, assim como toda criança, mas algo terrível aconteceu. Infelizmente, descobri que eles existiam de verdade. Isso seria ótimo, porém se fosse em outras situações. Quando eu tinha quatro anos, eu vi um deles matar meus pais; A memória foi quase inteiramente bloqueada, tudo o que lembro agora são dos olhos – aqueles olhos nunca saíram de minha mente. Eu cresci, estudei eles, e agora tudo o que eu desejava era encontrar o maldito e matá-lo.

– Que foi agora? – perguntou ao perceber que eu estava a observando de cima a baixo.

– Você comprou a sua fantasia em uma sex shop? – indaguei e então comecei a rir.

– Claro – respondeu séria – Onde mais?

– Está falando sério?

– Claro que não – revirou os olhos – Você acha mesmo que eu ia achar uma roupa dessas na sex shop? Até parece que nunca foi lá.

– Tudo bem, Rebecca – concordei, mudando de assunto – Vamos sair de uma vez.

E nós fomos. Decidimos ir a pé, apesar de Audrey morar a uns seis ou sete quarteirões de distância. Era legal andar pela rua na noite de Halloween. Ver aquele monte de crianças e adolescentes fantasiados, indo de casa em casa pedindo guloseimas e fazendo suas travessuras; Enquanto adultos passavam, fantasiados apenas para ir à alguma festa, fingindo não ser o que realmente são – o que era muito bom. Essa era a magia da noite de Halloween, você podia ser qualquer coisa no mundo e não você mesmo, como em todos os outros dias e noites.

Logo chegamos na casa de Audrey, ou melhor, na Casa dos Horrores, como dizia uma placa gigantesca e macabra instalada no segundo andar. Na calçada, escorado no poste de luz, havia um zumbi esquelético e assustador – devo dizer que parecia bem real. Eu realmente gostava de decorações de Halloween macabras e assustadoras, ainda mais quando pareciam tão reais. Perto do caminho da entrada, tinha uma placa velha de madeira, cravada no chão. Seus dizeres estavam pintados com tinta vermelha um pouco borrada, que fazia parecer sangue. Provavelmente foi usado tinta a olho, para dar um efeito melhor.

Junte-se a nós, mas apenas se você for capaz.

Haviam várias pessoas fantasiadas passando por nós para entrar logo lá para dentro. Porém, demoramos mais um pouco, já que estávamos vendo tudo. Bem, se minha namorada ajudou a fazer isso, eu tinha que prestar atenção. Os arbustos ao lado da calçada estavam cheios de coisas brancas que pareciam teias de aranha. Podíamos ver abóboras entalhadas – com velas já acesas dentro delas – por todo o pátio; Algumas eram assustadoras e outras bem engraçadas. Tinha abóboras até mesmo junto ao “cemitério”. Ah, é claro que teria um cemitério cheio de lápides falsos também. Muito legal. Isso que nem mencionei os inúmeros bonecos de vampiros, lobisomens, bruxas, monstros e – principalmente – zumbis. Essa era a parte boa de ter uma casa gigante, com um jardim enorme. Em meio a alguns monstros, vi mais uma placa.

Você sabe por onde o mal espreita?

Talvez ele esteja bem ao seu lado agora.

Okay, isso é bizarro. Essa frase é daquele tipo que te faz olhar ao redor para ver se não tem alguém estranho perto de você ou ao seu lado – mas eu só tinha Rebecca ali, que segurava minha mão.

– Okay, acho melhor nós entrarmos – sugeri e ela sorriu.

Enquanto caminhávamos lentamente até a casa, vimos outra placa.

Um pouco de terror é sempre necessário.

É, bem, talvez fosse. Paramos para olhar o cartaz que tinha ao lado da porta de entrada. Algumas pessoas passaram por nós e algumas até empurraram; Afinal, não se deve parar bem em frente à entrada de um local – mas quem liga, não é? Era um cartaz grande e branco, com duas carinhas de vampiros, feitos de EVA. Observei as escritas. Eu conhecia aquela letra – Rebecca havia escrito.

Siga em frente se puder, não vamos te morder... AINDA.

Entramos e lá dentro estava tudo mais macabro ainda. Relevando o fato de que estava bem escuro. Havia apenas luz negra, então tinham coisas e pessoas brilhantes por todos os lados. Estava tocando uma música com uma batida legal. Obviamente, Rebecca passou reto pelo salão principal, indo até o fim dele – uma parte mais reservada e alta. Audrey estava lá, claro que estava – e tinha um outro cara que eu não conhecia junto dela. Parecia que estava em um altar e que todos deveriam adorá-la. Era bem a cara dela.

– Que porra é essa? – minha namorada gritou, parando em frente à amiga.

– Também amo você, sua chata – Audrey sorriu, mas Rebecca apenas mandou o dedo do meio para ela e continuou parecendo brava – Oh, vejo que você trouxe seu namorado... De novo – ela voltou-se para mim – Olá, Dylan. Ainda com aquele insuportável nível habitual de sarcasmo?

– Oi, Audrey – abri um sorriso falso – Ainda se achando a rainha do mundo?

– Claro que sim – ela sorriu e olhou para o cara sem camisa e com pintura de guerra ao lado dela – Eu sou a rainha do mundo, não sou?

– Com certeza – o homem concordou. Meu deus, como essa garota hipnotiza os caras? Quero dizer, ela é linda, mas também não é para tanto.

– Rainha do mundo? – repeti – Só se for de outro mundo.

– Calem a boca os três! – Rebecca gritou, atraindo nossa atenção e a de alguns outros – E dá para você vestir a droga da sua fantasia de volta?

O cara vestiu sua camiseta verde, número 6, do New York Jets de volta. Sim, ele estava fantasiado de jogador de futebol americano. Apesar de que era meio contraditório usar uma camiseta de um time de Nova York em plena cidade de Atlanta. Audrey levantou e só então percebi que ela estava vestindo uma roupa preta com vermelha de latex. Ela havia se fantasiado de Arlequina, legal. Uma supervilã, combinava com ela.

– Por que você está tão estressada? – Audrey fez careta – Dylan não pegou você hoje ainda?

– O que diabos ele está fazendo aqui? – ela falou aquilo com nojo.

– Eu convidei ele, oras – a outra menina deu de ombros.

– Nós temos um acordo, lembra? – o cara falou, enquanto eu só observava, já que eu não tinha a mínima ideia do que eles estavam falando.

– Não perguntei nada para você, fica de boca fechada – o homem parecei ficar com raiva, mas se calou – Agora me diz o motivo de ele estar aqui. E que merda você tem na cabeça para estar se agarrando com Tyler no sofá?

– Por favor, estou só curtindo – o tal do Tyler arqueou a sobrancelha, encarando Audrey, mas ela apenas abriu um sorriso para ele – Nada vai acontecer. Agora deixa de bancar a chata e vai se divertir com o seu namorado.

– Você não manda em mim – Rebecca rebateu e então começou a rir.

– Nem você em mim – Audrey riu – Por que você ainda tenta parecer brava comigo? Você nunca consegue.

– Você está fazendo coisa que não deveria – minha namorada a alertou.

– Se quer mesmo falar sobre relacionamentos, vamos falar sobre você e Dylan.

– Okay, vamos sair daqui – Rebecca puxou-me de volta para a pista, onde começamos a dançar.

– Você está bem? – perguntei à ela depois de algumas músicas.

– Estou ótima – falou alto para que eu pudesse ouvir – Obrigado por estar aqui comigo.

– Eu nunca deixaria você sozinha.

Ela me beijou. Era ótimo beijá-la, sentí-la perto de mim. Era um pequeno momento que era importante para mim, pois eu podia esquecer de coisas ruins. Pena que durava pouco.

Começou a tocar uma música mais lenta e nós dançamos abraçados.

– Rebecca, preciso falar com você... Agora.

Ouvi uma voz masculina dizer, mas quando olhei eu vi várias pessoas e não tinha mais nem ideia de quem era o cara que havia a chamado.

– Dylan, preciso ver o que ele quer – minha namorada disse antes de selar novamente nossos lábios – Eu já volto e ah, pode dançar com quem você quiser. Prometo que não vou ficar zangada.

E ela se foi.