Dois adolescentes se encontravam conversando naquela noite. O ar estava frio e o vento açoitava aqueles dois garotos, mas nenhum desses elementos da natureza fazia com que a empolgação deles diminuísse ou se esgotasse. O cenário não poderia ser menos convidativo para uma conversa: uma pedra disforme com o formato de uma ondulação feita pelo cimento. A noite escura deixava o cenário mais depressivo ainda. A única luz que iluminava aquele ambiente era de um poste que, vez ou outra, piscava demonstrando que também estava empolgada com aquela conversa. Sentados naquela pedra de um lado estava um garoto com cabelo curto e encaracolado vestido com uma blusa, jeans e all star respectivamente pretos. Na blusa, uma caveira existia como estampa. Do outro lado, um menino um pouco mais baixo que o outro, porém com quase o mesmo tamanho de cabelo. A roupa era o que mais os diferenciava. Enquanto um exibia uma atmosfera mais mórbida e gótica o outro estava utilizando um bermudão marrom e uma blusa preta que – ao invés de uma caveira – possuía uma bateria estampada.

- Você tem que prometer agora, William. – falava o garoto de aparência mais descontraída e largada

- Eu já disse que aprenderei a tocar guitarra como o Santana, está feliz? – falou William, amarrando o cadarço de seu tênis

- Não, você tem que prometer. – argumentou o outro menino

- Tommy, eu prometo aprender a tocar guitarra caralhosamente. – disse o garoto colocando sua mão esquerda no peito e fazendo a expressão mais série que conseguia

Ambos riram.

- Mas, você também terá que aprender a tocar bateria como o “The Rev”, heim? – falou William deixando-se deitar na superfície daquela pedra

- Então está feita a promessa. Daqui a alguns anos, eu voltarei aqui e se você não estiver tocando caralhosamente na guitarra, seu Zé Merda... eu decepo seus dois braços. – falou o com a estampa de bateria ficando de pé

William riria, porém percebeu que Tommy se distanciava.

- Hey, seu Zé Buceta! – disse ele quando conseguiu levantar-se e chegar o mais perto suficiente para fazer com que o outro menino o escutasse sem ter que elevar sua voz – Você tem certeza que terá que ir? Você pode ficar morando na rua ou na minha casa.

Tommy abriu um sorriso, mas ambos sabiam que aquele era um adeus.

***

O menino que estava sentado em uma mesa daquele bar saiu de seus devaneios. Depois de todos aqueles anos, ele não acreditava que aquele momento finalmente estava acontecendo. Seu foco não era nem de longe a bebida que já estava esquentando no copo na sua mesa, as pessoas cujas qual não reconhecia nenhum rosto ou o local que estava decrépito e com infiltrações até onde os olhos podiam alcançar. O local estava com suas mesas completamente lotadas com direito a fila do lado de fora para poderem entrar no estabelecimento. Até o dono do bar estava espantado com a quantidade de pessoas. E isso não poderia ser diferente, eles haviam contratado a banda mais influente entre os universitários. Todos queriam prestigiar aquele evento.

A banda “Rest in Pieces” era bem seletiva em suas apresentações, possuindo em sua carreira um ano em que apenas fizeram três shows. Mesmo sendo uma banda que era conhecida apenas naquela cidadezinha, seus integrantes faziam muito sucesso. Mas, naquela noite para Tommy que havia viajado de muito longe, a atenção nem de longe era a qualidade do som da banda. Sua atenção estava voltada somente para uma pessoa: o guitarrista. O palco montado no improviso no centro daquele local estava com suas cortinas fechadas e, pelo visto, com um grande movimento na coxia. Tommy perdeu a conta dos minutos que se sucederam até que Eduardo, o vocalista, saísse de trás da cortina, pegasse o microfone e anunciasse:

- E aê, galera! Não esperava ver essa casa cheia assim em plena segunda, mas... A quem eu estou tentando enganar? Sabia que vocês viriam. Vocês são foda! Aqui está a “Rest in Pieces”.

Como se aquilo fosse uma deixa para tal ação, a cortina abriu revelando o resto da banda. A partir desse momento, a apresentação ocorreu a todo vapor. No repertorio as músicas mais conhecidas da banda. Porém, a atenção de Tommy continuava no guitarrista. William tinha cumprido com que prometera. Tom não sabia muito bem o real significado de “caralhosamente”, mas o que estava vendo a sua frente era o mais perto disso que já havia visto na vida. Os dedos de William corriam freneticamente pelos braços da guitarra fazendo com que sons inusitados dessem ritmo às melodias. Todos curtiam o show quando Eduardo, após o fim de uma música, pegou o microfone e começou a falar:

- Eu sei que não deve ser surpresa para alguns de vocês, mas essa é a nossa ultima apresentação. O “Rest in Pieces” chegou ao fim.

A maioria das pessoas, que antes assistiam a apresentação com entusiasmo, recebeu a notícia com total surpresa. Tal sentimento era esboçado facilmente na expressão de total descrença que todos apresentavam em seus rostos. Indo contra toda essa comoção, Tommy se mostrava impassível. Já sabia dessa notícia. Inclusive, fora ela o fator motivador de ele estar sentado naquele bar naquela noite.

- Por essa razão, nos iremos apresentar uma música que é completamente inédita. Se houver algum erro, nos desculpe. Na verdade, estávamos acertando os últimos detalhes dela na coxia, então...


(*)When you feel the world is above you
When you feel like screaming your lungs out
When you're in the darkness all alone
Don't let it eat you alive
You'll never be alone, you'll never be alone
A man's got to do what he's got to do
As long as you
Shout, scream your hearts out
Don't let nobody take you down
Where you ain't belong
Shout, scream your hearts out
Don't let nobody take you down
Where you ain't belong


A platéia deixou de lado o silêncio fúnebre e começou a pular descontroladamente motivada pela energia que saia da música.

Shout, scream your hearts out
Don't let nobody take you down
Where you ain't belong


Após alguns instantes, o refrão já era cantado por todas aquelas pessoas. Quando a cortina finalmente se fechou, o garoto se levantou da cadeira e foi em direção aos integrantes da banda que eram escoltados por uma forte segurança de volta para o camarim. Quando chegou perto o suficiente, um segurança, que possuía uma grande quantidade de músculos a sua ajuda, trombou com Tommy e se resumiu a dizer:


- Saia do meu caminho se não fizer parte dessa banda.

- Olha, eu só gostaria de falar com William, não quero nenhum tipo de problema. – desculpou-se Tommy mesmo sem nenhum motivo

- Ninguém está autorizado a ver William essa noite. – respondeu o segurança

- Mas... – começou Tom, porem sendo interrompido por uma pessoa

- Deixe-o ele entrar.

O segurança e Thommy se surpreenderam e foram obrigados a olhar em direção ao autor da voz. Para surpresa de ambos era William que havia escutado a conversa.

- É meu amigo de infância, Rodrigo. – continuou William

Mais tarde, dentro do camarim da banda, Thommy foi apresentado a todos o restante dos componentes da banda. Depois de falar com todos, foi levado para a cozinha que naquele momento era o lugar mais sossegado para se conversar.

- Então o que te traz aqui, little Tom? – disse William pegando duas cervejas da geladeira e dando uma para Tom.

- Eu fiquei sabendo que o “Rest in Piece” iria fazer sua ultima apresentação e não pude deixar de passar para apreciá-la, não é verdade? – falou Tom abrindo a tampinha da garrafa

- Sei. – disse o guitarrista, com sua atenção toda voltada para o gargalo que colocava na boca

- E também para chamá-lo para fazer parte da minha banda. – concluiu Tom

- Hum... – disse William finalmente ficando interessado no assunto – Veio cobrar finalmente a promessa. Você não sabe o tempo que eu esperei para isso.

- Se você deseja ver desse ângulo... Então, você gosta da idéia?

- É lógico, Tom!

Enquanto eles conversavam, o segurança que havia esbarrado em Tom entrou na cozinha.

- Ah, Tom! Queria apresentá-lo ao Rodrigo. Esse cara é um parceirão meu. Ele só é meu segurança, pois não quer viajar com a nossa banda sem fazer nada.

- Muito prazer, Rodrigo! – falou Tom enquanto estendia a mão para cumprimentar aquele indivíduo

- Desculpe por antes, mas é que os tempos estão difíceis para a banda. – dizia Rodrigo enquanto apertava a mão de Tom

- Como assim, William?

- Ah, nada demais. Só estamos recebendo algumas ameaças de um fanfarrão. Mas nada que se deve preocupar.

- Sério?! Então, estou indo viajar para encontrar com os outros integrantes da banda. Quer vir junto?

- Vamos nessa! – disse William


***
11 anos depois...

Rodrigo estava perplexo na platéia, eles haviam mesmo voltado. Pegou seu celular e releu a mensagem que havia recebido: “Vá para a rua X, faremos um show lá. Ass: Blood Machine”. Eles haviam voltado mesmo. Mesmo que fosse apenas para uma simples música, já havia valido a pena. Não falava com nenhum dos integrantes havia muitos anos.


- Rodrigo, o que foi? – disse uma voz ao seu lado

Rodrigo havia ficado tão extasiado que a banda havia voltado que havia se esquecido de Jennifer. Ele sabia o quanto deveria ser doloroso para ela estar lá no lugar dos fãs e não junto com a banda.

- Nada, amor. – disse ele seguido de um longo beijo

Notas finais
Música Shout da banda Black Tide.

(*)Tradução dos trechos:

When you feel the world is above you (Quando você sente o mundo sobre você)
When you feel like screaming your lungs out (Quando você sente como se estivesse gritando com seus pulmões)
When you're in the darkness all alone (Quando você está na escuridão totalmente sozinho)
Don't let it eat you alive (Não deixe isto o comer vivo)
You'll never be alone, you'll never be alone (Você nunca estará sozinho, você nunca estará sozinho)
A man's got to do what he's got to do (Alguns homens têm que fazer o que ele tem que fazer)
As long as you (Desde que vocês)
Shout, scream your hearts out (Gritem, berrem com seus corações)
Don't let nobody take you down (Não deixe que ninguém leve você para baixo)
Where you ain't belong (Aonde você não pertence)
Shout, scream your hearts out (Gritem, berrem com seus corações)
Don't let nobody take you down (Não deixe que ninguém leve você para baixo)
Where you ain't belong (Aonde você não pertence)

Shout, scream your hearts out (Gritem, berrem com seus corações)
Don't let nobody take you down (Não deixe que ninguém leve você para baixo)
Where you ain't belong (Aonde você não pertence)