Blood, Love and Sand.
3 Decisão Celestial.
Notas iniciais
“Mais que droga, outra reunião que aquele velho convoca, pensando que somos funcionários dele”, penso. “Justo agora que os americanos iam entrar em combate com os Iranianos. Espero que seja algo importante o suficiente pra me tirar daqui”. O Sol está quente, e o deserto do Oriente Médio é um lugar triste. Os americanos vinham armados, porém mais pra frente havia uma emboscada dos soldados do Irã. “Mais que droga”. Com uma explosão de fogo, característica minha, desapareço no ar com destino ao Olimpo.
Sou Marte, Marte Ultor como sou chamado. Deus das guerras. Um dos deuses mais importantes de Roma, afinal, a guerra sempre foi o sustento deles. Com o passar dos tempos, as guerras foram perdendo sua beleza. Acredito eu que nunca mais verei batalhas tão fodas como a de Aníbal contra Roma, onde seus elefantes de guerra passaram pelas montanhas rumo ao coração de Roma. Ou as lutas de gladiadores, onde apenas um saia vivo, e se fosse merecedor o bastante, conquistava sua liberdade. Hoje em dia é um tiro e uma morte, sem beleza alguma. O que dizer das bombas atômicas então? Uma bomba capaz de explodir tudo e matar instantaneamente. Não dá nem pra ver sangue, nem pra ver a cara de desespero dos perdedores. Realmente uma merda.
Chego ao Olimpo e percebo que ninguém chegou ainda. Além de Vênus, encostada numa murada, olhando distraída para baixo, para o mundo dos mortais. Usava um vestido de seda, de uma coloração rosa, mas bem claro, suficiente para mostrar e ocultar ao mesmo tempo seus seios definidos e firmes, sua barriga sem nenhuma gordura, suas coxas grossas e seu bumbum empinado. Realmente a deusa da beleza e do amor. Aproximo-me lentamente, tentando não fazer barulho, mas minha roupa me denuncia. Ela se vira e olha pra mim, com um olhar de tigresa e um sorriso inocente, então se volta para o céu e as nuvens.
–Olá Vênus, meu amor.
–Olá Marte. – Ela rebate, secamente.
–Ainda brava comigo?
–Sim Marte, mas foda-se. Vá atrás daquela modelo internacional e me esquece.
–Como posso te esquecer, se mesmo sendo deus das guerras, me sinto como o derrotado só de estar perto de você?
–Marte, já disse, vai se foder.
–Então tá... Enfim, o que está admirando? Algum casal apaixonado?
–Quem me dera. Esse mundo está um tédio. Não acontece mais nada que me cause euforia. Realmente me sinto a deusa do tédio.
–Sei como é. Penso na magnífica Roma antiga. Sinto saudades das guerras travadas, dos combates na arena, de tudo. As pessoas viviam por sangue, viviam pela guerra. Aposto que sente saudades também dos casos entre senadores e escravas, das traições, dos gladiadores que lutavam por amor. Lembra-se de Crixus, aquele gaulês considerado invencível? Depois de toda vitória, ele levantava sua espada e apontava para Naevia, a escrava de sua senhora que ele nunca pode possuir. Spartacus e suas duas espadas, que dilaceravam qualquer um no caminho do encontro com sua esposa e sua liberdade. Os irmãos Agron, que me faziam rir, sempre brigando na arena, mas matando todos que chegassem perto de separa-los. Bons tempos.
–Realmente, sinto saudades. Mas enquanto fazia seu discurso interminável, pensei em algo que talvez precise de seu apoio. O que acha de na reunião de hoje, levantarmos a questão de realizar jogos na arena. Nossos filhos lutariam, e o vencedor teria o direito da imortalidade. A Arena sempre trouxe sangue e corações quebrados. Você vê suas mortes, eu vejo meus casos de amores, e ambos ficam felizes. Temos um plano?- Ela sorri com astúcia, de uma forma que mesmo querendo, não posso recusar.
– Temos. Mas precisamos de apoio dos outros deuses, inclusive Júpiter. Febo ficaria do nosso lado, já que ele retiraria boas canções dessa situação. Vulcano gostaria apenas para ter chance de criar armas. Se tiver festas depois das lutas, já temos Baco do nosso lado. Comigo e contigo, somos cinco já. Netuno talvez goste da idéia, e convencendo Júpiter, vencemos. Feito?
–Feito. Agora deixemos isso para depois, pois vejo que eles chegaram. Deixe que eu falo na reunião.
E lá vêm eles, os deuses. Febo sempre com um brilho ao seu redor, com uma toga branca e linhas douradas de ouro. Traz sua lira, da qual tira breves tons que tocam a alma. Seguindo, temos Diana, sua irmã gêmea. Ela vem com um vestido prateado, como a lua. Seu arco está em suas costas. O cabelo adornado com flores silvestres. Realmente uma linda mulher, infelizmente virgem. Minerva vem em seguida, com uma camiseta vermelha flanela, calças jeans e botas. Suas rugas e seu olhar me lembram aquelas professoras malvadas dos filmes. Baco aparece, meio bêbado, como sempre. Estatura mediana, gordo, com olhos castanhos claros e roupas de um peregrino. Depois vinha Ceres, reclamando da vida novamente. Aquela velha era realmente um saco. Vinha com um vestido amarelo sem graça, que segundo ela, era a cor do trigo na época da colheita. Vejo Vulcano vindo com seu cheiro de coisa queimada, cabelos sujos de graxa e com seu tradicional macacão. Sua barba mesclada de branco e preto de graxa. Quase ao mesmo tempo chegam Belona e Mercúrio. Ela com seu jeito de mulher guerreira, com a espada na bainha, usando roupas de couro, e com duas facas escondidas nas botas. Sim, somos os dois deuses da Guerra. Mas brigamos mais do que cão e gato. Não a suporto com aquele jeito imponente, sempre me desafiando para um duelo. Minha vontade é socar sua cara pela eternidade, mas Júpiter proibiu duelos entre nós desde a ultima vez, a qual em menos de um minuto de duelo, conseguimos quase destruir a torre de Pisa. Realmente foi um milagre ela ter ficado daquele jeito. Mercúrio vem com roupas simples de corredor de rua, com o mesmo sorriso divertido e malicioso de sempre, preparado pra qualquer mensagem ou travessura. Então de repente a atmosfera muda, e uma onda de poder nos atinge. Quase ao mesmo momento, chegam os três grandes, com Juno acompanhando Júpiter. Ela usa um vestido branco simples, seu cabelo castanho escuro é trançado com fitas de ouro. É muito bonita, com um olhar orgulhoso e maternal. Ao seu lado, está Júpiter. Júpiter, o rei dos deuses, dos céus, dos relâmpagos. Usava uma toga branca, com detalhes de um azul vívido, da cor de um céu limpo. Trazia em sua mão o raio-mestre, o símbolo de seu poder. Tinha um olhar autoritário, com longos cabelos acinzentados, assim como sua barba. Netuno vinha logo atrás, vestido com suas tradicionais roupas que não expressam preocupação nenhuma. Sandálias de couro, uma bermuda caqui, uma camiseta florida no estilo havaiano e seu tradicional chapéu de pesca. Trazia seu tridente, o qual ficava jogando de uma mão pra outra. Antigamente, era obrigatórias togas nas reuniões, mas até os deuses cansaram de togas, então vem com a roupa que quiser. Por fim, mas não menos importante, temos Plutão. Um rosto branco como a neve e cabelos pretos como o escuro. Usava uma toga que parecia ser feita de almas, onde ela se mexia sem vento algum. Em sua mão direita estava seu elmo, símbolo do seu poder. Depois de todos presentes e sentados em seus lugares, Júpiter se levanta e toma a palavra.
– Estamos aqui novamente para uma reunião. Sei que é difícil para vocês, mas ordem é necessário. E agradeço por todos estarem presentes. Bem, podemos começar então?
– Um momento. – Vênus se levanta e atrai olhares de todos. Olhares apaixonados dos deuses e olhares de inveja das deusas. Ela solta um sorriso carismático e começa. – Bem, sei que é algo totalmente contrário aos assuntos aqui discutidos, mas o considero tão importante quanto. Estava a pensar na Roma antiga. Fechem todos os olhos e lembrem-se daqueles tempos. Posso ver que pelos sorrisos, trazem boas lembranças. Amigos, irmãos, vivemos em tempos de total tédio. As pessoas mudaram, não são mais as mesmas. Pensem em como era emocionante aqueles tempos. Guerras, amores, traições e tudo mais. Pensem na Arena. Nos jogos realizados no Coliseu. Gostaria de levantar essa discussão. Proponho a volta das batalhas na Arena. Mas não algo sem graça, como antes, com aqueles escravos sujos e imundos. Pretendo algo com semideuses.
– Isso é um insulto, nunca que deixaria meus filhos lutarem algo assim. — Ceres interrompe imediatamente.
– Ceres, minha amiga. Você sabe que desde sempre, nunca tivemos total autoridade com nossos filhos. Deixe-me explicar. Seria um torneio majestoso. Os semideuses podem escolher se lutam ou não, pois o prêmio seria algo irrecusável: a Imortalidade. Claro, eles não se tornariam deuses poderosos como nós. Mas eles poderiam servir aos seus pais. E digam-me, quem aqui recusaria a companhia do filho pela eternidade? Sei que todos vocês amam seus filhos. Essa é a chance deles brilharem, de se tornarem lendas. Serão lutas até a morte, e o vencedor terá a Imortalidade. O vencedor estará com vocês para sempre. Pensem na diversão, lembrem-se dos bons tempos da antiga Roma. Júpiter peço de todo o coração que considere minha proposta. Só isso que tenho a dizer, obrigado.
–É... Obrigado Vênus por essas palavras. Bem... Alguém quer falar algo?- Júpiter parecia receoso, então resolvi tomar a palavra.
– Eu estou com Vênus. Seria bom para todos isso. E seus filhos terão um premio digno desse torneio. E se eles morrerem, bem, como diria Crixus, o lendário Gaulês, todos merecem uma morte honrosa na arena. Andrew é meu filho, confio nele e em seu poder. No momento, ele é minha aposta dentre meus filhos. Se ele morrer, prefiro ver seu sangue banhado nas areias da Arena do que nas garras e dentes de algum monstro por ai. Febo pense hein Marie, sua filha. Plutão pense em Rich, seu preferido. Vamos, todos pensem em seus filhos. Agora pensem neles ao seu lado, por toda a eternidade. É isso caros amigos, na arena só existe sangue a areia. A morte dos seus filhos será honrada, o que renderia um lugar nos Elísios. Acreditem, façam suas apostas e rezem. Mesmo sendo deuses, rezem. Pois jamais se esquecerão desse torneio. — Termino, olhando nos olhos de cada um.
–Obrigado, Marte. Bem, alguém mais quer falar algo?- O silêncio reina pelo Olimpo. – Bem, aceito a proposta pra uma votação. Lembrando que a maioria vence. Quem é a favor do torneio?- Levanto minha mão prontamente, ao mesmo tempo em que Vênus. Belona levanta logo em seguida, e depois Febo. Já são quatro votos. Vulcano mantém a mão abaixada, o que me preocupa um pouco, por contar com seu voto. Netuno levanta sua mão, e com Baco também, somos seis. Vulcano enfim levanta a mão, seguido por Mercúrio. Oito, o número que precisávamos. Júpiter respira profundamente. – Bom, parece que temos um torneio. Marte e Vênus, cuidem de tudo, já que ao me ver isso parece ser idéia de vocês.
–Júpiter, mesmo sendo Mercúrio o mensageiro dos deuses, gostaria de eu mesmo avisá-los. Sem problemas?
–Claro Marte, vá. Enquanto isso continuamos com a reunião.
Levanto-me e me jogo ao céu aberto, pensando no feito a pouco conquistado. Finalmente algo que divertido. O vento bate em meu rosto com força, incomodando um pouco. Desapareço em minha tradicional bola de fogo e apareço em frente ao quarto da 5°coorte. Todos os semideuses que estavam jantando olham pra mim com espanto. “Chegou minha hora”, penso.
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