Blood, Love and Sand.
4 Avisos e Revelações.
Notas iniciais
A lua brilha lindamente, e pela janela do meu quarto tenho visão total do céu. Em meus fones, a guitarra de Jimi Hendrix chora, tocando cada canto de minha alma. A leve brisa da madrugada leva meu pensamento para longe, mas ele infelizmente não consegue se afastar do Acampamento. Não depois dessa noite. Não depois do aviso dado por Marte Ultor. Inicialmente ninguém queria participar, mas depois de anunciado o prêmio, decisões já tomadas foram repensadas. Realmente, um prêmio digno. A imortalidade. Se os deuses pretendiam nos prender e atrair nossa atenção nesse torneio, eles conseguiram. Depois da saída de Marte, Reyna apareceu com seus dois cães, Argentium e Aurum. Todos estavam mudos, e se ouve as folhas balançando com o vento noturno. Depois de um abraço e alguns cumprimentos, conto o ocorrido a ela. Ela parece assustada e confusa. Realmente não é uma notícia que seja fácil aceitar do dia pra noite. Ela pede para todos irem para suas camas como se nada houvesse ocorrido, e que uma reunião no dia seguinte com os lideres das coortes seria convocada. Todos se afastam, então aproveito a situação e puxo Annie Englert para um abraço. Ela é pequena, batia em meu ombro, mas tinha um abraço quente. O cheiro de cigarros e vinho era marcante nela. Conhecemo-nos de um jeito estranho e louco. Tudo começou numa festa, se não me engano a minha festa de promoção a pretor. Depois de muito bêbado, sentei na grama e tirei um maço de cigarros e um isqueiro do bolso. Acendi meu cigarro e fiquei admirando as planícies. Então surge uma garota pequena, de óculos, totalmente alterada ao meu lado. Ela pede o isqueiro, que entrego com prontidão. Depois disso começamos a conversar, ambos bêbados e felizes. Eu por minha promoção, e ela por finalmente ter se declarado a garota que amava naquela noite. E disso surgiu uma amizade forte. Alguns dias depois se espalhou a notícia de Annie Englert da 5°coorte namorando Lana, filha de Plutão e a “joia” da 3°coorte. Alguns foram contras, outros a favor, mas quem se importa? Elas se amavam e foda-se o mundo. Maximus e Optimus parecem pesadas em meus dedos, como se estivessem pressentindo o perigo. Talvez o perigo que se aproximava com esses jogos. Apesar de que estava decidido já a não participar. Primeiramente por ser um pretor e ter uma espécie de “fama” a manter. Além disso, eu realmente acreditava que a vida eterna devia ser um saco. Ver as pessoas que ama morrer sempre, e você continuar ali. Realmente triste. Meus olhos se tornam pesados e finalmente caio no sono. Sem sonhos dessa vez, apenas alguns flash do passado. De minha casa no Brasil. De minha mãe dirigindo loucamente as estradas da Califórnia, tentando chegar a Oakland Hills comigo o mais rápido possível. E uma cena um pouco confusa. Minha mãe na flor da idade me segurando no colo e, espiando por detrás dela, estava um homem com um tom autoritário e general. Cabelos acinzentados e barba aparada. Em seu braço, a tatuagem de um raio. Mesmo com um sorriso besta no rosto, como de um velho avô quando vê seu netinho, você podia sentir poder emanando dele a todo momento. Não precisei de mais respostas para saber que admirava Júpiter e minha mãe, quando nasci. Então de repente ele se vira e olha pra mim, com um olhar pesaroso, seus cabelos que, antes parados, se mexiam lentamente com a brisa. Consegui captar suas palavras antes de ele sumir de minha mente. Dizia “Seja forte meu filho, um coração aflito não sobrevive nas areias de sangue. Sangue e Areia. Apenas isso existe na Arena”.
Desperto com os barulhos matinais do Acampamento. Meu relógio indica 07h00minhoras da manhã. A reunião ficou marcada para 07h30min horas. Sem problemas, tenho tempo suficiente para se arrumar. Levanto-me ainda sonolento, pego minha camiseta roxa do Acampamento, uma cueca limpa, calça jeans um pouco rasgadas devido a algumas quedas de skate, um par de meias e meus tênis. O caminho até as termas é tranquilo, esse horário os campistas ainda estão dormindo. As termas estão vazias, então escolho um chuveiro qualquer e entro. A água quente que cai me desperta, mantendo-me alerta para mais um dia. Depois de pronto e vestido, me dirijo à sala de Reyna, local matinal das reuniões.
Ao entrar, percebo que todos estão ali, apenas esperando a presença dos pretores, no caso, Reyna e eu. Andrew me recebe com um sorriso. Ele veste a tradicional camiseta roxa, calças caqui e tênis Vans bem usados. Brinca com uma adaga realmente linda e assustadora, com caveiras incrustadas em seu cabo. Ao seu lado está Marie, com aquele lindo sorriso dela. Seu cabelo está amarrado em coque, uma simples camiseta azul e shorts. Talvez um sorriso bobo tenha tomado conta de mim. Seguindo a ordem, temos Rich Stonem, com seu tradicional jeito sombrio. Usa roupas todas pretas, seus cabelos grandes e bagunçados caem até a altura dos ombros. Ao seu lado temos Chris e Cook O’connell. Ambos brancos de estatura mediana, cabelos castanhos e olhos sempre alertas. Os dois cochicham um com o outro, e não duvido que estejam planejando as próximas travessuras. Por fim, mas não menos importante, está Yoshi. Talvez não o citei ainda. Pois bem, Yoshi é filho de Baco e comandante da 5°coorte. Um cara magro, porém forte, cabelos encaracolados, pele morena. É aquele amigo que topa qualquer coisa, desde que os amigos estejam juntos. Annie é seu braço direito na 5°coorte, no qual os dois filhos de Baco tendam reerguer a moral. Enfim, todos apresentados, podemos seguir.
– É... Oi galera. Cadê a Reyna?
– Ela passou aqui e disse que já voltava. Parecia apressada. Senta ai Gui. – Andrew responde. Sento-me em volta da mesa e admiro o ambiente. A sala dos pretores era realmente parecida com a sala de um comandante Romano de antigamente. Uma mesa com o mapa dos Estados Unidos, decorações e esculturas romanas dividiam espaço com a tecnologia de radares, uma TV gigante onde passava todos os noticiários mundiais e armas. As armas eram o que mais chamava atenção. Fuzis da segunda guerra, espadas, machados de bárbaros. Você vivencia todo o armamento da humanidade naquela sala. Desperto de meu transe com a entrada de Reyna, seguida por seus “totós”, Argentium e Aurum. Ela se senta ao meu lado, olha nos olhos de cada um e começa:
–Todos sabem por que estamos aqui. Parece que os deuses estão querendo se divertir conosco. O que acham de tudo isso?
– Eu vou entrar, e mostrar a todos que sou o mais forte e digno de ser um deus. Quero ver quem aguenta comigo. – Andrew fala firmemente, com o peito estufado.
–Luto apenas quando necessário. Por minha vida e de meus companheiros. Fora isso, estou suave, como diria o Gui. – Marie diz com uma cara séria.
–Não sei, tanto faz pra mim. Estou fora. Mas se meus guerreiros querem participar, não ligo. A morte vai chegar a todos mesmo. – Rich responde friamente.
–Me digam ai suas apostas, vou organizar um esquema. Vamos apostar – Cook responde travesso, e Chris ri junto.
– Não sei, não acho que guerreiros meus queiram participar disso. – Yoshi diz calmamente. Fico pensando em meu sonho, e de repente vejo todos os olhares em cima de mim.
–Eu não estou a fim de participar. Não vejo a imortalidade como um presente. – Respondo rapidamente.
–Bem, penso como o Guilherme. Mas temos que pensar que muitos arriscarão suas vidas nisso. Sinto-me mal por não ter poder para parar isso, mas não posso contra os deuses. Se quiserem participar, eu não ligo, mas preferia que ficassem de fora disso. São meus comandantes, pessoas que valorizo, que lutam ao meu lado. Somos amigos. Seria ruim demais perder alguém assim, como... Bem, como Jason.- Reyna abaixa a cabeça e brinca com seus cabelos, com pesar. Sei como ela se sente, Jason era especial pra mim. De repente suas palavras vêm até mim. Não sei se conto a ela ou não, mas decido deixar para depois. Peço a palavra e digo:
– Somos os comandantes do Acampamento, mas os deuses deram livre arbítrio a todos. Não vou impedir ninguém, porque realmente não posso. Mas peço que se forem aceitar isso, pensem bem nos prós e contras. Estão arriscando sua vida. Pensem nas pessoas que amam e vão deixar pra trás, e pensem se realmente vale a pena a imortalidade. Todos sabem que isso não passa de um passatempo dos deuses, e estamos sendo seduzidos pouco a pouco por eles. Não sei o que ocorrerá, mas desejo sorte aos que vão lutar. Que sua busca traga resultados satisfatórios. Valeu galera.
– Não é o que o garoto fala bem? Estou abismado. – Uma voz surge num canto da sala. Um homem magro, com roupas de corredor e sorriso maroto aparece. Cook e Chris se assustam, e de repente ficam sérios e mudos como uma porta. – Sou Mercúrio, mas já devem saber. Chris e Cook, parem com isso seus idiotas, parecem que nunca me viram antes. Mas acho que nunca me mostrei para vocês. Bem, então admirem o pai de vocês. Voltando ao assunto principal, vim falar com vocês sobre o torneio. Regras básicas e tudo mais, sabe como é. Serão separados em chaves, lutas até a morte. Os vencedores vão passando até chegarem numa final. As lutas serão numa arena que está sendo construída no Olimpo. Quanto a armas, Vulcano estará forjando armas a todos. Podem lutar com o que quiser, e armas mágicas serão permitidas. Antes que achem injusto, serão feitas armas mágicas a todos, Vulcano está cuidando disso. Lutas de um contra um, e bla bla blá. Ah sim, ia me esquecendo. Cada coorte terá um Doctore, que são uma espécie de professor. Oenamaus fica na 1°coorte, Batiatus fica na 2°coorte, Quintus na 3°coorte, Varro na 4°coorte e Severius na 5°coorte. E depois de cada dia de luta, terão festas. Talvez até os deuses participem, afinal, que jeito melhor que esquecer a morte do que com bebida e alegria? Parem de pensar nisso como uma armadilha, vocês não estão sendo usados. Não colocaríamos a imortalidade em jogo se não fosse algo importante. Agora vou me retirar e quero Chris e Cook atrás de mim, tenho que ter uma palavrinha com os dois. Adeus. – Ele sai saltitante, seguido por seus dois filhos, que mais parecem cachorros adestrados. Andrew explode em uma gargalhada e diz:
– Esse é Mercúrio? Deuses, e eu achando que Chris e Cook eram cômicos. Reyna e Gui, peço licença, mas preciso ir treinar meus guerreiros. Somos a 1°coorte, então bem provável que a maioria dos lutadores do torneio será dela. Não quero deixar os deuses com sono durante as lutas, então pretendo deixar eles em forma para quando Oenamaus chegar. Posso?
–Claro. – Responde Reyna e eu em uníssono som. — Podem sair o resto, obrigado galera.
Todos saem devagar, despreocupados, ou pelo menos tentam aparentar isso. Eles são comandantes, precisam mostrar calma e firmeza mesmo quando tremem como uma arvore ao vento. Inspiro, respiro e solto:
– O que vamos fazer Reyna?
–Não sei. Se eles querem lutar, que lutem. Não quero me envolver nisso. E peço de coração que não se envolva também. Perder dois filhos de Júpiter queridos meus é muito pra mim.
–Reyna... Preciso lhe contar sobre um sonho. Vindo pra cá, no avião, sonhei com Jason. Ele estava todo sangrando, e me disse uma frase, como se fosse seu último suspiro. “Mate todos e sobreviva, irmão”. Não sei o que quis dizer, mas não paro de pensar nisso. Não sei se é um aviso, ou palavras de encorajamento. Realmente não sei.
–Entendo. Não se preocupe, vamos dar um jeito nisso. Jason sempre soube se cuidar, e ele vai voltar para nós. E se tudo falhar na vida, posso estar com ele na morte. – Ela sorri de uma forma triste, e pela primeira vez na vida percebo que ela o ama. Como sou idiota por não notar isso antes. Ela o ama e ele sumiu, e não deu notícias para ela. Ele apareceu em sonho para mim e não pra ela. Droga, não devia ter contado isso. Me levanto e saio, mas antes, deixo algumas palavras para Reyna:
–Você o ama, e sou um idiota por só perceber agora. Tenha fé Reyna, ele não esqueceu de você. Eu acredito que ele está vivo, e estou que se foda pra o que os outros falam. Tenha fé comigo, pois é tudo que temos. – E saio.
Fale com o autor