.:Richard:.

Acordou no dia seguinte à viagem de volta, sentindo ainda os efeitos do jet lag. Estava sentindo-se cansado, mesmo tendo dormido durante quase 10 horas.

Enquanto se arrumava, amarrando sua gravata de modo ágil em frente ao espelho, percebia a mão esquerda ainda enfaixada. E aquilo o fazia lembrar automaticamente dele. Maldição, o que estava acontecendo? O que era aquele sentimento angustiante que o fazia querer rasgar o peito e arrancá-lo de dentro de si?

Suspirando, deixou as mãos caírem ao terminar de ajeitar as vestes. Olhou-se no espelho. Estava vestido como de habitual; calças pretas e camisa social, que estava parcialmente encoberta por um blazer de cor bege. Em outra ocasião, diria que a escolha de tais peças faziam realçar as tonalidades escuras de seu rosto: seus cabelos e olhos. E uma barba rala começava a querer crescer.

Porém, sua mente estava longe dali. Estava no escritório, nervoso pelo o que encontraria. E por Dot, que não o contatara desde que chegou. Fechou os olhos e obrigou-se a esvaziar a mente. Não poderia fazer nada ficando ali parado se preocupando. Teria que agir.

***

– O que ele faz aqui?! – Lhe sussurrou um Lincoln perplexo, olhando para frente.

Tinham acabado de chegar à sede da AVI. Logo sendo alvo de murmúrios e olhares curiosos, porém os ignorou. Lincoln, como era habitual, o esperava no saguão, com dois copos de cafés em mãos. Mas outra pessoa também o esperava.

Pousou o olhar sobre o visitante, e franziu o cenho. Na sua mente, repetiu o mesmo que Lincoln dissera.

Ao centro do saguão, conversando com a recepcionista de modo descontraído, estava Christopher Walker, o presidente da AVI.

Ele trajava um terno cinza que lhe caía bem, apesar de tudo. Quando ele percebeu seu olhar, abriu um sorriso e andou com seus sapatos pretos e lustrosos, cruzando o saguão em sua direção.

– Richard! Graças a Deus! – Ele lhe deu um abraço, porém estava perplexo demais para retribuir. – Eu soube que tinha voltado para Seattle logo após aquele lamentável incidente. Vim aqui pois queria saber como está. – Ele se afastou, com um sorriso.

Algo dentro de si se remexeu de suspeita. Ele estava sendo cordial e informal. E até demais. Ele quer alguma coisa, sua consciência lhe disse.

– Eu estou ótimo, obrigado pela preocupação. – Disse, de modo educado, e percebendo que seus olhos visualizaram por um segundo algo pelo seu ombro e lembrou-se de Lincoln. – Ah, esse rapaz se chama Lincoln. Ele estava conosco no baile.

– Ah! Me recordo de o ter visto. – Eles se cumprimentaram com um aperto de mãos, Lincoln parecendo bastante receoso. – Você sabe mesmo aproveitar uma festa.

Ele abriu um sorriso para Lincoln que — viu cerrando os dentes – o fez que um rubor lhe subisse a face. Ele agradeceu com um aceno de cabeça e deu um sorriso leve, esticando os cantos da boca, e pôs-se novamente atrás de mim.

Christopher voltou seus olhos para os meus, agora adquirindo uma aparência séria.

– Preciso conversar com você. A sós. – Ele deu um rápido olhar para Lincoln de canto.

– Naturalmente. Podemos conversar no meu escritório. – Lhe respondi.

Ele assentiu, concordando. E logo seguiam pelos corredores.

Olhou seu rosto pelo rabo do olho algumas vezes. As pessoas que passavam olhavam-nos e o murmúrio era inevitável. Christopher, por sua vez, parecia indiferente à isso. Já devia estar acostumado por ser uma figura importante. Assim como Richard, ou algo assim.

Chegando no escritório, entraram, com exceção de Lincoln, que fora fazer seu trabalho.

– Sinta-se à vontade. Aceita uma bebida? – Disse-lhe, pondo o café, agora não tão quente, na sua escrivaninha.

– Sim, um uísque, por favor. – Ele se acomodou em um dos sofás, ajeitando o paletó. No mesmo lugar que Max sentara na vez que estivera ali.

Balançou a cabeça em um gesto involuntário. Como se quisesse tirar ele de sua mente. Mas era como uma abelha insistente. Zunindo e dando voltas em sua cabeça, deixando-o perturbado.

Serviu dois copos de bebida na mesa de centro, deixando a garrafa da bebida na mesma. Após ambos pegarem os copos, se prepararam para fazer um brinde, mas Christopher o interrompeu.

– Por todos que foram vítimas daquele evento terrível. Que possamos trazer justiça aos nossos mortos e reaver os vivos.

Lembrou-se de Caleb. Serena (ainda não tivera notícias dela após vê-la ser posta à Transformação e ser levada por Frank) e...

– À Justiça. – Disse, interrompendo os pensamentos, erguendo seu copo.

Ele entoou o mesmo, e brindaram, tomando um gole. Ambos levando os copos à mesa no instante seguinte.

– Pois então. – Seria direto. Queria saber o motivo daquela visita. – Do que quer falar?

Ele o olhou, seus olhos azuis, belos e misteriosos como duas safiras, pareciam o analisar e, tal como a pedra precisa, com olhar duro.

Por fim, ele se ergueu e ocupou-se em fechar as persianas da janela que dava vista aos empregados, que era alvo de olhares curiosos.

– Eu sei que seus amigos vampiros estão tentando encontrar os raptados. – Disse ele, em um tom firme, após fechar a última persiana e sentar novamente.

Manteve-se indiferente. Não era nada secreto o que fizeram, e tampouco ilegal.

– Sim, estão. – Bebeu mais um gole do uísque. – Há problema nisso?

Viu ele adquirir uma expressão dura e abrindo a boca para falar algo, mas mordia o lábio, se contendo. Ele estava escolhendo as palavras certas.

– Há sim. – Disse finalmente. – Esse é trabalho para pessoas aptas da AVI e RCS, que já está sendo providenciado nesse exato momento enquanto conversamos.

Ele endireitou sua postura, o encarando. Deu tudo de si para se manter o menos indiferente possível, ouvindo sua conversa.

– Quero que as retire; sim, eu sei que são mulheres. – Ele continuou. — Quero que elas não se envolvam nisso. Entendo que eles estão com seu amigo Maxwell, o Xerife. Que aliás está sendo substituído por Sylvie Magoni.

O choque em saber que havia já um substituto (ou substituta) para Maxwell o deixou pasmo, até demais, pois Christopher ergueu a sobrancelha diante tal expressão e continuou.

– Contudo, é só uma reposição temporária. Pois como sabe, uma cidade não pode ficar sem um Xerife a protegendo.

Ele respirou antes de continuar, deixando transparecer por um segundo um ar cansado.

– Só resolva isso, ok? Não precisamos de mais vítimas. – Ele piscou, respirando, antes de continuar. Adquirindo um tom mais autoritário — E quaisquer informações que adquirir que possa nos dar uma pista, me informe diretamente. — Ele disse, com um sorriso, embora seus olhos permanecessem duros e frios. — Posso contar com você, Richard?

Ele o encarou com afinco, lhe esperando uma resposta. Sabia que, por pior que fosse, ele tinha razão. Isso era trabalho para as autoridades. Porém, alguma coisa dizia para não confiar nele. Não sabia o quê. Mas seus instintos nunca falhavam.

– Sim, senhor. – Concordou com um aceno de cabeça, empregando o máximo de convicção que conseguia. – Eu providenciarei que as vampiras se retirem imediatamente.

Ele abriu um sorriso satisfeito, se levantando.

– Ótimo! Estamos conversados então.

Se ergueu também e ele o apertou no ombro, com estranha gentileza, fixando os olhos nos seus.

– Conto com você, Richard.

Assentiu, sorrindo com confiança, sem mostrar os dentes. Ele retribuiu.

Se despediram em seguida e o observou sair do seu escritório.

Ele queria tirar ele, Dot e Cassie da busca, mas nunca que as obrigaria a tal coisa. Não confiava em Christopher. Se haveria um resgate, seria pelas mãos dele. Estaria disposto a perder o emprego para isso.

Sorriu, olhando sua vista panorâmica nos fundos do escritório, bebeu o restante do uísque no copo. Agora estava na clandestinidade. E pela primeira vez, gostava disso.

***

O resto do dia seguiu praticamente o mesmo, embora o clima após o que a mídia internacional chamava de Atentado de Los Angeles ainda não estivesse dissipado completamente, o AVI voltava à normalidade.

Estava em seu escritório, terminando alguns relatórios que acumularam durante sua ausência, quando ouviu uma batida na sua porta.

– Pode entrar. – Disse, sem tirar os olhos e mãos do computador.

Lincoln adentrava no recinto, segurando uma pasta. Ele fechou a porta após entrar. Olhou para ele.

– Chefe. – Ele disse, de modo profissional, indo até ele e lhe oferecendo a pasta. – John esteve aqui e lhe deixou isso.

Observou a pasta de cor parda, pegando-a. John, o representante da Polícia de Seattle no AVI, pesquisava sobre eventos inacabados envolvendo desaparecimentos ou mortes de vampiros. Ficara surpreso em saber que tais coisas não eram muito comuns. E era um hábito ele o relatar tais descobertas, devidos os eventos desde o caso de Moon Forest.

– Obrigado, Lincoln. – Começou a abrir a pasta quando via Lincoln começar a dar meia volta para se retirar. – Não, fique. Eu posso precisar de você. – Apressou-se a dizer, olhando-o.

Ele assentiu e ocupou uma das cadeiras acolchoadas em frente à sua escrivaninha.

– Hm... – Murmurou, lendo o relatório contido dentro da pasta. Ele contava que um vampiro residente de San Diego fora morto há algumas semanas em uma floresta ao sul da cidade. O que vampiros veem de tão interessante em florestas? Pensou, franzindo o cenho ao lembrar do caso de Moon Forest.

Porém, estava relatado que testemunhas oculares viram ocasionalmente vultos encapuzados, de velocidade sobre-humana, vagueando recentemente pela cidade rumo à mesma floresta intitulada San Diego’s Regional Forest.

Mordeu o lábio. Essa era uma boa pista; e não podia deixar que isso caísse nas mãos de Christopher. Teria que ser rápido e discreto.

Se inclinou para seu telefone e discou o número de Dot, e esperou. Ela atendeu.

“Estou ouvindo, Richard.” Disse ela, em um tom determinado.

Admirava o jeito que os vampiros reagiram ao rapto de Max, era tanta... lealdade. Tal pensamento o deixou com um sentimento estranho. Não exatamente inveja.

– Eu tenho novidades. – E relatou o que acabara de ler no relatório para ela. — ...Então acho que deveríamos verificar. É uma boa pista.

Ela concordou, logo desligando depois de se despedir. Ela ainda não ia muito com a cara dele, sabia disso. Mas a força dos eventos os forçaram ao fazer essa aliança. Mas não tinha problema, o sentimento era mútuo.

Colocou o telefone sem fio no gancho, sentindo um Lincoln apreensivo o encarar. Ele parecia sentir o que viria a seguir.

– Onde está Joan? – Perguntou-lhe.

– Joan está no Centro de Treinamento, porque? – Ele respondeu, franzindo o cenho.

– Chame-a. – Disse, de modo convicto. — Vamos para San Diego.

Notas finais
Capítulo escrito por: Matheus