.:Lincoln:.

A maior parte do dia se passou como um borrão indistinto. O ar que pairava o dia seguinte após o anúncio que iriam para San Diego era de extrema apreensão, sendo que Christopher descobrindo poderia arruinar seus planos. O voo deles seria no fim da tarde, logo após o expediente. Porém, conseguira sair mais cedo do trabalho para arrumar sua bagagem.

Sentia seu estômago se embrulhar diante da ideia de ir para um covil com um exército de vampiro assassinos, mas sua intuição dizia que deveria ir. E, depois de ter uma breve discussão com Richard, conseguira o feito.

Sua casa em Seattle era discreta, fruto da herança de sua mãe, Tabatha, desde seus quinze anos. Desde então, o interior fora parcialmente moldado em seu gosto. A maioria dos cômodos permanecia intacta, com um visual clássico. Porém sua sala e quarto pendiam para um design mais moderno, com cores fortes e, de preferência, escuras.

Nunca conhecera seu pai. E sua mãe nunca contara à ele sobre sua identidade. Mas a única coisa que ela dizia que ele possuía seus olhos.

Olhou-se no espelho após preencher sua nécessaire. Seus olhos âmbares pareciam nervosos, visualizou. Fechou-os. Não podia de se dar ao luxo de ficar nervoso, Richard e Joan precisavam dele, sabia disso. E não era, de todo, vulnerável, sabia se defender...

Pouco tempo depois, Richard fora o buscar em sua casa, com Joan no banco do carona. Deixou suas bagagens, que não eram muitas, no porta malas, logo ocupando o banco dos passageiros.

Joan olhou-o pelo ombro e sorriu, transmitindo-o confiança. Uma mecha de seu cabelo ondulado lhe cobria parte do rosto. Adorava a mulher. Ela fora sua primeira amiga após começar a trabalhar no AVI. Tinha uma mente aberta além de ser divertida. Richard fazia o mesmo, olhando para ele pelo espelho do retrovisor, enquanto dirigia rumo ao aeroporto.

Ele, dentre todos, era o que tinha mais motivos para ir. Dava para sentir a determinação em seus olhos. Aquele cara mexeu mesmo com ele.

– Então... – Disse, quebrando o gelo. Enquanto rumavam para o aeroporto. – Onde encontraremos Dot?

– Não sei ao certo. Quando chegarmos lá, saberemos. – Ele disse, o olhando pelo retrovisor ao lhe responder.

Richard dissera que Dot e Cassie estavam perto de San Diego, então não demoraria muito. Provavelmente também estavam a caminho.

Recostou-se no banco. Sentiu saudades de Cassie. E pena. Uma garota tão jovem virando uma vampira. Ter a aparência adolescente por toda a vida. Deu um riso interno. De certa forma, via muito de si nela...

Era hora do rush e o trânsito no centro da cidade estava congestionado. Richard tamborilava os dedos, de modo impaciente. Joan se distraía, lixando a unha. O barulho persistente de buzinas o deixava tonto, de modo que se deitou, ocupando todo o espaço dos bancos traseiros e fechou os olhos, com fones de ouvidos tocando uma música Indie, de alguns anos atrás.

"Underneath it all we’re just savages
Hidden behind shirts, ties and marriages"

Expirou após tal verso, ele lhe trazia lembranças. Lembranças dolorosas. Que gostaria de esquecer... Mas se lembrava, infelizmente. Todo minucioso detalhe...

Finalmente o sono o alcançou, adormecendo enquanto os últimos versos tocavam... E o pesadelo começava.

Sentiu suas memórias voltarem para aquele ambiente infernal... Incapaz de fazer nada, somente reviver as dores do passado.

Las Vegas, 2018. Cinco anos atrás.

A famosa Las Vegas, lar dos cassinos mais imponentes do mundo. A cidade que nunca dormia.

Naquela época ainda não sabia a verdade. Sua mãe escondera bem tal segredo. Bem até demais.

Viviam em paz, e felizes, ele e sua mãe, que era médica. Até o incidente daquela noite...

Sua mãe voltava, exausta, de um plantão de quase 48 horas. Era tarde da noite.

Estava na varanda do segundo andar, observando a rua de tempos em tempos, esperando a vinda da mãe. Na sua mão havia um livro qualquer de escola que lia por lazer. E na mesinha ao seu lado, uma xícara de chá. Embora a intenção fosse deixá-lo acordado para conseguir presenciar a vinda da mãe até em casa, seu corpo relaxou, lhe trazendo sonolência.

Acordou com um grito. Se fosse um pouco mais longe, não ouviria, diante de todos os barulhos daquela cidade. Ergueu-se em um salto, olhando pela sacada. Um homem de costas, trajando vestes longas e pretas atacava uma mulher, cujo sobretudo se abria, revelando seu jaleco branco. Era médica. Sua mãe.

– ONDE ELE ESTÁ? — O homem corpulento vociferou, segurando sua mãe pelo pescoço e braço, a impedindo de se libertar, não importava o quanto se debatesse.

Depois de uns tempos, ela desistiu, encarando o homem.

– Vocês nunca o terão. — Ela cuspiu na cara dele após dizer as palavras. Um movimento suave com a mão direita chamava a atenção. Ela enfiou a mão em seu bolso e retirou de lá uma carteira, pondo-a no próprio bolso.

Levado pelo ódio crescente pela situação humilhante, o homem limpou o rosto com a manga da veste.

– Então nem você o terá. — Ele murmurou, friamente.

E no segundo seguinte, vira um clarão refletido em sua mão, um metal. Era uma adaga.

Ele a fincou na barriga dela, fazendo-a arfar de dor, sua cabeça batendo nos ombros do homem. Por um instante, ela ergueu o olhar, para sua casa. E seus olhos encontraram os seus.

Estava em choque. Lágrimas brotavam em seus olhos. Não...

Observava a vida se esvaindo dela, enquanto ela abria um sorriso. Aquele sorriso de "Tudo vai ficar bem." e moveu os lábios, sem som, mas os leu.

"Eu te amo"

Em seguida, a adaga foi retirada. E sua mãe tombou para trás, formando uma poça de sangue no asfalto. Ela estava imóvel, seus olhos estavam focados no céu. Ela estava morta.

O homem limpou a adaga nas vestes dela, de modo tedioso. Como se a vida de sua mãe não fosse nada demais. Sentiu seu sangue esquentar. Algo que nunca sentiu antes. Estava furioso. Um instinto mais forte, primitivo, aflorava dentro de si.

Ignorando todas as chances de que poderia sofrer ferimentos graves, pulou da varanda do segundo andar, chocando-se no chão com o corpo ileso. A adrenalina corria em suas veias. O mundo não existia mais naquele momento. Somente ele e o assassino de sua mãe.

Diante tal movimento, o homem se virou, olhando o jovem. Seus olhos vermelhos o encarava, divertido. Até que começou a correr na direção dele, em uma velocidade sobre-humana. O sorriso do homem vacilou.

– MORRA, SEU BASTARDO!

Gritou, pegando o homem pelo pescoço ainda em alta velocidade e chocando sua cabeça na parede do prédio em frente, o imprensando.

Ele não pareceu muito ferido, apenas livrou-se do atordoamento inicial. Olhou-o e riu. Era uma risada de escárnio.

– Ora ora... Parece que achei o grande prêmio. Pare com isso, moleque. Possuo ordens para te escoltar vivo. Mas usarei o que for necessário caso não decida cooperar.

Ordens? Escoltar? Do que ele estava falando?

Franziu o cenho, o encarando com estranheza. Encarou os olhos vermelhos sangue. Ele era um vampiro. Mas podia sentir que era um recém-criado. Embora tivesse um belo autocontrole para ignorar a sede de sangue.

Imerso em pensamentos, mal percebera que o homem ainda estava armado com a adaga. E que iria usar nele. Uma fração de segundo antes, porém, pôs sua mão na frente. Ao invés de ser seu corpo, a adaga atravessou a palma de sua mão esquerda. Deu um grito de dor e se afastou do homem.

Segurou o cabo da adaga com a outra mão e puxou-a. Ficou abismado porque, no instante que retirou a adaga, o ferimento, que sangrava de um vermelho intenso, estava se curando.

O homem observou isso e franziu o cenho.

– Como é possí-... Ah. — Ele adotou uma expressão de surpresa, olhando-o com um sorriso ambicioso no rosto.

– Você é mais valioso do que pensei...- Disse ele, caminhando até ele com estranha normalidade. — Será mais útil para mim. — Ele falava, com um olhar possessivo. Como se tivesse olhando para uma mina de ouro.

– Do que você está falando? — E percebeu que ele se aproximava cada vez mais. — Para trás! — Apontou a faca para ele, de modo ameaçador.

– Oras, por favor. — Ele revirou os olhos. — Ambos sabemos que não fará nada.

– Você matou minha mãe! — Gritou, com os olhos cheios de raiva, com a faca virada para ele.

– Ela não quis cooperar. Eu teria que matar ela de qualquer jeito, mais cedo ou mais tarde. — Ele disse, dando de ombros, com a expressão entediada.

E novamente seu sangue ferveu. Estava cansado daquele vampiro menosprezar sua mãe como se ela fosse não fosse nada. Deu um grito e correu até ele, movendo a mão da adaga pouco antes de o alcançar. O empurrou novamente até a parede antes de lhe ferir com a adaga.

Ele ria.

– Seu idiota! Não pode me matar com meta-...Oh!

Ele ofegou de surpreso, olhando para baixo. A base de madeira da adaga estava fincada onde era seu coração. Lincoln segurava a lâmina com força, cortando a mão mas sem vacilar. E o sangue escorria da mesma ao mesmo tempo que as lágrimas escorriam de seus olhos.

– Vá para o inferno.

Disse friamente, vendo o vampiro ficar ainda mais pálido e, finalmente, morrer. Seu corpo inerte escorregou da parede e caiu de lado no chão.

Passou alguns segundos encarando o corpo do vampiro antes de cair a ficha. Tinha matado alguém. Ofegou, ficando sem ar e caindo no chão, começando à soluçar. Ele queria sua mãe...

Sua mãe...

– Mãe! Mãe! — Engatinhou até o corpo de sua mãe. O tecido em volta de sua barriga estava empapado de sangue, mas ignorou aquilo. Pegou a mão de sua mãe, observando seu rosto. Ela encarava as estrelas com serenidade, com um sorriso terno nos lábios. — Mãe...

Fechou os olhos, sentindo as lágrimas escorrerem. Estava sozinho. E pela primeira vez, não sabia o que fazer.

Respirou fundo, abrindo os olhos. Soltou a mão de sua mãe e fechou seus olhos. Não suportava mais olhá-los. Levou a mão até seu bolso do sobretudo dela, pegando a carteira do vampiro.

Abriu o objeto, vendo o que ali continha. Viu com repulsa uma embalagem de camisinha grudada à sua identidade. Alguns cartões de crédito, dinheiro e... O que era aquilo?

Um bilhete em papel branco estava dobrado, escondido entre as notas de dinheiro. Pegou-o e abriu, lendo seu conteúdo. Eram ordens.

"Deve perseguir Tabatha Winchester para descobrir o paradeiro de seu filho vampiro, Lincoln Winchester. É autorizado o uso de força bruta, mas deve-se trazer Lincoln vivo.

A recompensa será de 100 mil dólares.

Atenciosamente,

–----------------------"

O nome do autor daquela mensagem estava coberto de marcador preto, como se a informação fosse confidencial. Mas o que lhe deixava pasmo era o conteúdo.

Segundo o autor, ele era vampiro. E havia um preço de 100 mil dólares por sua cabeça. O que fazia ele tão especial? Ele não era vampiro... Ou era?

Encarou a mão ferida pela adaga. O ferimento estava quase cicatrizando. Como aquilo era possível? Mas ele era humano! Precisava respirar e podia comer comida normal! A não ser...

Ah, agora tudo se encaixava. Ele era humano. Mas nenhum humano correria tão rápido e pularia do segundo andar de um prédio e se manteria ileso. Mas também não era completamente vampiro, pois não possua sede incontrolável de sangue.

Ele era ambos. Humano e vampiro. Ele era um Dhampir.

– Lincoln... — Sussurrou sua mãe, distante.

Soltou a carteira assustado e olhou para ela. Ela estava imóvel, de olhos fechados. Como era possível?

– Lincoln, acorde! — Ele ouviu novamente. Não era mais a voz de sua mãe.

Abriu os olhos. Joan o encarava do banco da frente. Ela parecia preocupada.

– Você estava tendo um pesadelo. Você está bem?

Assentiu, sentando-se no banco.

Ela sorriu, aliviada.

– Vamos, chegamos no aeroporto. Achei melhor te acordar antes que Richard o fizesse.

Ela deu um riso. Sentiu-se obrigado a sorrir também.

Ambos saíram do carro e foram pegar as bagagens, junto a Richard.

Após isso, seguiram rumo ao aeroporto.

***

A viagem, em geral, se passou tranquila. Embora Richard estivesse preocupado com Christopher. Ele era uma autoridade influente, se descobrissem o que estavam fazendo estariam presos assim que chegassem a San Diego.

O que, felizmente, não aconteceu.

Se hospedaram em um hotel discreto na região sul da cidade. Ali, na fronteira com o México, os moradores falavam uma mistura de inglês e espanhol que muitas vezes o fazia se perder, porém Joan era fluente e logo se provou de grande utilidade.

Foi logo após o jantar, quando todos estavam reunidos no quarto de Richard, conversando sobre o que esperariam em seguida, que o telefone de Richard tocou.

Trocou olhares com Joan enquanto Richard atendia. Era Dot.

– ...Na floresta? Tem certeza? — Ele dizia, depois de algum papo.

Ouvia-se um murmúrio confiante, mas ao mesmo tempo ofegante. Deve ter acontecido algo.

– Ok então. Estamos indo. — E desligou o celular.

Ele e Joan o encararam, esperando. Ele pegou a chave do carro na mesa de cabeceira.

– Chegou a hora. Vamos resgatá-los.

Notas finais
Capítulo escrito por: Matheus