.:Cassie:.

Depois de algumas horas na estrada, Dot decidiu que era melhor fazermos uma parada pois o sol já estava para nascer, então paramos e nos hospedamos em um Motel em uma das rodovias.

Ao chegarmos lá, Dot reservou um quarto para cada uma de nós (Nossa, não podíamos ficar no mesmo quarto?). O motel era composto por um grande estacionamento; havia dois andares e eles formavam um quadrado com um andar superior, nossos quartos ficavam no andar superior exposto, caminhamos pelo corredor e chegamos aos quartos. O de Dot era um antes do meu que ficava na ponta, ela me entregou a chave e disse que iria me chamar para voltarmos a estrada em breve.

Entrei no quarto e coloquei minhas roupas sobre a cama e sentei sobre ela. O quarto era simples e bem mobiliado. Tinha uma mesinha com duas cadeiras em um canto, uma cama de casal encostada na parede e uma TV grande que ficava por de cima de uma criado-mudo de madeira. Tinha uma janela na parede do outro lado e uma porta que levava ao banheiro. Caminhei na direção do banheiro e comecei a me despir, deixando uma peça de roupa em cada lugar do banheiro. Entrei no box do chuveiro, girei a torneira e a água caiu sobre meu corpo.

Não é costume dos vampiros tomarem banho, eles não fedem e nem precisam fazer necessidades, mas algo me atraiu para água, estava me sentindo sozinha e perdida, angustiada pelo sequestro de Max, sozinha por ser nova em tudo nisso, em todo esse mundo. E por parecer um estorvo à Dot e por ela não sentir o que sinto por ela (Estou frustrada... Eu não deveria me sentir assim por ela). Deixei a água cair sobre meu corpo nu e levar para o ralo todas as minhas inseguranças, todo os meus problemas, estava nua de corpo e alma (Se é que eu ainda tinha uma).

Depois de 15 minutos eu saí da água e me enxuguei com uma das toalhas brancas. Me enrolei nela e caminhei de volta para a cama. Sentada, eu pude ouvir Dot conversando com Richard; Os dois falavam de um caso que aconteceu em San Diego nas ultimas semanas, um vampiro foi achado morto na região da floresta do sul da cidade e Dot estava pretendo checar as proximidades. Era estranho ver o que os dois estavam trabalhando juntos para achar Max, mesmo depois do clima tenso que ficou entre eles naquela noite no hotel, de qualquer forma era o melhor que podíamos fazer, nos unir para achar ele. Me deitei de toalha e virei o corpo pro lado esquerdo e eu pude sentir o calor do sol bater contra a janela, ele estava nascendo então logo me cobri com o cobertor cafona da cama e fechei meus olhos, entrando no estado de transe.

***

Eu estava em uma casa de praia. Toda sua mobília era rústica e vintage. Eu tinha acabado de acordar quando percebi que filetes de luz do sol atravessavam as pequenas aberturas da janela de madeira, caminhei contornando os raios de sol cuidadosamente e fui até o corredor de portas e quartos, todas portas estavam abertas e mostravam quartos bem decorados com o mesmo ar ‘’simplório’’ do meu, caminhei próximo a um deles e antes mesmo de entrar pude ouvir a voz de Dot, ela estava chamando meu nome, então eu desci as escadas que rangiam com meus passos e entrei a sala de estar, que era bem ajeitada com um sofá estofado no centro, um TV antiga com acabamento em madeira, alguns quadros com paisagem com um sol grande e escaldante, Dot estava sentada no sofá olhando para mim com um sorriso largo no rosto, ela vestia uma vestido leve e florido com flores de diversas cores, franzi o cenho pois Dot jamais usaria algo com tantas cores no mesmo lugar, mas não questionei apenas segui para o sofá e me sentei ao seu lado, ela se virou para mim, com as mãos pousadas sobre as coxas, ajeitou uma mecha dos meus cabelos e eu apenas sorri sem saber o que dizer.

–Cassie, tudo vai ficar bem.., eu estou partindo mas meu coração sempre vai ficar contigo. – Ela continuou com a voz delicada, mas eu não compreendi seu significado.

–O que houve? O que está acontecendo? –Eu disse, não estava entendo mais nada.. e ela logo levantou e acenou com uma das mãos para mim e caminhou na direção da porta.

Ela segurou a maçaneta e virou para mim, deu um aceno com a cabeça e sorriu, abriu a porta e caminhou para uma luz forte. Era a luz do sol. O corpo de Dot começou a pegar fogo. Eu corri o mais rápido que pude em sua direção mas algo me impedia de atravessar a porta, eu estava presa para dentro da casa e o que me restava era ver seu corpo pegar fogo. Ela não gritava nem gemia, apenas estava aceitando o fogo entrar dentro de si, ela caiu sobre as areias e ia se transformando em pó aos poucos. Meu desespero e dor eram enormes, eu gritava e chorava por seu nome repetitivamente, não havia nada o que eu podia fazer, apenas assistí-la morrer lentamente. Até que ouço um som forte vindo dos fundos da casa, como um terremoto, e veio de novo, e minha visão começa a ficar turva...

Toc! Toc!

Tremi o corpo e me revirei na cama, era mais um dos sonhos (Mais um dos malditos sonhos!) e quem estava batendo na porta era Dot impacientemente.. (Oh, graças a Deus ela ainda esta viva) e um alívio preencheu meu coração, eu ainda estava enrolada na toalha e com o cabelo bagunçado.

–Só mais alguns minutos! Já estou indo!

***

Tinha finalmente me aprontado, estava vestindo uma calça jeans skinny azul escura, o par de botas que escolhi na loja, era a segunda vez em toda minha vida em que eu estava botas, elas eram de couro preto e eu podia dizer que caíram perfeitamente bem ao meu look, na parte de cima eu estava usando uma blusa de alça lilás clara que ficava coberta por uma bela jaqueta de couro marrom escuro com alguns traços avermelhados, eu estava no banheiro dando alguns retoques nas minhas vestes. Pude ver minha imagem no espelho eu estava com os olhos vermelhos brilhantes, meus cabelos ainda estavam sobre o efeito da prancha elétrica, eles estavam lisos e nas pontas ondulavam dando um charme. Pela primeira vez eu pude me sentir como uma mulher, como uma mulher bonita e poderosa, é como se aquela noite me revigorasse (Ok, sem contar o sonho, foi tudo muito bem).

Saí do quarto e me encontrei com Dot que estava me esperando sentada no capô do carro. Ela estava deslumbrante como sempre e meus olhos brilharam mais ao vê-la. Ela vestia uma calça jeans igual a mim mas o azul era mais forte, chegava a quase ser um preto, usava botas pretas que batiam no calcanhar; por cima uma camisa xadrez que mesclava entre roxo e preto e as mangas estava arregaçadas e ajeitadas na altura do cotovelo, usava um batom escuro que combinava com sua camisa, seus cabelos estavam presos por um rabo de cavalo alto.

Era diferente ver agora seus cabelos ondulados e não mais lisos como antes e por incrível que pareça eles pareciam maiores. Ela deu um aceno com a cabeça e eu entrei no carro rapidamente. Como anteriormente passamos o caminho todo caladas, as únicas palavras foram as dela explicando onde estávamos indo e quais eram as pistas mas ela não sabia que eu já tinha ouvido tudo ontem a noite. Fazia um noite linda lá fora; a lua cheia estava serena e se podia ouvir os grilos e as cigarras cantando, depois cerca de uma hora e meia para chegarmos em San Diego, a cidade estava ao todo vapor mesmo tarde da noite mas nosso objetivo não era ver seus costumes ou entrar em alguma casa noturna, teríamos que chegar ao outro lado da cidade, pelo que Dot disse é um lado mais calmo e iriamos para um município um tanto abandonado, e mais algum tempo se passou até chegarmos no lugar em que procurávamos, tudo estava silencioso e poucas casas estavam com as luzes acessas, passamos por algumas ruas acabadas e pouco movimentadas, seguimos por uma estrada ao oeste, ela estava toda esburaca e o caminho foi longo até chegarmos em uma área mais rural e algumas indicavam que estávamos próximos da ‘’San Diego’s Regional Forest’’ .

Dot estacionou o carro em um canto encoberto por árvores, descemos do carro e pude ter uma visão mais ampla da floresta; suas árvores eram enormes como aqueles pinheiros que meu pai costumava comprar para o Natal, suas folhagens eram de uma tonalidade escura de verde o que deixa a floresta com um tom misterioso, esta tudo escuro mas eu podia enxergar tudo perfeitamente.

–Vamos nos separar e verificar a área. Qualquer coisa que ver e ouvir me chame, ok? – Disse Dot dando passos a frente e seguindo por um caminho a esquerda, ela me olhou e deu um breve sorriso fraco.

– Ok!

E então ela sumiu em um piscar de olhos, indo para a esquerda da floresta e eu fiz o mesmo correndo pela direção leste, meus cabelos voavam conforme meus movimentos, eu corria de um lugar ao outro e parava para me concentrar nos sons, o que eu podia ouvir ainda era alguns insetos e as cigarras cantando ao fundo, tudo estava calmo e nenhum sinal de um possível esconderijo, e continuei minha corrida e do outro lado eu podia ouvir Dot em seus movimentos astutos.

Eu subitamente parei de correr e me encostei em uma das árvores. Eu queria fazer algo diferente hoje; queria poder mudar algo em minha historia e, quando acordei, depois de ver aquele sonho, algo me disse que eu deveria tomar alguma iniciativa. E se aquilo fosse alguma premunição? E se Dot corre mesmo perigo de morte? Deixarei-la morrer em vão? Não poderia suportar a dor de deixá-la partir e nem mesmo ter tentado nada. Um choque de eletricidade percorreu meu corpo me dando forças; me dando coragem. Aquela coragem que eu precisava. E seria aqui e agora. Parei de procurar. Eu sei que Max era mais importante, mas se eu não fizesse algo iria explodir logo logo. Segui na direção oposto onde Dot estava checando, eu corri tão rápido que mal pude ver o cenário a minha volta se mudando e encontrei-me com Dot, ela parou de correr e me olhou erguendo uma das sobrancelhas.

–O que houve? Viu algo? –Disse ela tombando de leve a cabeça para o lado.

–Não..., mas eu preciso te di-dizer algo..- (Oh, droga eu não posso errar agora, não posso hesitar).

–Dizer ? como assim? O que tem a dizer? –Ela pareceu confusa, sem compreender o que estava acontecia e eu preferi dessa forma, era menos torturante.

–Dizer não, eu preciso fazer isso...

Eu corri em sua direção rapidamente e empurrei contra uma das árvores, ela não desviou, ela não tentou me parar, segurei sua cintura com força e aproximei meu rosto ao seu e fechei meus olhos, encostei meus lábios aos seus, pude sentir toda sua energia transbordando a mim e foi assim em que me sentia, como se fogos explodissem dentro de mim e eles não paravam, sua língua encontrava a minha e ficávamos cada vez mais coladas uma a outra (Por que ela não me impediu? Isso significa que ela também sente algo por mim? ). Todo aquele fervor e animação ia cada vez mais aumentando dentro de mim.

Subi uma das mãos em sua nuca e a segurei (Sim, isso é um ponto infalível pelo menos era pra mim), mas um som como um gemido de uma pessoa veio ao fundo e tudo acabou em segundos.

Dot se desvencilhou de mim e se afastou correndo na direção do gemido, eu fiquei alguns minutos petrificada ali no mesmo lugar em que ela me deixou, sem saber o que dizer depois ou que fazer agora, mas a única coisa que era certa a se fazer era seguir ela e descobrir quem era (E quem estragou o meu momento), quando cheguei próximo a ela, ela tinha em seus braços um homem. Era um vampiro que estava todo ferido e com as roupas rasgadas, mas pelo que pude ver suas roupas eram um traje a ai pude perceber que ela era um dos vampiros que foram raptados, Dot o encostou em uma das árvores e agachou próximo a ele, e fiz o mesmo.

– O que aconteceu com você? De onde você veio? – Disse Dot apressada, olhando o homem.

– Eu consegui escapar mas eles acabaram comigo... Isso mesmo, vim do esconderijo dos Aniquiladores! – Sua voz saia tremula e fraca, e ai pude ver que tinha metade de uma flecha de prata fincada na região do seu peito, uma fumaça fraca saia pelo buraco feito (Acho que ele pode morrer a qualquer momento).

–Onde fica? Iremos lá ajudar! Estamos trazendo reforços. – Disse Dot olhando dele para a flecha, ela estava impaciente.

– Fica ao sul da floresta, vocês vão encontrar os trilhos e ai vai ter uma passagem a um túnel. Mas tomem cuidado... — E ele cuspiu sangue, tossindo sem parar.

–Não há nada em que podemos fazer? Você consegue tirar essa flecha daí? – Eu disse a Dot, estava me sentindo mal ao ver o homem sofrendo daquele jeito, mas Dot negou com a cabeça.

–Pode ser fatal, a qualquer movimento que eu faça com a flecha e pode mata-lo.. – Ela realmente parecia querer ajudar mas a flecha estava funda demais.

–Tudo bem.. eu vou ficar bem. Vão! Ajudem os outros vampiros! – Disse o homem, arqueando com as dores, ele parecia estar arrependido por algo (Será que era estar morrendo daquela forma?).

Dot agradeceu ao homem e deixamos ele ali encostado em uma das árvores, se saímos vivas talvez ainda poderíamos salvá-lo. Corremos rapidamente pelo sul da floresta, corremos como se não houve o amanhã e estar tão próximo de resgatar Max nos dava ainda mais forças para continuar, quando a floresta acabou ela deu em uma trilha dupla que se estendia circulando por toda a floresta, Dot caminhou de um lado para outro rapidamente procurando o acesso ao túnel até que conseguiu achar mais a frente um poço coberto por uma porta de aço resistente e pesado, me aproximei dela e olhei para baixo, a porta estava aberta e era tudo escuro e tinha uma escada feita de barras de metal que seguia para baixo.

–É aqui. Você está pronta? –Disse Dot olhando para mim com um olhar que me deu força suficiente para poder dizer que sim, mesmo que eu não estivesse ela me dava tudo aquilo que eu precisa e isso era o bastante. Ela sacou do bolso o celular e fez uma ligação ao Richard, deu as coordenadas exatas do lugar e então finalmente descemos em rumo ao desconhecido esconderijo dos Aniquiladores.

Notas finais
Capítulo escrito por: Thiago