Blood Lines - Kissed by Death
10 Shot Me Down
.:Richard:.
Era estranho como seus sentimentos agora pareciam confusos. Bang. Antes não simpatizava nada com os vampiros. Apenas os toleravam, estabelecendo a ordem. Bang. Não sabia se era seu subconsciente influenciado pela cordialidade dos vampiros da visita à boate... Ou de apenas um deles? Bang.
Ao longe, ouvia sons abafados, logo abaixava a pistola e retirava o cartucho vazio, deixando ambos os objetos na bancada. O ato de treinar sua mira no campo de tiro era uma atividade estranhamente terapêutica, achava. Olhava por alguns instantes o alvo com a silhueta humana. Todos os seus tiros acertaram no coração. Dava um sorriso de canto. Era bom saber que depois de anos ainda tinha prática.
A voz insistia, ainda quase inaudível, mas estranhamente conhecida. Ao retirar os abafadores de ouvidos, se virava, vendo Lincoln o observando de fora da cabine, com uma expressão relutante.
O jovem estava com seus casuais coturnos, embora o restante fosse mais profissional: Vestia uma camisa social vermelha dobrada até pouco antes dos cotovelos com jeans pretos, e usando seus óculos de armação grossa de leitura. Uma mecha do seu cabelo lhe caía no canto do seu olho direito. Lembrava que o outro odiava aqueles óculos, mas o mesmo descobrira que era alérgico a lentes de contato, deixando-o sem escolha.
– Senhor, desculpe incomodá-lo. Tenho notícias.
Ele dizia, quando se aproximou dele, o oferecendo uma carta. Elegante demais para ser uma mera carta. Franzindo o cenho de curiosidade, a abria, lendo seu conteúdo, ao mesmo tempo em que Lincoln lhe contava do que se tratava.
– Christopher Walker assumiu a presidência da AVI.
Christopher Walker... Então o maldito conseguiu o cargo? Lembrava-se bem dele. Fazendo uma breve careta de antipatia, rasgava a carta logo após ler, jogando-a no lixo. Sentia falta do velho Alastor. Este sim foi um homem admirável. Passou por todos os postos até chegar ao topo. Até fora seu tutor. Lamentava até hoje sua morte. Lincoln sabia disso e o observava com relutância.
– Deseja alguma coisa, senhor?
"Não. Obrigado, Lincoln." Lhe respondia, suavizando o clima carregado do ambiente com um sorriso sem dentes.
Ele então parecia relaxar e sorria, voltando à falar.
– Certo! Eu lhe providenciei um café. Está no seu escritório. — Ele dizia, mexendo na pasta em mãos de modo agitado enquanto falava, como se estivesse nervoso.
Assentia, agradecendo. O gesto o chamava a atenção e então erguia a sobrancelha.
– Quer me perguntar alguma coisa?
– O quê? Não! Haha... — E após ele ver seu olhar descrente, finalmente cedia, parando o gesto com um suspiro. — Tá bom... — Ele colocava a mecha vermelha atrás da orelha, olhando-o de canto. — Me chamaram na Divisão Científica.
Revirava os olhos, sorrindo de canto. Olhava o relógio e erguia o olhar.
– Certo. Pode ir. — E logo se apressava a acrescentar. — Mas não demore!
Ele pareceu se encolher, mas sorria ao ter o desejo atendido.
– Não irei! Obrigado!
Observava-o sair do recinto, rumo à ala da Divisão Científica, com um andar estranho e animado.
– Garoto estranho.
Murmurou, balançando a cabeça negativamente e soltando um riso baixo, logo seguindo rumo ao seu escritório.
***
No conforto de sua cadeira executiva no escritório, se ajeita na sua cadeira executiva e se debruçou para a escrivaninha. Fazia um gesto simples com o mouse para fazer o computador ganhar vida. Logo, ia fazer sua consulta diária aos seus e-mails.
A sua caixa de entrada, como sempre, estava cheia. Suspirava enquanto filtrava tudo, removendo os malditos spams. Quando começava à realmente ler os e-mails, franzia o cenho. Dentre todos aqueles e-mails, lia um com o remetente "Maxwell", e algo no seu peito pareceu encolher. Abria o e-mail, lendo-o. Prestava atenção na escrita tão... formal. Seria aquilo coisa de vampiro ou estava sendo tachado de velho? Agora se concentrando mais no conteúdo, despertando curiosidade pelo tal assunto. Será que o outro havia encontrado alguma coisa sobre um dos casos que discutiram na visita? Começava a digitar, visando o responder.
Caro Maxwell,
Estou curioso em saber que assuntos são esses que exigem minha atenção. Por que não vem à sede da AVI amanhã após o anoitecer? O receberia de bom grado.
Também obtive algumas atualizações sobre o caso do desaparecimento dos vampiros. Creio que seria de vosso interesse saber o que descobri.
Lhe aguardo.
Atenciosamente,
Richard Hamilton
Lera o que escrevera algumas vezes até se dar por satisfeito. Parecia cordial demais, mas acho que devia isso após tantos anos de antipatia pelos vampiros. Estranhamente, parecia querer agradar o outro. O que diabos estava acontecendo consigo? Respirava fundo e enviava o e-mail, observando a confirmação de mensagem enviada logo após.
Inclinou-se para trás, tocando as costas na cadeira, com um ar meio cansado. Olhava para o lado e via o café deixado por Lincoln. Naquele dia, contudo, recusaria o café. Precisava de uma coisa mais forte. Abria a última gaveta da escrivaninha e tirava de lá uma garrafa de uísque. Dava as costas à entrada do seu escritório, virando-se para sua vista panorâmica. Naquela tarde, chovia torrencialmente, mas não parecia se importar. As gotas de chuva batiam de modo incessante na sua janela. Bebia da garrafa, apenas observando. Sua cabeça, porém, estava longe dali.
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