.:Serena:.

Observou o cartão que segurava, de caligrafia formal, mas simples. Nele, apenas se lia um nome: "Franklin Williams" junto à um número telefônico e um e-mail. Depois de alguns instantes o pousava na mesa, fazendo leves gestos de negação com a cabeça. Não desejava ser uma vampira, por mais que aquilo fosse salvá-la e lhe dar alguns atributos admiráveis. Amava ser humana. Sentir o calor do sol em sua pele a fazia sentir viva. Sentir seu corpo quente... Vampiros, por mais quentes que fossem, eram frios. Aquilo a fazia se arrepiar. Tinha que haver outra alternativa. A resposta podia ser os vampiros, mas não nessa perspectiva... Estava trabalhando em algo...

– Ei, Serena!

Pulava da cadeira de susto, olhando o dono da voz com uma expressão de espanto.

– Mas que p... Ah, é você, Lincoln... — Respirava, pousando a mão no peito. — Pregou-me um susto.

Ele coçava a nuca, dando-lhe um sorriso de desculpas.

– Perdão, não vi que estava ocupada. — Ele olhava brevemente o cartão e por um segundo sua feição mudava, mas se normalizava no instante seguinte.

– Está bonita hoje. — Ele dizia, de modo evasivo, desviando o olhar e sentando-se na cadeira mais próxima.

Estava com seu uniforme: um jaleco branco por cima de sua camisa também branca e da saia preta até os joelhos, mas deixando transparecer a silhueta de seu quadril e coxas. Além de um salto alto da mesma cor, embora fosse mais discreto. Usava um batom vermelho framboesa, que lhe dava um pouco mais de vida. Desde a reunião na boate e a conversa com Frank, tentou esconder mais ainda seu estado, e a maquiagem fazia seu trabalho com louvor. Além, é claro, de sua peruca loira presa em rabo de cavalo.

Aproveitou o tempo para guardar o cartão no bolso, com um rubor no rosto.

– Então, porquê me chamou aqui?

Ele a olhava de modo curioso, sentado de modo que ficava inclinado para ela.

Sorria, em parte pela mudança de assunto, para o outro. Virando-se para sua mesa, pegava uma caixinha de papel e oferecia à ele.

– Um presente para você.

Ele pegava a caixa. Seu rosto um misto de curiosidade e surpresa. Logo, estava abrindo a embalagem. De lá, retirou uma embalagem onde continha duas lentes de contato, uma para cada olho, dentro. Ele deu um sorriso torto, logo olhando-a para falar, mas ela o interrompia com um erguer de mão.

– São hipoalérgicas. Um dos meus amigos é um oftalmologista e ele me informou sobre seu caso quando fez sua bateria de exames de rotina. Foram testadas em pessoas também alérgicas, e não houve nenhum efeito colateral durante uma semana de uso... E contando.

Seu rosto passou de descrença para admiração, e depois para preocupação. Era ótima em ler as emoções nos rostos das pessoas, mas o deixava falar sem querer ser mal educada.

– Mas... Como vou pagar isso? — Ele olhava as embalagens e depois ela. — Isso deve ter sido caro!

– O Plano de Saúde cobre isso. Relaxa, nem foi caro. — Dizia, fazendo um gesto de pouco caso com a mão.

Convencido, ele deixava-se aproveitar o momento, logo guardando a embalagem.

– Obrigado. Foi muito legal da sua parte.

Assentia para ele, até perceber seu olhar perdido em algum ponto atrás de si. Virou-se e olhou. Seus cadernos estavam abertos, espalhados em sua mesa. Todos eles contendo perguntas vagas e/ou fórmulas científicas de modo bem desorganizado. Relatos de uma mente conturbada que nunca descansava. Se assemelhava à diários.

Se apressou à fechá-los, uma vez que o conteúdo dos mesmos continha segredos íntimos e profissionais.

– Foi mal, Lincoln. Sigilo profissional.

E lhe dava um sorriso, que logo era quebrado com súbita tosse. Cobriu a boca com a mão, se curvando-se. Porém, quando tentou respirar, não conseguiu.

Lincoln a observava, primeiramente atônito demais para se mover, e quando saiu do torpor foi socorrê-la.

Tinha caído no chão. Em uma cena macabra em que sangue saía de sua boca e ela tossia, arranhando a garganta, com os olhos arregalados, incapaz de absorver oxigênio.

– Serena? Serena! — Ele a virou de lado e o sangue que havia em sua boca transbordou, fazendo uma pequena poça no chão.

– Ajuda! Alguém me ajuda aqui! — Sentia que fora erguida, sua visão estava turva. Ofegava, sem conseguir respirar.

Passos que pareciam distantes ecoavam em sua volta. Ar... Precisava de ar... Seus olhos se fechavam aos poucos. Sua última visão fora a mecha vermelha de Lincoln. Então as sombras as puxaram, rumo à inconsciência.

***

Abria os olhos aos poucos, porque um clarão branco irritava seus olhos. Quando seus olhos se acostumaram com a claridade, percebia que a luz estava pairando acima de si.

Estava deitada, estranhamente confortável. Algo estava espetando a parte de trás de seu cotovelo, mas estava dormente. Tentou falar, mas estava muito fraca. Sedada. Quando seus olhos entravam em foco e olhava à sua volta. Estava em um quarto de hospital.

– Serena? Está acordada?

Olhava para a direita e via a feição preocupada de Lincoln a encarando.

– O-onde... — Babulciava fracamente.

– No Hospital Saint Germain's. Você teve uma crise... — Ele a olhava, receoso. — Você tinha câncer e não contou para ninguém?

Não conseguiu responder. Sua cabeça estava estranhamente leve... Estava sem peruca. Abaixou o olhar, sentindo-se envergonhada e vulnerável. Encostou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos. Odiava aquela doença. Sua expectativa de vida não passava de seis meses...

– Hmm... Encontrei isso caído. Vou deixar aqui. — Ele retirou o cartão de Frank do bolso e deixou no criado mudo ao lado da cama, perto de onde deixaram seu celular.

Fraca demais para agradecer verbalmente dava-lhe um sorriso fraco, grato, sem dentes.

Olhou o cartão, lembrando-se das palavras de Frank. Vampirismo... Viver para sempre. Agora, naquele estado, não soava tão mal assim... Não. Negou mentalmente. Não queria aquilo. Queria ser humana. Viver sua vida de modo normal. Ter filhos... Não poderia ter isso sendo vampira... Sempre tem outro jeito, pensou. Não iria ceder tão fácil.

– Com sua vinda... Todos ficaram sabendo da notícia. — Ele lhe contava, mordendo o lábio, lamentando. — Eu consegui dispensa para te acompanhar.

Olhava-o diante a notícia. Agora todos sabiam... Merda. Merda merda merda.

Suspirou, fechando os olhos e pousando a cabeça novamente no travesseiro. Mas logo abriu os olhos e o olhou, reunindo forças para falar.

– O-obrigada. — Disse-lhe, em um sussurro quase inaudível, mas ele pareceu ter entendido, pois corara e sorriu.

Um barulho repentino vinha da entrada do recinto, e ambos viravam a cabeça rumo à mesma, vendo a enfermeira que acabara de entrar; uma mulher baixinha e rechonchuda dentro de um uniforme médico, segurando uma prancheta.

– O horário de visitas acabou. A paciente precisa descansar. — Ela disse numa voz autoritária que não combinava com sua estatura, mas algo em seus olhos diziam que ela não estava de brincadeira.

Voltou a olhar para Lincoln, com um sorriso grato subindo-lhe na face. Ele pegou a mão dela e ela a apertou.

– Tchau, Serena. Fiquei bem. — Ele lhe dizia, abrindo um sorriso acolhedor, soltando sua mão, que caía na cama. Olhou seus olhos âmbares, joviais e lindos. Lincoln era uma boa pessoa. Esperava estar viva para vê-lo de novo.

Ouviu seus coturnos ressoarem no piso até a saída e a enfermeira fechava a porta, ainda dentro.

– Você precisa descansar. — Ela tirou uma seringa do bolso, destampando-a e despejando a substância cor meio marrom no início do tubo que ia até sua veia do braço. Em poucos segundos, já sentiu a droga no organismo. E sem resistir, fechou os olhos, sentindo-se cada vez mais leve. E então dormia.

Notas finais
Capítulo escrito por: Matheus