.:Cassie:.

Nessa noite Max havia pedido a mim e a Frank para investigarmos as residências de Steven, ele nos passou todas as informações necessárias para a nossa missão, Steven tinha posse de algumas propriedades na cidade e tínhamos que verificar para ver se algo suspeito estava por lá e algo me dizia que tinha e eu estava animada para essa missão, era minha primeira vez , nova Cassie agora eu estou sobre controle de mim mesma. Então depois de umas duas horas tempo que Max nos deu para nos alimentarmos com garrafas de sangue sintético e nos vestirmos, eu estava usando um shorts jeans curtinho e uma bata azul clara, tênis all-stars azul escuro , meus cabelos volumosos e ondulados estavam soltos, eu estava em um estilo verão sem nem mesmo sentir calor ou frio, mas eu gostava desse estilo de roupas. Sai do Sexxx Dreams e lá estava Frank me esperando encostado em uma caminhonete vermelha escura, ela era grande e parecia já ter uns 50 anos, cabia ali apenas duas pessoas e Frank estava lindo como sempre, vestindo uma camisa preta que tinha gola em ''v'' e a calça jeans clara apertadinha, ele sorriu para mim e logo se dirigiu ao assento do motorista, eu entrei no carro sem dizer nada, estava um pouco insegura mas eu teria que deixar tudo aquilo de lado hoje, tinha que continuar mostrando a todos do que sou capaz e que sou forte, eles podem contar comigo, confesso que sinto um pouco de falta da Dot por aqui, mas ela ficou encarregada de fazer as compras de reabastecimento do Sexxx Dreams além de que iria cuidar das nossas vestes para o baile. Durante todo o caminho permanecemos calados trocando olhares as vezes e ouvindo alguma musica country de uma rádio que eu nem conhecia, depois por cerca de uns 20 minutos chegarmos ao conjunto habitacional que mais era uma pequena ''vila'' sem saída localizada no norte de Seattle, descemos da caminhonete e entramos no local, de principio estava tudo quieto e escuro, havia um aglomerado de casas uma juntas as outras, um cortiço de umas 30 casas, elas eram pequenas e tinham o mesmo estilo ,algumas com a cor diferente da outra com algum enfeite ou plantas que as diferenciavam, mas seu design era o mesmo, Frank segurava seu celular e o olhava atento, até que disse;

– São as casas 117, 118, 119, e a 146, a 117 é do lado esquerdo , vamos começar por ela.. — disse ele dando mais uma checada no celular e depois me olhou e eu apenas assenti.

Fomos rapidamente para a frente da casa 117, ela aparentava estar normal e sem danos, Frank deu partida e subiu as escadinhas que davam ao hall de entrada externo, ele era pequeno e tinha um banco encostado na cerca que mantinha o lugar mais privado, ele chegou até a porta feita de madeira antiga e estava pintada de amarelo claro, tocou na maçaneta e a girou e ela estava aberta, ele fez um sinal com os dedos como se tivesse me chamando e o segui. Entramos na casa e ela estava sem iluminação alguma, os moveis estavam em seu devido lugar mas eu os achei um tanto brega, pareciam ser de alguma década passada, todos feitos de madeira velha e o piso era de carpete sempre rangendo a qualquer passo, Frank foi vasculhando pela sala procurando qualquer sinal de que alguém já morou por aqui, eu estava um pouco perdida mas decidi fazer o mesmo, tomei coragem e subi as escadas indo até o corredor dos quartos , segui em frente e entrei em um quarto vazio e escuro, graças ao vampirismo eu podia enxergar tudo perfeitamente bem, nele tinha quadros com retratos pintados jogados pelo chão, em todos os rostos estavam manchados ou rasgados, eu andei com passos cautelosos sobre o quarto mas eu não escutava nada, não tinha ninguém, não havia respiração ou qualquer outro barulho ali, encontrei uma marca de sangue no canto esquerdo da parede, ele já era sangue pisado e parecia estar ali a um bom tempo, o quarto estava uma zona, a tintura da parede estava descascando e o carpete estava fora do lugar, andei até o outro lado do quarto e achei algo inusitado, tinha no chão um sinal estranho que por incrível que parecia se assemelhava ao mesmo símbolo do meu sonho, ele estava gravado a giz no chão e tinham algumas velas jogas ao redor, elas pareciam já ter sido usadas e algumas estavam cortadas ao meio, mas o que era aquilo? Um culto? O que será que ele fazia aqui? , voltei próximo ao corredor e chamei Frank baixinho e ele veio rapidamente eu mostrei o que encontrei, ele tirou foto de todas as ''evidencias'', e era só isso que continha na casa , não achamos mais nada por ali e decidimos sair, então fomos a caminho da próxima, entramos e revistamos tudo e nada continha lá, estávamos sem falar nada o tempo todo até que eu decidi que queria conhecer melhor Frank, eu não queria ficar apenas trocando olhares com ele, apesar de sua beleza me deixa confortável só com isso, eu queria saber mais, então eu disse;

–Frank..., como você se tornou vampiro? — Eu disse enquanto reviramos a casa 119 a procura de algo, estava próximo a cozinha e ele virou a mim, ele esboçou um sorriso sem mostrar os dentes e ajeitou uma mecha dos meus cabelos atrás de minha orelha, eu senti algo quente subir dentro de mim e sorri de volta para ele, então disse enquanto abria os armários da cozinha;

– Eu nasci em 1916 em Nebraska , EUA, meus pais eram marceneiros da cidade e eu estava crescendo e me formando para ser um soldado para a guerra, quando completei 25 anos entrei para o regime militar e fui para a guerra.. — Ele continua a revirar as prateleiras e armários, depois foi até a geladeira e abriu, eu estava o acompanhando e prestando atenção nele, e ele continuou

–Eu tinha uma vida boa, me casei aos 24 com Judith Laison uma garota da vizinhança e ela engravidou depois de dois meses de casados, mas eu tinha que servir e fui para a campo de batalha,.. — Ele parecia agora distante, como se suas memorias viessem átona em sua mente, talvez eu não deveria ter perguntado isso , mas acho que ainda é importante para mim conhecê-lo e saber sua história, mesmo assim ele continuo.

– Eu fui pro campo em 1941, estávamos enfrentando os japoneses em uma ilha de seu país, meu grupo de soldados foi praticamente aniquilado e eu fui gravemente ferido, levei um tiro na perna e braço, eu desacordei e depois acordei e ali fiquei agonizando por algumas horas até que Max me achou, ele disse que o campo iria ser dizimado pelos japoneses e tinha que me levar fora dali, eu não o entendia muito bem, ele me levou a uma casa afastada do campo e ali me transformou em vampiro, pois as balas já tinha penetrado de mais e uma infecção maior tinha tomado conta de meu corpo, ele sempre foi um ótimo criador.. , ele me salvou.

– Mas e sua esposa e seu filho? Como você lidou com isso? — Eu me sentia vivendo em seu passado, eu só pude imaginar o que ele relatava, suas palavras saiam de sua boca com um tom um tanto melancólico e não do jeito galanteador de sempre, eu tinha que perguntar.

–Max me treinou, me ensinou tudo por dois anos, ficamos afastados da cidade e de todos, ele me ensinou tudo que sabia e então me disse que eu só poderia ver me família depois que eu estivesse controlado, pronto para não atacá-los, ser um vampiro contemporâneo. Depois desse tempo ele me deixou voltar pra casa e quando voltei Judith havia casado com outro homem, meu filho Joseph chamava-o de pai e eu não existia mais a eles, eu estava como morto, então voltei e Max me levou para conhecer alguns lugares da Europa e essa foi ultima vez que os vi, mas todo ano eu vou até meu filho e o visito mesmo sem ele saber que eu sou seu verdadeiro pai. — Ele terminou e já esta vamos lá em cima quando me dei conta, estávamos verificando os quartos , eu me senti emocionada por sua historia, não deve ter sido fácil ver sua família reconstruída só que sem ele, seu filho chamar outro cara de pai e sua esposa estar com outro, mas acho que Frank soube superar, apesar do clima tenso que a conversa deixou, ele me olhava as vezes e dava leve sorrisos, como se dissesse: ''está tudo bem'' e eu me confortava por não ter o deixado mal.

***

Agora estávamos na casa 146, ela estava aparentemente acabada, sua fachada estava cheia de rabiscos feitos a mão com tintas de cores vermelha e preta, a porta da frente estava já aberta e sua tinta tinha descascado, alguns pedaços da madeira estavam apodrecidos, na sala todos os moveis estavam jogadas e quebrados, o sofá estava de ponta cabeça com as pernas arrancadas, dois criado-mudo estavam despedaçados com suas partes espalhadas pelo chão, novamente quadros jogados pelo chão e com os rosto riscados e manchados, havia no canto esquerda uma única estante pequena que sustentava uma TV velha e antiga e ela estava ligada e chiando com o a tela com pontilhados pretos que ficavam piscando, a cena era assustadora e parecida de um filme de terror, Frank novamente tirou mais fotos e seguimos a cozinha, por lá parecia que algo tinha explodido pois todos armários estavam estilhaçados e espalhados pelo chão, era difícil se locomover por lá, a geladeira estava jogada do outro lado próxima a quintal dos fundos e lá no quintal todas a plantas tinham sido arrancadas e jogadas pelo pequeno campinho que tinha ali.

Subimos as escadas e tinham três quartos, Frank seguiu para um deles em silencio e fui para o da direita e quando entrei meus logo seguiram para um amontoado de corpos dessecados na ponta do outro lado da sala, a cena uma das mais terríveis que já, eu ergui as mãos a boca e fiquei aterrorizada por alguns minutos, tinha sangue por todo canto, os corpos estavam um por cima do outro e seus órgãos estavam espalhados em meio ao amontoado, novamente pelas paredes tinha aquele mesmo símbolo e mais e mais velas espalhadas, alguns moveis estavam espeçados e fincada no centro do quarto tinha uma faca, ele estava fixada no chão de madeira em meio ao enorme símbolo que tinha no chão que só percebi quando dei alguns passo adiante, eu não fazia ideia do que era aquilo e por sorte logo Frank entrou no quarto, ele parecia um pouco impressionado e me segurou no braço para me confortar, ele tirou mais e mais fotos de tudo e isso era ''tudo'' que tinha por lá, eu fiquei com a cena por tempo em minha cabeça, eu era uma vampira que podia ser perigosa e matar pessoa por beber sangue mas jamais eu faria algo desse jeito, aquilo tinha me deixado sensível e chocada.

Voltamos a caminhonete e fomos rumo a Sexxx Dreams, mas algo estava me incomodando, depois de ouvir a historia de Frank eu tinha percebido que eu nunca mais poderia voltar para casa e essa ideia me assustava , eu queria poder dizer um adeus ao que restou das lembranças de meus pais e de minha casa, queria voltar lá hoje, então pedi a Frank;

–Frank.. gostaria de pedir um favor..- Virei o rosto para ele e me ajeitei no assento do carro.

–Claro, diga

–Você poderia me levar para minha casa? Eu queria fazer uma ultima visita.. — Suspirei como se fosse necessário e dei um tom sério ao meu pedido.

–Claro, claro, onde fica? — perguntou ele, prestando atenção em mim mas sem nem perder o controle no volante.

–Na rua Blue Ollen, numero 267. — Ele assentiu e partimos para lá, o que levou alguns 30 minutos, pois minha casa era do outro sentido, no lado oeste da cidade. Quando chegamos lá a rua estava quieta e tranquila, ele estacionou a caminhonete na vaga que meu pai guardava o carro que ficava de frente a minha casa, descemos e eu olhei ele, eu queria fazer isto sozinha e era só meu esse momento de despedida, então eu o pedi pra que ficasse me aguardando do lado de fora e ele aceitou numa boa,.

Segui para minha casa e abri a porta que estava aberta por sinal, vi a sala do mesmo jeito que era antes, o sofá estofado azul claro, a TV fixada na parede, a mesinha de centro com o vasinho da planta da minha mãe, o tapete que mesclava as várias cores no chão, segui para cozinha e tudo estava no mesmo lugar, algumas prateleiras e armários empoeirados e a geladeira estava cheia de comida estragada que alias o cheiro era terrível. Meus olhos estavam marejados durante todo o percurso, sai pela porta dos fundos e vi o quintal onde tudo aconteceu, eu olhei para o canto onde seus corpos estavam jogados aquela noite e eles tinham sumido, mas era como se eu ainda pudesse vê-los, e foi um pouco mais ao oeste onde eu acordei como vampira , eu não queria mais ficar ali e então subi para o corredor, entrei em meu quarto e vi os posters de cantores e famosos, minha escrivaninha e meus cadernos de desenhos espalhados sobre ela, meu notebook estava sobre minha cama, minha mochila jogada no chão e a janela do meu quarto estava aberta deixando a brisa entrar, eu me aproximei e pude ver a vista que eu costumava olhar quando era criança, era a rua de trás e que tinha a casa de Marcus e Joenne , meus melhores amigos, além de eu conseguir ver os prédios e um pedacinho do parque da cidade, era um ótima vista , eu não consegui me conter e as lágrimas escorriam pelo meu rosto, eu estava sensível e fragilizada pelo acontecido, sai de meu quarto e fui ao quarto deles, a cama de casal com a fronha e edredom com as cores combinando: um salmão clarinho, as almofadas ajeitadas da forma de cada um gostava, a janela também estava aberta e a cortina de renda balançava com o vento. Eu me sentei na cama e olhei para o criado-mudo de minha mãe e nele continua um porta retrato nosso, estava eu, meu pai e minha mãe, nesse dia estávamos no Seattle Park e esse foi um dos melhores dias da minha vida, meu pai tinha nos levado para conhecer o parque e estávamos tão felizes , tudo dentro de mim nesse momento havia se partido, quebrado ao meio, eu nunca mais veria meus pais, nunca mais sentiria seu amor, seu companheirismo, seus braços quentes para me esquentar, eu sou uma vampira, sou perigosa, sou radioativa, sou um ser da noite, eu posso ser muitas coisas mas eu continuo sentindo, continuo sendo vulnerável, e essa dor ardia em mim, era a perda, era a saudades que crescia e doía dentro de mim, me abracei ao porta retrato e deitei na cama e fiquei ali chorando por um tempo, eu estava dizendo adeus ao meu lar, minha casa.

Notas finais
Capítulo escrito por: Thiago