Blood Brothers
8 É preciso coragem
PVO Rose
Dois dias haviam passado desde a última vez que eu havia falado com Alvo. Ele tinha sido claro na manhã de terça quando me disse que precisava de um tempo para digerir o que estava acontecendo, apesar de entender a magoa que ele sentia, me assusta bastante a ideia de que ele nunca mais será o mesmo comigo. Sinto a sua falta, sinto muito e não consigo imaginar como seria se ele resolvesse que era melhor me esquecer.
Estando perto do Scorpius conseguia me distrair, mas nada era a mesma coisa sem Alvo e acabava que qualquer mínimo detalhe, uma palavra, um local, todas e quaisquer coisas tinham algo que me lembrava dele. Hoje tínhamos Runas Antigas juntos, gosto estudar e sentar ao lado dele, é tão esperto e interessado, mas hoje eu não sei com vai ser, ele tem me evitado o tempo todo e não vou ter Ramon ou Scorpius para me distrair.
Resolvi que iria até a cabana do Hagrid ouvir a opinião dele, já não aguento mais Lola e Sarah repetindo que eu havia perdido o juízo e Lily nesses últimos dias está com um mau humor tão grande que está impossível conversar com ela. Levarei o Ramon, ele também tem estado estranho ultimamente.
Vou para a sala comunal e a primeira coisa que vejo é Alvo sentado sozinho em um canto, ele não levanta os olhos, imagino que não tenha me visto. Ando em direção ao quadro de avisos na esperança de terem cancelado a aula de Runas, mas ao invés disso vejo um aviso que o primeiro passeio a Hogsmeade será nesse sábado, o que imediatamente me lembra de Alvo sorrindo enquanto pregávamos peças nas pessoas do vilarejo.
Vejo Ramon se aproximando pelo canto do olho e afasto os pensamentos. Ele tinha trancinhas coladas na cabeça hoje.
– Bom dia. – ele me diz sorrindo.
– Bom dia, leva a Lily. — sugiro apontando para o quadro de avisos.
A expressão dele muda instantaneamente e então percebo que o motivo do mau humor da Lily é o mesmo do Ramon, me condeno por não ter percebido algo tão óbvio antes.
– Me conta o que houve entre vocês. – falo como em uma ordem.
– Não, tudo bem, você já tem coisas demais em que pensar... — ele diz cabisbaixo.
– Ramon, por Merlin deixa de ser ridículo! — respondo indignada.
Ele lançou um olhar ligeiro, mas sugestivo em direção a Alvo.
– Alvo está te afastando da Lily? — pergunto surpresa.
– Só não quero perder a amizade dele. – ele responde dando de ombros.
– Como eu já perdi... – penso alto.
– Quê?
Balanço a cabeça em negação, não quero falar nisso agora.
– Vamos no Hagrid?
– Vamos sim, só nós. – ele responde e eu sorrio – Depois da aula. – completa e meu sorriso murcha rapidamente.
– O que está acontecendo contigo? Nunca foi de matar aula.
– É difícil ficar perto do Alvo, e eu não vou ter você ou Scorp para me distrair.
Ramon contrai os lábios em compreensão. Dou um meio sorriso em resposta e meus olhos se movem contra minha vontade na direção de Alvo. Scorpius falava com ele agora. Fico observando até Scorpius vir se aproximando e Alvo se levantar e sair da sala comunal.
– Dia. – ele fala me abraçando e plantando um beijo em minha bochecha, retribuo apenas o abraço.
Scorpius olha para onde eu e Ramon olhávamos e logo um grande sorriso brota em seu rosto.
– Hogsmeade! — exclama animado – Vai comigo? — me pergunta.
– Aham.
Scorpius fecha a cara e dá uma pancada com a palma da mão na própria testa.
– Que foi? – pergunto.
– Já tinha marcado com a Alene. – ele responde e dessa vez sou eu quem fecha a cara.
– Não se preocupe, vou desmarcar.
– Como você pode ter marcado com ela se acabou de saber? — pergunto começando a me irritar.
– A gente tinha combinado que ia junto assim que tivesse o primeiro passeio – ele justifica e vendo que não me convenceu, completa – Foi antes princesa, você sabe que para mim só existe você.
– Ok, só não quero ter que te livrar em cima da hora.
Ele coloca as mãos no meu rosto e olhando nos meus olhos diz:
– Já disse, não se preocupe – e planta um beijo na minha testa, mesmo ainda insegura acabo sorrindo.
– E você cara, leva a Lily, ai vamos nós quatro. – Scorpius sugere a Ramon.
Ele nega com a cabeça.
– Vou com Alvo mesmo...
***************
Fomos tomar café e vendo que Ramon realmente não iria comigo no Hagrid, me dirijo a passos lentos a aula de Runas desejando mentalmente que Alvo faltasse.
Quando chego, ele já está sentando sozinho em uma mesa, há apenas mais alguns alunos concentrados em seus livros. Penso em sentar no canto oposto e começar a estudar a matéria, mas minhas pernas não me obedecem e me levam em direção a ele, paro ao seu lado e ele não se move, continua olhando fixamente a mesa a sua frente.
Tenho certeza que ele tem consciência da minha presença e vendo sua falta de reação começo a questionar minha sanidade mental, se ele não quer falar, não devo insistir. Mas não importa o que eu pense meu corpo não obedece, e eu abaixo a frente dele, o obrigando a me encarar.
Seus olhos ainda são verdes, mas estão tão tristes que parecem mais escuros. Ele continua em silêncio, sem mover qualquer músculo.
A tensão do momento começa a me sufocar, questiono novamente sobre o que pretendo, e sem encontrar resposta ou sinal do que fazer digo a única coisa que vem a minha mente “Desculpa”, sai um pouco mais baixo do que eu planejava.
Por segundos ele não reage e penso em sair correndo dali, se minhas pernas me obedecessem eu poderia tentar fugir. Mas depois de um tempo ele estende a mão a acaricia levemente meu rosto, sinto minha pele queimar. “Tudo bem” ele diz me encarando por não mais que três segundos e deixando a mão cair, volta a olhar para sua mesa.
Ainda sem pensar, me levanto e vou até uma mesa do outro lado de onde assisto a aula se arrastar pelo que parece pelo menos uma semana e pela primeira vez eu saio de uma aula sem ter ao menos ideia do que se tratava.
***************
Sigo para assistir Poções e encontro Ramon sozinho na sala, ele diz que Scorpius foi falar com Alene. Conto sobre o meu descontrole na aula de Runas e ele não emite opinião. Depois de uns minutos Alvo e Scorpius chegam juntos, sentam na mesa ao lado e a aula ocorre sem que eu fale com nenhum dos dois.
Na verdade não falo muitas palavras até depois do almoço, quando chamo Ramon para ir na cabana do Hagrid.
Quando saíamos do salão, Chester Snow aparece fechando o caminho.
– Posso falar com você? – me pergunta.
– Fala.
– A sós. – ele diz olhando para Ramon.
Ramon ergue as sobrancelhas e diz:
– Na verdade eu queria mesmo comer um pouco mais de pudim. – e piscando um dos olhos volta para dentro do salão.
Snow faz um gesto como quem diz “primeiro você” e eu vou em frente saindo do salão com ele ao meu lado.
– Então Snow, o que quer falar?
– Bom, para começar acho que podemos concordar que poderíamos nos tratar por Chester e Rose, ou Chess se preferir. – ele falou sorrindo.
Revirei os olhos mentalmente.
– Tudo bem, Chess.
– Acho que isso quer dizer que você também concorda que nós deveríamos nos tratar melhor, não como dois inimigos, mas civilizadamente. – ele continuou.
Ergui minhas sobrancelhas.
– Até onde eu sei estou sendo civilizada. Aonde quer chegar? – pergunto parando bruscamente e o encarando.
– Vamos continuar caminhando. – ele diz me empurrando levemente pelas costas.
No momento já saíamos do castelo para o jardim.
– A que ponto quer chegar? – repito a pergunta.
– No ponto que você concorda que poderíamos nos aproximar mais e ser até, quem sabe, amigos – ele sorriu novamente e vendo que não me manifestei, completou – Não acha?
– Acho. Era só isso que queria falar? – pergunto ainda sem entender muito bem o motivo de tanta enrolação.
– Ok. Vou direto ao ponto. – ele disse e eu concordei – Quer ir a Hogsmeade comigo? – perguntou e seu sorriso tremeu levemente no fim.
– Como amigos, é claro, é que o James não vai, ele disse que vai fazer algo importante com o Alvo, mas não diz que te contei. – completou rápido entregando seu nervosismo.
Era um convite estranho, mas eu até considerei responder sim, afinal ele tem razão sobre sermos mais educados um com o outro, mas eu vou com o Scorpius e tenho um pressentimento bom sobre isso.
– Snow...
– Chess – ele me corrigiu.
– Chess, eu até iria com você, mas é que eu já combinei de ir com o Scorpius.
– Mas você sempre vai com ele, Ramon e Alvo. Seria legal variar as companhias. – ele insistiu.
– Dessa vez é diferente, mas se você quiser a gente pode beber alguma coisa depois no Três Vassouras – sugiro, não querendo ser grosseira.
– Tudo bem então. – ele concorda – A gente se encontra lá.
Sorrio e dou meia volta em direção ao salão principal, quando entro vejo que tem poucas pessoas espalhadas, olho para o relógio. Droga! Não dá tempo de ir no Hagrid, vou apressada para a aula de defesa contra a arte das trevas .
Como de costume me sento com Ramon e Scorpius com Alvo. Percebo que Ramon está um pouco pior do que quando o deixei, mas resolvo não perguntar devido ao meu grande interesse em Demeteadores, assunto de que se tratava a aula.
– Não quero ir ao Hagrid. – Ramon diz assim que saíamos da sala – Desculpe Rose, não quero conversar, melhor ir sozinha.
– Por quê? Aconteceu alguma coisa? — pergunto e ele concorda com a cabeça.
– Quando voltei ao salão para você falar com o Snow, Lily me chamou para ir a Hogsmeade com ela. – ele disse desanimado.
– E por que isso é ruim? — pergunto sem entender o drama no primeiro momento, mas depois percebo o que ele quis dizer. – Você disse que não?
– Disse, e ela perguntou se era pelo Alvo e... Você sabe, não sou muito bom em mentiras.
– Ela virou uma fera, não foi?
– Pior que isso, começou a gritar, me acusou de ser submisso as vontades do meu pai e agora as do Alvo – ele respondeu.
– De certa forma ela tem razão. – digo e vendo a cara que ele faz, completo – Não estou ajudando, desculpe.
– Tudo bem, você está certa. — ele concorda cabisbaixo.
– Sabe, talvez eu tenha uma solução. – digo ao me lembrar do que Snow havia me dito – Mas vai me dever uma.
– Duvido que possa me ajudar, mas se conseguir, devo o quanto quiser. — Ramon responde desacreditado.
Sinto um sorriso nascer em meu rosto.
– Alvo não vai a Hogsmeade, ele vai fazer algo com o James. – informo.
– Com o James? — ele pergunta confuso – Ele não comentou nada, como sabe?
– É realmente suspeito, os dois estão de segredinho, Snow quem me disse.
– Ele não é confiável. — Ramon opina.
– Talvez não, mas acho que vale risco, é uma boa jogada – digo e vejo uma sombra de riso aparecer no rosto dele.
– Para de sorrir que nem um idiota e vai atrás dela! — ordeno. — E solta o cabelo, vai facilitar as coisas. — completo piscando.
Ele abre ainda mais o sorriso.
– Você é quem manda. — ele diz, toca a varinha nos cabelos e rapidamente aparece um black no lugar das trancinhas.
– Você tem que me ensinar essas coisas. — comento.
– Quando quiser.
Aceno positivamente e ele segue em direção a torre da Grifinória. Sigo meu caminho para a sala comunal com a sensação de dever cumprido, talvez eu não cobre esse favor.
***************
PVO Lily
Não posso acreditar que estou me importando com aquele idiota. Como pude convidá-lo? Sou uma ameba mesmo. O que deu em mim? Ele é só um sonserinozinho imbecil sem um pingo de coragem. “Não sei por que não era gentil antes”. Aff! Papinho tosco. Como eu cai nessa?
– Ei Lily, quer jogar um pouco? – Tomy Roth, um grifinório do 5º ano me tirou do devaneio apontando para um xadrez bruxo.
– Mais tarde, estou com dor de cabeça agora – minto para me livrar, preciso sair daqui.
Tomy concorda e eu levanto e vou em direção ao buraco do retrato na intenção de dar uma volta nos jardins.
Dou três passos no corredor e me surpreendo com ele me encarando, diferente de hoje mais cedo ele tinha os cabelos soltos, seguro o suspiro e tento desviar mas ele me acompanha.
– Me deixa passar por favor – peço da forma mais indiferente que consigo.
– Só deixo se me deixar falar antes – Ramon responde dando um meio sorriso que me irrita ainda mais.
– Não tenho interesse em nada que você tenha a dizer. — respondo tentando segurar a expressão dura.
Ele pega as minhas mãos e eu sinto um pequeno arrepio pelo calor de suas palmas quentes. Não consigo me controlar. Merda. Ele deve ter percebido porque sorri.
Ele aproxima um pouco mais o rosto do meu e eu já não tenho muito controle sobre meus pensamentos. Ele está tão perfeito com esse cabelo e a boca incrivelmente carnuda e vermelha. Mordo meus lábios sem querer. Me condeno quando percebo.
– Vou te azarar – digo tentando ser firme, mas sai como um sussurro perdendo o efeito.
– Por favor, Lily, só conversar. – pede me olhando de forma doce.
Não consigo resistir e abaixo a cabeça em rendição, ele entende como um sim e soltando uma das minhas mãos me leva pela outra para o jardim.
Fizemos o caminho em silêncio e de certa forma isso me acalmou, minha mão suava em contato com a dele e eu sabia que ele tinha noção do quanto me afetava. Na minha cabeça, nesses curtos minutos já tínhamos travado diversos diálogos que começaram com brigas escandalosas, foram se tornando mais amigáveis e acabaram em beijos no final. Talvez acontecesse isso, quase sorri com a ideia, mas segurei.
Sentamos embaixo daquela mesma árvore em frente ao lago, estava começando a escurecer e eu, sem capa, estava congelando.
– Coloca a capa – ele disse me estendendo sua capa da sonserina.
– Não vou vestir uma capa da sonserina, prefiro congelar!
– Você está tremendo de frio – ele retruca – Deixa de ser teimosa, não vai ser menos leãozinho por isso. – completa sorrindo.
Faço birra por mais um momento, mas depois de sentir outro calafrio com a brisa que batia, aceno concordando e ele se aproxima ainda mais e coloca a capa sobre meus ombros. Sinto ele deslizando as mãos para dentro dos meus cabelos e o prazer do toque me faz fechar os olhos involuntariamente. O calor do seu hálito de tão perto me faz perceber e reabrir. Eles encaram a boca convidativa dele e eu desvio para os olhos tentando me controlar. Mas é tão difícil, ele está tão próximo.
Ramon coloca a mão quente no meu rosto e escorrega o polegar sobre meus lábios.
– Parece que passou batom roxo – sussurra e sorri.
Sua voz rouca, ouvida de tão perto, me faz arrepiar. Sinto-me hipnotizada por aquele rosto tão próximo, o hálito suave e as mãos quentes. É quase impossível pensar em qualquer outra coisa que não envolva beijá-lo.
Antes que eu pudesse entender o que acontecia ou lembrar da raiva que eu estava sentindo, meus olhos se fecharam novamente e dessa vez nem um décimo de segundo se passou até que eu pudesse sentir os lábios macios, quentes e maravilhosamente deliciosos pressionando os meus.
Era uma sensação tão boa, quase ninguém sabia, mas eu nunca havia beijado, tudo que li e ouvi a respeito não traduziam em nada a realidade. Nada poderia ter me preparado para isso, tão maravilhosamente inexplicável, era como magia, sentia meu corpo inteiro flutuar, não tinha mais noção do que acontecia ou de onde estava, só queria me sentir assim para sempre, nunca mais soltar.
Mas me faltou ar depois de um tempo e nos separamos, não muito, apenas o suficiente para respirar.
Não consegui não sorrir, na verdade, nem tentei. Ele sorria para mim e era difícil não beijá-lo novamente.
– Vai comigo a Hogsmeade? — perguntou ainda com a boca a centímetros da minha.
– Então era isso que queria dizer?
Ele confirmou com a cabeça e me deu mais um beijo.
– Não se importa mais com Alvo? — pergunto quando nos separamos novamente.
– Claro que me importo – ele responde e vendo minha expressão confusa, completa – Acontece que eu descobri que nada me importa mais do que você. — pontuou com um beijo – Minha ruivinha.
E sem que eu pudesse controlar o impulso, voltei a beijá-lo.
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