Blood At Her Hands
3 Capítulo 3 - The Angel Of The Death
Com os pés sobre a mesa, a gravata afrouxada de qualquer jeito, Brian lia as fichas das pessoas que poderiam ter algum envolvimento com o assassinato de Bernard. O cigarro que estava em seus lábios já era o terceiro que fumava em menos de dez minutos. Tomou um gole do whisky – que já estava ficando quente – e passou para a próxima ficha vendo que não encontraria nada ali.
Seus olhos estavam ficando cansados de tanto se esforçar com aquelas letras miúdas que só o davam mais desespero e nervosismo. Ele odiava aquela sensação de estar dando tiros no escuro... aquela sensação de impotência que até então lhe era desconhecida. Já haviam se passado quase um mês inteiro desde que aquele assassinato ocorrera e ele não conseguia sair do ponto que se encontrava ao início de tudo: zero.
Permitiu-se uma olhada rápida em sua mesa, mais como uma inspeção de seu próprio estado do que de qualquer coisa, e acabou tendo sua atenção prendida a gaveta aberta à sua direita. Não exatamente a gaveta, mas sim, o que ela continha. A foto. Aquela mesma foto que ele tinha achado no seu guarda-roupa dias atrás, bem alcance de sua mão.
Apagou o cigarro no cinzeiro de prata, pouco se importando com o fato de que não havia chegado nem ao mesmo na metade, e tomou em suas mãos – mais uma vez – a prova de que um dia ele havia sido realmente feliz. De repente, sentiu-se sufocado por tudo que sentira, e ainda sentia por ela. Ela... que ele nem sabia onde estava por agora.
Suspirou pesadamente e levantou o olhar, sobressaltando-se ao ver Marian parada a pouca distância de si. O que diabos ela queria?
- Parece que o chefe não está assim tão preocupado com o trabalho... – sussurrou, seu tom carregado de ironia.
Ela claramente estava lhe provocando, e teria conseguido se ele não estivesse tão preocupado em guardar a foto, que acabou sendo tirada de suas mãos antes que tivesse tempo de colocá-la de volta na gaveta.
Observou a mulher na foto com um sorriso de lado, e depois balançou a cabeça negativamente, pondo-a em cima da mesa.
- É por ela que você morre de amores? Porque, – inclinou-se sobre ele – cá entre nós... eu sou melhor que ela.
Brian revirou os olhos e dispensou qualquer possibilidade de resposta atravessada, levantando-se e encostando-se a janela atrás de si. Marian se aproximou com uma expressão nem um pouco puritana e com alguma ideia maliciosa passando em sua mente, e transbordando por sua face.
- O que você quer aqui? – perguntou.
- Apenas... passar o tempo, quem sabe?
Pôs as mãos nos ombros de Brian, olhando-o dentro dos olhos e se aproximando para beijá-lo. Brian a parou antes que estivesse, ao menos, no meio do caminho. Segurou seus pulsos e a empurrou de leve na direção oposta a sua. Ele não a queria hoje.
- Hoje não, Marian. – disse, esquivando-se das suas garras.
A fúria que tomou conta da mulher ao ouvir Brian dispensá-la foi tão grande, que ela não conseguiu controlar o instinto de pegar o punhal em sua bota enquanto ele virava-se de costas para ela. Moveu-se rapidamente, aproveitando a brecha em sua defesa, e o pegou numa chave de braço – sendo favorecida por ter sua altura quase igual à dele – encostando a ponta de seu punhal na pele exposta de sua garganta.
- Quem você pensa que eu sou? – sua voz estava ácido puro. – Se você acha que pode me tratar assim, está muito enganado, Brian. Não sou nenhuma das prostitutas que você pega por aí, então acho bom me respeitar.
Analisou as chances que tinha de matá-lo, pensando quão fácil seria se o matasse agora. Ela era especialista, não faria sujeira... Por que não matá-lo?
Brian era treinado para esse tipo de situação, o que tornou muito mais fácil livrar-se da ameaça de Marian. Em um segundo, ele estava preso sob sua faca; no outro, ela estava sendo pressionada contra o corpo dele, as mãos presas pelas mãos dele em suas costas e o punhal de lâmina brilhante, reluzindo do outro lado da sala.
- Você precisa de alguém que te amacie, Marian. Está arisca demais.
A experiência de Marian não era exatamente um incômodo. Brian adorava ver mulheres lutando, – mesmo que contra si mesmo – e essa, era especialmente boa.
- Eu gostaria de vê-lo tentar. – respondeu muito mais calma.
Ele, que ainda a segurava fortemente contra si, depositou um beijo em seu pescoço.
- Mais tarde, quem sabe. – disse, soltando-a.
Ele era bom demais para ser desperdiçado, exatamente do jeito que ela gostava: humor negro, insinuação, prática e acima de tudo, sexy. E era por isso que ela não o matava...
Pelo menos por enquanto.
xx
O rapaz de olhos verdes olhou as duas mulheres na sala que se encaravam com expressões ferozes. Elas realmente não se suportavam, e ficar na mesma sala que elas teria sido uma pressão psicológica enorme se ele não estivesse acostumado com esse tipo de situação.
- Esperava que você estivesse azeda com a falta de sexo, como nos velhos tempos, – deu ênfase em “velhos tempos” – mas vejo que suas noites estão rendendo o suficiente pra colocar um sorriso nesse seu rosto lindo.
Comentou sarcasticamente, a mulher de cabelos longos, claramente mais confortável com o ambiente que estava, porque, obviamente, aquele território era seu. Ela quem havia sido convocada para uma “reunião”. E além do mais, ele não deixaria que ela fizesse algo contra si.
- Felizmente, estou mais satisfeita que você. – respondeu-a, olhando o rapaz no canto da sala. – Você sabe... Eu sempre tenho o melhor.
Os dois riram com escárnio e acharam melhor ignorar sua tentativa de provocação. Entreolharam-se, e o rapaz puxou uma arma da cintura e apontou na direção da mulher que nem piscou.
- O quanto você presa a sua vida? – perguntou, pressionando o cano em sua jugular.
Por um segundo, ela considerou a possibilidade de ser morta por ele e até mesmo se sentiu intimidada, mas esse pensamento logo foi superado por sua autoconfiança extrema.
- Se você me matar, – encarou-o com seu olhar felino – ela vai ser a primeira a morrer. E aí, você vai ter que arrumar outro brinquedinho pra te tirar do tédio.
A mulher no canto oposto da sala se moveu quase como um borrão e empurrou a que estava na mira da arma de encontro a parede, a imobilizando de um modo tão rápido que poderia ser comparada a um guepardo. Sua postura superior era o principal motivo da atração que o rapaz, ali presente, sentia por ela.
- Nunca mais me ameace. Mesmo que indiretamente.
Soltou-a tão rápido quanto tinha a prendido e saiu da sala.
xx
Assim que notou a placa de saída de incêndio, tratou de seguir o caminho que a seta indicava. Apressou ainda mais o passo ao notar as duplas portas corta-fogo no final do corredor mal iluminado em que se encontrava, olhando para trás de si o tempo inteiro. Jogou todo o peso do seu corpo contra a porta, sua única chance de sair vivo e descobriu que estava de alguma maneira, bloqueada. Suspirou profundamente e virou-se, vendo-a encostada na parede a poucos metros, brincando com a arma em mãos.
Ele sabia que não tinha escapatória, ela o tinha encurralado; sua hora havia chegado. Observou atentamente cada movimento seu, surpreendendo-se com a delicadeza dos mesmos. Tratou de memorizar, em seus últimos momentos de vida, todos os traços de seu rosto e também, seu corpo. Os longos cabelos escuros que caíam em cascata sobre seus ombros, sua pele clara, seus olhos profundos como a noite... Ela parecia um anjo. Um disparo.
Ela era o anjo da morte.
Fale com o autor