Blackbirds - Interativa
8 Everything Breaks
Notas iniciais
O quarto que os Peters lhe emprestaram eram um dos muitos da mansão.
Miyuki pretendia ir embora assim que pudesse, mas depois do ataque de pânico ter passado e a deixar um pouco envergonhada, ela nunca quis tanto fugir de algum lugar, mas respirou fundo e aceitou o convite de Michael.
Ele parecia responsável e educado, enquanto que a irmã pareceu genuinamente preocupada e depois perdeu a expressão, lhe entregou um copo de água e voltou a atenção para a televisão. Miyuki era ótima em ler pessoas, mas Alice era difícil. Em um momento era uma garota normal, mas então se transformava como água. Seu pai tinha uma palavra para isso: “transmutável”.
– Senhorita, podemos ir para o hotel em Nova York. — Karl sugeriu.
– Vou ficar aqui por um pouco mais. Seria falta de educação ter desmaiado na porta da frente deles e sair como uma fugitiva. Vou aproveitar a hospitalidade estadunidense. — Miyuki dispensou a ideia. Era sua palavra final, e Karl sabia o quanto palavras finais dela significavam finais mesmo. Depois de colocar uma coisa na cabeça, Miyuki ia até o fim.
Quando ele saiu do quarto ela soltou a respiração. Ela sabia que era líder por natureza, era uma Rowley. Eles lutavam até o final, brilhavam como fogo. Mas, por algum motivo aquela casa lhe dava arrepios. Era ali que sua irmã tinha estado. Seu pai, e provavelmente seu avô e todas as gerações antes deles. Todos os Rowley. Mas porque ela não sentia nada familiar? Por que aquilo lhe dava calafrios? Muitas nações antigas diriam que em lugares onde muitas tragédias aconteceram, a terra era amaldiçoada. Miyuki não costumava acreditar nisso — sempre foi racional — mas agora pensava se eles não estavam certos. A mansão dos Peters com certeza não era o lugar onde você gostaria de morar. Tinha uma aura sombria.
Seus pensamentos foram interrompidos por uma batida irritante na porta. No Japão era de noite, e ter trocado o fuso horário estava a deixando muito cansada. Mal esperava para dormir, mas ela engoliu e foi abrir a porta.
– Ah. Alice, certo?
– É. — Alice deu uma coçadinha no nariz. — Meu irmão pediu pra te chamar pra ver o lugar onde estão as armas etc, etc. você provavelmente deve estar cansada, mas quando Mike põe algo na cabeça, ele esquece o que ele mesmo sempre diz: “somos todos humanos”.
– Não, tudo bem. Eu estou um pouco cansada, mas se estou aqui, não vou ficar parada. — Miyuki disse. Alice controlou o sorriso. Miyuki era muito diferente da ruiva.
– Bem, fica no meu quarto, então eu vou te mostrar o caminho. — Alice se virou de costas, indo em direção à escadaria. Seu quarto ficava no segundo andar, e o de Miyuki era no terceiro.
Mas mais do que isso, ela queria ver uma coisa. Se não estivesse tão curiosa teria apenas dito o caminho e iria fazer outra coisa, mas ela estava realmente querendo saber se aquela maldita porta abriria para Miyuki ou não. Esperava que não. Não por maldade, mas porque seria muito humilhante ser praticamente a dona da casa e uma visitante abrir a porta para aquela sala ridícula.
– É aqui. — Alice apontou para Miyuki ir na frente.
Michael estava sentado na cadeira de Alice esperando as duas chegarem. A irmã estava com um roupão e ele sabia que assim que virasse as costas Alice pularia para a piscina.
– Você foi ver se Mattheus encontrou o quarto? — Ele perguntou.
– Sinceramente não. Ele entrou, se trancou e provavelmente tá lá assistindo pornô na TV a cabo ou encolhido em posição fetal. — Alice dispensou a pergunta. — Então eu não fui verificar.
– De qualquer jeito, não foi pra falar sobre Mattheus que eu pedi que trouxesse Miyuki aqui. — Michael se virou para a garota. — Você deve estar curiosa.
– Na verdade não tanto quanto pensei que estaria. Temos uma sala de armas na minha casa, mas quero ver essa em respeito a memória do meu pai e irmã.
– Claro. — Michael sorriu. Alice tossiu.
– Não vai pedir aquele negócio que a gente combinou Michaelzinho? — Ela sorriu.
– Sim. Miyuki, na sua sala de armas tem um tipo de abertura como essa? — Michael apontou para o pequeno quadradinho azul pregado na parede. De longe parecia um azulejo fora de lugar, mas de perto se via que era mais que isso. Miyuki andou até a lareira e observou.
– Não. A minha é bem mais simples, essa aqui parece que está trancada por algum motivo muito bom. Acho que precisa verificar o DNA ou algo assim.
– Você está certa. — Michael respondeu. — Eu não entendi muito bem, mas eu consigo abrir a porta, e Alice não. Queríamos saber se você consegue.
– Claro, o que eu tenho que fazer?
– É só colocar o dedo aí. — Alice se meteu, olhando para o azulejo como se ele fosse seu inimigo mortal.
Miyuki colocou o dedo sobre o pedacinho de azulejo. Alice prendeu a respiração torcendo aos deuses que não abrisse, e por dois segundos pensou que tinha sido ouvida, mas o chão começou a descer, se transformando em degraus que davam para a escuridão.
– Fala sério! — Alice se irritou. — Agora é o que? Essa porta tem algo contra mim?
– Alice, vá ter um chilique em outro lugar, por favor. — Michael rolou os olhos. — Eu vou na frente para ligar a luz.
– “Vai ter um chilique em outro lugar, Alice”. — A ruiva imitou o irmão, irritada e saindo pela porta do próprio quarto. — Alice vai até seu quarto e colocar sua escova de dentes no vaso sanitário, é isso que eu vou fazer.
– Minha irmã é um pouco excêntrica. — Michael se desculpou quando a garota saiu do quarto. — Ela nunca leva nada a sério, mas eu acho que tem um dedo meu nisso.
– Como assim?
– Quando nossa mãe morreu, eu não tinha ideia que minha irmã tinha sentimentos, e acho que fui muito grosso com ela. Mais tarde me desculpei, mas Alice nunca mais foi a mesma. Ela se culpa pela morte da nossa mãe, mas não foi culpa dela. — Michael contou. — Talvez um dia ela se perdoe, mas até lá ela ainda vai transformar a pior situação em algo cômico só pra dar risada. É o jeito dela de dizer que não está bem.
Miyuki ficou impressionada ao ver o jeito que Michael falava da irmã. Ele se culpava pelo jeito dela, e Alice se culpava por algo que aconteceu quando era criança. Era normal, mas Miyuki ficou ressentida. Ela viu o pai morrer na frente dela e teve a chance e não pôde matar aquele assassino. Alice não tinha feito nada, não tinha porque ficar desse jeito.
Miyuki ficou ressentida exatamente porque queria que não tivesse presenciado a morte do pai. Teria sido mais fácil se tivesse um irmão mais velho que a cuidasse, mas ela tinha responsabilidades. E não podia jogar tudo para o alto e se esconder em uma casca até passar. Tinha que encarar de frente.
– Bem… — Ela virou o rosto para Michael. — Vamos ou não?
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A primeira regra quando está se fugindo, é não corra, ande. Pelo menos era o que Crystal tinha ouvido de Natasha Romanov no segundo filme do Capitão America. Ela não sabia se era verdade, mas estava dando certo. Obrigada roteirista de Soldado Invernal. Era realmente muito legal ter um guia para fugas na locadora mais próxima. Na próxima vez que visse esse filme, iria assistir com um pote extra de pipoca.
– Passagem, por favor. — Um homem aguardava ao lado do ônibus para pegar as passagens das pessoas.
Crystal deu um passo para frente. Fazia uma fila enorme até ele, e enquanto isso, ela aproveitou para conferir se as facas que tinha na cintura estavam bem escondidas. Ela decidiu ir de ônibus justamente para não passar por um detector de metais no aeroporto. Se pegassem o conjunto que levava, era provável que ela fosse interrogada e se descobrissem que estava fugindo de casa, onde havia três cadáveres e sua tia estava quase morrendo, ela poderia ser levada para um reformatório. E essa era, obviamente, a última coisa que poderia acontecer. Quando dizem que as coisas não podem ficar piores, acredite, elas podem.
Quando ela chegou ao homem das passagens, ele a olhou de cima para baixo como um guarda. Ela se sentiu minúscula e já estava esperando que ele não a permitisse subir, mas continuou o encarando para mostrar que não havia nada errado. Outra regra que ela tinha visto em um filme: se você encarar e falar como se fosse a dona da Apple, praticamente não vai ser barrada em lugar nenhum. Então dois segundos depois o homem a deixou entrar no ônibus. Quando já estava lá encima, se permitiu soltar a respiração. Seu cabelo colorido estava atado em uma trança e escondido pelo capuz do casaco. Era legal ser encarada aonde ia por causa dos cabelos, mas naquele momento ela queria que o cabelo voltasse a cor original. Seria muito mais fácil se meter na multidão. Ninguém esquece a garota de cabelos cor de rosa, laranja, vermelho e amarelo que tinha olhos verdes inquietos. E isso dificultava a tarefa de se esconder.
– Vai ficar tudo bem.
De tempos em tempos ela tinha que se tranquilizar bastante. Ou era provável que entrasse em convulsão. Claro que parece muito fácil em um filme ou livro a pessoa matar alguém e sair de boa. Mas na vida real, isso faz uma mancha na sua cabeça que é impossível de apagar. E isso por mais que pareça, não é fraqueza; é humanidade.
Crystal encostou a cabeça no vidro da janela e tentou dormir. Demoraria muito para chegar até Rhode Island, e depois mais um bom pedaço de táxi até o lugar onde ela deveria chegar.
Só esperava chegar inteira, e de preferência sem ser atacada.
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A casa estava tão igual por dentro quanto por fora.
– Michael e Alice cresceram em um lar de crianças. — Thaddeus contou. — Faz três dias que eles voltaram.
Três dias. Dan ficou pensando se isso tinha algo a ver com o ataque na sua empresa. Mas rapidamente descartou a ideia. Era impossível. Mas ele se lembrava de Ellen dizendo “uma vez é normal, duas é coincidência, e três com certeza tem algo errado”. Jennie ter morrido na mesma época que seu pai seria a coincidência. Mas Alice e Michael saírem do lar na mesma época que ele quase fora morto? Isso seria vingança?
– Mas mesmo assim não consigo entender porque você me quer fora daqui, Thaddeus. — Daniel voltou para o assunto que mais interessava a ele. — Alice está me esperando na piscina.
– Ah santo deus. — Thaddeus fechou os olhos. Lembrava perfeitamente da época que Alice andava com Daniel, e pode-se dizer que as empregadas não tinham muitas folgas. — Daniel, não é que você esteja proibido de ficar aqui, mas é que esse não é o melhor momento.
– Eles vão gostar da visita de um amigo nessa época, Thaddeus. — Daniel insistiu. — Olha, eu não vou sair daqui até falar com a Lice.
Daniel não via Thaddeus há 11 anos, mas lembrava o suficiente para saber que Thaddeus sempre acabava cedendo ao certo par de olhos pidões. Thaddeus suspirou e então assentiu.
– Tudo bem, Daniel. Mas por favor, não fique por muito tempo. É para o seu próprio bem.
Aquilo o fez pensar se Thaddeus sabia mais do que dizia. Parecia possível. Mas Daniel se obrigou a manter as aparências. Não precisava estar calmo e no controle da situação. Bastava aparentar que estava. Colocou a mochila encima do sofá e andou até a cozinha. A porta de vidro estava limpa e se ele não soubesse que tinha uma porta ali, provavelmente quebraria o nariz passando. Porém antes de passar, algo lhe atraiu.
– Michael.
Michael se virou pra trás tão rápido que Daniel pensou que ele tinha quebrado o pescoço. Ele estava subindo as escadas entretido em uma conversa com uma garota asiática. Parecia algo sério.
– Daniel?
– Oras, Mike. Eu sei que você provavelmente seria bonito quando mais velho, mas trazer namoradinhas pra casa?
Michael enrubesceu, mas ignorou o comentário de Daniel exatamente como fazia com a irmã, já Miyuki mandou um olhar atravessado para Daniel.
– Ela tem 16 anos, Daniel. — Michael disse.
– Você está me chamando de criança? — Miyuki perguntou.
– Não! — Michael se atrapalhou. — É que Daniel parece ter esquecido que tenho 21 anos, e não sou pedófilo.
– Não é pedofilia, é Lolita! — Daniel protestou.
– Daniel, o que está fazendo aqui? — Michael chegou ao ponto.
– Visitando os primos, oras. — Daniel respondeu. — Mas estou atrás da Alice.
Daniel percebeu Michael o analisar mais firmemente, procurando mentiras. Michael tinha olhos azuis gelo que eram perfeitos para esse trabalho, e por melhor que fosse Daniel em esconder sentimentos, Michael acharia uma brecha e enxergaria até suas cuecas do superman.
– E tenho algo pra te contar, mas só mais tarde. — Ele entregou. Não fazia ideia se Michael sabia o que ele queria contar, mas Michael se empertigou e assentiu. Continuava o mesmo soldado obediente de sempre.
– Tudo bem. Alice está na piscina, aliás.
– Claro. Até mais tarde, Mike.
Daniel abriu a porta de vidro e observou o jardim dos fundos. Claro, “fundos” no total sentido figurado. Não era tão vasto quando o da frente, mas era bem mais colorido, e mais trabalhado na grama, e flores. Um pouco mais para frente tinha a piscina enorme e de águas limpas. Alice estava sentada na escada da piscina, de óculos e aproveitando o sol. Daniel quase não a reconheceu de imediato.
– Daniel. — Alice virou o rosto para ele, sorrindo. — Você está bem alto.
– Não esperava que eu tivesse seis anos pra sempre, esperava Alice? — Daniel sorriu. Alice se levantou da água e o abraçou, molhando a camiseta dele.
– Você costumava ter complexo de Peter Pan. — Alice riu. — Eu não ficaria surpresa.
Alice tirou os óculos e se sentou na cadeira que tinha na borda da piscina.
– Você me deve onze anos de fofoca.
– Eu? — Daniel fingiu ofensa. — E você? Cresceu bem bonita, hein.
– Que dúvida. — Alice rolou os olhos verdes. — Mas mantenha seus dedinhos bem longe de mim, não tenho vocação pra amizade colorida.
– Não está mais aqui quem falou. — Daniel levantou os braços em rendição. — Mas o que tem de novidades?
– Bem, eu não sou mais virgem, passei onze anos em um orfanato o que limita minhas ‘novidades’, e minha mãe está morta.
Daniel olhou para ela.
– Eu sei. Mas eu também sou orfão, então…
– O que? — Alice piscou os olhos confusa. — Como? Quando?
– Meu pai morreu uma semana e pouco antes da tia Jennie, e eu fui criado pela Eliza, minha tutora, e quando fiz 18 comecei a pilotar aquela empresa caótica. — Daniel resumiu.
Alice ficou parada, analizando a história. Quando abriu a boca novamente, Daniel esperava um “sinto muito” ou “meus pêsames”.
– E você ainda queria ser o vocalista dos Backstreet Boys… Que vergonha de destino, Ackerman.
Daniel não controlou a surpresa ou o riso.
– É bom ver que você não mudou muito, Alice.
– Você está além de alto bem bonitinho, mas meu aviso de amizade colorida ainda está de pé. — Alice sorriu.
– Ah, essas amizades, sempre destruindo um ótimo caso. — Ele entrou na brincadeira. — Mas, enfim. Quem era aquela garota lá dentro? A asiática.
– Ah. — Alice franziu a testa. — Ela apareceu hoje mais cedo. Na verdade, é mais estranho que isso, mas depois quero ver uma coisa com você, e é melhor não maliciar isso. O tutor dela tá circulando pela casa “verificando a segurança” — ela fez aspas com os dedos -, ou algo assim. Na verdade, ali vai ele.
Daniel olhou para onde Alice apontava, e lá, um pouco mais além da outra borda da piscina estava um homem de aproximadamente 40 anos que parecia irritado. Ele conversava com o garoto segurança da casa que mais cedo falara — ou melhor, obrigara — Daniel a ir com eles.
– Aquele garoto ali, mais cedo ele me olhou como se eu fosse um marginal e estivesse roubando a casa. — Ele contou. — Não me ameaçou, mas aquela mão no meu ombro foi bem intimidadora, e pra bom entendedor, meia palavra basta.
– O de cabelo preto? — Alice perguntou. — Bem, pra assaltar essa casa você teria que passar por 20 seguranças, então não tem como a menos que você saiba uma passagem secreta.
– Isso. Sem falar que não tem nada aqui que eu poderia roubar, já que nem sua pureza existe mais.
Alice deu uma cotovelada nele e virou para frente, observando o segurança que Daniel indicou.
– Ô GAROTO! — Ela berrou. Antes que Daniel a impedisse de gritar mais uma vez, ela continuou: — EI ASIÁTICO! OLHA PRA CÁ!
Daniel quis se jogar na piscina. Perguntou-se se seria tarde demais para entrar na água e preferencialmente se afogar lá dentro.
– Alice! — Ele gritou, tarde demais.
– O que? Pelo menos o cara está vindo.
Daniel estava prestes a ter um ataque cardíaco quando o garoto se aproximou de Alice e Daniel, parecendo confuso com o pedido espalhafatório da patroa.
– Senhorita Peters?
– Ah, por favor, só Alice. — Alice fez um gesto com a mão. — Eu vou ser bem direta: foi o senhor que por acaso destratou meu convidado?
O garoto ficou vermelho. Parecia que o jogo tinha virado. Daniel seria muito sem coração se desse risada, mas foi quase impossível controlar.
– Acho que aconteceu um mal-entendido aqui…
– Não, está tudo bem claro pra mim. — Alice continuou. — Bem, vejo que o senhor… Qual seu nome, bonitinho?
– Kamizuki — Ele respondeu.
– Muito bem, Kami… posso te chamar de Kami? Bem, Kami, eu gostei de você, realmente gostei. Por isso não será despedido. — Alice observou o alívio se alastrar pelo rosto preocupado de Kamizuki com satisfação. Esperou só mais um pouquinho até cortar tudo rapidamente. — Mas… Você vai ter que se desculpar com o Dan.
Pela atitude de Kam, parecia que ela estava lhe pedindo para se jogar de um penhasco. Mas o garoto respirou fundo e ergueu os olhos para Daniel, que tinha um brilho de riso nos olhos.
– Desculpe… Senhor. Não vai mais acontecer.
– Tenho certeza de que não, Kami. Pode ir. — Daniel sorriu gentilmente. Kami lhe enviou um olhar atravessado e deu as costas a eles. — Alice, você é muito má.
– Você não viu nada, Dan. — Alice riu. — Bonitinho ele, né?
– O que? — Daniel perguntou, sua voz uma oitava acima, o que lhe traiu.
– Ah, eu vi você olhando pra ele. — Alice sorriu maliciosa. — Admita, Danny.
– Tudo bem! — Daniel rolou os olhos. — Talvez, apenas talvez, eu tenha achado ele bonitinho.
– Eu sabia! — Alice deu um pulo. — Agora vai virar meu OTP oficial.
– Você realmente não tem jeito.
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Daniel Larsson dirigia por toda a noite, então não se surpreendeu se seu corpo estava pedindo para ele dormir. Ellen dormia no banco traseiro, lhe provocando inveja. Já era perto do meio dia e ele não comia nada desde aquele achocolatado na outra noite, e além de fome e sono, sentia sede também. Por isso ele parou naquele hotel de beira de estrada, mas só porque sentia que desmaiaria alguma hora, e ele não queria morrer depois de escapar daquela tentativa ridícula de assassinato que ele sobreviveu. Ele merecia uma morte mais legal, e não aquilo.
– Ellen. — Ele chamou a cutucando. — Ellen.
Ellen demorou a abrir os olhos, e quando abriu viu o filho a olhando com surpresa. Ela seguiu seu olhar e percebeu que ele olhava para seu ferimento. Ela havia tentando fazer algo no pescoço, tapar um pouco para estancar o sangramento, e isso ajudou, mas ela estava desmaiando agora. Não demoraria muito para ela acabar morrendo.
– Daniel…
– O que é isso, Ellen? — Ele perguntou.
– Eu fui ferida. — Ela respondeu, engolindo em seco. Falar estava ficando difícil.
– E você não me avisou? — Ele parecia zangado.
– Você não poderia ter feito nada, filho. — Ela disse, fraca.
– Eu poderia te levar a um hospital! — Daniel surtou, o que era bem raro. — Eu poderia ter feito alguma coisa.
– Daniel, se você tivesse ido a um hospital eles teriam te perseguido, e isso é a última coisa que eu iria querer. — Ellen insistiu, com lágrimas nos olhos. Sabia que sua hora estava chegando.
– Que se dane, eu poderia ter te deixado lá e ido atrás desse lugar, ou qualquer coisa assim. — Daniel cruzou os braços. — Eu poderia ter feito algo, mas agora você está morrendo e não me deixou opção!
– Daniel, por favor querido. — Ellen piscou lentamente. — Você precisa chegar lá, eu posso ir, mas você tem que chegar lá.
– O que é que é lá? — Daniel perguntou.
– Um lugar seguro. — Ellen respondeu. — E você chegar lá é a prioridade.
– Eu não quero nem saber, Ellen. — Daniel colocou as mãos no volante. — Eu vou te levar para o hospital mais próximo e depois ir atrás desse lugar. Você não vai morrer enquanto eu estiver dirigindo esse carro.
– Você não pode, Daniel! — Ellen gritou. — Você precisa ir em frente!
– Ellen, se você morrer eu terei um monte de problemas. A polícia vai querer saber porque eu estou carregando um cadáver no banco de trás, eu não vou saber como te enterrar e não quero ter o trabalho de jogar seu corpo numa vala, então eu vou dar volta e vou ir para um hospital. — Daniel disse, pisando na ré. Ele deu a volta no carro e voltou pela estrada que veio, indo em direção à cidade pequena que ele havia acabado de passar. Se Ellen sobrevivesse seria muito bom, já se morresse no Hospital, ele odiava admitir, mas pelo menos seria melhor do que morrer no banco traseiro do carro. — E você trate de aguentar até lá.
Ele não sabia como ela conseguiria se virar com a perda de sangue dela sem água, mas ela tinha que aguentar firme. Se não ele teria que lidar com a perda da única pessoa que já gostara dele e o problema de achar uma vala funda.
– Nós vamos conseguir. — Ele disse.
~~☆★~~
Talvez, apenas talvez, aquela viagem tenha valido para algo. Nathan estava confortável na poltrona reclinável da classe VIP do avião, indo para Boston, onde partiria para umas “férias“. Férias a trabalho, mas de acordo com o que ele pesquisara na internet, ótimas férias em uma mansão. Não era o pior destino de todos. Claro, ele teve que deixar Caim em uma caixa para o labrador poder ir também, e isso não foi exatamente sua ideia de ação de caridade, mas não podia deixar Caim. O cachorro era leal, um ótimo farejador e além do mais, não era como se trabalhar para a máfia russa lhe desse muitos amigos que se disponibilizavam para cuidar do seu cachorro. Talvez Claire, mas ela… Bem, agora ela estava morta e enterrada por Nathan no quintal da casa dele. E isso fora bem ruim, mas só porque ele gastou quarenta minutos pra cavar a cova. Por isso ele resolvera levar o cachorro.
Ele também estava esperando ter sido barrado no aeroporto por alguém de Nicholas, mas passou sem problemas. Além de alguns olhares para a cicatriz que ele tinha no pescoço e uma segunda olhada dos seguranças do aeroporto que tentavam verificar se ele portava alguma arma, ele não se sentiu tão excluído, portanto a viagem já começara bem.
Além do mais quando uma loira com atributos físicos realmente muito visíveis sentou ao seu lado ele acreditou brevemente que Deus estava entre os seres humanos. Isso foi logicamente antes dela apontar uma arma pra ele.
– Nicholas ou polícia? — Ele perguntou.
– Nicholas. — A loira respondeu, com o sotaque russo. — Meu nome é Hael, e sou a sua guia.
Com toda a certeza Nicholas a enviara como uma trégua. Nathan não precisava de guias, nunca havia precisado. Sempre fizera o trabalho com perfeição e sem precisar de ajuda, por isso era bem pago.
– Eu não preciso de guias. — Ele contou. — E se precisasse, meus guias não apontariam armas pra mim.
– Acredite, todos precisamos de uma arma. — Ela guardou a pistola dentro da bolsa que carregava enquanto Nathan se perguntava como ela havia passado uma pistola pelo detector de metais. — E você poderia ter um acesso de loucura a qualquer momento, não é? Não tem como eu saber o que vai acontecer.
A loira tinha aproximadamente 26 anos, e olhos verdes que diziam que havia visto muita coisa.
– Eu vim especialmente para explicar sua missão. — Ela contou, pegando uma pasta de dentro da bolsa. A pasta era grossa e com certeza teria um monte de papelada que Nathan não gostaria de ler. — Basicamente tudo o que precisa saber está aí.
Ela entregou a pasta para Nathan, que a abriu imediatamente.
– Nicholas só disse pra eu embarcar e manter contato com uma tal de Alice. Além disso é coisa dele, eu não me importo. — Nathan deu de ombros.
– Sua missão é convencer a garota a falar com Nicholas. — Hael explicou, ignorando Nathan. — Ela já conhece Nicholas, mas por conta de um pequeno imprevisto, ela acabou fugindo dele.
– Briga de casal?
– Engraçado. A menina é sobrinha de Nicholas. — Hael o corrigiu.
– Briga de família então. — Nathan se espreguiçou na poltrona, sem ligar muito. — Mas o que tem a ver comigo?
– Espero que saiba a profissão do seu pai. — Hael disse apontando para a pasta.
– Meu pai fugiu de casa quando eu tinha sete anos, eu realmente não ligo para o que ele faz agora. — Ele disse, tentando controlar a raiva.
– Garoto, seu pai está morto há onze anos. — Hael contou, com a voz um pouco mais suave dessa vez.
– Onze? Uau.
Hael continuou olhando para Nathan, esperando outra reação que não fosse surpresa, mas perdeu.
– Ah, de qualquer jeito, há certas coisas que você deveria saber sobre seu pai, primeiro que ele trabalhava para o governo.
– Governo? Qual governo?
– Americano. — Ela respondeu. — Ele não era militar e nem do FBI se quiser saber.
– Eu não quero.
– E eu não ligo. Ele fazia parte de uma divisão de uma outra divisão do governo, segurança nacional, coisa muito séria. — Hael continuou. Dava pra ver que ela não ligava muito pro assunto, mas parecia saber disso. Como se não fosse simplesmente a mensageira de Nicholas, e sim trabalhasse mais a fundo nos negócios. — De qualquer jeito, ele trabalhava para o governo, e nessa divisão, digamos que é uma coisa de família. Eles ensinam os filhos, que ensinam os filhos e assim vai. Você é um deles, Nathan. Nós chamamos de “legados”.
– E o meu pai deveria ter me ensinado antes de morrer, é isso? — Ele concluiu. — Ele fez um péssimo trabalho.
– Você é um péssimo ouvinte. O que eu estou tentando dizer é que você é o único que pode entrar lá sem levantar suspeitas porque você faz parte daquilo, Nathan. — Hael disse. — Você é necessário.
– Não é mais fácil sequestrar a garota?
– A garota mora num forte. – Hael dispensou a ideia. – Se a sequestrássemos faria muito alarde. Você precisa entrar lá, conquistar a confiança dela e depois ajudar Nicholas a entrar lá.
– E o que eu ganho com isso?
– Pra começar, 20 mil dólares.
– Fechado. – Nathan concordou. Valia a pena 20 mil dólares pra enganar uma garota, e não era como se ele não tivesse feito coisas mais difíceis. Seria moleza.
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