BlackSwan

15 Café da manhã


Acordei com a luz da manhã atravessando as cortinas e espalhando um tom suave pelo quarto, trazendo uma sensação de calma que não combinava com a intensidade da noite anterior. Permaneci alguns segundos imóvel, tentando organizar os pensamentos e entender se tudo aquilo havia realmente acontecido ou se minha mente ainda estava tentando preencher lacunas que eu não conseguia explicar.

A ausência de Jacob ao meu lado foi a primeira coisa que percebi de forma clara. Virei o rosto instintivamente, como se esperasse encontrá-lo ali, mas o espaço vazio apenas reforçou a sensação de que algo havia mudado. Sentei-me devagar na cama, puxando o lençol ao redor do corpo, e fiquei por um momento observando o ambiente, como se estivesse tentando reconhecê-lo com novos olhos.

Levantei-me com cuidado, sentindo o leve incômodo no pé ainda preso à bota ortopédica, e comecei a caminhar pelo quarto com mais atenção. Foi então que notei as fotos. Não era apenas uma imagem isolada como antes, mas várias, distribuídas pelo espaço de forma natural, como parte da rotina daquele lugar. Em todas elas, eu estava presente, ao lado de Charlie, sorrindo, tocando, vivendo momentos que pareciam simples demais para serem encenados e reais demais para serem ignorados. Meu olhar percorreu cada detalhe, cada expressão, cada gesto capturado, e algo dentro de mim reagiu de forma silenciosa, difícil de definir.

Afastei-me daquilo antes que os pensamentos se tornassem ainda mais confusos e segui para o banheiro, onde fiz minha higiene em silêncio, tentando recuperar algum controle sobre mim mesma. Quando retornei ao quarto, abri o closet quase por impulso, e novamente fui surpreendida. Havia roupas femininas organizadas com cuidado, alinhadas como se fossem usadas com frequência. Passei a mão por algumas peças, sentindo o tecido entre os dedos, e a sensação de familiaridade voltou, ainda que eu não pudesse explicar de onde vinha.

— São minhas — murmurei, mais como uma conclusão inevitável do que como uma dúvida.

Escolhi uma roupa simples, vesti-me com calma e respirei fundo antes de sair do quarto, como se estivesse me preparando para encarar o que quer que viesse a seguir. Desci as escadas lentamente, guiada pelo som leve de movimentação na cozinha, e, ao chegar, encontrei Charlie sentada à mesa, tomando seu café com tranquilidade, como se aquele fosse apenas mais um dia comum.

Parei por um instante antes de me aproximar, observando a cena e sentindo algo crescer dentro de mim. Não era um pensamento, nem uma lembrança clara, mas uma sensação que se instalava de forma suave e ao mesmo tempo intensa, como se aquele momento tivesse um significado que eu ainda não compreendia totalmente.

Caminhei até a mesa e me sentei ao lado dela com naturalidade, surpreendendo a mim mesma com a facilidade daquele gesto.

— Bom dia — disse, com uma suavidade que surgiu sem esforço.

Charlie sorriu imediatamente, como se já esperasse por aquilo.

— Bom dia, mamãe.

A palavra ecoou dentro de mim de forma diferente, mais profunda do que antes, mas, dessa vez, não houve resistência. Inclinei-me em sua direção e beijei sua testa com cuidado, permitindo que aquele gesto acontecesse sem questionamentos.

E, naquele instante, pela primeira vez, não senti estranhamento algum, apenas a sensação silenciosa de que, de alguma forma, aquilo já fazia parte de mim.

Sentei-me ao lado de Charlie e, por alguns instantes, apenas a observei com mais atenção, como se estivesse tentando guardar cada detalhe daquele momento simples que, de alguma forma, parecia importante demais para ser ignorado. Havia uma leveza na forma como ela segurava a xícara, na maneira como inclinava o rosto para sentir o aroma do café, que me fez sorrir sem perceber.

— Você dormiu bem? — perguntei, com um tom naturalmente mais carinhoso do que eu costumava usar.

Charlie assentiu de imediato, animada.

— Dormi, sim. Eu ouvi o mar à noite… ele estava mais forte.

Assenti levemente, acompanhando a lógica dela, mesmo sem conseguir experimentar aquilo da mesma forma.

— Isso é bom — respondi. — Significa que o dia vai ser bonito.

Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, Rachel apareceu na cozinha carregando uma bandeja com o café da manhã da menina. Ela se aproximou da mesa com um sorriso tranquilo, como se já estivesse acostumada àquela rotina, e começou a organizar os itens à frente de Charlie. No momento em que estendeu a mão para ajudar, me adiantei quase sem perceber.

— Eu faço isso — disse, com naturalidade.

Rachel parou por um segundo, me observando, e então sorriu, recuando sem questionar.

— Claro — respondeu, deixando espaço.

Peguei a faca com cuidado e comecei a cortar as frutas em pedaços pequenos, organizando tudo com atenção para facilitar para Charlie. O gesto parecia simples, mas havia algo nele que me fazia sentir… conectada. Como se, mesmo sem lembrar, eu soubesse exatamente o que fazer.

— Onde está o Jacob? — perguntei, sem tirar completamente o foco do que estava fazendo.

Rachel se encostou levemente na bancada antes de responder.

— Chegaram dois amigos — disse. — Eles estão reunidos.

Assenti, absorvendo a informação enquanto terminava de organizar o prato de Charlie. Empurrei-o com cuidado na direção dela, e a reação foi imediata.

— Está perfeito — disse a menina, claramente feliz.

Ela levou um pedaço de fruta à boca e, após mastigar, virou levemente o rosto na direção de Rachel.

— Tia Rachel… já posso chamar a mamãe de mamãe.

A frase me pegou desprevenida.

Soltei uma risada leve, quase automática, enquanto Rachel também ria, balançando a cabeça com carinho.

— Ela estava ficando ansiosa em não te chamar de mamãe — comentou ela.

Antes que eu pudesse responder, ouvi passos se aproximando. Levantei o olhar e vi Jacob entrar na cozinha acompanhado de dois homens. Ele parecia mais sério, mais focado, mas ao nos ver ali, à mesa, algo em sua expressão suavizou.

— Bom dia — disse ele, com um leve sorriso. — Pelo visto o dia está animado por aqui.

Nossos olhares se encontraram por um instante, e, mesmo sem palavras, algo passou entre nós que eu ainda não sabia nomear.

— Papai — disse Charlie, chamando a atenção dele. — Já posso chamar a mamãe de mamãe.

Jacob olhou para a filha e depois para mim, o sorriso crescendo de forma contida.

— Pode, sim — respondeu ele. — E você foi muito forte por não ter chamado antes.

Ele se aproximou da mesa, inclinando-se primeiro para beijar os cabelos de Charlie com cuidado, como se aquele gesto fosse indispensável. Em seguida, voltou-se para mim e depositou um beijo leve em minha testa, simples, mas carregado de significado.

— Me desculpa por ter te deixado sozinha na cama — disse, em tom mais baixo.

Senti o calor subir de forma sutil, mas não recuei. Apenas o observei por um segundo, deixando aquele momento existir sem tentar explicá-lo.


Assenti levemente ao pedido de desculpas de Jacob, mantendo o olhar nele por um instante antes de responder com tranquilidade.

— Está tudo bem — disse, com sinceridade suficiente para não transformar aquilo em algo maior do que precisava ser naquele momento.

Ele sustentou meu olhar por mais um segundo, como se avaliasse a resposta, e então se afastou o suficiente para abrir espaço entre nós. Foi nesse momento que voltou a atenção para os dois homens que o acompanhavam, lembrando-se de que eu ainda não os conhecia.

— Renesmee — começou ele, em tom mais formal — esses são Solomon e Sam Uley.

Desviei o olhar para os dois. Solomon tinha uma postura mais contida, observadora, enquanto Sam mantinha uma presença firme, quase imponente, mas sem hostilidade. Ambos me analisavam com um tipo de curiosidade que não era invasiva, mas carregada de informação.

— É um prazer — disse Solomon, dando um leve aceno.

Antes que eu pudesse responder, ele foi direto ao ponto.

— Você já recuperou a memória?

A pergunta caiu de forma seca no ambiente.

Jacob respondeu antes de mim.

— Ainda não.

Solomon assentiu, como se já esperasse por aquilo, sem pressionar além do necessário. Sam, por outro lado, deu um passo à frente, o olhar firme, mas a voz surpreendentemente acolhedora.

— Bem-vinda de volta.

Houve um leve peso naquela frase.

“De volta” para onde?

Ainda assim, mantive a postura e respondi.

— Obrigada.

Jacob então retomou a condução da conversa, voltando-se levemente para todos, mas mantendo parte da atenção em mim.

— Eles vieram para ajudar no plano de recuperar o Millennium — explicou.

Senti o ambiente mudar de forma sutil. A leveza da mesa de café dava lugar a algo mais estratégico, mais próximo da realidade que eu conhecia.

— Hoje à noite vamos nos reunir todos — continuou ele. — Precisamos alinhar cada detalhe.

Fez uma breve pausa antes de concluir.

— A operação acontece em cinco dias.

O prazo ecoou na minha mente.

Cinco dias.

Tempo suficiente para muita coisa dar errado… ou finalmente dar certo.

Levei a xícara de café aos lábios novamente, mas, dessa vez, o gosto parecia diferente.

Mais real.

Porque eu não sabia o que descobriria ao invadir a KGB e isso me assustava.