A areia ainda estava úmida sob meus pés quando caminhávamos pela praia, o som constante das ondas preenchendo o silêncio entre nós de uma forma quase hipnótica. O vento trazia o cheiro salgado do mar, misturado com algo fresco, leve, que parecia limpar os pensamentos por alguns instantes. Charlie estava entre nós, segurando minha mão de um lado e a de Jacob do outro, avançando com passos seguros, como se conhecesse aquele caminho melhor do que qualquer um.

— O mar está mais alto hoje — disse ela, sorrindo. — Dá pra ouvir ele quebrando mais longe.

Olhei para Jacob por um segundo, e ele apenas assentiu levemente, como se confirmasse a observação.

— Você percebe tudo — comentei, apertando de leve a mão dela.

Charlie inclinou o rosto para o vento, respirando fundo.

— E o cheiro também está diferente — continuou. — Parece mais forte… como quando vai fazer calor.

Sorri, acompanhando o ritmo dela, tentando enxergar o mundo da forma como ela sentia.

— Você consegue sentir até o que vai acontecer — disse, quase em tom de admiração.

— Não é sentir o futuro — respondeu ela, rindo baixinho. — É só prestar atenção.

Jacob soltou um leve riso ao nosso lado.

— Acho que ela acabou de te dar uma lição — comentou.

— Eu estou começando a perceber isso — respondi, sem tirar o sorriso do rosto.

Continuamos caminhando por alguns passos em silêncio, até que Charlie parou de repente, levantando levemente o rosto.

— Vocês estão ouvindo?

Parei também, tentando focar nos sons ao redor.

— Os pássaros — disse ela, antes mesmo que eu respondesse. — Tem dois… um mais perto, outro mais longe.

Forcei a atenção e, aos poucos, comecei a distinguir o canto leve vindo das árvores mais afastadas.

— Eu estou ouvindo agora — disse, surpresa comigo mesma.

— Esse mais perto está pulando na areia — continuou Charlie. — Ele faz um som diferente quando se mexe.

Jacob apertou de leve a mão dela.

— Você está certa — confirmou, olhando na direção que ela indicava.

Observei a cena em silêncio por um instante, absorvendo cada detalhe. A forma como ele falava com ela, a confiança dela em cada palavra, a naturalidade daquele momento. Era simples… mas carregado de algo que eu não conseguia ignorar.

Respirei fundo, deixando o ar preencher os pulmões enquanto tentava organizar o que ainda estava confuso dentro de mim. As últimas vinte e quatro horas pareciam um quebra-cabeça impossível. Verdades que não faziam sentido, memórias que não existiam, uma vida inteira que, aparentemente, me pertencia… sem que eu pudesse lembrá-la.

Mas, ali, naquele instante…

Charlie segurava minha mão.

E aquilo era real.

Olhei para ela, para o sorriso tranquilo que não dependia de visão, apenas de presença, e senti algo se firmar dentro de mim, ainda que silencioso.

— Mamãe… — disse ela de repente, puxando levemente minha mão. — Você está quieta.

Piscar foi suficiente para me trazer de volta.

— Estou só ouvindo você — respondi, com um leve sorriso.

— Então você está aprendendo — disse ela, satisfeita.

Jacob olhou para mim de lado, com um brilho discreto no olhar, como se entendesse exatamente o que eu estava tentando processar.

Voltei a caminhar ao lado deles, mantendo o ritmo, mantendo o contato, mantendo aquela sensação que, apesar de todas as dúvidas…

Parecia verdadeira demais para ser mentira.


Passamos o restante da tarde na praia, sem pressa, como se o tempo tivesse desacelerado apenas para nos permitir aquele momento. O sol começou a baixar lentamente no horizonte, tingindo o céu com tons quentes que se refletiam no mar, enquanto o som das ondas permanecia constante, quase tranquilizador. Charlie não demonstrava cansaço, pelo contrário, parecia cada vez mais animada, comentando sobre cada detalhe que percebia, descrevendo o ambiente com uma precisão que ainda me surpreendia.

Quando voltamos para casa, já era início da noite. A brisa estava mais fresca, e o ambiente parecia mais silencioso, como se o lugar inteiro soubesse que algo importante estava prestes a acontecer. Ainda assim, havia uma rotina a seguir, e, naquele momento, ela era simples.

Eu estava no quarto com Charlie, sentada atrás dela, passando a escova pelos seus cabelos com cuidado, desfazendo os nós lentamente enquanto ela falava sem parar sobre o dia.

— O som das ondas estava diferente hoje — disse ela, animada. — E os pássaros estavam mais perto da água.

Sorri, acompanhando cada palavra.

— Você percebe coisas que eu nem noto — comentei, mantendo o ritmo da escova.

— Você vai aprender — respondeu ela, com naturalidade.

A confiança na voz dela me fez rir baixo.

— Acho que vou precisar de aulas particulares — brinquei.

Charlie riu também, satisfeita com a ideia.

— Eu te ensino.

Continuei escovando seus cabelos, observando a forma como ela se expressava, a clareza nas palavras, a segurança nas percepções. Era impossível não se impressionar. Seis anos. E ainda assim… tão consciente, tão atenta ao mundo ao redor.

Terminei de arrumar seus cabelos e a ajudei a se deitar. Puxei o cobertor com cuidado, cobrindo-a até os ombros, e acendi o abajur ao lado da cama, deixando a luz suave preencher o quarto.

Inclinei-me e beijei sua testa.

— Dorme bem — disse, com um tom mais baixo.

Charlie sorriu levemente, já mais tranquila.

— Eu te amo, mamãe.

As palavras vieram simples.

Naturais.

E, dessa vez, não houve dúvida.

— Eu também te amo — respondi, sem hesitar.

Fiquei ali por um segundo a mais, observando-a relaxar aos poucos, antes de me levantar e sair do quarto em silêncio, fechando a porta com cuidado para não fazer barulho.

O corredor estava mais escuro agora, iluminado apenas por pequenas luzes ao longo das paredes. Desci as escadas com passos firmes, deixando para trás aquele momento tranquilo, sabendo que o que me esperava abaixo era completamente diferente.

Ao chegar à sala, encontrei todos reunidos. Jacob, Rachel, Leah, Seth, Embry, Paul… e os dois recém-chegados. O ambiente era sério, focado, cada um em sua posição como se já estivesse pronto para o que viria.

Jacob foi o primeiro a me notar. Ele não disse nada de imediato, apenas estendeu a mão.

Por um breve instante, hesitei, mas então segurei sua mão, e ele me puxou suavemente para o lado dele, como se aquele lugar fosse, de alguma forma, onde eu deveria estar.

Seu olhar encontrou o meu por um segundo antes de se voltar para os outros.

— Podemos iniciar a reunião.


O clima na sala mudou no instante em que todos se posicionaram ao redor da mesa. A leveza que ainda restava da noite desapareceu completamente, dando lugar a algo mais frio, mais estratégico. Permaneci ao lado de Jacob, observando enquanto ele retirava um tubo metálico e desenrolava um mapa detalhado sobre a mesa, pressionando os cantos para mantê-lo firme.

Nova York.

Mas não a que qualquer pessoa reconheceria.

— Isso aqui não existe oficialmente — disse Jacob, apoiando as mãos sobre a mesa. — Pelo menos não pra quem está do lado de fora.

Ele apontou para um ponto específico no mapa.

— Esse é o prédio da KGB.

Inclinei o corpo para observar melhor. À primeira vista, parecia um edifício comum, perdido entre tantos outros, sem qualquer sinal de que escondia algo além do normal.

— Bem discreto — comentei.

— É exatamente essa a ideia — respondeu Solomon. — Invisível no meio do caos.

Jacob assentiu e deslizou o dedo pelo mapa.

— O prédio é só fachada. O que importa… está abaixo.

Ele pressionou um ponto mais profundo.

— Três níveis subterrâneos. Segurança de alto nível. Controle biométrico, leitura térmica e reconhecimento de padrão de movimento.

Seth ativou um dispositivo sobre a mesa, projetando uma imagem tridimensional do interior. Corredores, acessos restritos, pontos de vigilância… tudo surgia em camadas detalhadas.

— Eu consegui entrar parcialmente no sistema — explicou ele. — Não tudo, mas o suficiente pra gente não entrar às cegas.

A projeção mudou, destacando um ponto mais isolado.

— O Millennium está no nível três — disse Jacob.

Meu olhar se fixou na imagem. Aquilo era o centro de tudo.

— Quantas entradas? — perguntei.

— Oficialmente, uma — respondeu Paul. — Mas se formos por ela, não saímos.

Leah cruzou os braços, observando.

— Então nem consideramos.

Jacob indicou um ponto lateral no mapa.

— Existe uma antiga linha de manutenção aqui. Foi desativada… mas ainda conecta com o sistema interno.

Seth ampliou a área.

— Eu consigo abrir esse acesso por alguns minutos — disse. — Depois disso, eles vão perceber.

— Quanto tempo? — perguntou Sam.

— Cinco minutos.

Jacob assentiu.

— É o suficiente.

Embry se inclinou sobre a mesa.

— E a segurança interna?

— Vai reagir rápido — respondeu Jacob. — Então a gente divide a operação.

Ele olhou para cada um de nós antes de continuar.

— Equipe um: infiltração. Eu, Renesmee e Leah.

Senti o olhar dele passar por mim por um breve segundo antes de voltar ao plano.

— A gente entra, desce direto pro nível três e pega o Millennium.

— Equipe dois? — perguntou Rachel.

— Distração — respondeu Jacob. — Solomon, Sam, Paul e Embry.

Paul sorriu de canto.

— Agora sim ficou interessante.

— Vocês vão gerar caos no nível superior — continuou Jacob. — Alarmes, falhas de energia, qualquer coisa que desvie a atenção de baixo.

— E eu? — perguntou Seth.

Jacob olhou para ele com firmeza.

— Você fica fora.

Seth soltou um riso sem humor.

— Claro que não.

— Você é o único que consegue manter o acesso aberto — respondeu Jacob. — Sem você, ninguém entra… e ninguém sai.

Seth ficou em silêncio por um instante, claramente contrariado, mas acabou assentindo.

— E se algo der errado? — perguntei, cruzando os braços.

Jacob me olhou diretamente.

— Vai dar — respondeu.

Não era a resposta que tranquilizava.

Mas era a verdade.

Leah inclinou levemente a cabeça.

— E o Millennium? Como a gente tira ele de lá?

Jacob voltou a apontar para a projeção.

— Assim que estivermos com ele, o Seth ativa o protocolo de desligamento remoto.

Seth completou.

— Isso vai derrubar o sistema interno deles por alguns minutos. É a nossa janela de saída.

Solomon cruzou os braços, analisando o plano.

— A KGB não vai facilitar.

Jacob deu um leve sorriso, sem qualquer traço de humor.

— Eu não espero que facilitem.

Houve um breve silêncio antes de ele concluir, olhando para todos.

— Isso não é uma missão comum.

Seus olhos passaram por cada um de nós antes de parar em mim por um segundo a mais.

— É uma operação de guerra.

Senti o coração acelerar.

Dessa vez…

Não haveria volta.